segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sinistra Segunda

Quando a segunda-feira se apresenta desta maneira, tu mal podes esperar para ver como corre o resto da semana.

Segunda-feira

Imagina se o Sporting não tivesse ganho ontem…

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O que é que a gente tá aqui fazendo? - 16

Diálogo numa aula de Língua Portuguesa entre o Professor e uma aluna:

- Kasia, conheces a estória do Capuchinho Vermelho?

- Acho que sim.

- Então conta lá.

- Era uma rapariga que trabalhava na cafetaria dum aeroporto. Ela servia cappuccinos aos clientes que tinham pouco tempo para apanhar o avião, depois os passageiros embarcavam, o avião caía e os passageiros que tinham bebido o cappuccino morriam.

Há dias em que eu me pergunto se efetivamente estou a desempenhar um bom trabalho…

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Plucha

Plucha no centro de Varsóvia A mãe duma ex-namorada dizia, na sua simples mas imensa sabedoria: "Quem não tem nada para fazer faz colheres de pau". Sem nada para fazer mas com vontade de escrever, pensei em compor alguma coisa sobre o novo ano mas cedo me arrependi porque o leitor não é parvo e percebe que, se eu fiquei tão satisfeito por 2014 ter finalmente acabado, estou ansioso para entrar de cabeça em 2015 e esquecer tão depressa quanto possível todas as amarguras do pretérito ano. Assim decidi dar uma volta no meu bairro, apanhar o ar fresco que vem do bosque contíguo para me dar inspiração e tão distraído andava que meti a pata numa poça de neve mole e imunda, fiquei com a sapatilha toda suja e isso encurtou-me o passeio. Porém a tática resultou, ganhei ideias, sentei-me à escrivaninha e aqui está o produto.

Diz-se que os inuítes, comummente chamados esquimós, têm uma série de palavras para definir
neve. É uma lenda urbana criada a partir da profunda integração do povo Esquimó nessa matéria e da existência de duas palavras que soam muito diferentes: 'qanniq-' ('qanik-' em alguns dialetos), usado como verbo “nevar” e 'aput', que é o substantivo “neve”. No entanto não é verdade que haja muitas palavras para classificar diferentes tipos de neve, os esquimós não fazem tanta distinção assim entre neve fofa, neve dura, neve com vento, etc. Neve é neve e ponto. Já os portugueses classificam a chuva com múltiplas designações: aguaceiro, chuvisco, tromba (ou pé) de água, cacimba, chuvinha molha-parvos e por aí fora. Cada povo tem o seu glossário meteorológico e mesmo dentro do mesmo país há maneiras típicas de se falar da mesma coisa, se um filho de Faro for a Braga e queixar-se que 'está barbeiro' provavelmente receberá um encolher de ombros minhoto como resposta. É um pouco como na Polónia falarem de amêijoas, inútil eu dizer que existe amêijoa boa, amêijoa cão, macha, branca, quanto mais apontar as diferenças. Para eles é tudo igual ao litro, enfim.

Os polacos também têm as suas 'amêijoas', não essas nas quais o leitor mais perverso terá pensado, mas os cogumelos que para o português têm apenas uma designação mas que para o nascido na terra da águia branca pode ser tudo e mais alguma coisa: borowik, maślak, muchomor, pieczarka, górka, opienika, koźlarz, podgrzybek, czubajka só para mencionar alguns dos nomes com que os polacos batizaram os fungos a que os portugueses chamam simplesmente... cogumelos. O mesmo se aplica a algumas condições climatéricas, há palavras polacas que especificam o calor que se faz a partir duma determinada temperatura, o frio que se sente abaixo de um certo ponto, até para aqueles dias aborrecidos de céu cinzento, chove-não-molha que forma charcos daquela neve suja em fusão que nos enerva por sujar os tapetes do carro e a entrada de casa – Plucha.Mais plucha no centro de Varsóvia
 
