quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bolo de quéim?

Tesco de Piastów, arredores de Varsóvia, nas compras para a festa de passagem de ano.

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Lá o que esta gente come...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Lar, distante lar

Jardim das PirâmidesUma semana, cinco temporais e 100 000 calorias depois, aí estou eu às voltas com os sacos para decidir o que levar para Varsóvia e o que deixar em Faro. A roupa de verão vai fazer falta nos meses de Junho e Julho, algumas garrafas de licores portugueses fazem obrigatoriamente parte da bagagem, o critério difícil de definir porque tudo faz falta, tudo é necessário mas poucas coisas são utilizadas. É difícil despegarmo-nos das coisas que têm história e que tanto significam para nós mas o regresso a casa a isso implica.

Regresso… a casa? Mas, Faro não é “casa”? Voltar a casa significa voltar a Varsóvia ou voltar a Faro?

É realmente um sentimento ambíguo, este. Não consigo definir com clareza esse conceito de “casa”. Casa será onde temos a família e os amigos do berço ou onde moramos e pagamos impostos? Casa será onde se respira a nossa herança ancestral ou onde funcionamos no dia-a-dia? Casa é o quê, onde nos sentamos para comer o nosso prato favorito com a família ou onde nos sentamos para comer o prato que nós mesmos preparámos?

Casa, para mim, é um pouco de tudo. É a Ria Formosa, braço de mar que entra pelo sapal adentro, que me inspira o rumo e onde me reencontro a chapinhar em puto. É subir as escadas do metro Świętokrzyska e cumprimentar o PKiN embora ele esteja sempre enevoado e ignore esse pequeno português que teima em lhe dar os bons-dias. É o beijinhoRotunda da velha tia e o sorriso rasgado da mãe somados à formidável panela de feijão com massa ou com o sublime pargo assado no forno. É a karkówka grelhada com legumes congelados que satisfaz o estômago congelado do algarvio que nadou entre -15ºC para chegar a casa. É minis, charros e poker até às 4:30 da manhã com inigualáveis amigos, gente feita duma massa que não existe mais. É o verde-mar dos olhos da Ewa que sorriem felizes quando encaixam nos meus. É a viciante peladinha no Liceu nas noites de segunda-feira onde um gajo cospe a ceia de Natal, os 12 pastéis de nata dos últimos dias (verdade! 12-doze-12 numa semana), o tabaco, o álcool, o plasma e alma a fugir atrás duma bola (ainda faço a diferença, mesmo com 36 anos. Ah pois é, bebé!). É a noite do Klubo, do Opera, do Enklawa, do Organza, do Mono, do Tygmunt.

Casa, para mim, é onde me sinto bem. Quando viajamos nada se compara ao sensação de se regressar a casa porque é sempre bom voltar a Faro como sempre bom é retornar a Varsóvia. Sou um previlegiado ao ter duas casas tão boas onde viver.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Conversa de vão de escada

Vinha a sair do meu prédio quando ouço uma voz a chamar:

- Eh rapaz, que pressa é essa?

Domofon Era o meu Domofon, o aparelhinho onde digito o código que me permite entrar no condomínio. Às vezes o tipo mete conversa comigo, ele passa o tempo todo à porta do condomínio e até é um gajo porreiro mas eu pouco cartão lhe passo porque estou sempre apressado quando entro ou saio de casa. Desta vez parei para lhe dar dois dedos de cavaco.

- Épa, tu já sabes como isto é. Um gajo tem de ir atrás dele, o dinheiro não cresce no chão. Aliás, com a camada de gelo e neve batida que há no chão acho que nem ervas daninhas crescem.

- Bah! – exclamou aborrecido o aparelho. – Isto não é nada, havias de ver o que foi há 3 anos. Uma semana seguida com –30º C, isso sim! Esses é que foram os tempos áureos do inverno.

Aí arregalei os olhos e ataquei-o:

- Tu não regulas bem, com certeza. O frio atacou-te o chip! Então, tu estás com um palmo de neve no toutiço e ainda achas que devíamos ter mais frio?

- Não, pá! Estava a meter-me contigo porque andas aí todo encurvado e Belgradzka de noite atascado em roupas, pareces uma cebola de tanta camada que levas. Mas tu também és um bocado totó, não vestes ceroulas nem enfias o gorro e depois vais ganir para a televisão polaca dizendo que o tempo está horrível e que no Algarve por esta altura está toda a gente a banhos.

- Não senhor, eu não disse isso. O que disse foi que no meu país não tínhamos este clima e que o dia estava horrível, e isto é alguma mentira?

A geringonça aceitou:

- É verdade. Mas tu já sabias ao que vinhas quando decidiste vir para a Polónia, não sabias?

- Sim, mais ou menos. Sabia que era frio no inverno mas temperaturas negativas em Portugal só experimentei uma vez quando vinha a conduzir entre Lisboa e Faro e encostei em Santana da Serra com –1º C para fazer xixi.

- Hahahaha! – riu o Domofon. – És mesmo tolinho. –1º? Com essa temperatura a malta vai para o Las Kabacki assar salsichas em mangas de camisa, o que é que tu julgas? Tu não estás consciente, o inverno polaco é tão severo que há 60 anos, quando a Polónia foi ocupada pelos soviéticos, houve uma senhora que ao saber que a sua cidade então passou a fazer parte da União Soviética exclamou: “Graças a Deus, já não suportava outro daqueles invernos polacos!”.

- E isso é suposto animar-me? – desabafei.

- Não, é suposto avisar-te que isto é apenas o começo.

- O começo? Estão –16º C e tu dizes que isto é apenas o começo?! Ó Domofon, não me lixes com essa conversa! Então isto pode descer até onde, aos –50º C?

Belgradzka de dia - Calma, isto também não é a Sibéria! Mas vai pondo as barbinhas de molho… aliás, nem faças a barba até voltares a Faro pelo Natal porque este domingo baixa dos –20º C. Protege as orelinhas, não te esqueças do cachecol e das luvas e não te armes em latino engatatão com o teu gel. Mete o gorro e deixa-te de cenas.

Depois desta última frase eu olhei para ele de cima a baixo, fitei o fundo da minha rua absolutamente coberto de branco, subi a gola do sobretudo, respirei para as palmas das mãos e terminei:

- Bom, amigo, obrigado pelos conselhos. Vou ver se sobrevivo, aparentemente não vai ser fácil.

- De nada, companheiro. Já não és o primeiro estrangeiro que eu vejo a penar com o frio e sinto-me na obrigação de alertar as pessoas para o que aí vem. Quando precisares, dispõe.

Afundei a cabeça nos ombros e toquei para o metropolitano enquanto pensava com os meus botões: “Será que o gajo tem mesmo razão ou está a gozar comigo?”

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fazer História Juntos

Euro2012mapa Numa cerimónia ontem realizada na Praça Mykhailivska na capital da Ucrânia, Kiev, presidida por individualidades como o dirigente-máximo da UEFA, Michel Platini, a primeiro-ministro e o presidente ucraniano, Yulia Tymoshenko e Victor Yushchenko respetivamente e acompanhado pelos presidentes das federações de futebol polacas e ucranianas, Grzegorz Lato e Grigoriy Surkis, foi revelado o logotipo do Campeonato Europeu de Futebol 2012. Uma fusão de vários temas inspirado nas Wycinanki, trabalhos realizados em papel colorido recortados em motivos florais e folclóricos característicos da faixa territorial que compreende o Leste e Sueste da Polónia, o sul da Bielorrúsia e a parte mais ocidental da Ucrânia, e as cores das bandeiras dos dois países: Branco e vermelho na Polónia, amarelo e azul pela Ucrânia. Nem de propósito, o logo é autoria de portugueses.

Gostei muito da ideia e achei-a muito feliz, a combinação surtiu numa figura que junta tradição com evolução e acredito que se tornará numa imagem muito útil para a divulgação do evento e dos países organizadores. Varsóvia aparentemente também gostou do logotipo a julgar pela iluminação alusiva ao tema apontada ao Palácio da Cultura e pelos fogos de artifício lançados desde o mesmo edifício.

Numa altura em que voltam a surgir desconfianças sobre a possibilidade de polacos e ucranianos terem as coisas preparadas a tempo – a UEFA confirmou Gdańsk, Poznań, Wrocław e Varsóvia como cidades-sede na Polónia, ao passo que na Ucrânia apenas Kiev está confirmada aguardando-se decisões sobre Donetsk, Lviv e Kharkiv - a apresentação do Euro2012 é mais um passo na direção certa e um sinal de que as coisas estão a seguir os trâmites corretos. Etapa a etapa, o Euro2012 torna-se cada vez mais real e o próximo capítulo terá lugar ainda este mês: Saber se se confirmam as cidades ucranianas ou se a Polónia estenderá o seu Euro a Cracóvia e Chorzów.

Cada vez mais cheira a futebol na Polónia, mal posso esperar pelo meu segundo Euro vivido por dentro!!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Inverno

Varsóvia, 14 de dezembro de 2009, 12:15, –2º C.

Neve

Começou q:(

Iogurtes de quéim?

Andava eu a gabar os sítios onde se pode comer bem nesta terra quando me chega às mãos… isto.

