quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

Sezam - Memórias

Sezam Se eu tivesse de escolher o Top 10 dos lugares mais significativos da minha vida eles seriam:

I - O Estádio de S. Luís, onde os meus tios me levavam a ver o Farense e onde comecei a gostar de futebol;

II - A Praia de Faro / Ria, onde passei os melhores momentos da minha infância com família ou amigos e para onde fujo num reset mental sempre que tenho possibilidade;

III - O Largo da Caganita, onde fiz as minhas primeiras amizades a tinta permanente e indelével;

IV - A Bijou, extinto salão de jogos em Faro onde conheci a minha primeira namorada (A Margarida);

V - O Liceu, onde me fiz rapaz e comecei a fazer homem;

VI - A Farmácia Alexandre, onde me fiz efetivamente homem e (a muito custo) aprendi o que significa obrigações e responsabilidades;

VII - A Disneyland Paris, onde tive a minha primeira experiência profissional no estrangeiro e que me incutiu a curiosidade em trabalhar fora de Portugal;

VIII - Tychy / Katowice, primeiros locais de residência e trabalho na Polónia e onde comecei a respirar ar eslavo;

IX - O Klubokawiarnia, discoteca onde conheci a mulher da minha vida e em cujas casas de banho fiz coisas que contadas ninguém acredita;

X - O Sezam, supermercado de atmosfera incrivelmente socialista onde eu comprava os meus pequenos-almoços quando trabalhava no meu primeiro emprego a sério em Varsóvia (Escola Bravo).

A possibilidade do Sezam ser encerrado já tinha sido aventada há algum tempo, o edifício em que o supermercado funcionava era obsoleto e sofria de malformações congénitas que o avanço do tempo e da tecnologia tratou de agravar. Anexo ao prédio do Sezam funciona o primeiro (e até à data mais lucrativo) McDonald's da Polónia, mesmo em frente ao estalinista Palácio da Cultura e da Ciência em mais um dos deliciosos contrastes que Varsóvia oferece a cada metro quadrado. Mais ao lado, no lugar onde antes havia a esplanada da hamburgueria, pesadas máquinas esgravatam o chão na laboriosa tarefa de concluir uma estação da segunda linha do metropolitano de Varsóvia, uma obra de Sta. Engrácia. Entretanto em redor do Sezam já tinham aberto bancos, lojas de roupa de marca, cafés, outrosSezam visto do PKiN supermercados de redes ocidentais. Mas o Sezam aguentava-se, baluarte dum comércio tradicional e castiço onde as mais antigas marcas polacas de manteiga e maionese conviviam lado a lado com Pepsis e Matutanos. Compravam-se deliciosos folhados de salsicha e outros de couve, havia uns estranhos bolos de queijo e frutos silvestres, pacotes de meio-litro de leite e numa ocasião até doce de batata doce comprei lá. Na cave do edifício funcionavam livrarias, lojas de totobola e raspadinhas, de meias de senhora, de carimbos e tinteiros de impressoras, de cortinados e reposteiros. O primeiro andar era ocupado por um estabelecimento que vendia champôs, louças e alguidares entre outros artigos de utilidade doméstica. O último andar era particularmente interessante pois no mesmo piso coexistiam uma afamada marca de eletrodomésticos e um oleoso bar cujas paredes transpiravam gordura e onde almocei uma única e suficiente vez com o meu compadre Mário. No rés-do-chão o tal supermercado, uma porta lateral com acesso tímido para o McDonald's e outro pormenor lindo: A galeria de arte de Ewa Tudorska, não mais de 5m2 com exposição permanente das pinturas da autora e onde às vezes a mesma se abancava a ver um livrinho como se ela própria estivesse para venda.

O carismático Sezam assistiu à derrota de primos seus, estabelecimentos dos tempos de outrora que foram apagados em nome do progresso ou da modernização. O mercado KDT em frente ao Palácio da Cultura, o Jarmark junto ao precursor do Estádio Nacional onde – diz a lenda – até órgãos humanos se podia comprar entre outras sinistras superfícies comerciais. É uma prova de que a cidade mudou, mudança que tenho testemunhado ao longo destes quase sete anos de Polónia. Pouco tempo, quiçá, mas tempo suficiente para ter memórias, recordações daquilo que foi e que já não é. Coisas que já se foram, coisas que se perderam.