Os primeiros dias do ano têm sido passado debaixo de plucha, entre a vontade férrea de limpar o céu de quaisquer nuvens por forma a ter um excelso e, permitam-me a presunção, merecido 2015 e os vestígios do negro 2014 que ainda se manifesta através de espasmos de arrelias que de vez em quando me batem à porta, o estrebuchar dum defunto anunciado e sepultado mas ainda pouco convencido da sua condição de morto. O meu mano John ensinou-me um truque para ultrapassar esta chatice: tomando por aceite que um ano tem dias bons e maus em equidade, risca-se um dia mau do calendário cada vez que o morto se agita e assim é menos um dia ruim na contabilidade, sobrando mais dias bons para o que resta da agenda. E pronto, lá acabei por falar no raio do ano passado que insiste em me assombrar. Está difícil, o sacana, de se me despegar da pele! Mas já esteve mais longe, a plucha também já não parece tão feia assim e eu também quero começar a escrever sobre outros assuntos que bater sempre na mesma tecla não tem assunto nenhum.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Insónia

Morskie Oko - Isto tá mau...
 
E mais uma volta na cama. Para o que me havia de dar, insónias. Logo eu que sempre me gabei de nunca ter perdido o apetite nem o sono por maiores que fossem as preocupações. Acontece a todos, se calhar, em algum momento da vida. Não há vacinas contra as insónias como há contra o tétano ou a difteria, possivelmente se houvessem seriam tão caras que só de pensar no preço delas ficávamos sem sono. Repito a rotina que uso para adormecer: Passo os dias mais próximos em revista, extraio os momentos agradáveis modificando alguns detalhes para a estória ficar mais gira, edito e monto o filme e torno-o a ver, tantas vezes quantas as que forem precisas até me deixar embalar. Debalde. Hoje não pega.
 
Hoje esteve um dia frio, bera como o raio, alguns 9 graus negativos. Já no sábado esteve assim, levei um quarto de hora a raspar o gelo e a neve da capota do carro. Como eu tenho saudades de ter garagem... A cidade parece um vulcão adormecido, uma calmaria entre a erupção consumista das compras do Natal e a gigantesca borga de fim de ano, mas sente-se o borbulhar lá no fundo, como se pudesse explodir a qualquer momento. Mesmo as pessoas andam diferentes, parecem alheadas e andam pela rua sem saberem para onde ir, não têm mais prendas para comprar e ainda é cedo para se prepararem para a passagem de ano. É o pulinho do pardal, estes cinco dias entre uma coisa e outra, período de limbo cinzento. Se eu não tivesse trabalho provavelmente também andava como elas, ia espreitar uma montra para ver uma camisa de estrear na noite de ano novo mas tenho de passar o dia no elétrico para cá e para lá. Melhor assim, ao fim e ao cabo. Sempre estou a trabalhar e a ganhar dinheiro em vez de o gastar em coisas que, feitas bem as contas, não preciso. Toda a vez que encontro um assento vago no elétrico surge uma senhora, parece de propósito! Cedo-lhes o lugar por uma questão de educação e de simpatia que é a melhor coisa que podemos dar a uma pessoa que não conhecemos. Elas nem agradecem, deve ser do tempo, o frio emburrece as pessoas. Estranhamente começo a achar piada ao meu dia, as orelhas frias e os pêlos do nariz a crescerem para dentro, o carro a engrenar com dificuldade devido à ação do frio no gasóleo, o laguinho do parque Morskie Oko semi-congelado que até dói só de ver, os gorros enfiados nas cabeças irrepreensivelmente redondas dos polacos, as lojas já em promoções pré-natalícias e a vitória mais improvável do Sporting mais atípico dum passado recente. Embalo, vou dormir.
 
Quase a adormecer toca o sinal do chat do facebook. É ela a dizer que não pode ir almoçar comigo amanhã porque está ocupadíssima, e eu com o dia quase todo livre, só tenho uma reunião com os gerentes duma casa onde vou começar a tocar aos domingos, ela uma loura de pele láctea e olhos pequeninos cor de turquesa e ele um empresário tão rico que não sabe o que há-de fazer ao graveto e acha boa ideia empregar DJs portugueses. É péssimo lidarmos com ricos sem sermos ricos, absorvemos os hábitos dessas pessoas mas depois não conseguimos acompanhá-las. Lamento, o não ser rico e a nega dela. Já tinha imaginado uma lasanha de espinafres regada com um Barolo e rematado com um tiramisu numa trattoria nova e muito simpática no centro da cidade. A tal conversa do ovo na cloaca da galinha, um desperdício de disponibilidade, tantas horas vazias e eu com tão pouco para as encher. Desperto outra vez.
 
