sábado, 26 de Julho de 2014

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 21

Varsóvia dum 40o andar 1:30 da manhã no quarteirão de um dos hotéis mais finos da Cidade Capital, por consequência arrisco a dizer, do país. Tinha acabado de cumprir mais uma noite como disc-jockey na noite de Varsóvia, desta vez sem o grande bumbumbum das antigas noitadas transpiradas do Muza ou na louca vertigem do Platinium. Uma atuação tranquila e sossegada dentro dum registo lounge, 118 bpm no máximo, adequado ao espaço que foi concebido para o convívio luxuoso... ou sigiloso consoante a intenção. Hotel cinco estrelas, clientela de carteira generosa, garrafas abertas de seguidinha, baldes de frapê a passarem à minha frente para desaparecerem atrás da porta de correr feita de vidro baço com a indicação 'VIP Room'. Ainda lancei um olho curioso para saber o que acontecia atrás daquela entrada por onde passavam tantas pernas delgadas e vestidos justos mas a curiosidade ficou centrada entre a trança loura e a anca delgada da barmaid, acabei por não perceber que rebaldaria havia naquele compartimento que exigia tanto champanhe e também não tive muito sucesso com a barmaid pois ela não se deixou impressionar com os meus arreganhados agradecimentos quando ela me entregava o Ice Tea que lhe pedia para me refrescar do efeito da spotlight que eu tinha apontada enquanto tocava. Entristeci-me, nem consegui ver a paisagem do reservado nem saquei um sorriso à empregada do bar. Se calhar melhor assim, consegui concentrar-me no set e logrei uns abanos de cabeça ao ritmo da música por parte dumas senhoras de idade que se tinham sentado na mesa ao meu lado. Um triunfo para uma noite tão calma.

Povo amigo chegou entretanto, claramente com o propósito de me rebocarem para copos apesar de eu cumprir uma noite abstémica por causa do trabalho e também por ter de guiar de volta para casa. Ao sábado os malinos andam sedentos de multas e uma matrícula estrangeira chama mais a atenção na via rápida que conduz ao meu bairro, por isso não quis arriscar no xarope mas acabei por sair com eles. Estava uma típica noite quente de verão varsoviano, o ar doce e pegajoso a ameaçar chuva, a fazer lembrar Sevilha até pela movida que se via na rua com carros e limusinas em romaria para o centro lúdico da cidade. Tinha estacionado atrás do hotel, na rua das putas. Elas lá estavam, caminhando dum lado para o outro sem dar bola aos transeuntes, sem espicaçar, sem provocar, maneira curiosa de atrair a freguesia. Nem olham para os homens, talvez de esguelha mas nunca mostrando interesse. Não seiCapital de todos os contrastes se por uma questão cultural ou legal, não vejo prostitutas de rua em mais lugar nenhum de Varsóvia a não ser naquele quarteirão do Centro e também nunca vi que fossem interpeladas pelas autoridades. Parece que a polícia fecha os olhos, desde que elas ali estejam confinadas não andam em mais lado nenhum, não dão mau aspeto à terra, os clientes sabem onde encontrar o produto e todos ficam contentes.
 
Não deixa de me fazer impressão mais este contraste na capital de todos os contrastes. Nas traseiras dum empreendimento de alto gabarito, paredes-meias com a igreja de Sta. Bárbara, vagueiam as mulheres da vida, defendendo-se como lhas deixam das tolheitas da vida, expostas ao frio glacial do inverno e a canícula de verão, fazendo o que podem para ganharem uma miséria ao passo que outras comem e bebem do bom e do melhor, rebolam-se em lençóis de cetim e banham-se em tinas de mármore. Tanta diferença e tanta semelhança entre as putas da rua Emilii Plater… e as senhoras do reservado do bar do Marriott.

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Argentina!

"Brasil, decime qué se siente,

tener en casa a tu papá.

Te juro que aunque pasen los años,

nunca nos vamos a olvidar.

Que El Diego los gambeteó, El Cani los vacunó, están llorando desde Italia hasta hoy...

A Messi lo van a ver, la Copa que va a traer, Maradona es más grande que Pelé".

