quarta-feira, 22 de julho de 2015

Quando um copo de café com leite desperta a nostalgia

Já são quase oito anos a viver na Polónia e cada vez menos coisas me surpreendem neste país. Ao invés, é graças à adaptação e enraizamento cada vez mais consolidados que tenho conseguido aceder a propostas bastante interessantes e a ocasiões de realização profissional e pessoal que dificilmente (ou mesmo nunca) estariam ao meu alcance em Faro ou em qualquer outra terra portuguesa. A Polónia mostrou-me que tenho capacidade de pensar fora da caixa, fez-me crescer de uma maneira que eu não julgava possível, do ponto de vista emocional, sociológico, no plano das relações interpessoais e interculturais, se eu não tivesse vindo para cá não teria aprendido o que aprendi, não teria criado certas competências, não teria gozado o que tenho gozado, não aproveitaria as minhas potencialidades como tenho feito desde que assentei pé neste país. A Polónia tem dado inúmeras oportunidades, tem-me proporcionado condições incríveis para me desenvolver sendo também exigente na paga. Esta terra não dá nada sem receber algo em troca e do muito que já recebi houve coisas que também perdi por não ter sabido cuidar. Faz parte, aprende-se com os erros mas segue-se em frente porque amanhã o sol nasce outra vez.

Na Polónia já fui ator de televisão e teatro, professor universitário e tradutor, modelo fotográfico e diretor comercial duma empresa, comentador na rádio e na televisão, DJ e jogador de futebol. Não sei o que pôr no cartão de visita além da minha morada e do meu nome, esse elemento que revela a minha portugalidade ao mais desprevenido, que fala de mim e dos meus, que responde à pergunta 'de onde és'. O meu nome é português e eu venho de Portugal, a terra do fado, do mar e da saudade. Saudade: Essa palavra que, tal como o meu nome, não tem tradução em nenhuma língua. Esse bicho que morde sempre que pensamos que já morreu, quando já nos julgamos imunes ao seu veneno, que as suas radiações já não nos afetam. Tão ativo tenho andado de escola em festa, de estação de televisão em relvado que não me tenho lembrado de Faro - não que alguma vez em me esqueça do berço mas porque me sinto tão bem por cá que não tenho sentido necessidade de voltar à terra ou de nela pensar, mesmo que há sete meses que lá não vá.

Mas por muito tempo que viva na Polónia, por muito ar polaco que respire, por muitas palavras polacas que profira, por muitas mulheres polacas com que durma, por muitas vodcas polacas que beba, por muitos relvados polacos que pise, por muitos cidadãos polacos que eu ensine, por muita rua polaca que percorra, por muita neve polaca que sacuda do carro, corre e sempre correrá nesta minha aorta sangue português e de estirpe algarvia. Nesse tipo de sangue o bicho saudade faz o seu habitat natural e não há nenhum antídoto contra esse malvado. Por esse motivo, depois de ter encontrado um lugar no centro da Cidade Capital que serve galões praticamente iguais aos galões que eu bebia na pastelaria Bijou com o meu avô Luís, provavelmente o único benfiquista que eu consegui(ria) amar, este vosso escriba sentou-se à mesa e enquanto sorvia o café com leite recordou o seu terno e divertido avô, bigode à Errol Flynn, infalível com a bica depois de almoço na esplanada d'O Seu Café, notável músico e campeão regional de xadrez, batoteiro incorrigível no dominó e mestre das sopas de batata doce e frade, ficando trancado em casa de azia quando o Glorioso perdia (a minha avó não me deixou entrar em casa no dia dos 7-1, 'vai-te embora que o teu avô tá de beiço') mas garantido na visita à farmácia onde o neto sportinguista trabalhava caso o clube da Luz vencesse, certo que foi ele que me conduziu até esta cafetaria para que eu voltasse a sentir o bicho a morder, se calhar para que me lembrasse dele, de Faro e de todos os que não tenho perto de mim mas que de mim fazem parte inseparável.