01122009

Voluntários para provar este iogurte, precisam-se.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ó Evaristo!

salsichas À medida que vamos ganhando idade também vamos mudando as nossas conceções de vida, coisas que antes se afiguravam negligenciáveis vão ganhando preponderância e fatores que eram prioritários tornaram-se secundários. Quando era puto não ligava muito à comida e comer era um aborrecimento, não porque tivesse maus talentos culinários na família – muito pelo contrário – mas porque não valorizava o que se pode extrair de um bom prato. Admirava o meu tio ao vê-lo passar uma tarde inteira a dissecar pormenorizadamente um pires de moelas ou a raspar todas as fibras duma cabeça de pargo assada, a minúcia e a paciência com que ele se entregava à tarefa deixava-me perplexo e a pensar como alguém pode “perder” tanto tempo às voltas com um pedaço de carne que, afinal, só servia para encher o baú.

Entretanto o puto cresceu e criou um certo gosto pelo ato de comer, adquiriu hábitos como o de passar por casa do avô Luís sempre que ele preparava o seu célebre feijão guisado – as panelas quase que erambanha desinfetadas com as fatias de pão caseiro com as quais eu limpava o rebordo do tacho, não sobrava uma gota de caldo. A minha mãe, embora boa cozinheira, não herdou o jeito para tachos que a minha avó tinha e a prova disso foi um infame feijão com massa que ela preparou e que meteu os homens da casa todos a lutar selvaticamente às 4:00 da manhã pela única sanita do lar. No entanto, louve-se a carninha de vaca à jardineira dela que é uma especialidade (uma no cravo e outra na ferradura, vou passar o Natal a casa e se eu não componho o ramalhete quando chegar como chavelhos).

Ora, eu e o meu compadre Paulo Soska juntamo-nos de vez em quando para atacarmos comida polaca em doses polacas, a sexta-feira começa a ser o dia de eleição para jantarmos os dois e vamos escolhendo as cantinas que mais nos convêm. Hoje foi dia de panados e salsichas servidos com a inevitável couve fermentada (ia escrever couve podre), batata frita e um casal de Tyskies para empurrar. Antes, como entrada, pão de centeio com banha. O desabafo saíu:

- Ah, porra que na nossa terra não temos disto!

Pois não. Na nossa terra esta refeição que em Varsóvia, capital europeia, custou menos de €8.00 a cada um em dinheiro “português”, nunca custaria menos de €15.00 em Faro. Ou seja, o dobro!

panado Enchi a barriguinha e toquei para casa, 500 metros até ao metropolitano para ajudar a desmoer as couves. Entro na Plac Zbawiciela e noto uns floquinhos de neve a precipitarem-se lentamente nos carris húmidos do elétrico, estão 0º e cheira a Polónia por toda a parte, as cafetarias estão cheias de bebedores de chá. Passo por duas louras divertidas que mexem nos telemóveis, elas levantam a cabeça e sorriem para mim, eu cumprimento-as e sigo caminho pensando "será da barba de uma semana?"

Não sei. O que sei, Soska, é que na nossa terra não temos disto!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Desejas o quéim?

Ouvi agora o Nené desejar “que todos os portugueses, essencialmente os desportistas e não só” tenham boas festas.

Obrigado e igualmente, Nenehehehehehehehehehehehehehehe!!!!

Postais da Polónia - 11

ogrodek Varsóvia é uma cidade que tem, tal como a maioria das cidades polacas, um sem-número de espaços verdes sejam pequenos jardins ou frondosos parques. A cidade é picotada por áreas onde a clorofila impõe-se ao betão e o varsoviano não tem de andar mais de 5 minutos até ao parque mais próximo ou até uma zona densamente arborizada, há imensos cantinhos verdes entre os quarteirões e até autênticos prados atrás de edifícios. Ao andar pelas ruas feias de Wola ninguém pode imaginar a beleza dos 37ha do Parque Moczydło que está mesmo por trás dos cinzentos blocos soviéticos, a rua Marszałkowska é larga e bruta em frente ao Palácio da Cultura mas encolhe-se para dar lugar às alamedas do Jardim Saxão, a feroz segurança das embaixadas americana e russa (distantes uma da outra como os Estádios de Alvalade e o Colombo) contrasta com a paz e silêncio do majestoso Parque Łazienki, residência real de verão, sem esquecer o inevitável Campo de Mokotów, espécie de estância de verão e palco de banhos de sol citadinos.

Em cada polaco reside um agricultor, o apego à natureza é natural num país onde 1/3 da sua área é floresta pura. A Polónia não sofreu a partilha de terras para cultivo como nos outros países socialistas e a sua herança verde mantém-se intocável sendo alvo de constantes atenções por parte dos seus habitantes. Muitos polacos têm o seu ogródek, um género deogrodek em ostrowiec pequena horta familiar instalada muitas vezes em pleno centro urbano onde as pessoas constroem pequenas cabanas que servem de retiro de fim-de-semana ou casas de férias para aqueles que não têm posses para as passar fora das suas cidades e para os reformados do setor primário, apesar de se estar a tornar popular entre pessoas mais endinheiradas. Estas hortinhas são legais e funcionam ao abrigo duma lei que as classifica como “instalações de utilidade pública para satisfazer as carências de lazer, recreio e outras necessidades sociais da comunidade local”, concretamente a obtenção de alimentos e frutas a preços mais compatíveis com os seus rendimentos. Alguns polacos mais abastados construíram a sua działka numa floresta fora da cidade, junto dos milhentos lagos do país ou até perto do mar e lá passam momentos de tranquilidade bem juntos da natureza. Eu conheci uma dessas działkas e confesso que fiquei espantado com o tamanho do terreno, da casa e com a sensação de isolamento que se sente naqueles locais.

O agroturismo floresce na Polónia e percebe-se porquê, a Natureza oferece o refúgio ideal para recuperar as energias gastas durante a violenta semana de competividade permanente na cidade e é lá, nas profundezas duma floresta polaca, que se restaura a alma e se readquire força. Principalmente ao som de Chopin e devidamente acompanhado duma vodca Żołądkowa Gorzka com mel.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sorriso em tempo de nuvens

Estimado Leitor,

Tenho falhado com as minhas obrigações no blogue, tal se deve à extraordinária carga de trabalho que tenho tido em virtude das minhas novas funções na escola onde trabalho e que exigem muitas horas (às vezes 10) em frente dum monitor. Tal implica que eu não tenha vontade nenhuma de me sentar em frente ao computador quando regresso a casa, só me apetece engolir qualquer coisa de comestível, ver as últimas do meu país e atirar com o saco de ossos para o cama. Lamento a falta de assiduidade mas ultimamente não tem havido vagar para a escrita.

Porém as nuvens carregadas do trabalho que choveu em cima de mim nas pretéritas semanas vão dando lugar a uns raios de descanso e de mais tempo para as minhas coisas, vejo sinais de calmaria e antecipo uma atualização do blogue a curto/médio prazo. Como aperitivo, partilho convosco uma estória da vida real.

Teste de Português, 5º semestre. Para praticar as estruturas do Conjuntivo e Infinitivo Pessoal, pedi aos meus alunos que escrevessem votos para o excelso sr. professor que fez anos no sábado. Resposta ortograficamente perfeita da Magda:

Senhor professor, muitas felicidades. Que sejas feliz, sempre contente e que tenhas uma vida fácil e fantástica! Que as raparigas sejam sempre jovens e bonitas, que a cerveja seja sempre fria e que o Sporting ganhe sempre! :)”

De 0 a 20, esta miúda vai ter 32! q:D

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Em semana de derby

No meu tempo de militante da Juve Leo Algarve nós fazíamos disto, catávamos cachecóis dos adversários e queimávamo-los na vedação do estádio para provocar os adeptos dos rivais. Esta imagem do derby da Trójmiasto* jogado entre o Arka de Gdynia e o Lechia de Gdańsk na passada quarta-feira reavivou-me essas memórias.

derby

Esta gente não é flor que se cheire q:D

* Trójmiasto (Tri-cidade) é o nome dado à grande área metropolitana contínua que compreende as cidades de Gdynia, Sopot e Gdańsk no norte da Polónia.

sábado, 21 de novembro de 2009

Wola

Há um constante processo de adaptação para quem viveu toda a vida numa cidadezinha à beira-mar e se mudou para uma grande capital europeia, por exemplo o conceito de distância que agora é absolutamente diferente. Antigamente eu caminhava 15 minutos e já me queixava que o meu destino ficava muito longe e agora se tiver de andar os mesmos 15 minutos dobro apenas dois quarteirões, coisa pouca, vizinhanças. Ontem conduzi de Natolin a Bemowo, 32 minutos bem contados que na minha terra davam para atravessar 3 concelhos e que em Varsóvia não chegou para passar mais de 5 freguesias. Depois de contornar a Rotunda ONZ, o coração financeiro da cidade entrei em Wola.