(este texto é dedicado à geração farense da primeira metade da década de 70 e a todos os que comigo chutaram bolas na Escola do Carmo)

D10S Soviético, Artur, Zé Gato, Ruben, Fábio, Samora, Paulinho Santana, Pedro Gancho, Batatinha, Pasteleiro, Adegas, Tozé Patas-de-Urso, Zé Mosca, Ganso, Amador, Paulo Gomes, Joca, Rui, Posta de Carne. Estes eram alguns dos jovens que apareciam ao sábado e ao domingo para jogar à bola na Escola do Carmo. O Artur morava mais perto e às vezes ia buscá-lo a casa logo depois do almoço para aquecer as virilhas jogando baliza-a-baliza, às vezes eu saía mais atrasado e corria desalmado pela rua Cunha Matos abaixo até vislumbrar o alcatrão do pátio da escola, fazendo figas para que não estivessem mais que nove moços para poder jogar logo e não ter de esperar pelo bota-fora. A dose de bola do fim-de-semana era reforçada e transformada em diária durante o verão, a malta ia à praia pelas 10 ou 11 horas (os algarvios dos anos 80 não passavam cartão a cuidados de exposição solar) mas voltava às 15 ou 16 horas a tempo de fazer pelo menos quatro horas de pelada. Durante o verão de 1986 a rotina não era diferente… a não ser durante o Mundial do México, quando jogava a Argentina.

Aí parava tudo. Ao grito ‘Vai começar a Argentina!’ da mãe do Paulinho Santana que morava atrás duma das balizas, a bola de catchumbo deixava de saltar e o campo onde 10 suados meninos corriam, gritavam e praguejavam era evacuado em menos de nada. Terminava a peladinha, tudo regressando a casa em alta velocidade para ver o ‘Pelusa’ jogar, era como ver desenhos animados, circo ou um espetáculo de ilusionismo. O 10 albiceleste era incrível e por isso todos nós apoiávamos a seleção argentina naquele Mundial, se calhar até se jogassem contra Portugal!

A Argentina do tango triste e melancólico, dos bairros portenhos e das pampas, do chimarrão e do asado. Quanta da sua alma está representada na seleção, quanto do seu ser está espelhado no apoio dos inchas.

Maradona era a Escola do Carmo num jogador de futebol. Tinha aprendido a jogar no laboratório da rua, como nós às vezes jogávamos com latas de coca-cola a servir de bola e mochilas de escola como postes das balizas. Via-se nele a habilidade do Fábio demonstrada no segundo golo contra a Inglaterra – o golo do século, a picardia do Zé Gato como no primeiro golo aos ingleses em que D10s salta como um coelho na área inglesa e põe a bola com a mão nas redes do dormente Shilton, a resistência do Artur patenteada na maneira como sempre recuperava das entradas que sofria, a força do Samora vista na arrancada que resultou no segundo golo contra os belgas e mais a potência do Joca, a magia do Paulo Gomes, a ratice do Amador, a competitividade do Ganso, a robustez do Posta de Carne. Já naquele tempo havia Laudrup mas era muito manso, Platini mas era muito francês, Boniek mas era muito cavalheiro, Rummenigge (o Karl-Heinz) mas era pouco sanguíneo, Zico mas era pouco venenoso, Scifo mas era muito frágil. Nenhum reunia todas as qualidades que cada um de nós apreciava num futebolista, Maradona não só conciliava todas essas qualidades em 1,66 de pessoa mas exponenciava-as como ninguém.

O ‘barrilete cósmico’ marcou a nossa infância e a nossa concecão de futebol. Maradona transformou o futebol num representação teatral, graciosa bailarina em bicos de pés que quase flutuava no relvado ou cão raivoso (atenção aos 0:34’’) se lhe pisavam os calos, criança de sorriso rasgado ou de cólera incontida após um golo. Maradona amava a sua seleção como nós amamos a mulher da nossa vida, carregou o seu país ao colo até atingir a maior consagração do futebol mundial, provou que aos seres humanos determinados não se consentem limites, trouxe ilusão e encanto ao meu passatempo preferido, coloriu a minha infância.

Foi, é e será o melhor jogador de futebol de todos os tempos e é por isso (e só por isso já basta) que apoiarei sempre a Argentina, desde que não jogue com Portugal.

