segunda-feira, 13 de junho de 2016

A total falta de vergonha que grassa na imprensa desportiva portuguesa

13346626_10209412789898670_3954217130030368894_nO servilismo português é lendário, vem dos tempos bolorentos do salazarismo quando a doutrina ensinava que o português devia ser humilde e comedido. Nesses dias poucos eram os que tinham acesso à Universidade, os chamados estudos superiores, e a quem tirava o curso acrescentava-se um título ao nome - Doutor. É um uso que perdura e hoje, bem entrados no séc. XXI, os portugueses ainda chamam "Doutor" a um licenciado quer seja em Direito ou em Contabilidade ou até mesmo em Farmácia. Portugal é o único país europeu que trata por "Doutor" quem não é médico e os portugueses são os únicos cidadãos europeus que têm "Dr" antes do nome no cartão multibanco. Mais, faz distinção entre classes de licenciados pois os Srs. Engenheiros e Srs. Arquitetos têm direito a categoria própria que os distingue dos demais. É o hábito de olhar de baixo para cima, sempre modesto, sempre servil, sempre disposto a baixar as calças e prestar vassalagem aos "Doutores", aos que detêm o poder, aos maiores.

Felizmente esse costume vai-se acabando na sociedade portuguesa, seja porque af concorrência obrigou os portugueses a concluirem mestrados e doutoramentos para serem mais competitivos no mercado de trabalho e tal facto esvaziou de significado os ridículos "Doutores" de licenciatura, seja porque os ideais contemporâneos são outros e os jovens portugueses licenciados já não observam essa subserviência como obrigatória para a confirmação do seu estatuto. Contudo facilmente podemos constatar os inúmeros vestígios dum lamber de botas nojento, exemplos de uma atitude constante de veneração ao Doutor. Pego num setor essencial da sociedade portuguesa - o desporto - e tentarei demonstrar como a imprensa desportiva se transformou num instrumento de bajulação e propaganda.

O jornal "A Bola" é conhecido por ser próximo do clube com mais adeptos em Portugal. Já no tempo em que era chamada "A Bíblia", nomes como Carlos Pinhão, Alfredo Farinha ou Aurélio Márcio faziam parte dum autêntico plantel "encarnado" mas que praticava jornalismo isento, não se coibindo de criticar o seu clube quando achavam justo. Não era o triste pasquim assalariado que hoje publica manchetes mentirosas para poder vender mais mil ou dois mil exemplares, uma publicação que não tem pejo em colocar uma patranha na primeira página só porque tal torna o jornal mais apetecível. No dia em que esta manchete sobre José Mourinho foi publicada, já se sabia que era falsa, que era o seu antigo adjunto Ricardo Formosinho que iria fazer parte do seu projeto para o Manchester United. Nem 24 horas volvidas, o mesmo jornal publica a história verdadeira mas em páginas dos fundos e sem qualquer menção à gorda mentira que tinha feito caixa na edição anterior. Mas a propaganda já tinha sido feita. Do jornal "Record" não vale a pena falar pois a cartilha dos Marcelinos, Cartaxanas, Delgados e Manhas tem uma inflamada orientação lampiã bem conhecida, fomentada desde que passou a fazer parte do grupo COFINA (Correio da Manhã) e que não engana ninguém, tal como o "O Jogo" sendo que, vestindo de cor diferente, este tem a virtude de nunca se ter arvorado em orgão informativo neutro.

A bajulação tem contornos mais discretos e faz-se ver em mensagens subliminares, das quais retiro quatro exemplos avulsos do primeiro treino de Cristiano Ronaldo com os seus companheiros da Seleção Nacional antes do jogo particular final com a Estónia. O leitor que tire as suas conclusões.

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Vivemos tempos em que as sociedades são facilmente manipuláveis porque os indivíduos se esqueceram de pensar pela sua própria cabeça. Preferem consumir pensamentos pré-congelados do facebook e livros de auto-ajuda ou acreditar em tudo o que a comunicação social afirma. As pessoas demitiram-se da sua obrigação de pensar e preferem que os outros pensem por elas porque assim é mais cómodo. Eu recuso-me a alinhar no rebanho de néscios alimentados a soro pelos media e recuso aceitar a verdade que os bajuladores nos querem impingir, por esse motivo decidi deixar de consultar publicações desportivas. Se já não as comprava porque não moro em Portugal, agora nem com o meu clique cibernético contam.