E que estarão sempre comigo, nem que seja quando me voltar a sentar aqui para beber um galão.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Tarchomin – O retiro do guerreiro

Tarchomin à noite Escolhendo morar numa zona afastada, assumi a inevitabilidade de receber poucas visitas. Apesar de a minha casa ser bastante confortável – dois quartos, sala, cozinha e uma casa de banho que dá para acampar – e de acomodar gente com fartura, o facto de morar longe desencoraja as pessoas a aparecerem. Isto apesar de ficar a apenas um quarto de hora de carro do centro da cidade ou a 25 minutos se optarmos pelo metro e elétrico. O problema reside mais na preguiça das pessoas em fazer os tais 15/25 minutos do que propriamente o afastamento entre o ponto de partida e o de chegada, o que acho curioso ao comparar com os tempos em que eu era criança quando famílias inteiras visitavam outras sem aviso prévio. Lembro-me, por exemplo, dos Belchiores aparecerem na casa dos meus pais para um uísque para os adultos e jogos de tabuleiro para os miúdos ou de irmos a casa do Zé Guerreiro depois do jantar para os homens falarem de negócios, as mulheres falarem do que quer que elas tivessem para falar enquanto as crianças bazavam para o quarto ler livrinhos do Cebolinha ou jogar A Viagem de Marco. Também eram 15/20 minutos de caminho mas não era nenhum suplício, antes uma alegria receber pessoas pois era certeza dum serão animado.

Não considere, amigo leitor, estas linhas como queixa. A vida de um homem solteiro é bem mais preenchida do que se imagina pois a lida da casa é dividida por uma pessoa só e entre cozinhar, lavar louça, lavar e estender roupa, passar a ferro, fazer as compras, aspirar seis divisões e passar a esfregona em três delas (os quartos e a sala são alcatifados), limpar pó e uma limpeza aprofundada de cozinha e casa de banho pelo menos uma vez por mês, preparar ou corrigir aulas, pesquisar e organizar músicas, fazer o saco do treino/jogo e outras coisinhas devoradoras de tempo, pouco sobra para o verdadeiro lazer doméstico como espojar-se no sofá a ver um filme, ler um dos três livros que tenho em cima da mesa de cabeceira ou mesmo saber o que se passa nas redondezas do Tinder. Então, não receber visitas não é uma situação alegre mas também não é propriamente uma chatice. Moro em Tarchomin, no norte de Varsóvia, pertinho mas do outro lado do rio e só o nome do bairro causa logo estertores aos potenciais visitantes.

O que as pessoas não conhecem é o passado medieval e ilustre de Tarchomin. Com efeito, existem registos de que a zona onde moro hoje já era habitada por alturas do séc. XIII e posteriormente foi residência de famílias pertencentes à nobreza até aos séculos XVI e XVII. Tornou-se um polo de reunião dos Olędry, imigrantes protestantes de origem holandesa e alemã que fugiram das suas terras de origem devido a perseguições movidas pelos cristãos e que viveram em algumas zonas da Polónia com especial incidência ao longo do rio Vístula e nas margens dos seus afluentes criando povoações com leis e credos próprios.Rua Światowida

Na idade moderna e já no séc. XIX foi em Tarchomin que se construiu uma fábrica de vinagre que depois se tornou no maior produtor de adubos do país e no início do séc. XX foi igualmente em Tarchomin que se instalou aquela que se tornaria na maior empresa polaca do ramo farmacêutico, a POLFA. Apesar da distância geográfica até ao centro de Varsóvia, o meu bairro tem tudo o que me faz falta para viver tranquilo e satisfeito. O elétrico já chega a casa desde dezembro do ano passado, o que dá um jeitaço do camano nas noites de maior caudal de bebida. Há bombas de gasolina, farmácias e supermercados abertos 24/7, tenho um enorme passadiço ao longo do rio para as minhas corridas de início de época, existe todo o tipo de reparações e serviços domésticos, automobilísticos e até relacionados com vestuário e calçado ao dispor da população e hoje reparei que já começaram a abrir os caboucos para o primeiro centro comercial desta zona da cidade.