Oxalá eu não tenha perdido tudo, e do que perdi oxalá consiga recuperar pelo menos uma coisa que eu cá sei.

segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Uma questão de fé

Em 2012 Já há muito tempo que isto me fazia confusão, por que motivo no princípio do ano eu encontrava casas com a porta de entrada garatujada a giz, rabiscadas com inscrições sinistras que pouco ou nenhum sentido faziam? Letras, sinais aritméticos e um ano, o ano que vem. Em muitas casas a mesma mensagem, em todas elas o mesmo sentido, em cada caso a minha ignorância e, confesso, o meu receio. Já tinha ouvido falar de casas que são marcadas por meliantes com sinais de comunicação para que a comunidade saiba onde e quando se pode assaltar, julgava que era um código parecido e assustava porque tanto se via a mensagem em prédios modernos como nos fedorentos blocos do tempo do Soviete Supremo. Nada disso. A explicação é bem mais simples e mais lógica, atendendo ao contexto do país.

K + M + B não é nada mais nada menos do que a primeira letra do nome polaco dos três reis magos: Kacper, Melchior e Baltazar. As pessoas escrevem a mensagem para receberem proteção divina e para que o novo ano seja pleno de venturas e prosperidade, um hábito que não surpreende tendo em conta a tradição católica que está profundamente enraizada na Polónia. Talvez o que muita gente não saiba, e que este algarvio ateu descobriu, é que a inscrição K + M + B é errada e está totalmente afastada da versão original.

Nos primórdios da tradição, a inscrição original era C†M†B que advém do latim "Christus Mansionem Benedicat", ou seja, "Cristo AbençoeEm 2013 este Lar". Talvez porque o 'c' polaco em muitos casos se tenha convertido em 'k', a realidade é que a inscrição sofreu na realidade mutações de letras e sinais, tendo adotado um significado completamente diferente ao que tinha na origem. Contudo a intenção mantém-se, invocar o divino, rogar a sua proteção. Em suma, a prática da fé dum país profunda e explicitamente católico. Recorda alguns lares de Portugal que têm um Cristo crucificado por cima da porta, sendo os portugueses mais púdicos na sua crença preferindo-a guardar dentro de portas do que exibi-la publicamente.
 
O que me poderia acontecer se eu desenhasse um crescente com uma estrela na minha porta, ou um leão rampante em fundo verde?

quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

Lógica aplicada à origem das palavras

Crica - 
cri·ca 
(origem controversa)

substantivo feminino
1. [Calão]  Conjunto das partes genitais femininas. = VULVA
2. [Regionalismo]  Berbigãomolusco.
3. [Sinónimos Farenses]  Barbela, Alçapão, Barcoita, Xôxa, Amêijoa, Rola, Rolaça, Maria Perniana, Lola, Loló, Lolinha, Pachacha, Rata.

"crica", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/crica [consultado em 06-08-2014].

" (...) De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branca crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito: (...)"

Bocage in Arreitada Donzela

Então,

  • Se uma biblioteca é uma coleção de livros;
  • Se uma filmoteca é uma coleção de filmes;
  • Se uma pinacoteca é uma coleção de obras de pintura;
Uma cricoteca é...?


sábado, 26 de Julho de 2014

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 21

Varsóvia dum 40o andar 1:30 da manhã no quarteirão de um dos hotéis mais finos da Cidade Capital, por consequência arrisco a dizer, do país. Tinha acabado de cumprir mais uma noite como disc-jockey na noite de Varsóvia, desta vez sem o grande bumbumbum das antigas noitadas transpiradas do Muza ou na louca vertigem do Platinium. Uma atuação tranquila e sossegada dentro dum registo lounge, 118 bpm no máximo, adequado ao espaço que foi concebido para o convívio luxuoso... ou sigiloso consoante a intenção. Hotel cinco estrelas, clientela de carteira generosa, garrafas abertas de seguidinha, baldes de frapê a passarem à minha frente para desaparecerem atrás da porta de correr feita de vidro baço com a indicação 'VIP Room'. Ainda lancei um olho curioso para saber o que acontecia atrás daquela entrada por onde passavam tantas pernas delgadas e vestidos justos mas a curiosidade ficou centrada entre a trança loura e a anca delgada da barmaid, acabei por não perceber que rebaldaria havia naquele compartimento que exigia tanto champanhe e também não tive muito sucesso com a barmaid pois ela não se deixou impressionar com os meus arreganhados agradecimentos quando ela me entregava o Ice Tea que lhe pedia para me refrescar do efeito da spotlight que eu tinha apontada enquanto tocava. Entristeci-me, nem consegui ver a paisagem do reservado nem saquei um sorriso à empregada do bar. Se calhar melhor assim, consegui concentrar-me no set e logrei uns abanos de cabeça ao ritmo da música por parte dumas senhoras de idade que se tinham sentado na mesa ao meu lado. Um triunfo para uma noite tão calma.