 

PS – Impossível evitar os pêlos em pé e uma lágrima comovida ao ver os filmes do Golo do Século e da Gloriosa. Tremendo!

PS II – Eu? Não tinha nada do Maradona, tinha mais do Dasaev.

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

A Rita

Cidade Capital
A Rita esteve em Varsóvia!
- Uau, fantástico... E quem é a Rita? - pergunta o leitor, se calhar intrigado por dar tanta importância a uma portuguesa na Polónia. Como se eu estivesse num salão da Ferrari e ficar todo contente por ter encontrado um Fiat 127.
A Rita é uma das pessoas que me ensinou a ser professor de Língua Portuguesa, se é que já atingi tal estatuto. É uma das pessoas que me ajudou na integração na Comunidade Portuguesa, que me amparou em momentos mais periclitantes e que me acompanhou nos primeiros passos na Cidade Capital. Juntamente com o Mário, a Rita foi parte integrante duma tríade de portugueses responsáveis pelo ensino do idioma lusitano numa das escolas de línguas mais conceituadas da cidade e fez parte crucial dos meus primórdios neste país. Graças a ela conheci pessoas e lugares, aprendi usos e hábitos, pude funcionar com mais facilidade. É uma pessoa pela qual eu guardo um carinho especial e que terá sempre um lugar diferente no meu grupo de amigos varsovianos.

Os meus primeiros tempos na capital polaca foram passados na companhia da minha (ex-)ex-namorada, dias difíceis porque não conhecia ninguém e Varsóvia assemelhava-se a um enorme formigueiro onde as pessoas nem sequer se cumprimentavam e não tinham interesse em conhecer outras pessoas. Conheci o Mário e a Rita quando procurava emprego, o Mário fez-me a entrevista e abriu-me as portas da Escola Bravo e a Rita mostrou-me o funcionamento da empresa e preparou-me para enfrentar turmas de curiosos alunos. Foram duas importantes muletas num período menos estável da minha vida, numa altura em que as saudades de Faro ameaçavam minar os planos de triunfo na Polónia. Eles, sabendo o que sofre um português no começo da sua aventura polaca, pegaram em mim e mostraram-me as coisas boas que existem em Varsóvia, levaram-me a sítios bonitos, proporcionaram-me experiências muito giras e que eu desconhecia por completo (um marcante passeio de bicicleta por Praga Norte no tempo em que ainda havia a feira junto ao Estádio, por exemplo) e, o mais importante, apresentaram-me portugueses. Foi a partir desse momento que a minha vida mudou, quando conheci portugueses em Varsóvia. Obviamente que nem todos eles se revelaram interessantes, como em todos os povos há sempre pessoas com quem temos mais afinidades que outras, pessoas que depois se tornam mais relevantes que outras, mas a presença de compatriotas numa paragem tão afastada do berço é importantíssima no plano da adaptação dum recém-chegado como era o meu caso. Graças à Rita conheci o meu melhor amigo (um mano!) John, a minha maninha algarvia Sónia, um outro amigalhaço que é o Ricardo e foram estas pessoas que formaram a minha base de apoio. A Sónia entretanto foi para os Estados Unidos mas o Ricardo e principalmente o John continuam cá e compõem aquele forte onde sei que me posso abrigar em caso de tempestades.

A Rita veio a Varsóvia!
Quantos lamentos eu ouvi dela, que os polacos eram isto e aquilo, cheios de defeitos. Eu rebolava-me a rir porque entretanto já me tinha lançado na noite a todo o pano com elevada rotatividade de parceiras e não sofria de todo do mal dela, pelo contrário, às vezes até tinha problemas de agenda porque os encontros sobrepunham-se. E ela protestava, barafustava, guerreava comigo porque eu era um lambaraz e só tinha sucesso porque elas não percebiam o que eu lhes dizia. Uma vez encontrei-a com uma data de portugueses perdidos de bêbados no antigo Przekąski Zakąski, eu fui com uma amiga para a apresentar aos meus amigos patrícios e revelou-se um erro. A Rita apanhou uma piela de tal maneira que não se aguentava nas canetas, agarrava-se a mim para não cair e a minha amiga começou a desconfiar, pensava que eu queria uma no papo e duas no saco e ameaçou abandonar a discoteca para onde todos fomos em seguida. A duras penas consegui persuadi-la a ficar, que a Rita era apenas uma colega de trabalho e que o meu interesse era nela. Segundos depois de a ter convencido eis que a Rita protagoniza um episódio hollywoodesco, desequilibra-se e prega uma punhada na garrafa de cerveja que a minha companhia segurava, salpicando-a de cima a baixo, ao que se seguiu um épico espalho na mesa vizinha. Dividido entre a vontade de rebentar a rir e hipotecar o engate, abandonar a bêbeda para salvaguardar a minha prevista cópula ou fazer a coisa certa e ajudar a amiga lisboeta acabei por açaimar as hormonas e chamar um táxi para a Rita, coisa de que ela nem gozou porque fugiu incognitamente da casa de banho enquanto o chofer de praça esperava por ela sendo que o seu regresso a casa se ainda mantém envolto num espesso manto de mistério, tanto para mim como para ela.