Sair do bairro de Ursynów e entrar em Wola pode ser um choque para quem não está habituado aos contrastes de Varsóvia porque Ursynów é uma zona predominantemente residencial onde os blocos de apartamentos construídos a partir de 1989 constituem a paisagem até à zona sul da cidade, onde o betão dá lugar ao verde do Parque Natoliński e à Floresta de Kabaty. Ursynów tem 1/4 da sua população com menos de 18 anos de idade, é um área modernizada pelo metropolitano e pela importantes artérias Puławska e KEN por onde imensos varsovianos passam no seu dia-a-dia. Pouca gente trabalha aqui mas milhares aqui vieram morar devido ao preço baixo das casas e às modernas comodidades com que os apartamentos foram dotados. Um bairro que só em 20 anos conseguiu acomodar quase 150.000 almas nas suas casas.

wola 1 Wola (vontade em polaco) é uma ferida por sarar no quotidiano de Varsóvia, os prédios degradados pelos invernos ou os que ainda exibem as cicatrizes da 2ª Guerra Mundial são testemunhos da energia daquele que era o coração industrial da Capital no séc. XIX. Foi também em Wola que se deram dos mais sangrentos conflitos da história de Varsóvia como os Levantamentos de 1794 * e 1831 bem como o Massacre de Wola. O infame Gueto de Varsóvia também era em Wola e ainda há porções do muro mantidas como monumentos, o portão principal da prisão de Pawiak ainda se mantém erguido para que se recordem as atrociades lá cometidas, os cafés são sombrios e estão instalados em blocos descascados pela erosão do tempo e pela fatura da guerra onde jovens de ar rebelde mas pacífico fumam e conversam sobre uma mesa de chás. Wola não é bonita mas tem uma alma que poucos bairros varsovianos têm, caminhar nas suas ruas é aprender a história de Varsóvia e ao observar aqueles edifícios feios sentimo-nos transportados para a realidade tenebrosa de “O Pianista”, que Władysław Szpilman escreveu e cujos passos repetimos quase que inadvertidamente, sem pensarmos, sem sequer imaginarmos o cenário que lá se encontrava há 65 anos atrás.

É preciso ter estofo para morar em Wola, para encarar a suaWola rua Leszno sombriedade todos os dias, para compreender a sua perpétua tristeza e melancolia, para se solidarizar com o seu constante sofrimento, para aceitar a sua roupagem – sempre vestida de luto. Wola ainda enxuga lágrimas, não é toda a gente que consegue viver permanentemente num cemitério de memórias e curvo-me ante tão brava gente que assim honra a perseverança dos seus antecessores.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sleepy Season

eletrico O dia de trabalho acaba, uma aula privada com uma doce miúda de cabelos de trigo e olhos esmeralda, lábios que me fazem estremecer na cadeira à medida que ela os morde enquanto pensa na palavra ou na pronúncia correta. Beberrico a água que ela me serviu para afastar as reflexões insidiosas que me impedem de me concentrar exclusivamente no trabalho mas não é fácil, o decote dela convida à imaginação e da mesa da sala ao quarto é um segundo à velocidade do pensamento. Voltamos aos pretéritos e pronomes, coisas mais prosaicas do que a líbido que paira e se cheira no ar mas ela teima, ajeita a franja com três dedos e espreita-me por entre uma madeixa rebelde que insiste em tapar-lhe a vista direita. É o fenómeno da cenoura à frente do burro e eu procuro não fazer figura de quadrúpede mantendo-me firme (e quase hirto) no meu posto docente, ela compõe o cabelo para trás da orelha, eu peço mais água e já não consigo disfarçar o desconforto.

Respiro fundo ao sair de casa dela e sento-me no elétrico que pára perto do velódromo de Varsóvia, o Wyścigi Konne. A cidade parece-me mais dormente agora do que durante todo o dia, um dia que pareceu durar uma semana e que vai sendo cada vez mais pequeno enquanto caminhamos para dezembro e para o inverno. As pessoas queixam-se do tempo e do frio mas eu não tenho problemas desses, quem diz que faz frio na Polónia nunca experimentou Faro em fevereiro pois decerto que  se o tivesse feito sairia para a rua de corpinho gentil como este vosso escriba tem feito desde que regressou do Sul. Um homem está sentado, adormecido num dos assentos da carruagem quase vazia, o elétrico é uma perfeita alegoria do que me pareceu Varsóvia este dia: polaquinhaamorfa, insossa, apagada. “É culpa do tempo”, dizem eles, desta baixa pressão atmosférica que acinzenta as pessoas e embolora os cérebros. É capaz de ser verdade, eu dormi algumas 10 horas de ontem para hoje e sinto-me sonolento como se tivesse feito uma direta.

Sento-me em Wilanowska à espera do metro e começo a listar as coisas que tenho de ir comprar ao Tesco. Café, leite, carnes, arroz. Não fico muito contente quando me lembro que ainda ando com o saco do computador às costas e que vou ter de arcar com o peso das compras mais o portátil ao lombo, que raio de vida esta que me obriga a estes sacrifícios! Ao fazer contas à vida e às compras sou interrompido por uma voz morna e mansa, uma voz cor de trigo e esmeralda que ternamente me atropela os pensamentos e começa uma pergunta suave:

”Como se diz em português…?”

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Tomaaaaaaaaaaaaaaa!

 

Eu, português, confesso-me. Não acreditava.

mundial

Felizmente eles acreditaram. És grande, Portugal!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Atrás do Muro, em bicos de pé

Depois das comemorações do 20º aniversário do derrube do Muro de Berlim, acho interessante deitar um olhar polaco sobre os acontecimentos e também sobre a cerimónia que teve Lech Wałęsa como um dos protagonistas.

guerra fria Há 20 anos atrás vivíamos no tempo da Guerra Fria iniciada depois do fim da 2ª Guerra Mundial, sob permanente ameaça dum conflito nuclear entre as duas superpotências da altura, URSS e EUA, que prometiam destruírem-se mutuamente e arrastarem o resto do planeta devido a imensas questões políticas como a Crise dos Mísseis em Cuba. Guerras como a da Coreia, o Vietname e o Afeganistão polarizaram o mundo entre Pacto de Varsóvia e NATO e cada um dos beligerantes tentava expandir a sua esfera de influência em todos os continentes. A Europa estava dividida entre Ocidente e Leste – onde a Polónia se encontrava.

Em 1978 o Vaticano elege João Paulo II como papa, uma eleição que muitos qualificam como política porque, tendo em conta que não passava pela cabeça de ninguém um papa oriundo de um país oficialmente socialista, o gesto só podia ser interpretado como uma tentativa de fortalecer o ânimo do povo polaco, tradicionalmente católico e anti-soviético, na sua resistência contra o avanço do comunismo e respetivo ateísmo na Europa. Esta eleição teve algo de profético pois nos anos segiuntes rebentam alguns episódios que levam a Guerra Fria a novo apogeu, a saber:
  • Invasão do Afeganistão por parte da URSS e resposta dos EUA armando e treinando os Mujahidin (futuros Talibã);
  • Venda de armas a Saddam Hussein em plena guerra Irão – Iraque;
  • Guerra das Estrelas, a corrida espacial;
  • Eleição de Margaret Thatcher como primeira-ministro britânica, duramente conservadora e ferozmente agressiva para com Moscovo.

Muro brandenburg Entretanto o regime soviético dava mostras de alguma incapacidade de lidar com as insurreições que se sucediam nas suas repúblicas satélite além de que a baixa produtividade dos seus trabalhadores aliados aos elevados gastos duma gigantesca máquina burocrática e militar corroíam irremediavelmente o seu condenado sistema económico. Moscovo não conseguia intervir por ter moeda fraca, o PIB era metade do dos EUA, todas as decisões estratégicas e sociais era emperradas pela burocracia e perdia-se tempo na tomada de decisões. Para piorar o cenário deu-se o desastre na central nuclear ucraniana de Chernobyl que libertou 400X mais radioatividade do que a bomba de Hiroshima e destruiu por completo a colheita de cereais desse ano (note-se que os cereais constituíam a principal exportação soviética nesse tempo), aniquilando importantes receitas financeiras para o Kremlin. Em meados da década de 80 os países da Cortina de Ferro começam a reagir contra a repressão soviética, a Hungria, Checoslováquia e Bulgária negociavam eleições livre enquanto na Roménia perseguia-se Ceaucescu para matar de vez o comunismo naquele país. Na Polónia, o Solidariedade não dava tréguas ao enfraquecido governo do general Jaruzełski contando com a oficiosa colaboração do Vaticano na pessoa do compatriota Karol Wojtyła e alcançava uma importante vitória na mesa-redonda de 89, o primeiromapa guerra fria europa passo duma irreversível caminhada para a democracia na Polónia.Inspirados pela sublevação dos países orientais e pelas dramáticas e constantes tentativas de êxodo da RDA, os países bálticos (Lituânia, Letónia e Estónia) reivindicaram independência da URSS, Wałęsa foi indigitado Presidente da República e Mikhail Gorbachov agarrava-se desesperadamente às novas políticas de Perestroika e Glasnost para salvar o decrépito regime tendo apenas conseguindo-se salvar dum golpe de estado. A RDA preparava a normalização de relações diplomáticas com a vizinha RFA quando se deu “O Erro de Schabowski”, uma gafe que mudou o mundo.

20 anos depois, Wałęsa foi convidado para empurrar as peças que simbolizam o desmoronar do comunismo na Europa e é de elementar justiça que ele tenha sido escolhido para tão simbólico gesto porque, apesar de já não ter qualquer protagonismo na política moderna da Polónia, a Europa e o País não o esquece como o eletricista tenaz que ousou enfrentar o gigante soviético e que tirou a sua nação do jugo comunista que a asfixiava. A Polónia orgulha-se do papel relevante que dois homens polacos tiveram na redefinição do mapa político mundial, um papel de verdadeiro protagonismo em oposição ao imbecil estrelato que um cretino tentou reclamar.