As pessoas franzem o rosto quando lhes digo onde moro. “Épa, isso é muito longe!” Mas quando percebem que se leva apenas uma vintena de minutos acabam por perceber que não é tão longe. E claro, quando veem o meu latifúndio domiciliário.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Falando de bola - balanço leonino de 2014/2015

O primeiro de muitos troféus A época futebolística terminou com uma vitória do meu Sporting na Taça de Portugal, vitória suada e sangrada como todas as vitórias deste amaldiçoado clube que não consegue alcançar um triunfo tranquilo, fazendo sofrer os seus adeptos com exibições descoloridas ou, quando as coisas até estão a correr de feição, arranjando maneira de complicar a tarefa até tudo se perder. Quis a Fortuna (e a competência dos sportinguistas envolvidos na Final) que desta vez a Taça vestisse de verde, sete anos depois dum improvável Tiuí ter dinamitado as cogitações dos corruptos de Campanhã. A conquista da Taça de Portugal confirma o percurso ascendente do Sporting iniciado com a eleição de Bruno de Carvalho como Presidente do Clube. O Sporting tinha encerrado a sua pior campanha desportiva num deplorável sétimo lugar, vivia em convulsão devido à contestação criada em volta da gestão de Godinho Lopes e as perspetivas não eram animadoras tendo em conta as frágeis finanças do Clube. Sem dinheiro, sem presença nas competições europeias, sem plantel com qualidade ou com valor de mercado, Bruno de Carvalho herdou um Sporting para o qual até eu, eterno otimista, preconizava soluções draconianas como a refundação do Sporting à imagem da Fiorentina. Felizmente a direção do Sporting tinha outros planos, reanimar o Clube, restaurar a sua credibilidade e ressuscitar a fé na equipa e com a ajuda dum treinador de eleição, Leonardo Jardim, perito em fazer muito com pouco, alcançou-se o milagre de colocar o Sporting na fase de grupos da Liga dos Campeões no ‘ano zero’ da nova Administração. Vendido o artífice do milagre (há quantos anos o Sporting não vendia um treinador?), Bruno de Carvalho acerta novamente na escolha do timoneiro com a aposta em Marco Silva, consensualmente apontado como um dos melhores treinadores da nova vaga e com resultados muito positivos na liderança dum clube pequeno. Entre ventos e tempestades ainda não clarificadas na totalidade, Marco Silva assina uma temporada muito boa batendo o recorde de pontos neste século, consentindo menos derrotas que o clube campeão, rubricando ótimas prestações na Liga dos Campeões com uma equipa alicerçada em jogadores da formação e confirma as suas potencialidades ganhando a Taça de Portugal, única competição nacional acessível ao Sporting em virtude do atraso no Campeonato e da Taça Lucílio Batista ter vencedor anunciado por decreto desde da sua criação, depois num jogo épico de bravura e caráter. A Gestão pouco ortodoxa de Bruno de Carvalho consegue, no espaço de dois anos, transformar um clube moribundo numa força desportiva vencedora, capaz de seduzir futebolistas mais capacitados que procurem projetos aliciantes de carreira e de atrair investimento. A nação sportinguista voltou por fim a sair à rua para vitoriar a sua equipa e extravasar a alegria. Por fim caiu a timidez de se ser do Sporting, provou-se que o Leão é capaz de ganhar mesmo com meios inferiores aos dos diretos adversários e que conseguimos concretizar objetivos que outras equipas melhor apetrechadas não conseguiram. Aqui reside o meu segundo regozijo da época.

Não ver o fc porto ganhar nada este ano deu-me imenso prazer. Mais prazer me está a dar ver o clube em outsorcing, o que prova que algo está a mudar em Campanhã. Nunca vi um treinador do clube ter tanta autonomia a escolher um plantel, todas as contratações que os azuis-e-brancos fizeram desde que o atual presidente entrou em funções têm sido ‘contratações do Presidente’ salvo escassas exceções ao passo que este ano o basco Lopetegui teve carta branca para trazer Adrián, Marcano, Fernández, Campaña, José Angel, maltinha que nem no Ramaldense calçava. Quando as más exibições exasperaram as bancadas do Dragão, ao contrário do habitual em Pinto da Costa, ninguém deu o corpo às balas pelo treinador, foi este que saiu sozinho a terreiro para defender os seus jogadores, não se ouviu a mensagem de dentro para fora que é costume nos azuis-e-brancos quando rebentam crises desportivas. Não houve toque a reunir, ficou JulenA Taça É Nossa! Lopetegui agarrado ao leme da nau dando a imagem de que ninguém estava com ele para o ajudar a dobrar a tormenta, um esmagador silêncio presidencial enquanto a equipa caminhava para o bi-descampeonato, coisa tremenda para um clube habituado a ganhar para poder suportar uma estrutura que custa fortunas ao mês entre administradores de SAD, jogadores emprestados, comissionistas e favores devidos. Quero acreditar, eterno otimista, que o fim do ‘pontificado’ está próximo e que os longos anos negros de trapaçarias serão em breve apenas uma memória feia do que era o nosso futebol nas cinzentas décadas de 80 e 90. Quero crer que o karma também funciona no futebol e que os batoteiros sejam punidos pelo que fizeram, uma pena justa e tendo a do Boavista como referência.