Povo amigo chegou entretanto, claramente com o propósito de me rebocarem para copos apesar de eu cumprir uma noite abstémica por causa do trabalho e também por ter de guiar de volta para casa. Ao sábado os malinos andam sedentos de multas e uma matrícula estrangeira chama mais a atenção na via rápida que conduz ao meu bairro, por isso não quis arriscar no xarope mas acabei por sair com eles. Estava uma típica noite quente de verão varsoviano, o ar doce e pegajoso a ameaçar chuva, a fazer lembrar Sevilha até pela movida que se via na rua com carros e limusinas em romaria para o centro lúdico da cidade. Tinha estacionado atrás do hotel, na rua das putas. Elas lá estavam, caminhando dum lado para o outro sem dar bola aos transeuntes, sem espicaçar, sem provocar, maneira curiosa de atrair a freguesia. Nem olham para os homens, talvez de esguelha mas nunca mostrando interesse. Não seiCapital de todos os contrastes se por uma questão cultural ou legal, não vejo prostitutas de rua em mais lugar nenhum de Varsóvia a não ser naquele quarteirão do Centro e também nunca vi que fossem interpeladas pelas autoridades. Parece que a polícia fecha os olhos, desde que elas ali estejam confinadas não andam em mais lado nenhum, não dão mau aspeto à terra, os clientes sabem onde encontrar o produto e todos ficam contentes.
 
Não deixa de me fazer impressão mais este contraste na capital de todos os contrastes. Nas traseiras dum empreendimento de alto gabarito, paredes-meias com a igreja de Sta. Bárbara, vagueiam as mulheres da vida, defendendo-se como lhas deixam das tolheitas da vida, expostas ao frio glacial do inverno e a canícula de verão, fazendo o que podem para ganharem uma miséria ao passo que outras comem e bebem do bom e do melhor, rebolam-se em lençóis de cetim e banham-se em tinas de mármore. Tanta diferença e tanta semelhança entre as putas da rua Emilii Plater… e as senhoras do reservado do bar do Marriott.

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Argentina!

"Brasil, decime qué se siente,

tener en casa a tu papá.

Te juro que aunque pasen los años,

nunca nos vamos a olvidar.

Que El Diego los gambeteó, El Cani los vacunó, están llorando desde Italia hasta hoy...

A Messi lo van a ver, la Copa que va a traer, Maradona es más grande que Pelé".

(este texto é dedicado à geração farense da primeira metade da década de 70 e a todos os que comigo chutaram bolas na Escola do Carmo)

D10S Soviético, Artur, Zé Gato, Ruben, Fábio, Samora, Paulinho Santana, Pedro Gancho, Batatinha, Pasteleiro, Adegas, Tozé Patas-de-Urso, Zé Mosca, Ganso, Amador, Paulo Gomes, Joca, Rui, Posta de Carne. Estes eram alguns dos jovens que apareciam ao sábado e ao domingo para jogar à bola na Escola do Carmo. O Artur morava mais perto e às vezes ia buscá-lo a casa logo depois do almoço para aquecer as virilhas jogando baliza-a-baliza, às vezes eu saía mais atrasado e corria desalmado pela rua Cunha Matos abaixo até vislumbrar o alcatrão do pátio da escola, fazendo figas para que não estivessem mais que nove moços para poder jogar logo e não ter de esperar pelo bota-fora. A dose de bola do fim-de-semana era reforçada e transformada em diária durante o verão, a malta ia à praia pelas 10 ou 11 horas (os algarvios dos anos 80 não passavam cartão a cuidados de exposição solar) mas voltava às 15 ou 16 horas a tempo de fazer pelo menos quatro horas de pelada. Durante o verão de 1986 a rotina não era diferente… a não ser durante o Mundial do México, quando jogava a Argentina.