É a tal coisa, enquanto uns têm motivos para se sentarem no Muro e não o fazem outros saltam por detrás dele para que alguém os note. Também por isso continuamos pequeninos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Legia 2-0 Ruch Chorzów – O meu primeiro jogo

E ao fim de dois anos a viver em Varsóvia perdi o pouco receio que tinha do que me foi contado e investi 70 zlotys para ver um jogo da Legia no Wojska Polskiego. O cartaz era promissor, o 3º classificado (Legia) recebia o 2º (Ruch Chorzów), 4 pontos a separar as duas equipas e a necessidade imperiosa da Legia ganhar para reduzir distâncias e não aprofundar o fosso de 7 pontos que a divide do líder Wisła Kraków. O jogo era às 18:30 de sábado, uma hora e um dia de que ninguém desconfia.

Uma hora antes do apito inicial estava um português sentado numa banca de comidas dentro das instalações do estádio a bater-se com um prato de plástico onde repousavambilhete uma karkówka (febra de porco), um pãozinho, um pepino de conserva e dois borrifos de mostarda e ketchup, tudo adquirido pelo simpático preço de 10 paus. Depois de morfar entrei no Wojska Polskiego que está em obras de ampliação. Por tal razão apenas a tribuna dos lugares cativos – cerca de 6000 lugares - está disponível para o público e estava integralmente preenchida com adeptos dos “militares”. Entre eles, o tal português de cachecol negro “wojskowy” ao pescoço que tiritava com os 0º que fustigavam a capital polaca nesse princípio de noite.

A instalação sonora debitava sons incompatíveis com um jogo de futebol, principalmente um jogo com espectadores tão especiais com os “Legia Warszawa”. Talvez para acalmar os instintos violentos dos adeptos, o DJ tocava Roxy Music e Dire Straits a som médio, quase adormecendo o público. Surgiram os primeiros aplausos, tímidos, quando Mucha subiu ao relvado para iniciar o seu aquecimento. O guarda-redes eslovaco da Legia arrancou os primeiros aplausos das bancadas que subiram de tom 10 mins depois quando os jogadores de campowojska_polskiego apareceram, mais aplausos e o primeiro ensaio de cânticos na noite. Eu desesperava por um cigarro para combater o frio mas decidi não comprar tabaco até ao fim do ano e ripei a rijeza orando para que o jogo fosse digno do meu sofrimento. Os jogadores recolheram ao balneário e finalmente o speaker do estádio mostrou serviço informando os espectadores dos resultados dos outros jogos da jornada, o Wisła já tinha ganho na sexta, o Lech fez 1-0 cedo e fechou a loja conservando a vantagem até ao final, a Legia tinha mesmo de ganhar para não comprometer as suas aspirações. Após a constituição das equipas o público levantou-se em tifo para saudar um hino que entretanto soou, um hino a Varsóvia que foi cantado por todas as almas que estavam no estádio e que cobriu a bancada do vermelho, branco, verde e preto dos cachecóis da Legia. Momento arrepiante, a paixão do futebol no seu esplendor. Junto à vedação havia polícias de choque mascarados de colete à prova de balas e capacetes com visores que me fizeram perguntar se estaria nalguma manifestação contra o G8 em vez dum jogo de futebol.

A Legia Warszawa vai ter um belo estádio logo que as obras se concluam, as bancadas novas já se assemelham com uma moderna estrutura de dois anéis, camarotes na zona intermédia e com dois topos verticais e incisivos que têm todas as condições para se tornarem um pesadelo para os guarda-redes das equipas adversárias,legia tifopermitindo que o público esteja bem perto do relvado. Não sei se esse mesmo público desfrutará dos jogos com tanta intensidade como a que dedicaram aos insultos à ITI, a empresa proprietária do Clube que mantém más relações com os adeptos devido à errática política desportiva, principal responsável pelos pálidos resultados desportivos da Legia como consequência dum progressivo desinvestimento na equipa de futebol. No meio dos insultos, golo da Legia que passou quase despercebido ante o coro de palavrões que grassava da bancada contra a ITI e contra as forças da ordem que puseram na rua à força um adepto que constantemente as provocava. Os insultos foram baixando de tom à medida que o jogo avançava no tempo, o 2º golo de Mięcel marcado ainda na 1ª parte acabou por serenar os ânimos, até ao apito final registou-se uma tímida reação do Ruch e trocas de bola a meio-campo “wojskowy”  para evitar suspresas.

legia golo Após os 90 minutos a instalação sonora não funcionou mais, nem o speaker anunciou o resultado final ou o jogo seguinte nem uma peça de música se fez ouvir. A multidão abandonou ordeiramente o estádio fumando e rindo, comentando uma ou outra incidência mas sem grandes manifestações de alegria. À passagem pelas tendas de venda de salsicha, uma menina da Królewskie passou um olhar vazio pela fila de homens que saíam do estádio. Uma voz imperativa levantou-se: “Tańcz, kobieto!” (Dança, mulher!) Os homens riram mas logo calaram o riso ao ver o incrível aparato policial que tinha sido montado no perímetro do Wojska Polskiego. Polícia de intervenção suficiente para uma cimeira americano-árabe, uma coisa colossal que eventualmente terá garantido o regresso de todas as pessoas a casa sem grandes problemas.

Aconselharam-me que rezasse à minha integridade física, chamaram-me louco por ir à bola em Varsóvia, disseram-me que ia levar com garrafas na cabeça, desenharam-me cenários de batalhas campais, escaramuças graves, guerrilha urbana. Nada disso aconteceu e o que presenciei foi tão somente uma demonstração de paião pelo futebol, de fervor clubístico exacerbado pelos últimos maus resultados do Clube, um amor por um emblema que se vê em todos os estádios de todas as ligas em todos os países do mundo. Varsóvia não é exceção e num jogo chave para as aspirações das duas equipas, um jogo considerado de alto risco, de vida ou de morte e outros dramáticos chavões, a única coisa que eu vi acontecer naquele estádio foi… futebol e eu hei-de lá voltar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Rumo à derrocada final

Enquanto assisto choroso à “belenensização” do meu Sporting patrocinada pelos incapazes e incompetentes dirigentes leoninos, desenho o meu mundo de treinadores.

Os outros com Jorge Jesus. Um treinador de copo de três e escarro no chão, unhaca no nariz e Nossa Senhora de Fátima na mesa de cabeceira, Renault 5 e Tony Carreira, a ganhar e a dar abadas a toda a gente.

O Sporting com Manuel Machado. Um treinador de discurso erudito e apurado, colarinho engomado e gravata de seda, BMW e Andrea Bocelli, a jogar porcamente e a perder com o Jagiellonia Białystok.

Nunca foi fácil ser do Sporting, mas hoje em dia a tarefa é só para missionários!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Velha Senhora

Depois da bonança vem a tempestade. Traduzindo, depois de três meses no ripanço de papo para o ar começa a labuta fera do dia-a-dia, o ter de esgravatar oportunidades para comer porque ele não cresce do chão, ir progressivamente engatando mudanças porque o ritmo de Faro não se iguala à vertigem de Varsóvia. Pouco a pouco a passada alarga-se, os dias vão tenho menos horas, as distâncias crescem e o redemoinho do trabalho trata de colocar-me no estado de máxima atividade. É um mundo que separa a tranquilidade de Faro e a voragem de Varsóvia, incomparável.

A readaptação não foi feita com calma ou por etapas, Varsóvia não tem tempo para formalidades e exige que as pessoas funcionem imediatamente. Nesta primeira semana pós-verão pouco tempo tenho tido longe do portátil, 5 ou 6 horas por dia incinerando a íris por fazer planos e programas, projetos que dependem da minha assinatura e não tem havido muito vagar para olhar para a cidade, perguntar-lhe como passou o verão sem mim, saber da novidades, das pessoas, das coisas que fazem parte da nossa vida. Varsóvia não se deve sentir muito sensibilizada com a minha curiosidade e, por isso, não deve ter vontade de responder às perguntas que tenho para lhe fazer. Lá segue ela grisalha e nublada, zangada com tudo e com todos mas sempre com aquele porte garboso próprio duma grande senhora do leste europeu.

Varsóvia nunca me perguntou se eu tinha feito boa viagem ou como tinha sido o meu verão, não se se por ciúme do meu bronzeado algarvio ou se por não ter simplesmente tempo para essas simpatias hipócritas. Varsóvia viu-me chegar, jerozolimskieolhou-me por cima dos óculos, apertou-me formalmente a mão, mandou-me regressar ao trabalho porque as pessoas estavam à minha espera e mergulhou na papelada que furiosamente assinava na sua secretária. Ao sair do seu gabinete notei que Varsóvia levantou a cabeça para ver-me sair, talvez satisfeita com o meu regresso ou apenas para me tirar as medidas ao cabedal como mulher polaca que é. Olhei pelo reflexo dum vidro e vi o sorriso dela, um sorriso traçado do fundo da Aleje Jerozolimskie que revela o seu estado de espírito. Ela está contente, e eu também.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Disto e daquilo

Como isto aqui por Varsóvia anda tranquilo (e como não tenho net em casa), descobri isto e mais isto.

