quinta-feira, 18 de maio de 2017

O Salvador da (nossa) pátria

Salvador SobralQuando se começou a falar nele, logo que ganhou o Festival RTP da Canção, concurso que já achava defunto tal a falta de interesse que despertava no país, comentei na publicação de um amigo no facebook: “O tema é bonito, a voz diferente, a postura em palco não sei se vai colar porque não é muito convencional. Mas pronto, o povo precisa de esperança e nós somos todos geneticamente sebastiânicos.” Ou seja, reconhecia na canção algum potencial mas duvidava que a apresentação do intérprete cativasse os poderes decisórios do Festival da Eurovisão. Nada que me abalasse o pífaro porque há muito tempo tinha deixado de acreditar na capacidade portuguesa de construir uma canção que arrebatasse o troféu e nas faculdades mentais de jurados que elegeram monstros sagrados do nacional-cançonetismo como Rui Bandeira, Tó Cruz, 2B (quem?) ou Leonor Andrade como representantes do retângulo luso na Europa da música. No entanto não fui capaz de ignorar todo o hype em torno do tema de 2017 e percebi que este ano a canção portuguesa estava entre as favoritas para ganhar. Movido pela curiosidade sentei-me no sofá para assistir ao certame, aproveitei o facto de não morar em Portugal para contribuir com o meu voto, a Lena associou-se por solidariedade e resultou que Salvador Sobral conquistou pela primeira vez o primeiro lugar para Portugal no Festival Eurovisão da Canção.

Felizmente enganei-me. Felizmente Portugal não foi medíocre. Felizmente Portugal ousou. É justamente isto que acontece quando os portugueses ousam – triunfam! A delegação portuguesa apostou num visual sóbrio com enfoque único e exclusivo no que realmente importava que era a canção, estratégia que contrastou com as coreografias espalhafatosas (terei visto o Macaco Adriano a dançar durante a canção italiana?), os fogos de artifício e o guarda-roupa de luxo de muitos artistas que pisaram o palco Eurovisão ucraniano e que distraiam as atenções dos telespetadores colocando-os na incómoda situação de distribuir atenção por diversos fatores.

Pode-se gostar ou não da canção e de Salvador Sobral, pode-se concordar ou não com as declarações por si proferidas após ter sido consagrado vencedor do Eurofestival, mas tem-se de dar valor a um português que arriscou desviar-se da mediania aborrecida e estéril que costuma ser enaltecida em Portugal. Nada de grande foi criado sem ousadia e o arrojo de Salvador Sobral e o seu círculo foi o que arrebatou jurados e votantes.

Parabéns, então, a um português ousado. E, pegando também no que sucedeu há dez meses em França, que todos os portugueses reflitam no que pode acontecer se um dia simplesmente… ousarem.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Gosto do Porto – Da série “Coisas que nunca pensei um dia dizer”

FrancesinhaA Majówka, período que abrange os feriados de 1 e 3 de maio mais as eventuais pontes, é uma altura em que muitos polacos viajam para destinos turísticos, seja para apanhar sol em paragens mais a sul ou para férias na neve em destinos de altitude como os Alpes ou as montanhas vizinhas da Eslováquia. Quando o calendário é generoso e oferece uma semana de férias é vê-los a fazer malas e meterem-se estrada fora para a Mazúria, para o Báltico ou eventualmente para fora do país aproveitando as ofertas “last minute”. Eu também costumo aproveitar o fim de semana prolongado para viajar e conhecer mais sobre a Polónia, o ano passado pus a Lena e a nossa Yorkie dentro do carro e fomos desbravar o noroeste polaco na zona de Szczecin e Świnoujście. Este ano, como um amigo do Liceu pôs a corda ao pescoço e convidou-nos para assistir à execução, apontámos a agulha mais para sudoeste e fomos ao norte de Portugal, concretamente para o Porto e o Alto Minho.