Os políticos manipulam e os portugueses votam neles. Os media manipulam e os portugueses acreditam neles. E admiram-se que haja cada vez mais portugueses a sair de Portugal?

E uma última questão. Que parangona daria a fotografia abaixo se o protagonista tivesse mais cabelo...

João Mário

PS – E a propósito de João Mário, o que dizer desta “notícia” venenosa? Foi o pai do jogador que se lembrou de contactar o jornal pedindo para ser entrevistado? Foi o jornal que telefonou para o familiar do jogador? João Mário renovou em agosto de 2015 até 2018, ainda não passaram 10 meses!! Agoram digam que a imprensa desportiva portuguesa não tem uma agenda…

sábado, 28 de maio de 2016

De como a zona mais degradada de Varsóvia consegue recuperar um blogue

clip_image001Pode até ser um impulso pontual causado pela subida sazonal de temperatura, o tempo quente transforma esta gente, mas decidi reativar o blogue. Já são quase nove anos de relatos sobre a vida dum algarvio na Polónia e nove anos de escrita merece mais do que uma permanência em suporte de vida até que num dia mais feio se decida desligar a máquina. Portanto, toca a escrever.

Esta vontade toda também está relacionada com um passeio a pé que fiz há dias pela zona de Praga em Varsóvia, Nova Praga para ser mais preciso. Encontrei-me ao princípio da tarde com a Kasia, uma amiga residente naquela região da cidade, fomos a um bar local pedir café e como o dia estava bonito e convidava a caminhar resolvi aceitar a proposta dela e percorri ruas e visitei prédios cheios duma história que me fascina e não deixa de me impressionar, entre eles um sinistro prédio de gaveto situado num dos mais sinistros bairros da Cidade Capital (a esquina das ruas Strzelecka e Środkowa). Costumo ver o dito prédio com alguma frequência porque fica no caminho para o Tesco onde vou frequentemente às compras e já me tinha perguntado sobre o passado do edifício, erigido na segunda metade da década de 30, pois a sua traça mais austera distingue-se das redondezas devido à ausência de adornos. Aprendi que entre 1944 e 1948 foi uma repartição do NKWD, o Ministério do Interior da União Soviética, onde eram aprisionados, interrogados e em alguns casos torturados elementos considerados perigosos para o regime comunista, por exemplo os “Soldados Amaldiçoados” – grupos autónomos de guerrilha e resistência contra a ocupação comunista na Polónia. Soube que na cave do edifício funcionava a prisão do complexo, onde ainda se podem visualizar inscrições feitas nas paredes pelosclip_image002 prisioneiros, mensagens que se tornaram documentos reais do estado de espírito destes mártires enquanto esperavam pela transferência para o campo de Rembértów, localizado na franja leste de Varsóvia, ou enquanto não eram sumariamente executados com um tiro na nuca, modo preferido pelas autoridades comunistas de eliminar os agentes incómodos ao regime.

No canto oposto se pode ver o Palacete Konopacki, construído por um fidalgo polaco na segunda metade do séc. XIX e que dispunha de uma zona circundante tão vasta que a cidade decidiu comprar uma área desse terreno para poder construir uma escola. Um mural denominado “Warsaw Fight Club” ilustra a parede dum bloco de apartamentos incrustado num arruinado complexo urbanístico. Pátios de gatos e ervas daninhas, formosas raparigas de palavreado indecente empurram carrinhos de bebé, rapazes sentam-se à sombra nos beirais a fumar e a beber cerveja, um vitral anuncia um solário para homens. Em Praga o comum mortal sente-se deslocado, desconfortável, com a impressão de que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. O peso da vivência dos habitantes sente-se em cada montra de loja (das que não têm persianas de ferro de alto a baixo) ou nos olhares que os clientes das esplanadas lançam à passagem dum tipo de cabelo esquisito que fala uma língua desconhecida.