Espero que as duas conquistas protagonizadas por clubes de Lisboa seja o primeiro passo do definhamento do grupo de Campanhã. Espero que as investigações que decorrem na FIFA sejam um sinal claro de que a falsidade e a intrujice não têm lugar no desporto-rei. Espero que o Sporting se mantenha no trilho do sucesso desportivo mesmo que tal suscite tentativas de branquear este facto inegável através de manobras de diversão e peças de jornalismo de vão de escada encomendadas por atacado. Espero que o poder do futebol volte para Sul porque, a não ser o Sporting a ganhar, prefiro que ganhem uns patetinhas foleiros do que uma quadrilha de mafiosos.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Polónia, terra agreste

Tarte de uva silvestre Se há adjetivo que se pode usar para qualificar a Polónia de forma bastante lata é “agreste”. A Polónia é agreste.

O clima é agreste, tanto faz um frio do camano que queima a pele do nariz como a canícula ensopa-nos a roupa em suor e obriga-nos a ter roupeiros em três divisões diferentes. A dieta é agreste, muitos alimentos fermentados que criam faíscas nos dentes e grande desordem de temperos que provocam tempestades intestinais ao que se juntam sopas que têm de rústicas o que têm de saborosas. As mulheres são agrestes, bravias e indomáveis amazonas que destroem impiedosamente um homem na cama e despacham canecas de cerveja com a delicadeza dum camionista apesar de parecerem frágeis bonecas de porcelana feitas à mão.  Há zonas do país bem agrestes tanto na cidade como no campo, não há lugar mais agreste em Varsóvia que a zona do bairro de Praga Norte que compreende as ruas Stalowa, Strzelecka, Szwedzka e Środkowa (um quarteirão que faz o Soweto parecer uma estância de turismo) e por vezes conduzimos centenas de quilómetros país fora sem vermos sinais de presença humana. A língua, essa, é do mais agreste que há sendo uma das três mais difíceis de aprender e que frustra o mais dedicado estudante quando confrontado com os labirínticos casos da sua gramática. Varsóvia é agreste porque tem sempre a fasquia na posição mais alta e não tem compaixão pelos mais fracos, tanto premeia os lutadores que não se acomodam aos sucessos conseguidos como castiga os acanhados e não perdoa os laxistas. Portanto não admira que na Polónia exista um fruto chamado Agrest do qual se fazem tartes agrestes.

O sabor deste fruto da família da groselha, também denominado uva silvestre ou uva espinha, raramente é suficientemente doce para ser comido cru pelo que é mais utilizado para a confeção de xaropes e marmeladas mesmo que algumas variedades sejam consumidas depois de cozidas. A uva silvestre difere-se da groselha mais conhecida em Portugal pela cor esverdeada em vez de vermelha e por crescer isolada e não em cachos. Na Polónia como na Alemanha e na França, doces e geleias de uva silvestre são muito comuns. Eu próprio, nos primeiros tempos em Varsóvia, experimentei uma gelatina instantânea de agrest não tendo ficado muito impressionado com o sabor amargo da sobremesa.uva 'agreste'

A aula com a Ola estava marcada para as 19:00, hora e meia antes do treino, altura ideal para um lanchinho. No café onde combinámos o encontro, a montra de bolos não tinha nada por que eu ansiasse. Não tinha mil-folhas nem pastéis de nata, não tinha bolos de arroz nem lulas mas em compensação apresentava um leque interessante de açucarados regalos tais como merengues de baunilha, bolos de queijo e de chocolate, tarteletes de morango, queques de mirtilo, semifrios de amêndoa e uma intrigante proposta: tarte de uva silvestre. Enchi-me de brio e pedi uma fatia da dita guloseima para acompanhar o mocha. Comentei o caso com a Ola, perguntei-lhe se o agrest era mais uma daquelas bagas azedas como fel pelas quais os polacos se pelam ao ponto de fazerem compotas e licores. A resposta dela, apesar de correta ao nível da sintaxe e da semântica para meu regozijo, revelou-se inconclusiva pois não consegui identificar o fruto de que ela falava.