Não ia ao Porto há mais de uma vintena de anos, acho que ainda não tinha carta de condução na última vez que tinha estado na Invicta, então as minhas impressões eram fundamentadas no Porto dos anos 90. Uma cidade sombria, sorumbática, suja, decrépita Rabelos e gaivotasapesar de reconhecer nas suas gentes uma afabilidade ímpar e de ser apreciador da sua cozinha robusta. Na altura eu tinha uma certa aversão a cidades grandes e o Porto teve uma crítica negativa talvez por esse motivo também, eu não apreciava a ideia de utilizar transportes públicos dentro da própria cidade para ir do ponto A ao ponto B até porque em Faro o mais que se fazia em termos de transportes públicos era apanhar o barco para a praia. Por isso o Porto sempre teve a chancela negativa de ‘cidade grande’, ou seja, um daqueles formigueiros onde o filho da minha mãe nunca há-de morar. Ainda por cima chove sempre. Nem pó!

Passaram-se os tempos e este vosso amigo acabou por se radicar numa cidade maior do que Faro e bem maior do que as maiores cidades de Portugal. Ao contrário do que ele próprio preconizou, adaptou-se lindamente à cidade grande e apesar de continuar a sentir-se um small town boy deixou cair a ideia antiga de que as cidades grandes não são boas para se viver. Isso contribuiu para que o regresso ao Porto tenha sido uma extraordinária surpresa. O Porto é uma cidade com todas as características duma cidade grande sem ser muito grande, as zonas icónicas estão na sua maioria a uma distância que pode facilmente ser percorrida a pé. O castiço Bolhão onde cada banca de peixe é um palco de teatro, a pitoresca Ribeira com as caves de Gaia a uma braça de intervalo, a chique Rua de Sta. Catarina com o Coliseu a dois passos, os famosos Aliados com o altivo edifício da Câmara Municipal a reinar, os imponentes Clérigos, a solene Universidade, a própria Casa da Música, a movimentada Trindade, a majestosa Estação de S. Bento, a belíssima livraria Lello, tanta coisa bonita que pode ser vista e visitada sem termos de pegar no carro ou metermo-nos em autocarros. Até as pronunciadas subidas e descidas da Invicta se tornam bem-vindas depois de engolirmos uma suculenta francesinha ou uma pratada de bacalhau à minhota (ou de tripas, que na minha terra se chama ‘dobrada com feijão branco’). E o sotaque? Bairrista, tradicional, genuíno como só as zonas típicas o têm. Há qualquer coisa de adorável ao ver uma Rua de Santo António adolescente a gritar para outra “Ó cuaralho, és bourra cumá piça!” e caírem as duas na risada ou como eu ouvi no metro “Ó feilha, agora num aiágua!”. Não há pretensiosismos, não há vanglórias. Há o que há e é-se o que se é, seja o que for. É autêntico, é próprio e eu gostei muito disso. Ah, e não é nada caro! Tirando o pequeno-almoço no Majestic onde tive de ir só para o poder comparar com o Café Aliança (é bom mas não é bombeiro, o Aliança do tempo do meu avô não lhe passava cartão).

No pouco tempo que estivemos no Porto, porque devido ao casamento do referido amigo farense em Viana do Castelo só ficámos duas noites, a Lena ficou encantada com as ruelinhas estreitas e com os painéis de azulejos que revestem as paredes de alguns prédios - mesmo que o fumo dos escapes os cubra de fuligem. Pensou até por breves momentos em investir num prédio antigo e restaurá-lo para depois vender ou habitar. Não iria tão longe ao ponto de a encorajar a tomar uma empreitada dessas em mãos e mudar-me para a Invicta, apesar de não duvidar que se um algarvio triunfa nas neves também o faria nas chuvas (como alguns meus conterrâneos têm feito) mas ficou decidido que voltaríamos para desfrutar mais e melhor da cidade. Se calhar até pode ter sido por termos apanhado dias de sol e por termos ficado hospedados na Praça da Ribeira, o meu subconsciente deve ter pensado que eu estava de novo na cidade da Doca e descarregou endorfinas com fartura no organismo, mas esta cidade e as suas gentes ganharam a minha simpatia e até mesmo um fã.