A Rita voltou a Varsóvia!
Grande companheira, do tempo em que ganhávamos pouco mas ríamos muito. Bastante do meu êxito e da minha paixão por esta terra se deve a ela. Volta sempre, miguinha!

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

Jaruzelski, o general da Lei Marcial

Wojciech Jaruzełski Wojciech Jaruzelski, o último Presidente comunista da Polónia, morreu este domingo aos 90 anos de idade vítima de complicações relacionadas com linfoma. Figura sinistra e sombria, traço acentuado pelos óculos escuros que sempre usava devido a ter sofrido cegueira de neve em adolescente, o general Jaruzelski ficou infamemente conhecido a nível internacional por ter declarado em dezembro de 1981 a Lei Marcial no papel de líder da Conselho Militar de Salvação Nacional, uma decisão que justificou em 1992 numa entrevista a um jornal alemão:

Era a estratégia lógica daquele momento porque os interesses da União Soviética na Polónia estavam a ser ameaçados pelas movimentações de Lech Wałęsa e o Kremlin ponderava invadir o país porque temia que o Solidarność fizesse um golpe de estado

Estas afirmações colidem com o resultado da reunião do Politburo, três dias antes da imposição da Lei Marcial, na qual o líder do órgão Yuri Andropov, acossado pelas despesas da guerra no Afeganistão, foi claro:

Não podemos assumir o risco de mandar tropas para a Polónia. Não sei qual vai ser o resultado desta situação mas se o poder tiver de cair nas mãos dos sindicalistas, que caia porque nós não vamos intervir sob pena de nos serem infligidas mais sanções económicas por parte dos países capitalistas, sanções essas que não conseguiremos suportar. Concentremo-nos no nosso próprio país, essa é a posição correta.”

Fragilizado pelas constantes greves internas e pela perda de apoio de Moscovo em consequência da nova política de reformas implantada por Mikhail Gorbachev (o líder soviético não tinha interesse em envolver-se em outro conflito além-fronteiras por temer contestações idênticas às sofridas aquando da Primavera de Praga), Jaruzelski acedeu em encetar conversações com o Solidarność, uma decisão que se revelaria crucial para o futuro do país. Na mesa-redonda triunfou a ideia dos sindicalistas de legalização das suas organizações e convocação de eleições livres para o Senado, o general mais tarde abandonaria todos os cargos políticos e militares, seria acusado de crimes contra a Constituição e contra os Direitos Humanos, acusações posteriormente retiradas em virtude da sua idade avançada e acentuado declínio do seu estado de saúde e viveria o resto dos seus dias numa vivenda no bairro varsoviano de Mokotów.

Jaruzelski viveu o tempo suficiente para ver a conversão da Polónia à economia de mercado e a todas as mudanças que o país experimentou, testemunhou Jaruzełsk e Wałęsa em 2005 - Foto PAPa entrada do país na NATO e na União Europeia – facto que comemora dez anos – e assistiu às celebrações dos 25 anos do Acordo assinado a 4 de abril  de 1989 que lançou as bases para a abolição do comunismo na Polónia além de ter sentido o crescimento da importância da Polónia como parceiro comercial e estratégico da Europa Ocidental. Mais tarde reconheceria que o “comunismo falhou” e assumir-se-ia social-democrata apoiando Aleksander Kwaśniewski nas eleições presidenciais de 1995 contra Lech Wałęsa, eleições ganhas pelo primeiro.