A coisa faz jus ao nome, é agreste, acerbo, amargo, azedo mais o raio que os parta que conseguem comer coisas que até ao diabo dá arrepios.

domingo, 26 de abril de 2015

Um artigo sobre uma cidade e prazeres avulsos que a mesma me devolveu

Rio Brda em Bydgoszcz Ultimamente tenho andado com a estranha ideia de que o clima polaco é melhor do que o algarvio. Este é um pensamento que não me atrevo a dizer em voz alta porque não quero que me espetem o garfo dos hereges no pescoço mas que matuto cada vez mais à medida que o tempo vai melhorando. Se calhar esta minha afirmação tem a ver com a subida da temperatura que já me deixa andar de manga curta na rua ontem à noite em Bydgoszcz, prazer desde há muito vedado pelos condicionalismos do frio mas que ontem foi finalmente concedido. Na Polónia temos o pior do frio e o melhor do calor, estamos em contacto com realidades extremas, aprendemos e adaptamo-nos, sabemos estimar o doce do sol porquanto penamos o azedo da neve.

Se nós estivermos constantemente expostos a bom tempo não o sabemos valorizar, não apreciamos o calor se não tivermos experimentado o frio. Uma das barbaridades repetidas por alguns dos meus companheiros de areal em frente ao Restaurante Zé Maria, como é hábito e costume, que sempre me fez confusão era: ‘Moss, já tou farto de praia!’ Haviam de levar com quase meio ano abaixo de zero para começarem a agradecer a bondade com que a criação do mundo prendou o Algarve e a desfrutar das noites temperadas quando elas aparecem. As primeiras semanas de calor do ano são recebidas por mim com muita alegria não só pela energia que o astro-rei me transmite, nem apenas pelo encurtar das peças de roupa que possibilitam a observação a olho nu de peles e carnes alvas que já estavam sufocadas pelo frio niveal, observação que obriga a redobrados esforços de concentração durante a aula e a maior rigidez muscular nos corredores da escola para não cair na tentação de micar os tentadores decotes ou as apetitosas coxas das estudantes, mas como pela nítida melhoria que os raios solares causam no humor dos polacos, qual sessão intensiva de psicanálise ao fim da qual temos um povo inteiramente liberto das lamúrias que foram espalhando ao longo do inverno.

Ontem tive uma atuação em Bydgoszcz, cidade com pouco mais de 350.000 pessoas e que é uma das capitais da província da Cujávia-Pomerânia. Foi a primeira vez que estive nesta cidade e estava com bastante curiosidade em conhecê-la porque já tinha estado em Toruń, a outra capital da província, tinha então tido uma ótima impressão e queria comparar as cidades até porque jáAbril, hormonas mil tinha ouvido que Bydgoszcz era bem mais feia que Toruń – talvez devido à rivalidade ideológica que separa as duas cidades desde há séculos. As imagens que guardei de Bydgoszcz foram bastante positivas, tanto a nível das pessoas que lidaram comigo como do ambiente que respirei ao caminhar por ruas bonitas como a rua Gdańska que com o seu garboso Hotel Pod Orłem me fez lembrar um pouco a rua Piotrkowska em Łódź, ou a rua Jagiełłońska que encaminha pessoas e viaturas para a Plac Teatralny, uma linda praça que abre a cidade para o rio Brda. Aqui senti aquela impressão que temos quando percebemos que estamos num lugar bom, há um rio em Bydgoszcz e só as cidades com caráter têm rio. Passeei alegremente pela praça e vi o trânsito de pessoas para um lado e para o outro, satisfeitíssimo da vida por enfim poder andar na rua de manga curta, por acabar a festa com o sol quase a raiar numa esplanada a comer pizza com algumas das miúdas que estavam na discoteca e por finalmente voltar a ouvir piropos de polacas, coisa que se vem tornando raro em Varsóvia devido à recente invasão de hordas ibéricas de estudantes e trabalhadores com certeza atraídos pelo que ouviram das lendas do leste europeu.

