sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Em semana de derby

No meu tempo de militante da Juve Leo Algarve nós fazíamos disto, catávamos cachecóis dos adversários e queimávamo-los na vedação do estádio para provocar os adeptos dos rivais. Esta imagem do derby da Trójmiasto* jogado entre o Arka de Gdynia e o Lechia de Gdańsk na passada quarta-feira reavivou-me essas memórias.

derby

Esta gente não é flor que se cheire q:D

* Trójmiasto (Tri-cidade) é o nome dado à grande área metropolitana contínua que compreende as cidades de Gdynia, Sopot e Gdańsk no norte da Polónia.

sábado, 21 de novembro de 2009

Wola

Há um constante processo de adaptação para quem viveu toda a vida numa cidadezinha à beira-mar e se mudou para uma grande capital europeia, por exemplo o conceito de distância que agora é absolutamente diferente. Antigamente eu caminhava 15 minutos e já me queixava que o meu destino ficava muito longe e agora se tiver de andar os mesmos 15 minutos dobro apenas dois quarteirões, coisa pouca, vizinhanças. Ontem conduzi de Natolin a Bemowo, 32 minutos bem contados que na minha terra davam para atravessar 3 concelhos e que em Varsóvia não chegou para passar mais de 5 freguesias. Depois de contornar a Rotunda ONZ, o coração financeiro da cidade entrei em Wola.

Sair do bairro de Ursynów e entrar em Wola pode ser um choque para quem não está habituado aos contrastes de Varsóvia porque Ursynów é uma zona predominantemente residencial onde os blocos de apartamentos construídos a partir de 1989 constituem a paisagem até à zona sul da cidade, onde o betão dá lugar ao verde do Parque Natoliński e à Floresta de Kabaty. Ursynów tem 1/4 da sua população com menos de 18 anos de idade, é um área modernizada pelo metropolitano e pela importantes artérias Puławska e KEN por onde imensos varsovianos passam no seu dia-a-dia. Pouca gente trabalha aqui mas milhares aqui vieram morar devido ao preço baixo das casas e às modernas comodidades com que os apartamentos foram dotados. Um bairro que só em 20 anos conseguiu acomodar quase 150.000 almas nas suas casas.

wola 1 Wola (vontade em polaco) é uma ferida por sarar no quotidiano de Varsóvia, os prédios degradados pelos invernos ou os que ainda exibem as cicatrizes da 2ª Guerra Mundial são testemunhos da energia daquele que era o coração industrial da Capital no séc. XIX. Foi também em Wola que se deram dos mais sangrentos conflitos da história de Varsóvia como os Levantamentos de 1794 * e 1831 bem como o Massacre de Wola. O infame Gueto de Varsóvia também era em Wola e ainda há porções do muro mantidas como monumentos, o portão principal da prisão de Pawiak ainda se mantém erguido para que se recordem as atrociades lá cometidas, os cafés são sombrios e estão instalados em blocos descascados pela erosão do tempo e pela fatura da guerra onde jovens de ar rebelde mas pacífico fumam e conversam sobre uma mesa de chás. Wola não é bonita mas tem uma alma que poucos bairros varsovianos têm, caminhar nas suas ruas é aprender a história de Varsóvia e ao observar aqueles edifícios feios sentimo-nos transportados para a realidade tenebrosa de “O Pianista”, que Władysław Szpilman escreveu e cujos passos repetimos quase que inadvertidamente, sem pensarmos, sem sequer imaginarmos o cenário que lá se encontrava há 65 anos atrás.

É preciso ter estofo para morar em Wola, para encarar a suaWola rua Leszno sombriedade todos os dias, para compreender a sua perpétua tristeza e melancolia, para se solidarizar com o seu constante sofrimento, para aceitar a sua roupagem – sempre vestida de luto. Wola ainda enxuga lágrimas, não é toda a gente que consegue viver permanentemente num cemitério de memórias e curvo-me ante tão brava gente que assim honra a perseverança dos seus antecessores.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sleepy Season

eletrico O dia de trabalho acaba, uma aula privada com uma doce miúda de cabelos de trigo e olhos esmeralda, lábios que me fazem estremecer na cadeira à medida que ela os morde enquanto pensa na palavra ou na pronúncia correta. Beberrico a água que ela me serviu para afastar as reflexões insidiosas que me impedem de me concentrar exclusivamente no trabalho mas não é fácil, o decote dela convida à imaginação e da mesa da sala ao quarto é um segundo à velocidade do pensamento. Voltamos aos pretéritos e pronomes, coisas mais prosaicas do que a líbido que paira e se cheira no ar mas ela teima, ajeita a franja com três dedos e espreita-me por entre uma madeixa rebelde que insiste em tapar-lhe a vista direita. É o fenómeno da cenoura à frente do burro e eu procuro não fazer figura de quadrúpede mantendo-me firme (e quase hirto) no meu posto docente, ela compõe o cabelo para trás da orelha, eu peço mais água e já não consigo disfarçar o desconforto.