Agora… não comecem a meter macacos na cabeça. Azul só o do Inter Warszawa.

terça-feira, 28 de março de 2017

Postais da Polónia - 22

A Rotunda antes do encerramentoFoi quando corria o verão de 2008 para o fim, numa fase em que eu gozava fortemente os prazeres da vida de solteiro em Varsóvia, que conheci a Sylwia, uma deslumbrante loura de olho azul petróleo. Estava a dançar no Klubokawiarnia, poleiro garantido das minhas noites de quinta a sábado, ela passou por mim a primeira vez e eu fiquei de boca aberta. Era a figura mais bela que eu alguma vez tinha contemplado, o adjetivo “linda” não lhe fazia jus. Apesar de se dirigir à casa de banho com uma garrafa de Carlsberg na mão, percebi nela uma graciosidade que nunca tinha encontrado, uma feminilidade tão intensa que imediatamente me cativou. Fiquei apaixonado. É certo que naquele tempo eu apaixonava-me com a mesma frequência que o Bas Dost empurra o repolho para o saco, mas aquela mulher matou-me. Quis meter conversa com ela mas como na altura não falava polaco decidi que arriscava em inglês se ela à volta me desse chance. E ela voltou, passou por mim, olhou e seguiu em frente. Desanimei. Ela voltou, passou mesmo à minha frente mas não olhou. Fiquei fulo, “esta gaja está a brincar com o fogo”. Voltou mais uma vez, olhou para mim… e sorriu. “Já foste!”, pensei. Fui atrás dela, encaixei-a a um canto e apesar de não falar polaco e dela não falar inglês não descansei enquanto não fiquei com o número de telefone dela. Afinal quem tem boca vai a Roma e Varsóvia até fica mais longe do que a capital italiana.

Mais tarde combinámos um café para nos conhecermos melhor e tal e coiso e através de SMS trocadas com a ajuda dum dicionário obsoleto e da péssima assistência que o Google Translate prestava ao tempo decidimos encontrar-nos na Rotunda, o ponto de encontro favorito dos varsovianos, que fica não muito longe da estação de metropolitano Centrum. Como o nome indica, é um local central e de fácil acesso, onde o pessoal gosta de se reunir antes de atacarem os bares, restaurantes ou boîtes da Baixa… digo, do Centro. Nesse tempo o meu compincha Mário morava num edifício alto em frente ao Palácio da Justiça, menos de um minuto a pé do ponto de encontro com a Sylwia, por isso passei por casa dele para uma cerveja e matar um pouco de tempo conversando acerca das minhas eufóricas impressões sobre o meu primeiro verão passado em Varsóvia. Uma conversa que ele ouvia com satisfação por já saber do que a casa gastava – ele já tinha alguns verões em Varsóvia no cabedal e todas asExplosão de 1979 aventuras que lhe contava ele já as tinha vivido na primeira pessoa. Quando faltavam uns cinco minutos para a hora recebo uma mensagem com um texto que compreendi à primeira mesmo que naquela época o meu domínio de polaco fosse um pouco mais do que inexistente e que rezava mais ou menos assim:

- São 19:55 e não estás cá, por isso vou para casa.

Cuspindo a cerveja saí disparado à medida que escrevia uma macarrónica desculpa em polaquinglês e valeu-me que a rapariga teve paciência, esperou mais meio minuto por mim e o filme teve um final feliz. Com esta lição aprendi que a pontualidade portuguesa não tem lugar na Polónia se queremos cair nas boas graças das raparigas e que até é conveniente chegarmos antes do tempo combinado se queremos faturar pontos de simpatia.