Andar de manga curta à noite na rua. Eis um pequeno prazer a que muitos não dão o devido valor. Foi preciso eu fazer 250 km até ao centro da Cujávia para compreender isso.

domingo, 12 de abril de 2015

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 23

Dando música a cidade A noite tinha acabado já de manhã, às duas, consequência duma sessão de discos e da insónia habitual depois da atuação, os ouvidos ainda a digerirem o ritmo, os dedos ainda a virarem cursores imaginários, a mente ainda a acertar batidas e a criar a playlist seguinte. Adormecer depois duma atuação é sempre um castigo porque o corpo continua a cem à hora bem depois das colunas se terem calado, por isso é preciso ir baixando a intensidade, ir apagando as luzes, pegar num livro e esperar que os vapores do sono cheguem ao nariz. Tinha acabado tarde essa noite, já de manhã, e no dia seguinte bem cedinho logo se ajeitavam caneleiras, se vestia o calção térmico, se calçavam chuteiras para mais um jogo de preparação para a segunda volta do campeonato, sete pontos que se têm de recuperar em onze jogos. Tarefa difícil mas se não fosse difícil não era tarefa para nós, por isso lá estamos debaixo duma morrinha chata que molha e arrefece o piso do Wembley - nome pelo qual é pomposamente conhecido o campo onde o Inter Warszawa treina e joga. A bola parece mais pesada do que o habitual ou será o músculo que está mais frouxo, é preciso entrar no ritmo rapidamente sob pena de ficar para trás no comboio dos titulares. Encheu-se de brio, o velho, e de tanto querer mostrar serviço até foi lá à frente mostrar como se faz um golo. No final de contas há motivos para ficar satisfeito e para preparar uma romaria a casas de copos e caras giras, meio a medo porque duas no mesmo fim de semana tem custos que o arcaboiço já custa a aguentar, especialmente depois com uma futebolada aguda por meio.

Festa de anos duma amiga num clube da moda, um frenesim a que eu já não estou habituado pois ultimamente a minha presença em discotecas faz-se do lado de dentro da cabine. A rabugice inicial dissolveu-se depois dumas taças de vodca-Red Bull e deixei-me levar pela acertada escolha musical do DJ de serviço, não há mal nenhum no mundo que um bom par de malhas de house lançadas no momento exato não cure. Encontrados dois portugueses companheiros destas noites de boémia, ficou logo o mote dado para um resto de noite de brindes e perdição, gincanas suadas entre ancas e tranças, olhares de néon e lábios de carmim que se confundiam com o piscar psicadélico das luzes da sala de dança, três compatriotas inebriados pela música e pelo álcool, a combinação habitual nas noites varsovianas. Um dos tugas atirou a toalha ao tapete vencido pelo pulsar forte da noite e dos copos, saiu pedindo desculpa e prometendo melhor desempenho da próxima vez. Os dois restantes, ainda não satisfeitos, resolveram visitar mais uma casa para matar a curiosidade, um porque já tinha ouvido falar e outro porque tinha sido expulso da última vez que lá tinha ido. Motivações diferentes para o mesmo propósito. Mais shots, mais batidas, mais palavras gritadas ou sussurradas naquele idioma encriptado que causa subidas deAi, Varsóvia... pressão arterial quando saem da boca daqueles anjos eslavos louros. Saída de cena já com o sol a espreguiçar-se por trás das árvores, corpo cansado, alma cheia mas com vontade de dar mais uma voltinha. Não, diz o organismo. É altura de repousar.

Manhã de gatos e sótão, um pequeno-almoço que nunca poderia ser preparado por um homem (salada de queijo feta com rúcula e tomates cherry regada com molho balsâmico), o chamamento  irresistível do sofá doméstico a ouvir-se ao longe e o regresso a casa num autocarro estranhamente carregado de passageiros para as dez horas dum domingo. Por fim aninhado entre almofadas e a televisão onde passava um soporífero jogo da Liga NOS, recebo o sono como uma divina esmola restauradora, muitíssimo bem-vinda depois dum fim de semana exigente em termos físicos como poucos têm sido. À medida que vou sendo contaminado pela dormência, vou pensando na forma como me correu o dia, na maneira como passou a semana, naquilo que tem sido a minha vida nesta terra e abro um sorriso quando entendo que por muito negras que possam ser as trevas há sempre uma altura em que surge luz.