Através do conhecimento intrínseco da Kasia, ela que é quase uma ativista da causa Praguiana, fiquei a saber que muitos jovens nunca cruzaram o rio para a margem ocidental e nunca foram, por exemplo, à rua Nowy Świat – a rua mais nobre da Capital – ou passearam junto ao Palácio da Cultura. Não o fazem por não se sentirem confortáveis fora do seu ambiente, porque as clip_image003pessoas  “do lado de lá” vestem-se e falam de maneira diferente, porque tudo é mais caro. A chegada do metropolitano a Praga não diluiu sobremaneira as diferenças sociais entre Praga e o resto da cidade, mesmo que no lado oeste de Varsóvia haja zonas que não são menos decrépitas que Praga como Jelonki ou alguns bairros de Włochy. Muitas pessoas não usam o metro porque é complicado ou porque não têm o que fazer no outro lado do rio. Vêem na televisão notícias sobre Varsóvia, assistem a programas filmados em Varsóvia mas sentem que tudo tem lugar em outra cidade, numa realidade diametralmente oposta aos seu quotidiano quando afinal as coisas acontecem a quinze minutos de suas casas.

Depois de termos voltado ao bar onde nos encontámos porque havia um bolo de banana que me tinha piscado o olho e tive de voltar para o trincar, despedi-me da Kasia agradecendo o passelo e a sempre bem-vinda aula de história e apanhei o autocarro para Tarchomin. Aproveitei para digerir as impressões e concluí que em Varsóvia há tanto para contar e que a Polónia ainda consegue me surpreender de tal maneira que seria um pecado fechar o blogue.

Assim sendo, mãos à obra!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Quando a coisa não está fácil

Estimados e amigos leitores, isto não está fácil.

Não está fácil encontrar tema para escrever na medida que, com o passar do tempo, as coisas que antes me surpreendiam tornaram-se comuns e o que era surpresa é banal nos dias que correm. Se ao princípio trabalhar como professor de Língua Portuguesa era um desafio extraordinário presentemente é um ganha-pão como qualquer outro. Se no começo eu achava incrível incendiar pistas de dança nas minhas atuações como DJ agora acho incrível quando tal não acontece.

Tenho tido dificuldade em arranjar temas sobre os quais valha a pena escrever sem resvalar na fácil tentação de converter o mishanapolonia num blogue de notícias. Não é esta a natureza deste espaço, este é um blogue sobre as impressões de um algarvio a viver na Polónia e tal facto causa(-me) cada vez menos impressão. Não quero falar do frio nem da vodca, não quero falar de louras nem da Segunda Guerra, são temas explorados e expirados. Daí que decidi fazer uma pausa e repensar a utilidade e essência do blogue por forma a não perder fidelidade nem qualidade de escrita.

Por outro lado, as ocupações ditas profissionais – não me considero um ‘empregado’ de ninguém tal como a palavra é geralmente compreendida – consomem fatias cada vez maiores do meu tempo. Felizmente ambas as carreiras têm vindo a descolar e os dias são passados em corridas constantes entre o computador, as aulas e discotecas, isto quando não há treinos de futebol. Portanto como pode o leitor constatar pela inexistência de artigos recentes, isto não está fácil.

Voltarei em 2016 com uma nova ideia para o mishanapolonia, ideia que ainda não a tenho mas com certeza há-de aparecer. Até lá, então.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Infâncias polacas

Aula de Inglês com a Asia, praticar estruturas gramaticais com o tema ‘o que costumávamos fazer quando éramos crianças’. Eu tentei dar uma de aventureiro, explicando que quando era puto costumava ir de bicicleta com a minha cambada até à lixeira da Câmara para apanhar latas (de bebidas) para as nossas coleções. Diálogo entre professor/amigo e aluna/amiga, originalmente em Inglês mas aqui reproduzido em Português:

- E tu, Asia? Como costumavas passar as férias de verão quando tinhas, digamos, oito anos?

- Eu costumava ir para a casa da minha avó no campo e era muito engraçado! Ia com uma amiga para umas dunas que lá havia, escavávamos as dunas e encontrávamos granadas e bombas da Segunda Guerra Mundial que não tinham sido detonadas e brincávamos com elas. Uma vez levámos uma granada no bolso para casa da minha amiga, a mãe dela descobriu e fez um escabeche dos diabos, chamou a Brigada Anti-Explosivos, os tipos invadiram a aldeia para esgravatarem as dunas de alto a baixo. Era só camiões a irem e virem, divertimo-nos muito! Outra ocasião estávamos sozinhas na casa dela e ouvimos um barulho estranho a vir do estábulo, quando fomos ver do que se tratava vimos que era uma porca que estava a dar à luz e ajudámos no parto. Nasceram oito porquinhos. Sabias que as porcas parem de pé?