Foi com esta aventura que me estreei na “Rotunda”, um singular edifício em forma de círculo que servia de dependência do banco PKO desde 1966 e que era o sítio favorito para os varsovianos se encontrarem devido à facilidade de acessos providenciada pela proximidade de paragens de autocarro e elétrico bem como da já mencionada estação de metropolitano. Situado na rotunda Dmowskiego, unanimemente considerada o “miolo” de Varsóvia, a “Rotunda” ficava à entrada da rua pedonal Chmielna por onde se chega à zona nobre da rua Nowy Świat e aos seus restaurantes e cafés. Seguindo o bom hábito varsoviano combinei muitas vezes encontrar-me com pessoal naquele lugar, às vezes chegava mais cedo para ver pessoas amigas saudarem-se calorosamente, namorados abraçarem-se com fervor, desconhecidos cumprimentarem-se pela primeira vez. Era uma coisa muito varsoviana que mesmo sem ser nada de especial representava para mim um passo importante na minha adaptação e no reconhecimento de Varsóvia como um dos seus, sempre que eu propunha o rendez-vous na “Rotunda” a ideia era imediatamente aceite e isso deixava-me com a impressão que as pessoas me davam crédito.

Rotunda atualmente - Foto Gazeta Wyborcza onlineEscrevi o parágrafo anterior dominantemente no tempo pretérito porque a “Rotunda” já não existe. O edifício sofreu com a violenta explosão de gás de 1979 – acidente onde perderam a vida 49 pessoas. A estrutura ficou de tal forma abalada pela violência da explosão que se considerou reconstruir o edifício de raiz, decisão que se revelaria crucial para o destino da Rotunda; o edifício ficou marcado para demolição visto a fachada do prédio ter sido alterada no restauro após o acidente e não coincidir com o traçado original. A deliberação foi tomada em 2015 e os trabalhos de desmantelamento da Rotunda começaram este ano. Porém, o organismo camarário responsável pela conservação e restauro do património revogou essa decisão atendendo a que a fachada corresponde de facto ao que consta no plano original e os trabalhos foram suspensos deixando a Rotunda com um aspeto de prédio despido de vida, um triste esqueleto metálico no âmago da Cidade Capital.

Dizem que há planos para revitalizar a Rotunda e torná-la de novo no ponto de encontro oficioso dos Varsovianos, dizem que há investidores decididos a recuperar um edifício que é inevitavelmente um símbolo de Varsóvia. Pelo valor sentimental que a Rotunda tem para mim e para todos os que diariamente vivem Varsóvia, é imperioso que se recupere a Rotunda e que se feche a cratera que se rasgou em pleno coração da capital polaca. Varsóvia sem a Rotunda é como Faro sem o Largo da Palmeira.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Quando comprar não significa necessariamente que se traga compras para casa

Há semanas eclodiu uma discussão, leia-se uma civilizada troca de pontos de vista, entre mim e uma aluna a propósito da tradução em polaco da palavra portuguesa “comprar”. Tudo isto porque eu traduzi o verbo de duas maneiras diferentes, contemplando os aspetos perfetivo e imperfetivo que tanto azucrinam os estrangeiros que tentam aprender polaco. Tudo porque eu disse:

- “Comprar” significa “kupić” (perf.) ou “kupować” (imperf).

Isto detonou a discussão e a pergunta da estudante.

- Mas, espera. Significa “kupić” ou “kupować”?

- (meio encavacado) E há diferença?

- Claro. “Kupić” usa-se quando tu compras alguma coisa e  “kupować” para o processo de comprar sem que necessariamente compres alguma coisa.

Aí fiquei completamente baralhado. Como é que se pode comprar sem necessariamente comprar? Ou compras ou não compras, não pode haver um verbo para “não comprar”, não há verbos que definam “não-acontecimentos”. Ainda debati este tema com mais uma ou duas pessoas até que finalmente me elucidaram e eu cheguei à conclusão de que este “kupować” significa algo como “ir às lojas”, tipo o nosso português “ver as montras”. Ou seja, não declarar a intenção de comprar mas também não descartando uma eventual compra caso se veja algo que se agrade. Andei matutando nesta situação até uma outra aluna col14467aocar luz sobre o caso e explicar-me esse tal processo de ir às compras sem comprar nada.

- São resquícios dos tempos socialistas, Nuno. Naquela era as pessoas iam às lojas mas não sabiam o que comprariam porque não sabiam o que lá havia. Podias ir com a intenção de comprar carne e voltar com arroz ou açúcar, podias sair de casa para comprar pão e regressar de mãos a abanar. Nunca se sabia o que se ia comprar porque nunca se sabia o que a loja tinha naquele dia. A única coisa que havia sempre era vinagre.