Ambos têm em mim um incondicional apoiante.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Jesień na Polónia

mickiewicza E eis que surge a neve e o correspondente coro de ais e loas ao frio e mau tempo que resolver abancar na Polónia antes de tempo. A malta já sai à rua atarracada em casacões, sobretudos, gorros e luvas, maldiz-se o clima, manda-se vir contra tudo e mais alguma coisa, culpa-se a crise económica mundial, o Tratado de Lisboa e os vietnamitas das roupas baratas como responsáveis pelas miseráveis condições climáticas da Polónia. Tempo de depressões, desesperos, frustrações e suicídios.

Era meio-dia de ontem quando eu e o Mário saímos à rua, nevava como nunca tinha visto, um nevão horizontal provocado por um vento zangado que não deixava os flocos caírem no chão, vento gelado que espatifava a neve nos nossos rostos enquanto esperávamos pelo semáforo verde. A neve empapava os sapatos e por falta de limpeza atempada dos passeios começava a penetrar pelos pontos das costuras dos sapatos, atacando o dedo grande do pé e ensopando progressivamente a meia, primeiro fresquinho, depois fresco, frio, muito frio, gelado, podre de frio, gangrena. Olhámos um para o outro, duas fracas figuras tristes que se perguntavam que cargas de diabos teriam feito para merecer tal castigo, para serem tão duramente castigadas por uma intempérie severa que parecia não ter fim à vista. Olhámos um para o outro e desmanchámo-nos a rir das fracas figuras P1020405 tristes que fazíamos, nada valia tal mortificação e procurámos razões que a justificassem.

Recebo relatos de 28ºC a meio de Outubro num Algarve que celebra um verão velho, água do mar a 22º para ajudar ao body-board e ao surf na Barrinha. Eu vou aquecer leite para fazer um chocolate quente e preparar a próxima semana, é melhor nem pensar na matilha que ainda anda de chinelos e bermudas por Faro a rir-se de mim.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Esta não engole

Anda aí o povo todo doido por causa do que esta gaja fez. A ironia de quem tem um país exemplarmente devastado pela corrupção e crime violento a olhar para os defeitos de um outro, ou os eternos complexos entre o colonizado e a antiga metrópole.

Tem a importância que tem. Para mim, nenhuma. Se ainda fosse um dinamarquês ou um alemão a fazerem pouco de nós…

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Marsz, marsz Misha…

Regressei a Varsóvia. Está a chover e não tenho internet. Dão descida da temperatura até aos 7ºC para amanhã.

Se solto o mar que não trago no peito,
se largo a brisa e o sol insatisfeito,
se deixo a Ria a chorar no seu leito,
se perco a areia que quer o meu estar.

Se solto as ondas de sal contrafeito,
se largo as estrelas com quem me deito,
se deixo a cidade que me fez o jeito,
se perco a raíz que criou o meu ser.

Se venho do puro, belo e perfeito,
se saio de onde sabe bem viver,
e vou para onde o céu não sabe brilhar.

Se tudo faço com pleno pensar,
é porque sei que em ti quero crescer.
Pois eis-me!, Varsóvia. Dá-te ao respeito.

Assim se respira fundo e se expia uma alma.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Estranha forma de vida

amália Um leitor classificou o post anterior de “choradeira atroz” por eu me sentir num estado de pré-depressão, antevendo a escuridão que me aguarda nas ruas da capital polaca e os cabazes de frio que serão distribuídos diariamente nos próximos cento e tal dias. Escreve também o referido leitor que daqui por uns dias vou desatar a cantar odes a Varsóvia por não conseguir viver longe dela e que afinal de contas concluo que Varsóvia é a cidade da minha vida com a qual me irei casar e blablabla.

Outra leitora refere o sussurro das folhas, o cheiro da chuva, o ar fresco (chama-lhe gelado!) das manhãs, vinho quente com canela e as pernas esbeltas encaixadas em botas de tacão alto. Muito sinceramente, as pernas sim. O resto dispenso, principalmente o vinho com canela do qual não consegui tornar-me fã. Dispenso o frio da manhã, a chuva, a folha caduca, dispenso isso tudo. Varsóvia tem mil outros motivos de interesse e atrai-me por tantos outros fatores mas nenhum é mencionado nesta bonita descrição.

Estou pré-deprimido e pronto, pouco há que me possam fazer para que mude este estado de espírito. O mar explode em ondas alegres que me chamam para nadar, o sol não está tão radioso como no verão mas vai mantendo o céu varrido de nuvens densas e ainda não consegui vestir um par de calças sequer. Daqui a alguns dias esta paisagem será apenas lembrança e outra bem mais exigente surgirá diante de mim.

E será apenas isto razão para me deprimir? Talvez não, mas lembrei-me que a Dona Amália faleceu há 10 anos, aquele que era certamente o maior vulto vivo dum Portugal universal, a réstia do Império, a voz da Nação, a cara da Pátria. Amália era portuguesa em toda a sbettencourtua plenitude, na maneira como cantava o nosso país, nos cabelos e olhos morenos, nas formas pequenas tão lusitanas, na profundidade com que tocava burgueses e povo. Não há grandes diferenças entre a Esfera Armilar da nossa bandeira e o rosto de Amália, todos nós têmo-la na voz e ela era um pouco de todos nós. Às vezes imagino Camões a fazer letras para ela cantar porque um pouco de Portugal morreu com Amália e renasce sempre que ela canta o fado.

A Dona Amália faleceu há 10 anos… então, é isso que me deprime? Bom, se considerarmos que Portugal é Fado, Futebol e Fátima, se considerarmos que Fátima fica de parte devido ao meu ateísmo e que o Fado está orfão, sobra o Futebol.

  1. A seleção portuguesa está mais fora do Mundial do que dentro,  mesmo que nos qualifiquemos para o playoff é mais certo apanharmos a França e irmos de barco;
  2. A seleção polaca já não tem hipóteses nenhumas de ir ao Mundial, lá se vai a minha segunda equipa nesse torneio;
  3. O Sporting joga pior que o último classificado da 7ª liga de Madagascar, não faz rigorosamente nada para mudar o estado de coisas e a única voz que se ouviu foi para falar do fundo de investimento dum clube rival;
  4. A Legia vai com 8 pontos de atraso em relação ao Wisła e vai ver o campeonato por um canudo para não variar;

Perante a real e concreta perspectiva de ter 2010 como o pior ano futebolístico da minha vida, perante uma mudança de 20º centígrados nos próximos dias, perante isto tudo que ainda por cima é feito de livre vontade… ainda acham que é choradeira?

    domingo, 4 de outubro de 2009

    Antevisão

    tempo faro

    tempo wawa

    Como é que vai ser quando eu chegar à Polónia depois de ter constatado que a temperatura mínima em Faro é mais alta que a máxima em Varsóvia?

    Onde é que eu tenho os Prozacs?…

    quarta-feira, 30 de setembro de 2009

    @Faro – 6

    Os carros são cada vez menos, já não os vejo a fazerem fila para entrar na praia nem a discutir os parcos lugares de estacionamento. As pessoas já não se sentam nas esplanadas até às 20:00 à espera que o trânsito avague porque logo às 18:30 começa o vento a soprar e as mangas curtas não suportam o ar frio do mar. O sol é mais curto, forte durante o almoço mas minguando com o passar das horas até se esconder, medroso, atrás da praia da Falésia. O Vitinha já correu as janelas de plástico para proteger os clientes da brisa mais severa, a malta só se esconde entre paredes porque está mais abrigado. Entretanto a Serra do Caldeirão cobriu-se de nuvens escuras que punem Loulé e São Brás de Alportel com chuvas de princípio de época, o Cerro do Guelhim ergue-se e vai protegendo Faro com o seu anfiteátrico muro de geografia continuando a dar razões para os farenses se rirem do infeliz clima do “penico do Algarve”.

    O termómetro pouco passa dos 25º, às vezes lembra-se que estamos no sul a Europa e dá um pulinho até aos 28º mas nem ousa chegar-se perto dos 30º para não faltar ao respeito ao Outono. Não seria a primeira vez que eu tomaria banho de mar em meados de Outubro e até no dia de Todos-os-Santos mas isso era no tempo em que ainda havia xoxas-de-velha e cavalos marinhos na Ria. Agora o jogging é feito cada vez mais ao lusco-fusco porque o sol acaba cedo e o pulmão dura mais, o banho já não é atlântico e os alongamentos são feitos em casa porque o H1N1 anda aí e não se pode facilitar.

    Divido um paio com o meu tio enquanto vemos o FC Porto limpar o Atlético e combinamos as reformas a fazer na casa dos pinheiros que as minhas visitas ocuparam este verão, mudar os aparelhos de ar condicionado e dar uma limpeza de alto a baixo nas carpetes, cortinas e o diabo a quatro. Peço-lhe conselhos que os seus quase 90 anos nunca negaram e subo ao quarto para escrever e dormir. Tenho no cadeirão uma pilha de calções e t-shirts que não irei mais vestir este ano e ganho mais consciência disso cada vez que os olho, talvez seja melhor guardá-los duma vez por todas para não me aborrecer.

    Talvez seja melhor guardar também os chinelos e a toalha, os sapatos de lona e as bermudas. Talvez seja melhor ir fazendo as malas porque o avião é daqui a uma semana. Talvez seja melhor arrumar as memórias do fantástico verão que vejo sair da praia pelo oceano fora e ir-me preparando para o que Varsóvia reservou para mim no que resta deste ano.