Os polacos têm uma opinião geralmente negativa do general, principalmente aqueles pertencentes à ‘Geração Solidarność’. Não lhe perdoam o seu envolvimento enquanto Ministro da Defesa nos massacres de 1970 quando o exército avançou sobre manifestantes desarmados e de lhes ter mentido sobre a ameaça duma invasão soviética que nunca esteve nas cogitações do Kremlin. Ironia suprema, Wojciech Jaruzelski morreu no mesmo dia em que os polacos, aliás, 22.7% do eleitorado polaco escolhia os seus representantes no Parlamento Europeu, uma instância na qual o general nunca esperou ver a Polónia. Os seus compatriotas foram lestos a reagir à notícia da sua morte:

Jaruzelski levou a expressão ‘ir à urna’ demasiado à letra

sexta-feira, 16 de Maio de 2014

Estudo sobre a nova emigração

No âmbito de um projeto de investigação sobre a emigração portuguesa atual, “REMIGR: A Nova Emigração e a Relação com a Sociedade Portuguesa”, financiado pela FCT  e desenvolvido por uma equipa da Universidade de Lisboa, da Universidade de Coimbra e do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, o ‘mishanapolonia’ foi contactado no sentido de divulgar um inquérito online. Os objetivos deste projeto de investigação em causa são: conhecer o perfil dos portugueses residentes no estrangeiro, as suas trajetórias migratórias, os fatores que impulsionaram as saídas, as suas intenções de mobilidade, e as suas relações com Portugal.

Considero uma pesquisa interessante e o testemunho de jovens emigrantes pode ser muito útil para que se atinjam os objetivos dos responsáveis. Caso o leitor queira dispensar alguns momentos a responder ao inquérito, eis o link: http://tiny.cc/remigra

O pessoal agradece.

quinta-feira, 15 de Maio de 2014

Epic Fail, ou como se diz em português, Pior a Emenda do que o Soneto

Depois de um par ou dois de anos sem ter sido organizada, ou pelo menos sem eu ter recebido tal convite, a Receção aos Portugueses da Polónia vai ser reatada como era tradição no dia 10 de junho que é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Decisão louvável, a de retomarem os encontros dos cidadãos portugueses com a sua Embaixada. A Edyta, diligente e simpaticíssima funcionária da representação diplomática portuguesa no meu país adotivo, fez a fineza de me contactar a fim de atualizar a sua base de dados com a minha morada corrente, um gesto que caiu muito bem porque demonstrou interesse e preocupação para com os patrícios que por cá labutam, para poder enviar o convite tendo a certeza que eu o ia receber. Bem o disse, melhor o fez. Ontem já cá cantava o honroso convite. Mas…

Cabeçalho do convite

Li, reli e não entendi. Uma embaixada portuguesa envia um convite a um português para um evento português relacionado com Portugal, com o Poeta português e com as Comunidades Portuguesas… escrito em inglês?! Procurei dentro do envelope se havia uma versão do convite para nativos lusos e descubro uma informação referente aos patrocinadores do evento, todos empresas portuguesas ou com grande participação de capital português. E…

Cabeçalho dos agradecimentos aos patrocinadores

Então qual foi a conclusão que este português tirou? A de que esta é uma receção ‘para inglês ver’ na medida em que o convite oficial foi feito ‘para inglês ler’. Nesta medida, thank you very much, Mr Ambassador, for your kind invitation but I believe I would feel a bit out of place among your English-reading guests. Nevertheless, I remain at your service for any Portuguese-related issues you find my help appropriate. Yours sincerely, Nuno Bernardes.

Por outras palavras: Tal não foi a barraca que vocês deram, mariolas!

quarta-feira, 7 de Maio de 2014

Balada de um dia cabrão

Por trás de Bemowo É um daqueles dias em que não me apetece sair de casa. Não porque o tempo esteja mau mas porque o humor não está para grandes convívios. Há dias assim, dias cabrões como diz o povo da minha terra, dias em que até o barbear aborrece. Dias em que acordo a pensar em voltar logo para a cama, não apetece fazer nada apesar do tanto que há para fazer. Só dá vontade de fazer as coisas mais elementares como coçar onde há comichão e relaxar os esfíncteres desde que tal não implique tarefas posteriores. Apetece mais passar fome do que fazer o pequeno-almoço, só a trabalheira que dá mexer o café no leite e barrar manteiga no pão - ainda mais essa, ter de ir ao pão! Ah, hoje é um dia daqueles, daqueles dias cabrões.