É curioso perceber como as culturas criam palavras para definir determinadas ações ou factos. Como em Portugal nunca experimentei dificuldade em comprar o que queria, desde que tivesse dinheiro, não imaginava que existisse em alguma língua do mundo um verbo que definisse “não-comprar” ou “comprar do que houver podendo acontecer que não se compre nada”

Cada vez me surpreendo mais com esta gente.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Adeus Tarchomin - Virar de página

Em 2013 iniciei um ciclo importante na minha estadia na Polónia com a minha mudança para o bairro periférico de Tarchomin, situado a norte da margem leste do Vístula. Após quatro anos de muito feliz permanência em Tarchomin chegou a hora de encaixotar os pertences na sequência do juntar de trapinhos com a Lena e aqui estou eu a caminho de Bielany, noroeste de Varsóvia, para uma nova etapa de vida.

mudançaAo deixar aquela que foi a minha casa mais duradoura na Polónia não consigo evitar um profundo sentimento de saudade, aquele tão português misto de perda, afeto e nostalgia. Foi no nº 6 da rua Kamińskiego que dei um salto gigante na minha adaptação a este país. Habituado que estava a permanecer debaixo da asa protetora das mulheres com quem vivi, nunca tive a curiosidade (por não ter tido necessidade) de me envolver nas situações práticas do dia a dia como negociar um contrato de arrendamento de casa ou agendar a troca de pneus aquando da mudança de estação. Sofri as conhecidas “dores de crescimento” enquanto passava pelo inevitável período de transição entre o gorado plano inicial de vida com a (entretanto tornada ex-)namorada e o mundo de interrogações que enfrentava no novo pouso. Em Tarchomin, tirando a questão do registo de permanência para o qual tive a ajuda preciosa da Matylda, tive de me virar sozinho e sem rede. Se Natolin foi como a minha universidade em Varsóvia, Tarchomin foi o meu primeiro emprego.

Gosto muito desta minha já praticamente ex-casa. É um T2 com mais de 80 m2 , uma casa de banho maior do que muitos apartamentos do centro do Varsóvia, varanda devidamente orientada para ter a antena satélite instalada e se poder assistir aos jogos do Sporting e até – para indescritível alegria minha – do Farense. Fiz dele um refúgio perfeito tanto para a preparação de aulas e atuações, a tranquilidade dum bairro longínquo permitia melhor concentração no trabalho, como para a libidinagem própria dum rapaz solteiro. Tinha quarto para os hóspedes de Faro, acolhi a minha mãe por algumas semanas, estava contentíssimo. Cheguei uma ocasião a pensar que tinha efetivamente conseguido alcançar o tipo de vida que queria e que nada me faria mudar de rumo.

Mas como diria um dos poucos heróis portugueses contemporâneos (1) a vida tinha planos próprios e tratou de alterar os planos que eu lhe tinha reservado. No menos que esperava eis que surge uma mulher. É uma coisa engraçada, que sempre que os homens pensam que as coisas estão encarriladas surge uma mulher para baralhar as cartas e as dar de novo. Como se na régie desta série de televisão que é a vida o realizador se lembrasse de introduzir um elemento novo, um personagem convidado para fazer subir as audiências do programa. Não percebo se é por sadismo de quem mexe os cordelinhos, se para manter o equilíbrio universal uma vez que estava a divertir-me tanto (teria eu esgotado o plafond de hedonismo?) mas no melhor que eu estava a curtir a minha existência surgiu uma mulher. Não qualquer mulher, porque com certeza não seria uma mulher qualquer que seria capaz de pôr este vosso escriba a ponderar nova mudança de estilo de vida e partilhar teto, mas uma mulher excecional.

Assim, por força das vicissitudes do amor, abandono aquele que foi o meu covil durante quatro intensos anos. Anos de sofrimento, anos de gozo, fundamentalmente anos de crescimento e maturação. Graças a Tarchomin estou agora mais apto e confiante, sinto-me mais capaz de triunfar em Varsóvia e o facto de me mudar para a casa da Lena é uma prova disso mesmo – de que é hora de abraçar outros desafios.