    DSC00616

    segunda-feira, 28 de setembro de 2009

    Eles falam, falam mas não os vejo a fazer nada. Fico chateado, concerteza que fico chateado!

    Sócrates será de novo primeiro-ministro, não porque o povo confie nele mas porque do outro lado da barricada não há ninguém com credibilidade para mostrar que é melhor. O PSD teve uma oportunidade de ouro de ganhar as eleições e não o fez porque a sua líder não tem carisma, não teve mensagem nem conseguiu cativar um eleitorado desiludido com o totalitarismo do PS nos últimos 4 anos. Foi como falhar um penalti político, imperdoável e com consequências terríveis que decerto serão amplificadas nas autárquicas. O CDS conseguiu subir a votação precisamente pelos votos desviados de muitos laranjas, outros desiludidos. A CDU mantém a sua irredutibilidade gaulesa e orienta-se com os seus apaniguados que não se cansam de ouvir a mesma cassete, louve-se-lhes a coerência (teimosia?) de continuarem a acreditar num modelo que deu sobejas provas de inviabilidade ao longo da história. Resta o Bloco, partido em que eu até seria capaz de votar. Não porque quisésse ver Louçã como primeiro-ministro (um trotskista no Governo seria o fim da picada) mas para lhe dar legitimidade para continuar a embaraçar os políticos portugueses expondo as trafulhas deles e pondo o dedo na ferida quando estes não prometem o que cumprem, além de que a Ana Drago é um petisco e contraria radicalmente a máxima que uma mulher bonita não pode ser inteligente.

    O Sporting perdeu no Dragão por culpa própria. Por muito que tivesse sido condicionado pela arbitragem - foi só um bocadinho prejudicado mas o suficiente para se perceber o ressabiamento de Duarte Gomes em relação ao processo que lhe foi movido pelos Leões – não se concebe manter na equipa um jogador que já foi responsável por 4 golos sofridos esta época, principalmente quando o mesmo jogador (Polga) já revelou não se sentir nas melhores condições físicas e ter inclusivamente pedido a Paulo Bento para não jogar. Isso não há árbitro que justifique, tal como não se justifica que Paulo Bento tenha de andar a mandar recados para dentro do clube gritando que “o Sporting devia ganhar o Nobel da Paz”. Duvido que o grito de Bento fure a nuvem de fumo dos charutos que os autistas administradores da SAD e dos membros do Conselho Leonino produzem enquanto assistem a mais uma derrota do Sporting entre balões de conhaque e promessas de golfe.

    A Lux promove fotografias de Manuela Boca Guedes em topless e de Jorge Gabriel na praia depois da sua lipoaspiração. Por favor, não me dêem mais razões para regressar a Varsóvia!

    quinta-feira, 24 de setembro de 2009

    Perfeito Vazio

    É somente uma das melhores composições que alguma vez escutei!

    Por me identificar tanto com esta feliz música/letra dos Xutos & Pontapés, deixo-vos o poema que me deixa de cabelos em pé.

    Aqui estou eu
    Sou uma folha de papel vazia
    Pequenas coisas
    Pequenos pontos, vão-me mostrando o caminho

    (Refrão:)
    Ás vezes aqui faz frio,
    Ás vezes eu fico imóvel,
    Pairando no vazio
    Ás vezes aqui faz frio

    Sei que me esperas
    Não sei se vou lá chegar
    Tenho coisas pra fazer
    Tenho vidas para acompanhar

    (Refrão:)
    Às vezes lá faz mais frio,
    Às vezes eu fico imóvel,
    Pairando no vazio
    Feito vazio
    Às vezes faz lá mais frio

    Bem-vindos à minha casa
    Ao meu lar mais profundo
    Onde eu saio por vezes
    A conquistar o mundo

    Às vezes tu tens mais frio
    Às vezes eu fico imóvel
    Pairando no vazio
    No perfeito vazio
    Às vezes lá faz mais frio
    O teu peito vazio...

    Ah, se tu percebesses o meu idioma…

    terça-feira, 22 de setembro de 2009

    Cheira bem, cheira a chamon

    Na praia, roda de amigos a fumar uma ganza.

    - Epa, vocês sabem que cada vez que se fuma um pato morrem milhares ou milhões de neurónios? Significa que cada vez que fumamos ficamos menos capazes intelectualmente.

    - Moss, caga-te nisso! O que não falta aí é gente que nunca fumou ganzas e é burro que nem uma bota da tropa.

    segunda-feira, 21 de setembro de 2009

    Sensibilidade e bom senso

    Um chama-se Rodrigo, outro Tomás. Aquela é a Beatriz, esta a Camila e o que está para vir será Francisco. Estes são os nomes da moda, nomes pomposos que os pais modernos adoptaram para batizar os seus filhos. Acho duma pirosice inqualificável esta roda de modas a que os progenitores se submetem quando calha a escolherem um nome para a sua descendência. 

    Se tivémos um surto de Cátias Vanessas e Jessicas Soraias há uma dezena de anos tal se deve às imprescindíveis telenovelas sul-americanas que semearam a imaginação das ocas cabeças de quem escolheu tal designação. Agora assiste-se ao desfilar de barbaridades como o cúmulo dum Martim Martins ou de uma rapariga ter como primeiro nome Flor. Os pais não vêm o ridículo em que colocam os seus filhos, sabemos que as crianças são muito cruéis e não irão perdoar a quem se chamar Iuri Nelson, nem numa visão mais abrangente antevendo as futuras carreiras profissionais. Que credibilidade terá a causídica Tatiana Sofia ou o eminente cirurgião Jasmim Tiago? Já imaginaram estas duas tristes almas na chamada para o exame à ordem, a risota de que não serão alvo?

    Já não se faz um Paulo Jorge, um Carlos Alberto, um José António. Já não se vê uma Maria Inês, uma Manuela nem uma Luísa. Anda tudo com a mania dos nomes nobres sem cuidar do mais elementar: a formação cívica. Qualquer dia temos população prisional composta por Bernardos e Diogos.

    sexta-feira, 18 de setembro de 2009

    @Faro - 5

    Não há nada que eu goste mais de fazer do que jogar futebol. Pronto, gosto de dormir até me doer o chassi, de ficar deitado debaixo do sol de verão, de esvaziar barris de imperial à conversa com a minha turma mas uma boa peladinha é que me eleva os níveis de pica ao máximo. Assim que o repolho começa a saltar no sintético não conheço pai nem mãe, discuto e grito com os meus colegas (a escola do Largo da Caganita educou-me assim, competitividade extrema) e rasgo-me todo para ir buscar uma bola mais que perdida na linha de fundo. Mesmo em alturas em que o físico não obedece ao que o cérebro ordena os músculos rangem, os ossos estalam, as pequenas lesões do antigamente emergem ao mesmo tempo mas cerro os dentes e lá disputo mais uma dividida. Nunca gostei de perder nem ao Monopólio e não gosto que os meus amigos me ganhem.

    Hoje foi noite de joguinho no sintético do Montenegro e o viciozinho estava mais que muito, o plantel juntou-se carregado de moral devido às vitórias do Sporting e dos outros e prometia futebol de primeira água. Mas não, foi um desastre.

    Esta noite senti-me como se estivesse numa cadeira de rodas com as bolas a passarem a 10 cm e eu sem conseguir reagir, a minha marcação a fugir-me nas barbas e eu sem poder ir atrás deles, a chicha redondinha pulando à minha frente e pedindo um cacau no ângulo e eu a acertar nas orelhas da bola. Uma miséria própria de quem nunca deu um chute de jeito e se arrasta aos 35 anos. Perto do fim, uma nesga de esperança com alguém a ir à linha de fundo do lado esquerdo e a arrancar um centro a régua e esquadro para o segundo poste. Eu, bem colocado, faço o compasso de espera necessário para atacar a menina no ar, preparo a martelada aérea e assim que ela entra no meu radar disparo a marrada fulminante… na cabeça do Vítor que chegou 1/1000 de segundo antes para pentear a bola dali para fora.

    Caímos desamaparados, ele que grita e eu que não me mexo, ele que não sente os braços e eu que sinto um pêssego a nascer-me no crâneo, ele que pede ajuda e eu que peço silêncio, ele que se vai levantando e eu que não quero. O Vítor não jogou mais, eu reentrei ao fim de 5 minutos mais preocupado em correr desalmadamente do que tratar do hipergalo que me tinha nascido. Vem a segunda oportunidade, uma chance de me redimir dos sucessivos falhanços. É uma bola que sobra na cabeça da área, alço o pé direito na simulação e puxo para dentro, o defesa – patinho, veio á queima - salta à minha frente como um coelho assustado e eu fico só com o keeper à frente. Pé esquerdo preparado para o tiro, remate… e sai um pontapé cheio de tabaco, fraco, frouxo, quase lançamento lateral.