E assim adormeço, satisfeito por saber que o sol volta sempre a nascer.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Aqueles (poucos) dias em que me apetece mandar esta terra bardamerda

Faro, 1.4.2015 15:40 locais

Faro 1 Abril

Varsóvia, 1.4.2015 16:40 locais

Wawa 1 Abril

Fava, havia de te dar uma gangrena nos dedos por tirares fotografias dessas e mandares-me!

sábado, 7 de março de 2015

Postais da Polónia - 21

GAZ-21 A minha avó era o cúmulo da bondade, era incapaz de se zangar comigo ou de me levantar a mão. Aliás, ela não levantava a mão nem a um mosquito. Recordo-me que fiquei uma noite a dormir em casa dela e passei-a em branco porque tinha entrado um grilo dentro de casa (casa térrea na Rua do Alportel), o inseto levou a noite inteira a estridular, por certo contente com o ambiente acolhedor da casa da minha avó, mas não me deixou dormir e a cada rumor que ela sentia do quarto onde eu estava logo avisava: ‘Não mates o bichinho!’ E não consegui adormecer por causa da benevolência da minha avó para com um grilo. Se eu me portava mal o mais que ela fazia era dizer que ia ‘chamar a Côca’, um ser mítico de forma desconhecida que assustava os meninos rebeldes. No caso da minha avó, a Côca era representada por ela própria munida duma caraça, 148 centímetros de mulher com uma máscara (de Branca de Neve, acho) era o suficiente para me inspirar tal terror que ainda hoje me lembro de fugir corredor fora ao vê-la. A minha tia tinha a mão mais leve, às vezes recorria a socas para me pôr nos eixos mas a sua versão mitológica do bicho-papão era ‘O Velho Do Saco’, um dito senhor que passeava pelas ruas de Faro com um saco onde metia os meninos mal-comportados e que depois os levava para longe sem que eles nunca mais vissem a mãe. Eu não acreditava muito nessa léria porque já conhecia a Côca, era uma criatura real, ao passo que O Velho Do Saco não me parecia verosímil… até um belo dia aparecer um mendigo à porta da casa da minha tia, um velhote de barbas que carregava um grande saco de plástico às costas cuja visão me fez molhar os calções de medo. Teria 4 ou 5 anos e compreendi que tanto a Côca e O Velho Do Saco existiam e a qualquer momento podiam aparecer e castigar-me. Serve este preâmbulo para vos falar do que assustava os meninos polacos quando eles se portavam mal – a Czarna Wołga.

Tratava-se duma limusina negra, concretamente um GAZ-21 de fabrico russo com elementos brancos como cortinas, frisos ou pneus, que percorria as ruas das cidades e vilas polacas raptando os meninos. Nas décadas de 60 e 70, conforme a versão contada, a Czarna Wołga era conduzida por padres ou freiras, judeus, vampiros, agentes da SB que era a agência central polaca de segurança ou até mesmo pessoas com ligações a seitas satânicas. Também consoante as histórias, os meninos raptados eram levados para a Alemanha para se lhes colherem o sangue e tratarem meninos ricos alemães (ou ocidentais no geral ou até mesmo árabes) que sofriam de leucemia, ou eram vítimas de traficantes de órgãos ligados ao KGB. Esta última associação pode estar relacionada com o facto de que os automóveis do modelo em questão eram maioritariamente utilizados pelo aparelho do governo da União Soviética ou por membros oficiais do PCUS GAZ-24 (Partido Comunista da União Soviética) sendo que alguns elementos da Milicja, a polícia do Estado na Polónia, também tinham acesso. Sabendo que os polacos nunca morreram de amores pelos vizinhos soviéticos nem pelos ditames da PRL, foi fácil criar uma relação obscura entre os sinistros automóveis que eram um emblema do regime opressor e os funcionários que os conduziam e que eram mandados pelos mauzões de Moscovo.

A lenda urbana renasceu no fim do século XX com algumas modificações, já não se falava num GAZ (posteriormente um GAZ-24) mas num Mercedes ou BMW, curiosamente marcas provenientes dum país também ancestralmente hostil à Polónia, que era guiado pelo Diabo ou por - sinais do tempo – skinheads. Os automobilistas abordavam pessoas nas ruas para lhes perguntarem as horas e alegadamente matavam-nas ou as vítimas morreriam no dia seguinte àquela hora. Tanto na versão mais recente como na mais antiga nota-se o interessante registo de colocar antigos inimigos da nação como maus da fita, talvez de maneira deliberada por forma a incutir a aversão aos elementos visados desde tenra idade.

Seria curioso saber o que as avós contemporâneas dizem aos seus netos para os persuadir a serem bons meninos. Será que as ameaçam com o Putin?