Vou à varanda para fumar um cigarro, intoxicar a cachimónia para ver se anestesio os neurónios e consigo pregar olho. Vá lá que o primeiro compromisso de amanhã é só à uma da tarde.
 
- Isto tá mau...
 
Marafado ano que nunca mais acaba, mesmo velho e moribundo insiste em xaringar-me a corneta até ao último suspiro.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Balanço

Sol em Kabaty Os fins de ano têm sempre uma coisa que eu não gosto: os balanços.

Esta minha antipatia por balanços já vem do tempo quando eu trabalhava na Farmácia Alexandre, na década de 90, muito antes da informatização das farmácias. Nessa altura o balança era feito à unha, um colega empoleirado num escadote assomando-se às prateleiras dos antibióticos anunciando quantas caixas de Britacil havia, a dosagem e o tamanho da embalagem. Outro enfiavam o nariz nas empoeiradas gavetas para dizerem quantas carteirinhas de Aspirina lá estavam – naquele tempo vendiam-se comprimidos avulso – ou lamelas de Nimed, pessários, xaropes de óleo de rícino, frasquinhos de formicida, champôs Johnson’s, todos os centímetros quadrados da farmácia era passados a pente fino e tudo registado digitalmente, ou seja, com os dedos a segurarem a esferográfica e os blocos de papel. Começava-se às 19:00 duma dada sexta-feira logo que as portas fechassem, a primeira noite ia até à uma ou duas da manhã, sábado o dia todo madrugada adentro e domingo até ao almoço. Era um horror!, mesmo que a equipa de colegas fosse divertida.

A tentação de fazer um balanço do ano quando entramos na reta final de dezembro é grande, olhamos para trás e tentamos perceber o que fizemos bem para repetir e o que fizemos mal para tirar ilações. O mal é que recordamos com mais facilidade as coisas ruins, talvez porque deixam uma marca maior. Quando a vida nos corre de feição nem nos lembramos disso, não refletimos, achamos que é assim que deve ser e não registamos esse período como especial ao passo que quando nos acontece um dissabor este permanece mais tempo na memória, martela o subconsciente e não nos deixa sossegados. O subconsciente é uma coisa desnecessária, é como o apêndice – só sabemos que existe quando começa a dar problemas. Lamentamos quando temos azares mas não mostramos gratidão no momento da felicidade, é assim a nossa maneira de ser. Egoístas e mal-agradecidos.

A somar a isto tudo, o problema das últimas impressões ficarem sempre mais presentes. Podemos ter tido um ótimo primeiro trimestre mas tudo isso vai ficando nos fundos da nossa sala de recordações à medida que eventos mais recentes vão entrando e sendo arrumados nas prateleiras mais próximas da porta da sala, ocupando o lugar das memórias mais atrasadas. Uma fabulosa mariscada caseira em janeiro pode muito bem ser suprimida em favor um frio ‘feliz natal’ em dezembro ou uma enorme farra de abril preterida por uma chatice de outubro. Por isso é que eu não gosto de fazer balanços, porque mais depressa me lembro dum corte falhado que deu uma oportunidade ao adversário em novembro do que da minha elevação imperial e cabeceamento irrepreensível para golo em março. Sou só eu que penso assim?

2014 não me deixa muitas saudades. Considerando a falta de objetividade que já expliquei acima e que me impede de analisar este ano num todo homogéneo, arrisco a qualificar este ano como o pior desde que me radiquei neste país. Desde sérios revezes familiares a complicações de cariz pessoal e profissional, 2014 serviu-me uma ementa completa de problemas e ralações que me colocaram numa roda de hamster durante semanas e meses, apático, incapaz de reagir, logo nesta terra que não perdoa aos indolentes e aos acanhados. Se por um instante caísse na tentação de fazer um balanço de 2014 diria que tinha sido um ano de merda, que pouco ou nada me tinhaRua de Nascente acontecido de positivo e que a única coisa de boa que este ano tem é o estar perto do fim. No entanto não o vou fazer para não contrariar a minha natureza. Esta diz-me que 2015 vai ser um ano de confirmações, realizações, conquistas e êxitos. Sempre foi assim desde que cá cheguei, o sol aparece sempre mesmo depois da mais intensa borrasca, mesmo nos tempos de maior incerteza consegui dar a volta por cima e tocar o barco para a frente.