    Olhei para os meus companheiros e li o desânimo na cara deles, apeteceu-me dizer “só falha quem está lá” ou mencionar a crónica picada na virilha que já me minava os remates mas em vez disso deu-me vontade de abandonar o futebol de vez. Não acertei uma porra dum remate em quase 2 horas de bola e a única coisa em que acertei foi na moleirinha do Vítor. Mais valia ter ficado em casa a jogar FM…

    edit: na semana seguinte, o regresso às boas exibições. Bisei, pé esquerdo oportuno e ladino a empurrar no segundo poste e um pontapé de moínho que tinha visto há 23 anos atrás. Fiz as pazes comigo próprio q:D

    domingo, 13 de setembro de 2009

    (re)Barba

    Quando a Natureza criou o Homem fê-lo sob o pressuposto de ter criado o ser perfeito devido à faculdade de raciocinar, coisa que o resto do mundo animal não consegue. No entanto a Mãe Natureza havia de nos inventar mamíferos, o que traz excelentes prós como dotar a espécie feminina de protuberantes seios para alegria da nossa imaginação libidinosa mas também nos fez recheados de inconveniências próprias de quem tem mamas, nomeadamente os pêlos.

    aqui me referi à aversão que alguns tenho a alguns pêlos que crescem em locais onde a sua existência é pouco menos que questionável, não percebo a necessidade que há em termos pêlos nos sovacos, de nos começarem a crescer cabelos nas orelhas a partir de determinada idade ou de os cílios nasais se desenvolveram a um ritmo tal que se emaranhem numa teia impenetrável e exageradanente saliente ao ponto de muitos galgarem os limites das narinas invadindo terrenos que não deveríam pisar. Interrogo-me sobre os pubianos e não encontro uma razão fisiológica para a sua utilidade a não ser uma proteção de foro térmica para que as miudezas não sofram com as mudanças de temperatura sofridas ao baixar as calças.

    barba 2 Os homens, ou este homem, sofre igualmente com a barba. Não sou homem de barba rija que precise duma rebarbadora para raspar o rosto mas confesso que barbear-me é das coisas mais nefastas que posso fazer. A falta de vista que tenho no olho esquerdo leva a que as minhas patilhas nunca fiquem simétricas invalidando à partida a confeção das minhas favoritas patilhas “à Figo”, só em raros dias consigo ter a calma olímpica obrigatória para compor os cabelos em feixes mais ou menos parecidos com os do craque português mas normalmente mando a barba á fava e deixo essa obra para o barbeiro. Também procuro criar novos planos de barba porque não gosto de me ver muito tempo com o mesmo visual, irrita-me a monotonia das caras iguais e tento, assim, não ficar cansado de mim. Moscas à D’Artagnan, riscos tipo Abrunhosa, pêras como Lenin são tentadas de vez em quando em nome da inovação.

    O meu tio diz que não dispensa uma loção transparente no barbear que espalha na cara, diz que são só quatro gotas e o caso fica resolvido, é só passar a lâmina. Eu não concebo a ideia de fazer a barba às claras, sem espuma a montes para me proteger de alguma faca mais gulosa. Há quem defenda que se deve fazer a barba antes do duche para lavar o rosto de eventuais cortes, outros preferem fazê-la depois do banhobarba porque os poros estão abertos e os pêlos ficam mais suaves. É mas é tudo uma grande seca! A barba devia ter um interruptor ON e OFF juntamente com um regulador de intensidade como no ar condicionado dos carros. Se um dia nos apetecesse seria só ajustar o reóstato e andávamos de barba à Mickey Rourke ou imberbe como o Michael J. Fox, de bigode grave estalinista ou tísico como Pessoa, com suíças coladas ao queixo ou cheio de pêlo como o poeta Alegre. Tudo isso com um simples girar de botão.

    Sim, nós homens vangloriamo-nos perante as mulheres das vantagens que temos em poder fazer xixi de pé – qualquer parede é um WC – mas as fêmeas não sabem o que ganham em não ter de rapar a cara dia sim dia não.

    E quando elas dizem “ai, arranha…”?

    sexta-feira, 11 de setembro de 2009

    @Faro - 4

    Tá difícil escrever o que quer que seja, o bloqueio do escritor instalou-se e estou tentando erradicá-lo para dar vida ao blogue. Muitas vezes começo artigos que apago após ter lido os primeiros parágrafos, constato que as linhas não têm qualidade suficiente para serem lidas e prefiro não escrever nada a pespegar meia dúzia de inutilidades no blogue. Os leitores merecem melhor.

    Daí que tenho andado afastado da pena, com muito dó mas também com falta de temas que me suscitem o desejo de comunicá-los. Imagino Varsóvia enquanto fito o Atlântico, às vezes olho para o relógio e penso que “amanhã tenho de marcar os bilhetes de regresso” mas fica sempre para amanhã. Desde que cá cheguei contam-se pelos dedos duma mão as vezes que fui a Faro, não tenho vontade nenhuma de ir à cidade pois numa cidade passo eu 80% dos meus dias e o mar não se cheira da minha casa eslava.

    Porém, amigos leitores, creio que me compreenderão quando eu vos digo que nada tenho digno de ser escrito. Há lá palavras que descrevam esta imagem que tenho diariamente em frente à porta de casa?

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    sábado, 5 de setembro de 2009

    Cuba

    Passando Beja pela estrada que vai para Évora como quem vem do Algarve, o caminho à esquerda indica a viragem necessária. Uma reta de 5km pela planície com pequenas colinas a quebrar a maçada do trajeto desemboca num conjunto de casa brancas que espreitam lá por trás. O casario aproxima-se, vêem-se os altos silos de cereais a denunciar o mister local, a placa aparece, estamos em Cuba.

    O Vítor e o Pedro já me tinham convidado um saco de vezes para assistir às festas da vila mas por uma ou outra razão a coisa não se tinha concretizado. Este ano não facilitei e montei-me com o Cartaxo mais o Sampaio a caminho do Alentejo, terra de gente amiga, boa pinga e comida farta. O comitê de boas-vindas brindou-nos com uma carninha de porco frita à moda da região bem regada com grades de minis que não pareciam ter fim e acompanhada pelo tal pão alentejano que não tem igual, o Ti Zé faz questão de receber os seus convidados com todas as mordomias e o único trabalho que nos permite ter é... mastigar.
    A feira de Cuba está ao rubro e a visita necessária teve de ser encurtada em virtude do adiantado da hora e das horas que passámos a cervejar em casa. O passeio noturno serviu mais para desmoer o imperial jantar, apresentar a vila e alguns indígenas porque o grosso das atividades será entre a noite de sábado e o dia de domingo, ainda assim a noite só acabou às 6:30 da matina depois de se fazer e comer uma açorda caseira que serviu para acalmar o estômago inquieto pelo banho de cerveja que tinha recebido. 7 manos à volta da mesa, o rir, a camaradagem, amizade. Fomos dormir, porta da rua aberta pois ninguém entra dentro de casa nem tal se põe em questão. Aqui as pessoas ainda se conhecem e respeitam os valores da moral, ninguém ousa entrar ali porque todos sabem que é a casa do Ti Zé Mósca. Há respeito, é bom.

    4 horas depois tocam chocalhos pela casa, alvorada forçada determinada pelos selvagens que não respeitam as ressacas alheias, Cuba assa sob um sol desumano e só meia dúzia de almas destemidas enfrentam o calor para ir às compras na praça. O plano matinal consiste em visitar uma taberna e atacar o dia com "copos de 3" a sangue-frio, penaltis de vinho branco para acalmar o bicho e não deixar o corpo cair na moleza. Marmelos frescos para acompanhar, mesas com pires de cachola de cebolada e compadres sentados em bancos de pau que afinam modas da terra. Naquele momento olhei em meu redor e não reconheci esta realidade, pensei que estivesse noutro mundo onde as pessoas ainda são genuínas e puras. O abraço sincero e o copo sempre cheio são gratuitos, o sorriso franco e a faca para cortar a carne ou a fruta não são cobrados, tudo é calmo e autêntico sem ninguém fingir ou fazer fretes.

    O vinho sobe rápido à cabeça, o sol não dá descanso, o chassi cede e boceja, ainda são 11 da manhã e já parece meia-noite. Preparam-se as sardinhas e as cavalas assadas com saladinha fresca, almoça-se tranquilamente, mais cervejas e mais gargalhadas. Moços colegas de Liceu há mais de 20 anos gozam o prazer dum convívio raro e, portanto, saboroso, recordando outros colegas, estórias e namoradas.

    Hora da folga, o tanque já está cheio de água e as cadeiras montadas em seu redor para umas horas de sobra fresca, auxílio importante no combate ao calor. Antes uma passagem pela biblioteca municipal para saber as últimas daquele mundo lá fora, o mundo absolutamente diferente (para pior) deste onde estou e do qual poucas saudades tenho. Está-se muito bem aqui e não tenho pressa de voltar à vida, às vezes precisamos sair de nós para nos reencaminharmos.

    Viva a Cuba, cona da mana!
     
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    quarta-feira, 2 de setembro de 2009

    O que é que a gente tá aqui fazendo - 5

    pequeno-almoço 

    Sandes mista em pão caseiro, uma pata de veado e um Toddy (já não via esta marca desde que entrei para a escola primária!). Um pequeno-almoço bem português, impossível de se encontrar na Polónia e que fica aqui retratado. Sim, amigo leitor. Apetece mesmo gritar o título deste post, não é? q;)

    terça-feira, 1 de setembro de 2009

    1.9.1939 – Pamiętamy (Lembramo-nos)

    Se formos invadidos pelos alemães, perderemos a nossa liberdade. Se formos invadidos pelos russos, perderemos a nossa alma.