Aí parava tudo. Ao grito ‘Vai começar a Argentina!’ da mãe do Paulinho Santana que morava atrás duma das balizas, a bola de catchumbo deixava de saltar e o campo onde 10 suados meninos corriam, gritavam e praguejavam era evacuado em menos de nada. Terminava a peladinha, tudo regressando a casa em alta velocidade para ver o ‘Pelusa’ jogar, era como ver desenhos animados, circo ou um espetáculo de ilusionismo. O 10 albiceleste era incrível e por isso todos nós apoiávamos a seleção argentina naquele Mundial, se calhar até se jogassem contra Portugal!

A Argentina do tango triste e melancólico, dos bairros portenhos e das pampas, do chimarrão e do asado. Quanta da sua alma está representada na seleção, quanto do seu ser está espelhado no apoio dos inchas.

Maradona era a Escola do Carmo num jogador de futebol. Tinha aprendido a jogar no laboratório da rua, como nós às vezes jogávamos com latas de coca-cola a servir de bola e mochilas de escola como postes das balizas. Via-se nele a habilidade do Fábio demonstrada no segundo golo contra a Inglaterra – o golo do século, a picardia do Zé Gato como no primeiro golo aos ingleses em que D10s salta como um coelho na área inglesa e põe a bola com a mão nas redes do dormente Shilton, a resistência do Artur patenteada na maneira como sempre recuperava das entradas que sofria, a força do Samora vista na arrancada que resultou no segundo golo contra os belgas e mais a potência do Joca, a magia do Paulo Gomes, a ratice do Amador, a competitividade do Ganso, a robustez do Posta de Carne. Já naquele tempo havia Laudrup mas era muito manso, Platini mas era muito francês, Boniek mas era muito cavalheiro, Rummenigge (o Karl-Heinz) mas era pouco sanguíneo, Zico mas era pouco venenoso, Scifo mas era muito frágil. Nenhum reunia todas as qualidades que cada um de nós apreciava num futebolista, Maradona não só conciliava todas essas qualidades em 1,66 de pessoa mas exponenciava-as como ninguém.

O ‘barrilete cósmico’ marcou a nossa infância e a nossa concecão de futebol. Maradona transformou o futebol num representação teatral, graciosa bailarina em bicos de pés que quase flutuava no relvado ou cão raivoso (atenção aos 0:34’’) se lhe pisavam os calos, criança de sorriso rasgado ou de cólera incontida após um golo. Maradona amava a sua seleção como nós amamos a mulher da nossa vida, carregou o seu país ao colo até atingir a maior consagração do futebol mundial, provou que aos seres humanos determinados não se consentem limites, trouxe ilusão e encanto ao meu passatempo preferido, coloriu a minha infância.

Foi, é e será o melhor jogador de futebol de todos os tempos e é por isso (e só por isso já basta) que apoiarei sempre a Argentina, desde que não jogue com Portugal.

 

PS – Impossível evitar os pêlos em pé e uma lágrima comovida ao ver os filmes do Golo do Século e da Gloriosa. Tremendo!

PS II – Eu? Não tinha nada do Maradona, tinha mais do Dasaev.

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

A Rita

Cidade Capital
A Rita esteve em Varsóvia!
- Uau, fantástico... E quem é a Rita? - pergunta o leitor, se calhar intrigado por dar tanta importância a uma portuguesa na Polónia. Como se eu estivesse num salão da Ferrari e ficar todo contente por ter encontrado um Fiat 127.
A Rita é uma das pessoas que me ensinou a ser professor de Língua Portuguesa, se é que já atingi tal estatuto. É uma das pessoas que me ajudou na integração na Comunidade Portuguesa, que me amparou em momentos mais periclitantes e que me acompanhou nos primeiros passos na Cidade Capital. Juntamente com o Mário, a Rita foi parte integrante duma tríade de portugueses responsáveis pelo ensino do idioma lusitano numa das escolas de línguas mais conceituadas da cidade e fez parte crucial dos meus primórdios neste país. Graças a ela conheci pessoas e lugares, aprendi usos e hábitos, pude funcionar com mais facilidade. É uma pessoa pela qual eu guardo um carinho especial e que terá sempre um lugar diferente no meu grupo de amigos varsovianos.