Por isso, estimado leitor, permita-me que mande 2014 para o raio que o parta mais toda a negatividade com que me surgiu. Permita-me enxotar este ano maldito que, à parte alguns salpicos de alegria e satisfação, só me trouxe arrelias e chatices. Permita-me chutar o ano velho para longe, para tão longe que nem lhe consiga sentir o fedor. E se quiser junte-se a mim, ponha-se comigo à janela espreitando a rua que vem de Nascente, tentando perceber o que vai trazer 2015. Tenho grande fezada, amigo leitor, que vai ser um grandioso ano para nós.

Até porque há pouco tempo conheci o mais belo par de olhos azuis que alguma vez vi… E olhe que já vi muitos!

domingo, 30 de novembro de 2014

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 22

Iluminaçao de Natal Sempre achei piada às pessoas que se queixam da vida que têm, que se lamentam que a vida é uma trampa e engendram teorias de conspiração estelar ou de ações coordenadas por parte de entidades misteriosas que têm por único propósito estragar-lhes a sua/nossa existência. Um exagero que às vezes até chega a aborrecer. Já há muito tempo que aprendi que a vida é aquilo que nós fazemos com ela e que tudo que nos ocorre foi porque de alguma maneira contribuímos para que tal sucedesse, que tudo acontece por uma razão e que somos nós que fazemos acontecer. Outra coisa que também aprendi, afinal já são mais de quarenta anos a virar frangos, é que há sempre alguém com problemas mais sérios que nós independentemente da gravidade que as nossas maleitas possam apresentar. Já passei por graves crises devido ao caráter liberal da minha profissão e consegui sempre dar a volta por cima devido a uma dose de perseverança, de dois saudáveis bracinhos e duas rijas perninhas que nunca fraquejaram na altura de pegar no batente. Tão rijas estão que até dá para distribuir ripada (e alguma qualidade) em campos de futebol da Mazóvia. Por isso encaro todos os fenómenos que surgem na minha vida como consequência de decisões tomadas, mesmo que por vezes os considere inoportunos. Esta reflexão a propósito do fim-de-semana que ora finda.

Sexta-feira fui convidado para uma festa de portugueses, uma daquelas festas já outrora descritas neste espaço e que marcam a vivência dum tuga radicado em Varsóvia. Os ingredientes eram os mesmos de sempre pois numa fórmula de sucesso não se mexe: Bebida com fartura, um sortido invejável de gajas boas, convidados bem-dispostos, música de qualidade, tudo o que faz falta para a borga durar até às 3 da matina. Entre penáltis de vodca, jolas e balões de hélio aspirado, aconteceu de tudo ao vosso escriba, até mesmo uma interessantíssima discussão com uma rapariga sérvia sobre o quão hot são os lumbersexuais, tentando ela convencer-me que a moda agora é machos peludos e cheirando a suor, chegando ao ponto de reprovar a minha escassez capilar torácica depois de ter enfiado a mão pela minha t-shirt acima. Uma pouca-vergonha. Poupando pormenores, importa apenas o epílogo da noite que consistiu numa ‘saída à inglês’ com uma das convidadas.

Sábado voltei a sentir aquela conhecida sensação de acordar em cama alheia com o dia adulto e a boca a saber a papel de música, roupa espalhada pela sala como se tivesse rebentado uma bomba na divisão, unhas de pé envernizadas a aparecer por baixo do edredão, copos deixados a meio em cima da mesa de cabeceira, a pele a tresandar a vodca e fumo. Mal dormido e depois de mais um tiro no porta-aviões consegui voltar a casa com a cabeça a 10 e o mundo a 100, o duche e o pequeno-almoço dos duros puseram-me quase fino para as quatro horas de aulas que tinha para despachar à tarde antes de atacar a festa da noite, tocar num bar numa festa subordinada ao tema Andrzejki. No fim do evento estava combinado mais um folguedo com os colegas de equipa do Inter Warszawa mas o motor estava a precisar de repouso e tomei o rumo de casa onde encontrei a minha cama mais sexy do que nunca, como se fosse uma banheira cheia de mousse de chocolate. Apaguei. Dormi 11 horas de estalo.