Ir à lata na lixeira? Moss, menino…

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Natolin

Rua Belgradzka Anos passados desde a minha mudança, voltei hoje a Natolin. O bairro onde vivi as primeiras aventuras varsovianas a solo, o lugar onde comecei a cimentar a estadia na Polónia, o sítio que me acolheu durante metade da minha vida em Varsóvia. Natolin é o berço da minha experiência polaca e regressar a este canto a sul da cidade provocou uma cascata de emoções porque me fez recordar setembro de 2008 no tempo em que não tinha carro, as viagens noturnas ao Tesco de Kabaty, as farras na varanda até de manhã, a primeira namorada a sério, acordar às 5:30 no frio breu no inverno para começar a trabalhar às 7:10, o apartamento onde comecei a receber os meus primeiros amigos feitos em Varsóvia, onde finalmente instalei a antena parabólica e comecei a ver o Sporting na televisão – como o épico jogo no Etihad Stadium durante o qual a Ewa se trancou no quarto com medo que alguma peça de mobília que eu atirava pelo ar com os nervos lhe acertasse acidentalmente - e onde os 'munines' de Faro se amalhavam depois de inolvidáveis bezanas no Enklawa e no Klubokawiarnia. Natolin foi a transição de menino para homem porque quando terminou a minha relação com a Iza e fiquei dois meses sem casa foi Natolin que me recebeu e foi em Natolin que me fiz sozinho à vida profissional. Natolin foi trapézio sem rede, deu-me embalagem para encarar a Polónia de frente. Era lá que agendava entrevistas de trabalho, era lá que preparava as aulas que me proporcionaram reputação positiva como professor de línguas, era lá que ensaiava para as minhas primeiras atuações como DJ (um grande obrigado ao enorme Ed Szynszyl que me deu a primeira oportunidade no extinto Muza), era lá que acabavam noites de indescritível luxúria.

Nas vésperas de completar oito anos na Polónia, visitar Natolin foi como voltar à nossa escola primária e ver antigos colegas. O jardim onde eu vi pela primeira vez um ouriço na cidade, a casa onde morava a minha senhoria que infelizmente já faleceu, o supermercado onde a menina da charcutaria sempre me fazia olhinhos, o restaurante jugoslavo onde a minha ex adorava jantar, o mercadinho de rua no qual eu comprava bananas e cebolas, as pequenas ruas calcetadas junto ao bosque que eu percorria em passeios desintoxicantes, a estação de metro que significava o porto seguro depois de noites pesadas de copos no centro - tantas vezesEstação de metropoliotano Natolin acompanhado pelo meu leal escudeiro Giga - e claro, o prédio da rua Belgradzka n° 4 onde fui felicíssimo habitante durante um maravilhoso período da minha vida. Parece uma coisa sem muito sentido, ter tanta emoção por ir a um bairro que posso visitar sempre que me apeteça, mas o meu ritmo de vida mudou imenso neste último biénio e tem-me afastado de Natolin, daí que este retorno tenha provocado em mim enorme comoção, tanto foi o que vivi e cresci naquela zona a sul da Cidade Capital. 

Ter ido a Natolin hoje fez-me perceber uma coisa curiosa. É que já não é só de Faro que sinto saudades.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Dos gatos com os quais caçamos quando não temos cães