Que os ventos continuem a soprar na mesma direção, assim seguirei em frente.

(1) – Prof. Agostinho da Silva

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Primus Inter Pares - O Platinium fechou

Num espasmo da minha cada vez mais comatosa carreira de DJ, no passado mês de dezembro fui convidado para atuar em alguns clubes de Varsóvia. Foi uma oportunidade para atualizar a biblioteca, desempoeirar as pen-drives e ver o que se passa na noite varsoviana pois a vida de homem comprometido não permite, ou não devia permitir, grandes farras. Uma dessas festas foi numa das minhas catedrais de desbunda, o Platinium

Flyer festa 40 anosSoube com tristeza que vai encerrar e senti um aperto na garganta quando desci da cabine, auscultadores e discos na mala, sabendo que não ia mais voltar àquele lugar. Um clube onde quis tocar mal entrei pela primeira vez, um autêntico santuário de mulheres deslumbrantes e sensuais, verdadeiras feiticeiras de luxúria em dança furiosa e fascinante que me fizeram pôr em causa todos os conceitos que tinha sobre beleza e graciosidade. O Platinium sintetizava a noite da Europa de Leste,  ou Europa Central, como os polacos preferem. Era um supermercado de emoções e prazeres onde os relógios perdiam os ponteiros e as carteiras voltavam ocas para casa. Os olhares femininos batiam muito mais que os shots de vodca, esbofeteavam, arranhavam, despiam e lambiam para depois chutarem contra a parede. Os lavabos dos homens ficavam em frente dos das mulheres e cruzavam-se olhares atrevidos enquanto elas retocavam o batom e eles ajeitavam a fivela do cinto. O house era sempre de altíssimo quilate e na pista os suores corriam como gins e uísques derramados no gelo, toques e abraços, línguas e cabelos, ombros e coxas. O pecado em saltos altos e decotes agudos, os táxis entregavam raparigas bonitas e arranjadas e recebiam feras loucas e famintas, era como uma câmara de transformação onde se dissolviam todos os filtros e logo na primeira noite percebi que valia (quase) tudo.

Várias vezes voltei como cliente e várias vezes embriaguei-me com álcool e pernas, várias vezes nessas várias vezes olhava com gula para a cabine do DJ e imaginava-me por trás dos controles, maestro daquela orgia de sons e perfumes, a ditar de que forma as ancas se mexeriam, a pautar o ritmo dos impulsos, a decidir quando eles podiam ir fumar um cigarro e quando elas voltavam para a pista para que eles viessem atrás delas. Várias, tantas, tantíssimas vezes me perdi e encontrei naquele chão profano procurando compreender se seria melhor tornar-me o chefe da festa musical ou apenas deleitar-me com os lindos frutos que aquele pomar oferecia sem descanso... até que um dia (obrigado, Zinha!) consegui chegar à fala com quem contratava os DJs e após uma audição a um trabalho meu recebi um convite para fazer o warm-up (primeiro DJ que prepara o público para a atuação do DJ principal) de uma noite de sexta. Foi como se tivesse recebido uma proposta para fazer testes no Sporting! Fiquei tão contente que dormi uma média de quatro horas por dia na semana antecedente à atuação porque todas as noites aperfeiçoava o set. No Platinium tive a sorte e a honra (se calhar algum mérito, modéstia à parte) de trabalhar no ano em que o clube foi considerado Best Club in Warsaw, o que não é fácil considerando a concorrência. Fiz parte da equipa de DJs no clube mais mediático da capital da Polónia, cumpri o sonho de mandar numa festa no melhor clube da cidade e como cereja no topo do bolo em dezembro de 2013 recebi os meus amigos e atuei para eles na inesquecível festa dos meus 40 anos (lembram-se daquele soberbo passeio de limusine?).