Os meus primeiros tempos na capital polaca foram passados na companhia da minha (ex-)ex-namorada, dias difíceis porque não conhecia ninguém e Varsóvia assemelhava-se a um enorme formigueiro onde as pessoas nem sequer se cumprimentavam e não tinham interesse em conhecer outras pessoas. Conheci o Mário e a Rita quando procurava emprego, o Mário fez-me a entrevista e abriu-me as portas da Escola Bravo e a Rita mostrou-me o funcionamento da empresa e preparou-me para enfrentar turmas de curiosos alunos. Foram duas importantes muletas num período menos estável da minha vida, numa altura em que as saudades de Faro ameaçavam minar os planos de triunfo na Polónia. Eles, sabendo o que sofre um português no começo da sua aventura polaca, pegaram em mim e mostraram-me as coisas boas que existem em Varsóvia, levaram-me a sítios bonitos, proporcionaram-me experiências muito giras e que eu desconhecia por completo (um marcante passeio de bicicleta por Praga Norte no tempo em que ainda havia a feira junto ao Estádio, por exemplo) e, o mais importante, apresentaram-me portugueses. Foi a partir desse momento que a minha vida mudou, quando conheci portugueses em Varsóvia. Obviamente que nem todos eles se revelaram interessantes, como em todos os povos há sempre pessoas com quem temos mais afinidades que outras, pessoas que depois se tornam mais relevantes que outras, mas a presença de compatriotas numa paragem tão afastada do berço é importantíssima no plano da adaptação dum recém-chegado como era o meu caso. Graças à Rita conheci o meu melhor amigo (um mano!) John, a minha maninha algarvia Sónia, um outro amigalhaço que é o Ricardo e foram estas pessoas que formaram a minha base de apoio. A Sónia entretanto foi para os Estados Unidos mas o Ricardo e principalmente o John continuam cá e compõem aquele forte onde sei que me posso abrigar em caso de tempestades.

A Rita veio a Varsóvia!
Quantos lamentos eu ouvi dela, que os polacos eram isto e aquilo, cheios de defeitos. Eu rebolava-me a rir porque entretanto já me tinha lançado na noite a todo o pano com elevada rotatividade de parceiras e não sofria de todo do mal dela, pelo contrário, às vezes até tinha problemas de agenda porque os encontros sobrepunham-se. E ela protestava, barafustava, guerreava comigo porque eu era um lambaraz e só tinha sucesso porque elas não percebiam o que eu lhes dizia. Uma vez encontrei-a com uma data de portugueses perdidos de bêbados no antigo Przekąski Zakąski, eu fui com uma amiga para a apresentar aos meus amigos patrícios e revelou-se um erro. A Rita apanhou uma piela de tal maneira que não se aguentava nas canetas, agarrava-se a mim para não cair e a minha amiga começou a desconfiar, pensava que eu queria uma no papo e duas no saco e ameaçou abandonar a discoteca para onde todos fomos em seguida. A duras penas consegui persuadi-la a ficar, que a Rita era apenas uma colega de trabalho e que o meu interesse era nela. Segundos depois de a ter convencido eis que a Rita protagoniza um episódio hollywoodesco, desequilibra-se e prega uma punhada na garrafa de cerveja que a minha companhia segurava, salpicando-a de cima a baixo, ao que se seguiu um épico espalho na mesa vizinha. Dividido entre a vontade de rebentar a rir e hipotecar o engate, abandonar a bêbeda para salvaguardar a minha prevista cópula ou fazer a coisa certa e ajudar a amiga lisboeta acabei por açaimar as hormonas e chamar um táxi para a Rita, coisa de que ela nem gozou porque fugiu incognitamente da casa de banho enquanto o chofer de praça esperava por ela sendo que o seu regresso a casa se ainda mantém envolto num espesso manto de mistério, tanto para mim como para ela.

A Rita voltou a Varsóvia!
Grande companheira, do tempo em que ganhávamos pouco mas ríamos muito. Bastante do meu êxito e da minha paixão por esta terra se deve a ela. Volta sempre, miguinha!