    Faz hoje 70 anos que a Polónia foi invadida pelas tropas nazis despoletando um conflito que se iria celebrizar como 2ª Guerra Mundial.

    invasãoA somar às celebrações, declarações e outras reflexões que ocorreram um pouco por toda o país, destaco a intervenção de Lech Wałęsa. Há muito que o antigo eletricista do Solidarność não é peça basilar no panorama político da Polónia mas os polacos devem-lhe a liberdade obtida em 1989, o ano em que a 2ª Guerra Mundial terminou de facto na Polónia, e a sua voz é sempre escutada com atenção neste período. Wałęsa fez uma curta mas emocionante intervenção em Gdańsk arrancando aplausos a um povo que zela pela sua memória e património histórico como poucos. A Polónia que nasceu entalada entre continentes e que sempre viveu fustigada por invasões, a Polónia que perdeu o cérebro em Katyń e o coração em Auschwitz, a Polónia que durante dois séculos não existiu e que foi apagada do mapa por um tratado vil que decidiu sumariamente a sua cessação, a Polónia não esquece e não permite que se esqueçam as marcas que o Holocausto e posterior ocupação soviética deixaram na sua pele. A Polónia recordou a Guerra e as suas consequências ao Mundo que por vezes parece assobiar para o lado neste tema.

    Essa Polónia agradeceu o justo pedido de desculpas que Vladimir PutinMucha fez hoje, desculpas pedidas em nome da União Soviética ao povo polaco pela criação do Pacto Molotov-Ribbentrop – a génese da 2ª Grande Guerra. A Rússia mostra a sua face humana numa rara assunção dos seus erros, o mundo aplaude sério, a Polónia ora pelos seus, eu curvo-me ante a resiliência de um povo notável. Pode-se ler mais sobre esta matéria num bom artigo escrito por Ricardo Taipa aqui.

    Não é todos os dias…

    … que eu estou inteiramente de acordo com algo que o Miguel Sousa Tavares diz.

    domingo, 30 de agosto de 2009

    Anoitecer

    O verão algarvio parece ignorar o calendário, já vamos em fins de agosto e o temómetro não baixa dos 30º. Coisa admirável pois por estas alturas já costumam soprar ventos desagradáveis e cair cacimbas que afastam as pessoas da noite. Este ano o verão não quer ligar ao BI, já vai com 2 meses e meio mas continua radiante e presenteando as pessoas com extraordinários dias de sol e com águas amenas.

    praia de faroEste Agosto passei-o quase integralmente com visitas polacas, uma delas mais especial que as outras =) e a todas tive o sumo orgulho de lhes dar a mostrar a minha região e partes próximas que não são algarvias mas a que muito quero. A Gosia visitou a Zambujeira do Mar e ainda viu os trabalhos de desmantelamento da estrutura do Festival do Sudoeste, a Ania e a Ewa conheceram algumas paragens interessantes da Andaluzia e foram seduzidas pelo glamour de Vilamoura, outra Gosia mergulhou na Fuzeta e a fundo na vida da Praia de Faro e da capital algarvia. Todas se encantaram com os rincões mouriscos, com a gastronomia (ganda cataplana de marisco e sangria que eu e o Giga fizemos, punhão!) recheada de sabores do mar – perceves, amêijoas, camarão, conquilhas – com o clima perfeito, o pôr do sol na praia, as gentes simpáticas, os sorrisos, a afetuosidade e os beijinhos.

    Zarparam para Varsóvia deixando boas memórias em Faro, os olhos claros, a câmera sempre alerta procurando momentos como este que a Ania registrou em frente ao meu spot, a fala estranha. Deixando um também estranho vazio como estranho é entrar em casa ao anoitecer e ainda sentir no quarto o perfume de quem partiu há já 2 dias. Hmmm, querem ver que…?

    segunda-feira, 24 de agosto de 2009

    E lá vão cantando e rindo…

    5 jogos oficiais depois o Sporting conquistou zero vitórias, um registo escuro que deixa a nação sportinguista preocupada e pessimista. Curiosamente um pessimismo que não é de todo imprevisto pois há muito que se tem vindo a notar a desconfiança dos sportinguistas na sua equipa de futebol. Têm razão para andarem desconfiados se repararmos na miséria que foram os jogos de preparação em termos de resultados e de exibições. Na mira, Paulo Bento.

    Paulo Bento Friso que aplaudi a escolha do atual técnico do Sporting para substituir José Peseiro pois trata-se dum treinador jovem, ambicioso, que conhece o futebol por ter experiência de cabine e de saber como pensam os jogadores, uma vantagem em relação aos treinadores de diploma. A sua frase “de que vale jogar como nunca e perder como sempre” fez-me imediatamente que tínhamos homem ao leme da equipa e que iríamos jogar com a raça que Paulo Bento sempre patenteou enquanto jogador.

    Algumas Taças e Supertaças (e zero campeonatos) depois o Sporting já não é novidade para ninguém, o modelo do losango é um livro aberto, rígido, previsível e que não surpreende. As bolas paradas ofensivas são ineficientes, os pontapés de canto morrem na defesa contrária por défice de centímetros dos verde-e-brancos ou diluem-se na rotina irritante do canto curto que nunca teve finalização positiva. Os envolvimentos na direita não têm consequência porque o lateral que devia fazer o cruzamento é ruim, seja Pedro Silva ou Abel. A propósito de laterais direitos, a substituição de um ou outro por Pereirinha arrisca-se a fazer parte do repertório dos Gato Fedorento de tão anedótica que se tornou – se é para serem substituídos porque não apostar em Pereirinha de início e fixá-lo desde já à posição?!. Qualquer alteração é sempre ela-por-ela, não há um plano de contigência para quando as coisas correm mal, é sempre aquele rame-rame do princípio ao fim, jogadores sem agressividade, sem explosão, sem brilho. Um fio de jogo monótono como uma novela portuguesa sempre com os mesmos protagonistas e de conclusão antevista. Polga enterra em todos os jogos, Carriço desaprende com o brasileiro e Caneira e Tonel fervem no banco, Abel e Pedro Silva juntos não fazem um, Moutinho está preso á tática comprometendo a sua evolução enquanto futebolista, Veloso percebeu que a melhor maneira de abandonar o barco é jogando bem e justificar uma transferência, Vuk é uma sombra, Rochemback quer sair, nenhum jogador parece motivado para jogar no Sporting. Quem sai em defesa da equipa? Quem dá um grito?

    Pedro Barbosa é prefeitamente invisível surgindo apenas enquanto representante do clube nos sorteios das provas em que o Sporting participa; Carlos Pereira apresentou, no final do jogo contra o Braga, um discurso estúpido justificando a derrota com o eventual erro de Olegário Benquerença ao não assinalar uma grande penalidade no lance comJEB e Bento Moisés, um lance que ninguém em consciência pode ajuizar como ilegal por ter sido um remate à queima-roupa, em vez de fazer uma leitura real da bosta de jogo que o Sporting fez, desgarrado, desconexado, sem ligação entre os sectores, sem agressividade nem esclarecimento, sem noção do que fazer; Bettencourt vive na bolha de euforia que foi criada por ter sido eleito presidente do seu clube e não mede as palavras, mandando bojardas e loas absolutamente escusadas aos rivais em vez de fortificar as hostes; Paulo Bento é incapaz de mobilizar e animar os adeptos por ter a imagem desgastada ao ter de dar sempre o corpo às balas e por teimosamente não ter alternativa tática ao losango de todas as irritações, além disso compra guerras no plantel com o seu bullying do qual alguns ativos da SAD saíram desvalorizados. O Sporting definha, impera o laxismo desde o topo da hierarquia até ao tratador da relva, perder é normal, empatar é fixe, ganhar é a exceção.

    Em todas as grandes equipas há um capitão que encarna a mística do clube: Ferdinand, Bruno Alves, Puyol, Terry, Van Bommel, jogadores que batem na mãe para defenderem o emblema se for preciso. No sábado, já o Braga ganhava por 1-2, Mateus caíu sobre a linha lateral e rebolou para dentro do campo para ganhar tempo. Oceano, Petit ou Jorge Costa tinham chutado o minhoto para fora dos limites do concelho para que o jogo se reatasse. Os jogadores sportinguistas, gatinhos, limitaram-se a encolher os ombros e a gritar apontando para o arsenalista. Não há caráter nem personalidade, começa a não haver paciência para tanta frouxidão

    Roca O que é indesmentível é que é extremamente aborrecido ver o Sporting jogar, os sportinguistas seguem os jogos do seu clube pela devoção e não pelo prazer de ver a sua equipa jogar futebol. Ver o Sporting hoje em dia dá o mesmo gozo que ver uma reportagem sobre os refugiados do Darfur ou um atentado do PKK. É um crime de lesa-futebol assistir à sucessiva martirização da melhor massa associativa do mundo por não haver ninguém que se insurja e que delibere duma vez por todas que o Sporting tem de ganhar sempre, sempre!

    Mas quando temos um presidente que enaltece os outros gajos em vez de tentar decalcar a mentalidade ganhadora e organização vencedora do FC Porto, penso que está tudo dito. Este vai ser mais um ano de desilusões e qualquer dia ninguém quer ser do Sporting, Eu é que já estou demasiado velho para mudar senão mandava aquela gajada toda gozar com a put@ da mãe deles porque o que se está a passar no meu clube só tem uma definição: vergonha.

    Pois que a tenham!