Na minha última atuação senti que o Platinium já se despedia de mim, não havia muita gente porque os proprietários desinvestiram e não apostaram mais em marketing desde que o negócio da venda ficou fechado. Porém mesmo a meia-casa, mesmo já no inverno duma vida pujante e memorável, lá de cima da cabine consegui de novo ver uma pista cheia de toques e abraços, de línguas e cabelos, de ombros e coxas. Consegui ver de novo os meus amigos perdidos de bezana a enfardar barcos de vodca-Red Bull como se não houvesse amanhã e um blogueiro algarvio entalado entre o balcão do bar e o voluptuoso par de seios e os lábios de uma sueca (pois...), garrafas de vodca espetadas de cabeça para baixo nos frapés da zona VIP, muita mas mesmo muita extravagância.

O Platinium fechou. Parte da minha identidade varsoviana partiu com ele.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Uma Algarvia na Polónia



Finalmente, depois de muitas hesitações, a minha mãe resolveu visitar a Polónia. Sempre lhe fez confusão a duração da viagem, quatro horas dentro dum avião para ela equivale a quatro anos para o mortal comum, mas como eu e a Lena íamos no mesmo voo a tortura foi menos dolorosa. Descolámos às 23:30, cruzámos a Europa durante a madrugada e aterrámos em Varsóvia perto das 5:00. Contrariando a minha dificuldade em adormecer em transportes consegui dormitar umas horas, tal não era a sonolência, e quando acordei olhei para os lados vi a minha namorada a dormir que nem uma pedra, porém quando virei a cabeça para a direita lá estava a minha estoica mãe de olho mais aberto que o mocho da anedota.

- Então, não dormiste? - Perguntei ao que ela acenou negativamente. Já ter entrado na aeronave tinha sido um progresso, tranquilizar-se ao ponto de passar pelas brasas a bordo será o passo seguinte.

Depois de duas semanas na Cidade Capital a minha mãe pôde desmistificar algumas ideias que possivelmente teria, pelo menos sabe agora que o verão em Varsóvia pode ser tão ou mais quente do que em Faro, que a minha casa não oferece risco de congelamento durante os rigorosos invernos polacos, que as imperiais nesta terra podem ser de litro, que o carrinho que era do nosso tio João continua estimado e bem tratado. Fascinou-se com os corvos e as gralhas, aves repulsivas na minha opinião mas exóticas para quem não convive com elas, agradou-lhe a largura e limpeza das avenidas, a imponência dos monumentos, a vitalidade da Cidade Velha, o tamanho das doses nos restaurantes. No dia do aniversário, a Lena levou-a a um restaurante grego onde às sextas se dança em cima das mesas depois do jantar e quando lá cheguei encontrei-as num pé de baile felizes da vida com dois mojitos semi-bebidos na mesa ao lado. Eu vinha cansado depois do treino e por isso contive-me na dança mas a cota respondia com vigor às solicitações da polaca, pulando e girando até que o gás se me acabou e dei por finda a rebaldaria quando o relógio caminhava para as duas da matina.

Tive o prazer de cozinhar para a minha mãe, obviamente com a ajuda inestimável da Bimby que surpreendeu pela praticidade – Para fazer um bacalhau à Zé do Pipo tinha de sujar alguns três tachos e aqui só se usa um aparelho – disse. Conheceu alguns dos meus amigos, foi ver um jogo do Inter, passeou pela cidade, provou pierogi e panquecas de batata, viu como se fazem pastéis de bacalhau em Varsóvia (cortesia do amigo Costa do Portucale) serenou ao fim de quase nove anos de incógnita e compreendeu porque gosto tanto de cá viver.