Fresquinho em Varsóvia Apesar de parecer uma tarefa complicada em virtude de diversas situações que têm desorganizado a minha agenda, este ano ainda não perdi a esperança de ir a banhos na Praia de Faro, banhos de sol e de sal que são fundamentais para a sobrevivência dum animal de praia em paragens afastadas do litoral como Varsóvia. A praia do Báltico polaco é um destino que já calendarizei um punhado de vezes mas que nunca se concretizou porque o trabalho não permitiu, a companhia faltou ou o destino estava superpopulado e desaconselhava a viagens longas - de Varsóvia à praia marítima mais vizinha são três horas de caminho e é impensável fugir no sábado e voltar ao domingo devido aos crónicos problemas de engarrafamentos nas estradas polacas. Sobra ao deslocado algarvio fazer curtas mas incisivas deslocações a estâncias locais onde se possa encontrar areia para estender uma toalha, de preferência junto a um lago ou a um rio suficientemente limpos para se poder passar os gomos por água fresca. Lançado à tarefa, localizei um par de lugares muito agradáveis e reboquei o meu camarada Duarte, um português que fala fenomenalmente polaco, para desbravarmos esses lugares.

Żyrardów é uma localidade conhecida pelos lofts que levaram muitos varsovianos (e um determinado farense) a ponderar mudar-se para esta vila apesar de se situar a 60 e poucos quilómetros da Cidade Capital. Esta terra também é célebre pelo açude que retém água da chuva e do rio Pisia Gągolina e que foi aproveitado pela autarquia para criar uma praia fluvial posteriormente referenciada pelas autoridades sanitárias nacionais como própria para banhos. Visitei o lugar com o Duarte e a amiga Kasia, geleira cheia de sandes e de cervejame, passámos um ótimo dia de praia, ganhámos uma corzinha que minimizou um pouco a minha vergonha por andar branco como a cal e ficou no ar um possível regresso ainda durante o estio. E o regresso seria concretizado se uma outra amiga não me levasse a um sítio na saída sul da cidade, sítio que se tornou num meu spot de verão preferido.

As águas do lago de Powsinek estão classificadas como de classe II (água não-potável própria para banhos, prática de desportos aquáticos e criação piscícola) e por isso são muito procuradas pelos habitantes da Cidade Capital em virtude da sua proximidade. Por iniciativa privada foi construída uma praia fluvial num dos braços deste lago e edificada uma estrutura de recreio e lazer comLago Powsinek apoio de bar e restaurante, lugar que colheu a minha preferência este verão e onde me fiz quase residente para banhos de sol e de água doce, servindo de anfitrião ao Duarte e família - os meus 'sobrinhos' fartaram-se de brincar com o 'tio' nas bóias - e conseguindo convencer o Dani e o John a aparecerem para beber uma geladinha. Colchões, esplanadas, adequada música lounge, o destino ideal para uma escapada de fim de dia ou para uma tarde de domingo.

Já no início da época estival tinha visitado o lago artificial de Tarnobrzeg, um local que se formou a partir do desvio de águas do vizinho rio Wisla para a desativada mina de extração de enxofre e onde foi erguida uma estação de purificação e limpeza permitindo que a água do lago se mantenha sempre limpa e cristalina. Por não se situar perto de grandes cidades, o lago de Tarnobrzeg não sofre com a pressão turística sendo mais um oásis azul-turquesa na grande mancha verde-floresta que é o centro-sul da Polónia. Um pequeno paraíso de areia fina e branca que me encantou no fim de semana em que o visitei.

Já nos cascos de agosto uma amiga levou-me para secretos piqueniques em praias que não aparecem nos almanaques, aninhadas nas margens sul do Wisla ou metidas nos seus afluentes. Praias amplas onde não se vê vivalma ou pequenas línguas de areia escondidas entre frondosos bosques cujos acessos são mais apropriados para BTTs do que para um carro citadino como o meu. Regatos percorridos a duras penas porque não é fácil caminhar no leito dum rio com uma mochila às costas e um saco de plástico cheio de material para a merenda, valendo depois a privacidade e o silêncio absoluto do lugar.

Rio Świder No verão que agora finda, um generoso verão onde recuperei muita da ilusão e vontade perdida na transição 2014/2015, um verão onde ainda não consegui visitar a Praia de Faro (mas haja fé que a estação só acaba na segunda metade de setembro), houve lagos que se vestiram de Ria e Costa. Não posso dizer que tenha sido a mesma coisa porque nada, absolutamente nada substitui a Praia de Faro. Contudo tenho de confessar que foram suplentes que aproveitaram duma excelente maneira a oportunidade para mostrar o seu valor, tão bem aproveitaram essa oportunidade que são aqui recomendados.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Falando de bola – lançamento da época leonina de 2015/2016

 

A coerência é a virtude dos imbecis

Oscar Wilde



PORTUGAL SOCCER SUPERCUP Provavelmente serei um imbecil, não gosto de ser apanhado em falso nem em contradição e por esse motivo não faço julgamentos nem aponto dedos a ninguém. Mesmo quando a falha do parceiro é gritante, mesmo quando o vejo a criticar aquilo que há pouco tempo tinha aplaudido. Serve esta introdução para comentar o agitado defeso futebolístico português de 2015.