Respiro fundo ao sair de casa dela e sento-me no elétrico que pára perto do velódromo de Varsóvia, o Wyścigi Konne. A cidade parece-me mais dormente agora do que durante todo o dia, um dia que pareceu durar uma semana e que vai sendo cada vez mais pequeno enquanto caminhamos para dezembro e para o inverno. As pessoas queixam-se do tempo e do frio mas eu não tenho problemas desses, quem diz que faz frio na Polónia nunca experimentou Faro em fevereiro pois decerto que  se o tivesse feito sairia para a rua de corpinho gentil como este vosso escriba tem feito desde que regressou do Sul. Um homem está sentado, adormecido num dos assentos da carruagem quase vazia, o elétrico é uma perfeita alegoria do que me pareceu Varsóvia este dia: polaquinhaamorfa, insossa, apagada. “É culpa do tempo”, dizem eles, desta baixa pressão atmosférica que acinzenta as pessoas e embolora os cérebros. É capaz de ser verdade, eu dormi algumas 10 horas de ontem para hoje e sinto-me sonolento como se tivesse feito uma direta.

Sento-me em Wilanowska à espera do metro e começo a listar as coisas que tenho de ir comprar ao Tesco. Café, leite, carnes, arroz. Não fico muito contente quando me lembro que ainda ando com o saco do computador às costas e que vou ter de arcar com o peso das compras mais o portátil ao lombo, que raio de vida esta que me obriga a estes sacrifícios! Ao fazer contas à vida e às compras sou interrompido por uma voz morna e mansa, uma voz cor de trigo e esmeralda que ternamente me atropela os pensamentos e começa uma pergunta suave:

”Como se diz em português…?”

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Tomaaaaaaaaaaaaaaa!

 

Eu, português, confesso-me. Não acreditava.

mundial

Felizmente eles acreditaram. És grande, Portugal!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Atrás do Muro, em bicos de pé

Depois das comemorações do 20º aniversário do derrube do Muro de Berlim, acho interessante deitar um olhar polaco sobre os acontecimentos e também sobre a cerimónia que teve Lech Wałęsa como um dos protagonistas.

guerra fria Há 20 anos atrás vivíamos no tempo da Guerra Fria iniciada depois do fim da 2ª Guerra Mundial, sob permanente ameaça dum conflito nuclear entre as duas superpotências da altura, URSS e EUA, que prometiam destruírem-se mutuamente e arrastarem o resto do planeta devido a imensas questões políticas como a Crise dos Mísseis em Cuba. Guerras como a da Coreia, o Vietname e o Afeganistão polarizaram o mundo entre Pacto de Varsóvia e NATO e cada um dos beligerantes tentava expandir a sua esfera de influência em todos os continentes. A Europa estava dividida entre Ocidente e Leste – onde a Polónia se encontrava.

Em 1978 o Vaticano elege João Paulo II como papa, uma eleição que muitos qualificam como política porque, tendo em conta que não passava pela cabeça de ninguém um papa oriundo de um país oficialmente socialista, o gesto só podia ser interpretado como uma tentativa de fortalecer o ânimo do povo polaco, tradicionalmente católico e anti-soviético, na sua resistência contra o avanço do comunismo e respetivo ateísmo na Europa. Esta eleição teve algo de profético pois nos anos segiuntes rebentam alguns episódios que levam a Guerra Fria a novo apogeu, a saber:
  • Invasão do Afeganistão por parte da URSS e resposta dos EUA armando e treinando os Mujahidin (futuros Talibã);
  • Venda de armas a Saddam Hussein em plena guerra Irão – Iraque;
  • Guerra das Estrelas, a corrida espacial;
  • Eleição de Margaret Thatcher como primeira-ministro britânica, duramente conservadora e ferozmente agressiva para com Moscovo.