Domingo seria um dia de penumbra em condições usuais, pedir pizas e ver bola italiana, mas os meus capangas de sempre (Semper fidelis!) resgataram-me para uma lauta patuscada de hambúrgueres, colesterol a montes para recuperar a condição física. Pessoal que nunca me falha e queFuck sushi! sempre lança a bóia na melhor altura. Depois do restauro ainda mais um passeio em companhia feminina, pouca vontade em caminhar na rua com seis graus abaixo de zero e por isso entrámos num bar onde ela comeu uma salada de cuscus e eu churupitei um sumo de maçã. De repente a pergunta dela: ‘O que é o amor?’ À brutalidade da questão respondi com uma bem trabalhada e filosófica dissertação que até a mim surpreendeu pela fluidez e saímos do restaurante, resistindo às tentativas dela de me levar ao centro comercial para a aconselhar na compra dum gorro para o frio mesmo que ela me chamasse a atenção para a beleza das iluminações de natal do centro de Varsóvia.

Finalmente dei comigo em casa e de pijama. Sentei-me no sofá com o comando da tv numa mão e um copo de gelo mergulhado em Amarguinha no outro, a refletir nas minhas últimas noites de fim de semana em que o prato forte foi borga da forte e feia e a pensar que se calhar já não tenho vida para isto.

Mas se calhar é isto que a vida tem para mim.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Quando um arrumador polaco tem mais competências linguísticas que muitos empresários algarvios

Carrefour Express de Tarchomin, tardinha de cacimba e alguma rijeza que o outono decidiu entrar ao serviço. O único algarvio das redondezas sai do supermercado com o carrinho das compras cheio de fruta e legumes (sopinhas, agora que o tempo vai arrefecendo) mais um garrafão de cinco litros de água. Chega-se ao carro e pelo canto do olho bispa um papítrio montado em duas canadianas a aproximar-se, com certeza para cravar uns trocos. Diz o agarrado, em polaco:

- Boa tarde, senhor. Posso fazer-lhe uma pergunta?

Responde o algarvio impaciente e aborrecido, em português:

- Desculpa, amigo. Não faço polaco, não sei o que estás a dizer.

E toca de meter as compras na bagageira do carro. O arrumador de carrinhos de compras hesita um pouco e torna, conciso e preciso:

- Hmmm... Excuse me, sir. Would you be so kind as to let me park your shopping car?

Levantei a cabeça, olhei para ele e só consegui dizer-lhe:

- Um... Sure...

Uma das escassíssimas vezes em que alguém me deixou sem resposta foi protagonizada por um polaco toxicodependente. Toma lá que já almoçaste!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Postais da Polónia - 20

MRPP Portugal, finais da década de 70. Tempos de palavras pesadas como ‘Revolução’, ‘Revisionismo’, ‘Censura’, ‘Insurreição’, ‘Reacionários’. Tempos de siglas sinistras como ‘MRPP’, ‘COPCON’, ‘SUV’, ‘PREC’, ‘LUAR’. Tempos de atentados bombistas, de assaltos a bancos, de murais de inspiração política, de partidos de esquerda maoísta, trotskista, guevarista, marxista e moderada, do 25 de abril e do 25 de novembro, de Eanes, Cunhal, Sá Carneiro, Otelo e Soares, movimentos militares e civis, burguesia e classe operária, capitalismo e proletariado.

No Portugal de brandos costumes que se conhece até custa a acreditar que houve casos de piratas do ar – o primeiro caso mundial de desvio de um voo comercial aconteceu em Portugal, a ‘Operação Vagô’. Porém era um Portugal efervescente aquele em que vivi no primeiro lustro de vida, daí que todos os nomes e acrónimos acima mencionados façam parte do meu imaginário, palavras que me fazem recuar aos tempos dos televisores a preto e branco, dos Citroën GS de 4 velocidades e das calças de boca de sino.

Todas essas memórias me assaltaram quando eu voltava para casa depois de ter ido uma grande superfície comercial comprar chinelos de piscina – não porque queira mandar umas braçadas mas porque tenho de proteger os pés nos balneários dos campos de futebol – e passei por um cruzamento onde estava esta placa, a placa que indica onde é a Rua dos Proletários.

Medo!

Faz algum sentido na medida em que a dita rua fica na zona industrial de Żerań onde se encontram uma central termoelétrica, que fornece 40% da energia elétrica consumida em Varsóvia, e uma cimenteira mas batizar uma artéria como ‘Rua dos Proletários’ é uma daquelas coisas que só mesmo nesta terra. Ou se calhar também no Barreiro.