Ponto prévio: O processo de despedimento de Marco Silva é discutível. Eu próprio tenho alguma dificuldade em avaliar a postura do Sporting nesta matéria porque não estou habituado a ver o Sporting comportar-se duma maneira tão aguerrida, quase cruel. Regra geral o Sporting é brando, uma brandura que tem origem nas raízes elitistas nobres do clube. As pessoas educadas não falam alto, não têm gestos bruscos e argumentar 'justa causa' para despedir um treinador querido pelos sportinguistas - apesar do pioneirismo dos despedimentos por justa causa pertencer ao rival da Segunda Circular - surpreendeu o universo leonino. Por outro lado, é um facto indesmentível que o Presidente do Sporting zelou pelos interesses do clube e fê-lo de forma acirrada ao mandar a conduta à fava espremendo a paciência da parte beligerante, que aconteceu ser o tal treinador querido pelos sportinguistas. Veja-se por que prisma for, o Sporting foi defendido pelo seu líder de forma intransigente e no fundo é para isso que o Presidente lá está.

Depois, decidiu-se contratar um treinador que estava em fim de vínculo com o maior rival da sua entidade patronal. Uma situação incomum mas que não obstante ter sido feita com clareza e legalidade - algumas individualidades até acrescentam em surdina que com a conivência do presidente encarnado - suscitou violenta reação de variados quadrantes dos adeptos e simpatizantes do clube da Luz. De ser apodado de 'Judas' até ver a sua imagem apagada das conquistas assinadas na última temporada, Jorge Jesus viu o seu inquestionável protagonismo ser minimizado como se o bicampeonato, façanha que 'o maior clube do mundo' não conseguia há mais de três décadas, tivesse sido alcançado com a equipa jogando em piloto automático.

As mesmas vozes que se ergueram para condenar o comportamento dos dirigentes do Sporting na condução do 'Caso Marco Silva' silenciaram-se cúmplices na campanha de branqueamento dos méritos de Jorge Jesus, treinador que só tinha predicados e que subitamente passou a possuir apenas defeitos. Em Carnide era bestial, no Lumiar tornou-se besta.

São compreensíveis as dores encarnadas sentidas por se perder o timoneiro em favor duma nau rival, especialmente quando o timoneiro teve arte para otimizar o rendimento da tripulação a índices27º título que lhes permitiu chegar a lugares há muito tempo arredados. É compreensível o desnorte que reina na Luz por se sentir que a equipa não vai render o mesmo que nos últimos anos como prova a recente exibição da Supertaça 2015 disputada no Estádio Algarve. É compreensível a frustração da instituição de Carnide por ter visto a mulher da sua vida fugir com o vizinho do lado e vê-la feliz. É compreensível a confusão que domina presentemente os espíritos benfiquistas mas essa é uma característica que já consta no DNA, como prova a confusão do ano de fundação e da contabilização de títulos (veja-se a capa da revista Record de 93/94 onde se assinala o 27º campeonato nacional conquistado pelos encarnados que somados aos de 2004/05, 09/10, 13/14 e 14/15 daria na minha modesta matemática 31 títulos, número que contrasta com o lema adotado para esta época).
 
O que não é compreensível, pelo menos para este imbecil, é a incoerência patenteada ao criticar ferozmente a postura dos outros quando a que se tem na própria casa não é minimamente melhor.

Ou talvez seja um sinal de que realmente o Sporting deixou de ser a coletividade do 'croquete', isto pode ainda estar a criar comichões muita gente e algumas pessoas poderão não saber ainda como reagir a esta nova realidade. O futebol é o momento e o momento presente não é o mesmo momento de há três meses. Engulam o sapo, preparem-se para a travessia, lidem com isso.