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

Jaruzelski, o general da Lei Marcial

Wojciech Jaruzełski Wojciech Jaruzelski, o último Presidente comunista da Polónia, morreu este domingo aos 90 anos de idade vítima de complicações relacionadas com linfoma. Figura sinistra e sombria, traço acentuado pelos óculos escuros que sempre usava devido a ter sofrido cegueira de neve em adolescente, o general Jaruzelski ficou infamemente conhecido a nível internacional por ter declarado em dezembro de 1981 a Lei Marcial no papel de líder da Conselho Militar de Salvação Nacional, uma decisão que justificou em 1992 numa entrevista a um jornal alemão:

Era a estratégia lógica daquele momento porque os interesses da União Soviética na Polónia estavam a ser ameaçados pelas movimentações de Lech Wałęsa e o Kremlin ponderava invadir o país porque temia que o Solidarność fizesse um golpe de estado

Estas afirmações colidem com o resultado da reunião do Politburo, três dias antes da imposição da Lei Marcial, na qual o líder do órgão Yuri Andropov, acossado pelas despesas da guerra no Afeganistão, foi claro:

Não podemos assumir o risco de mandar tropas para a Polónia. Não sei qual vai ser o resultado desta situação mas se o poder tiver de cair nas mãos dos sindicalistas, que caia porque nós não vamos intervir sob pena de nos serem infligidas mais sanções económicas por parte dos países capitalistas, sanções essas que não conseguiremos suportar. Concentremo-nos no nosso próprio país, essa é a posição correta.”

Fragilizado pelas constantes greves internas e pela perda de apoio de Moscovo em consequência da nova política de reformas implantada por Mikhail Gorbachev (o líder soviético não tinha interesse em envolver-se em outro conflito além-fronteiras por temer contestações idênticas às sofridas aquando da Primavera de Praga), Jaruzelski acedeu em encetar conversações com o Solidarność, uma decisão que se revelaria crucial para o futuro do país. Na mesa-redonda triunfou a ideia dos sindicalistas de legalização das suas organizações e convocação de eleições livres para o Senado, o general mais tarde abandonaria todos os cargos políticos e militares, seria acusado de crimes contra a Constituição e contra os Direitos Humanos, acusações posteriormente retiradas em virtude da sua idade avançada e acentuado declínio do seu estado de saúde e viveria o resto dos seus dias numa vivenda no bairro varsoviano de Mokotów.

Jaruzelski viveu o tempo suficiente para ver a conversão da Polónia à economia de mercado e a todas as mudanças que o país experimentou, testemunhou Jaruzełsk e Wałęsa em 2005 - Foto PAPa entrada do país na NATO e na União Europeia – facto que comemora dez anos – e assistiu às celebrações dos 25 anos do Acordo assinado a 4 de abril  de 1989 que lançou as bases para a abolição do comunismo na Polónia além de ter sentido o crescimento da importância da Polónia como parceiro comercial e estratégico da Europa Ocidental. Mais tarde reconheceria que o “comunismo falhou” e assumir-se-ia social-democrata apoiando Aleksander Kwaśniewski nas eleições presidenciais de 1995 contra Lech Wałęsa, eleições ganhas pelo primeiro.

Os polacos têm uma opinião geralmente negativa do general, principalmente aqueles pertencentes à ‘Geração Solidarność’. Não lhe perdoam o seu envolvimento enquanto Ministro da Defesa nos massacres de 1970 quando o exército avançou sobre manifestantes desarmados e de lhes ter mentido sobre a ameaça duma invasão soviética que nunca esteve nas cogitações do Kremlin. Ironia suprema, Wojciech Jaruzelski morreu no mesmo dia em que os polacos, aliás, 22.7% do eleitorado polaco escolhia os seus representantes no Parlamento Europeu, uma instância na qual o general nunca esperou ver a Polónia. Os seus compatriotas foram lestos a reagir à notícia da sua morte:

Jaruzelski levou a expressão ‘ir à urna’ demasiado à letra

sexta-feira, 16 de Maio de 2014

Estudo sobre a nova emigração

No âmbito de um projeto de investigação sobre a emigração portuguesa atual, “REMIGR: A Nova Emigração e a Relação com a Sociedade Portuguesa”, financiado pela FCT  e desenvolvido por uma equipa da Universidade de Lisboa, da Universidade de Coimbra e do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, o ‘mishanapolonia’ foi contactado no sentido de divulgar um inquérito online. Os objetivos deste projeto de investigação em causa são: conhecer o perfil dos portugueses residentes no estrangeiro, as suas trajetórias migratórias, os fatores que impulsionaram as saídas, as suas intenções de mobilidade, e as suas relações com Portugal.

Considero uma pesquisa interessante e o testemunho de jovens emigrantes pode ser muito útil para que se atinjam os objetivos dos responsáveis. Caso o leitor queira dispensar alguns momentos a responder ao inquérito, eis o link: http://tiny.cc/remigra

O pessoal agradece.