A próxima batalha vai ser trazê-la cá no inverno, não para que ela tirite de frio nem para provar a horrível cerveja quente, mas por causa da neve. É que para nós algarvios, a neve e o nevar é uma coisa de filmes de televisão. Eu estreei-me na neve quando já tinha 28 anos, a minha mãe viu neve em Faro quando tinha 5 ou 6, eu vi nevar pela primeira vez numa noite de novembro em Varsóvia, a minha mãe ainda não viu nevar. Pode ser que, agora que ela já conhece o caminho, seja mais fácil de convencê-la a embarcar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 24

A chegar à Ilha do FarolJá há muito tempo que não passava umas férias tão boas em Faro. Apresentei a minha cidade-berço à namorada, ela conheceu os meus amigos de infância e a minha família, curtimos um tempo que convidava constantemente a banhos de sol e de sal, participámos naquela que é para mim a melhor festa do Algarve (Columbus Boat Party) e desfrutámos imenso de Faro. Foi com misto de espanto e alegria que constatei a vitalidade e o dinamismo que Faro evidenciou enquanto eu lá estive, a primeira quinzena de agosto. A Baixa estava sempre cheia de gente de Faro e de fora, conheci estabelecimentos recentes com conceitos modernos e atraentes e que são obra e ideia de gente minha amiga, entre os quais destaco o requintado Mezzanine do João Tiago, o refrescante The Woods do Mauro e o elegante Aperitivo do Miguel Gião que continua a ter aquele toque de Midas que o distingue da concorrência. A nova unidade Chelsea perto da Zara e o disco-bar Castelo são dignas de menção honrosa, casas que oferecem predicados de bom-gosto não só aos farenses como aos visitantes. Um salto qualitativo enorme em comparação com o que Faro habitualmente tinha para dar e que acabou com a pergunta que sempre fazia: „Onde é que eu vou levar a moça?”

Fiquei orgulhoso e comovido, confesso, quando cheguei à Rua de Sto. António numa bela sexta-feira e vi esplanadas completas. Eu já estava habituado a ver a principal artéria comercial de Faro como uma rua-fantasma de lojas encerradas e anúncios de trespasses onde a caca de cão minava de forma perene o belo desenho de calçada portuguesa e o esplendor de casas como a boutique Pigalle ou as sapatarias Charles e Italus (o furor que fez aquele reclamo luminoso em forma de cruz) já só existiam no meu imaginário – uma era da qual vem o original e resistente gato de neons da Ótica Graça – porém subitamente deparo-me com um amplo leque de cafeterias e estabelecimentos comerciais pujantes de ofertas e cheios de fregueses. Até o velhinho café Aliança reabriu as portas com uma nova conceção mas preservando o charme ancestral próprio de um dos três cafés mais antigos de Portugal.

É uma dupla satisfação, esta de ver Faro a recrescer. Por um lado nota-se que o povo está mais animado, readquiriu a alegria que eu sempre lia nos rostos da minha gente mas que andava arredada devido aos últimos tempos austeros. Os restaurantes da ilha2013-08-03 01.19.49 do Farol e da Praia de Faro estavam cheios, na Festa da Ria Formosa era difícil encontrar lugar para sentar e comer. Está mais folgado, o algarvio. Está mais tranquilo, recuperou a vontade e a iniciativa, quer fazer coisas, jantar fora e ir a lugares, tem planos e projetos, abandonou o pensamento curto prazo e o “logo se vê”. Por outro lado não posso ficar indiferente a ver rapaziada que eu prezo tendo sucesso numa indústria tão competitiva como a restauração e numa terra tão ingrata para os seus próprios filhos como é Faro. As casas acima mencionadas são uma amostra dos novos ventos que sopram na minha cidade no campo do empreendorismo, novidades de risco porque priorizam a qualidade e o requinte à habitual chungaria que traz lucro fácil. É o caminho mais complicado mas aquele que na minha opinião enobrece tanto os que apostaram no nível elevado dos seus serviços como a cidade que ganha por ter estabelecimentos de tal categoria. O cliente é presenteado com atendimento e produto de classe, fica com vontade de voltar, todos lucram.

20160618_105905Por isso mando daqui um abraço de reconhecimento pela coragem àqueles que possuem uma visão inovadora e a noção de que Faro precisa de locais assim, bem como a ousadia de meterem mãos à obra e edificarem os seus projetos, e uma palavra de agradecimento por contribuirem desta forma para a prosperidade da minha terra. Graças à vossa determinação e audácia sinto-me melhor quando volto à nossa cidade e tenho mais opções para onde levar os meus amigos. Que nunca vos falte a inspiração.