PS – Se calhar o momento até é o mesmo de há três meses. O Sporting a triunfar, Jesus a ganhar troféus, hmmm…

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Quando um copo de café com leite desperta a nostalgia

Já são quase oito anos a viver na Polónia e cada vez menos coisas me surpreendem neste país. Ao invés, é graças à adaptação e enraizamento cada vez mais consolidados que tenho conseguido aceder a propostas bastante interessantes e a ocasiões de realização profissional e pessoal que dificilmente (ou mesmo nunca) estariam ao meu alcance em Faro ou em qualquer outra terra portuguesa. A Polónia mostrou-me que tenho capacidade de pensar fora da caixa, fez-me crescer de uma maneira que eu não julgava possível, do ponto de vista emocional, sociológico, no plano das relações interpessoais e interculturais, se eu não tivesse vindo para cá não teria aprendido o que aprendi, não teria criado certas competências, não teria gozado o que tenho gozado, não aproveitaria as minhas potencialidades como tenho feito desde que assentei pé neste país. A Polónia tem dado inúmeras oportunidades, tem-me proporcionado condições incríveis para me desenvolver sendo também exigente na paga. Esta terra não dá nada sem receber algo em troca e do muito que já recebi houve coisas que também perdi por não ter sabido cuidar. Faz parte, aprende-se com os erros mas segue-se em frente porque amanhã o sol nasce outra vez.

Na Polónia já fui ator de televisão e teatro, professor universitário e tradutor, modelo fotográfico e diretor comercial duma empresa, comentador na rádio e na televisão, DJ e jogador de futebol. Não sei o que pôr no cartão de visita além da minha morada e do meu nome, esse elemento que revela a minha portugalidade ao mais desprevenido, que fala de mim e dos meus, que responde à pergunta 'de onde és'. O meu nome é português e eu venho de Portugal, a terra do fado, do mar e da saudade. Saudade: Essa palavra que, tal como o meu nome, não tem tradução em nenhuma língua. Esse bicho que morde sempre que pensamos que já morreu, quando já nos julgamos imunes ao seu veneno, que as suas radiações já não nos afetam. Tão ativo tenho andado de escola em festa, de estação de televisão em relvado que não me tenho lembrado de Faro - não que alguma vez em me esqueça do berço mas porque me sinto tão bem por cá que não tenho sentido necessidade de voltar à terra ou de nela pensar, mesmo que há sete meses que lá não vá.

Mas por muito tempo que viva na Polónia, por muito ar polaco que respire, por muitas palavras polacas que profira, por muitas mulheres polacas com que durma, por muitas vodcas polacas que beba, por muitos relvados polacos que pise, por muitos cidadãos polacos que eu ensine, por muita rua polaca que percorra, por muita neve polaca que sacuda do carro, corre e sempre correrá nesta minha aorta sangue português e de estirpe algarvia. Nesse tipo de sangue o bicho saudade faz o seu habitat natural e não há nenhum antídoto contra esse malvado. Por esse motivo, depois de ter encontrado um lugar no centro da Cidade Capital que serve galões praticamente iguais aos galões que eu bebia na pastelaria Bijou com o meu avô Luís, provavelmente o único benfiquista que eu consegui(ria) amar, este vosso escriba sentou-se à mesa e enquanto sorvia o café com leite recordou o seu terno e divertido avô, bigode à Errol Flynn, infalível com a bica depois de almoço na esplanada d'O Seu Café, notável músico e campeão regional de xadrez, batoteiro incorrigível no dominó e mestre das sopas de batata doce e frade, ficando trancado em casa de azia quando o Glorioso perdia (a minha avó não me deixou entrar em casa no dia dos 7-1, 'vai-te embora que o teu avô tá de beiço') mas garantido na visita à farmácia onde o neto sportinguista trabalhava caso o clube da Luz vencesse, certo que foi ele que me conduziu até esta cafetaria para que eu voltasse a sentir o bicho a morder, se calhar para que me lembrasse dele, de Faro e de todos os que não tenho perto de mim mas que de mim fazem parte inseparável.

E que estarão sempre comigo, nem que seja quando me voltar a sentar aqui para beber um galão.