Muro brandenburg Entretanto o regime soviético dava mostras de alguma incapacidade de lidar com as insurreições que se sucediam nas suas repúblicas satélite além de que a baixa produtividade dos seus trabalhadores aliados aos elevados gastos duma gigantesca máquina burocrática e militar corroíam irremediavelmente o seu condenado sistema económico. Moscovo não conseguia intervir por ter moeda fraca, o PIB era metade do dos EUA, todas as decisões estratégicas e sociais era emperradas pela burocracia e perdia-se tempo na tomada de decisões. Para piorar o cenário deu-se o desastre na central nuclear ucraniana de Chernobyl que libertou 400X mais radioatividade do que a bomba de Hiroshima e destruiu por completo a colheita de cereais desse ano (note-se que os cereais constituíam a principal exportação soviética nesse tempo), aniquilando importantes receitas financeiras para o Kremlin. Em meados da década de 80 os países da Cortina de Ferro começam a reagir contra a repressão soviética, a Hungria, Checoslováquia e Bulgária negociavam eleições livre enquanto na Roménia perseguia-se Ceaucescu para matar de vez o comunismo naquele país. Na Polónia, o Solidariedade não dava tréguas ao enfraquecido governo do general Jaruzełski contando com a oficiosa colaboração do Vaticano na pessoa do compatriota Karol Wojtyła e alcançava uma importante vitória na mesa-redonda de 89, o primeiromapa guerra fria europa passo duma irreversível caminhada para a democracia na Polónia.Inspirados pela sublevação dos países orientais e pelas dramáticas e constantes tentativas de êxodo da RDA, os países bálticos (Lituânia, Letónia e Estónia) reivindicaram independência da URSS, Wałęsa foi indigitado Presidente da República e Mikhail Gorbachov agarrava-se desesperadamente às novas políticas de Perestroika e Glasnost para salvar o decrépito regime tendo apenas conseguindo-se salvar dum golpe de estado. A RDA preparava a normalização de relações diplomáticas com a vizinha RFA quando se deu “O Erro de Schabowski”, uma gafe que mudou o mundo.

20 anos depois, Wałęsa foi convidado para empurrar as peças que simbolizam o desmoronar do comunismo na Europa e é de elementar justiça que ele tenha sido escolhido para tão simbólico gesto porque, apesar de já não ter qualquer protagonismo na política moderna da Polónia, a Europa e o País não o esquece como o eletricista tenaz que ousou enfrentar o gigante soviético e que tirou a sua nação do jugo comunista que a asfixiava. A Polónia orgulha-se do papel relevante que dois homens polacos tiveram na redefinição do mapa político mundial, um papel de verdadeiro protagonismo em oposição ao imbecil estrelato que um cretino tentou reclamar.

É a tal coisa, enquanto uns têm motivos para se sentarem no Muro e não o fazem outros saltam por detrás dele para que alguém os note. Também por isso continuamos pequeninos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Legia 2-0 Ruch Chorzów – O meu primeiro jogo

E ao fim de dois anos a viver em Varsóvia perdi o pouco receio que tinha do que me foi contado e investi 70 zlotys para ver um jogo da Legia no Wojska Polskiego. O cartaz era promissor, o 3º classificado (Legia) recebia o 2º (Ruch Chorzów), 4 pontos a separar as duas equipas e a necessidade imperiosa da Legia ganhar para reduzir distâncias e não aprofundar o fosso de 7 pontos que a divide do líder Wisła Kraków. O jogo era às 18:30 de sábado, uma hora e um dia de que ninguém desconfia.

Uma hora antes do apito inicial estava um português sentado numa banca de comidas dentro das instalações do estádio a bater-se com um prato de plástico onde repousavambilhete uma karkówka (febra de porco), um pãozinho, um pepino de conserva e dois borrifos de mostarda e ketchup, tudo adquirido pelo simpático preço de 10 paus. Depois de morfar entrei no Wojska Polskiego que está em obras de ampliação. Por tal razão apenas a tribuna dos lugares cativos – cerca de 6000 lugares - está disponível para o público e estava integralmente preenchida com adeptos dos “militares”. Entre eles, o tal português de cachecol negro “wojskowy” ao pescoço que tiritava com os 0º que fustigavam a capital polaca nesse princípio de noite.

A instalação sonora debitava sons incompatíveis com um jogo de futebol, principalmente um jogo com espectadores tão especiais com os “Legia Warszawa”. Talvez para acalmar os instintos violentos dos adeptos, o DJ tocava Roxy Music e Dire Straits a som médio, quase adormecendo o público. Surgiram os primeiros aplausos, tímidos, quando Mucha subiu ao relvado para iniciar o seu aquecimento. O guarda-redes eslovaco da Legia arrancou os primeiros aplausos das bancadas que subiram de tom 10 mins depois quando os jogadores de campowojska_polskiego apareceram, mais aplausos e o primeiro ensaio de cânticos na noite. Eu desesperava por um cigarro para combater o frio mas decidi não comprar tabaco até ao fim do ano e ripei a rijeza orando para que o jogo fosse digno do meu sofrimento. Os jogadores recolheram ao balneário e finalmente o speaker do estádio mostrou serviço informando os espectadores dos resultados dos outros jogos da jornada, o Wisła já tinha ganho na sexta, o Lech fez 1-0 cedo e fechou a loja conservando a vantagem até ao final, a Legia tinha mesmo de ganhar para não comprometer as suas aspirações. Após a constituição das equipas o público levantou-se em tifo para saudar um hino que entretanto soou, um hino a Varsóvia que foi cantado por todas as almas que estavam no estádio e que cobriu a bancada do vermelho, branco, verde e preto dos cachecóis da Legia. Momento arrepiante, a paixão do futebol no seu esplendor. Junto à vedação havia polícias de choque mascarados de colete à prova de balas e capacetes com visores que me fizeram perguntar se estaria nalguma manifestação contra o G8 em vez dum jogo de futebol.

A Legia Warszawa vai ter um belo estádio logo que as obras se concluam, as bancadas novas já se assemelham com uma moderna estrutura de dois anéis, camarotes na zona intermédia e com dois topos verticais e incisivos que têm todas as condições para se tornarem um pesadelo para os guarda-redes das equipas adversárias,legia tifopermitindo que o público esteja bem perto do relvado. Não sei se esse mesmo público desfrutará dos jogos com tanta intensidade como a que dedicaram aos insultos à ITI, a empresa proprietária do Clube que mantém más relações com os adeptos devido à errática política desportiva, principal responsável pelos pálidos resultados desportivos da Legia como consequência dum progressivo desinvestimento na equipa de futebol. No meio dos insultos, golo da Legia que passou quase despercebido ante o coro de palavrões que grassava da bancada contra a ITI e contra as forças da ordem que puseram na rua à força um adepto que constantemente as provocava. Os insultos foram baixando de tom à medida que o jogo avançava no tempo, o 2º golo de Mięcel marcado ainda na 1ª parte acabou por serenar os ânimos, até ao apito final registou-se uma tímida reação do Ruch e trocas de bola a meio-campo “wojskowy”  para evitar suspresas.

legia golo Após os 90 minutos a instalação sonora não funcionou mais, nem o speaker anunciou o resultado final ou o jogo seguinte nem uma peça de música se fez ouvir. A multidão abandonou ordeiramente o estádio fumando e rindo, comentando uma ou outra incidência mas sem grandes manifestações de alegria. À passagem pelas tendas de venda de salsicha, uma menina da Królewskie passou um olhar vazio pela fila de homens que saíam do estádio. Uma voz imperativa levantou-se: “Tańcz, kobieto!” (Dança, mulher!) Os homens riram mas logo calaram o riso ao ver o incrível aparato policial que tinha sido montado no perímetro do Wojska Polskiego. Polícia de intervenção suficiente para uma cimeira americano-árabe, uma coisa colossal que eventualmente terá garantido o regresso de todas as pessoas a casa sem grandes problemas.

Aconselharam-me que rezasse à minha integridade física, chamaram-me louco por ir à bola em Varsóvia, disseram-me que ia levar com garrafas na cabeça, desenharam-me cenários de batalhas campais, escaramuças graves, guerrilha urbana. Nada disso aconteceu e o que presenciei foi tão somente uma demonstração de paião pelo futebol, de fervor clubístico exacerbado pelos últimos maus resultados do Clube, um amor por um emblema que se vê em todos os estádios de todas as ligas em todos os países do mundo. Varsóvia não é exceção e num jogo chave para as aspirações das duas equipas, um jogo considerado de alto risco, de vida ou de morte e outros dramáticos chavões, a única coisa que eu vi acontecer naquele estádio foi… futebol e eu hei-de lá voltar.