Os dias cabrões são os piores dias porque são os dias em que nada se passa, nada que nos chute para fora da modorra que se estende até à hora do treino, única altura do dia em que me apercebo que tenho qualquer coisa líquida a circular nas artérias. Isto deve ser da falta de trabalho, andamos num período de exames e a malta recolhe em casa para marrar deixando de poder dar atenção às aulas particulares e mirrando os proventos do professor. Os riscos duma profissão liberal.

É nestes dias em que mais me esforço para ver o sol que brilha além da neblina porque não há mal que sempre dure, a porra é quando um gajo se vai abaixo e deixa de acreditar em dias melhores. Se calhar não é a neblina que mais me afeta, é mais conseguir ver esse sol sabendo que ainda falta um bom bocado até que ele esteja por cima de mim. Às vezes sinto-me como naquele filme em que o recluso sabe que foi inocentado, sabe que vai ser libertado mas não sabe quando isso acontecerá e que conta cada dia que passa como mais um dia na choldra em vez de considerar esse dia como menos um que falta até se tornar um homem livre.

Acabo por pegar no carro e sair pela cidade fora, meter-me em ruas que nunca tinha percorrido em distritos aos quais nunca tinha ido e abancar em cafésSopa de Ovo Algarvia que nunca tinha visto. É um bom companheiro, o café. Foi preciso emigrar para eu começar a beber café, primeiro para despertar a meio das tardes de inverno quando o escuro embala o corpo e depois como auxiliar de escrita e leitura como o cão que se aninha no tapete aos pés do dono, é aconchegante e confortador. No treino a coisa corre bem. O homem coloca-me a fazer finalização num ambicioso exercício em que tenho de fazer passar o tiro num estreito espaço entre duas varas, ele atira-me bolas cheias de carapaus e quer que eu chute sem preparação. A primeira bola vai à gaveta, um golo da Eurosport que arranca aplausos aos colegas (brawo, profesorze!), a segunda vai fraca à figura e a terceira, puxada ao pé esquerdo, é atirada em trivela para uma parada monumental do guarda-redes que também merece aplausos. Jogar futebol tem um certo efeito terapêutico em mim, deixo as toxinas todas no campo, volto para casa mais tranquilo e com menos propensão em pensar em tristezas. Termino o dia de pijama sorvendo uma sopinha de ovo feita pela minha companheira de noites tristes e a ouvir as calamidades solenes que o Primeiro-Ministro português profere nas celebrações da caricatura e partido político a que preside, um partido pelo qual eu até tive simpatia no tempo em que defendia valores idênticos aos meus.

Epiteto escreveu um dia que "o Homem não se preocupa tanto com um real problema quanto com a ansiedade imaginada em torno desse problema". É capaz de ter razão, se pusermos o problema em perspetiva. Não há nada que seja tão terrível que não tenha solução e se não tiver solução é menos uma coisa com a que nos temos de preocupar. Haja saúde e um par de braços para trabalhar porque amanhã o sol nasce outra vez e nós já sabemos que Varsóvia não deixa ninguém parar para limpar o suor.

terça-feira, 22 de Abril de 2014

E todos os sportinguistas vão excomungar-me depois de lerem isto

Belenenses 0 - Sporting 1 2013-2014 Foi bom que o nosso rival da 2ª Circular ganhasse o campeonato, uma vez que o Sporting não estava em condições de o ganhar. Digo-o porque prefiro que seja um clube do sul a ser campeão do que os batoteiros do norte.

O poder do futebol esteve concentrado na cidade do Porto durante as últimas três décadas, um poder daninho. Um poder arquitetado em residências de luxo no Parque da Cidade, em Miramar e em Gaia, um poder exercido nos escuros das casas de alterne, um poder consumado em viagens pagas a árbitros, um poder consubstanciado em corrupção desportiva com prejuízos evidentes para todos os restantes competidores, um poder que se impôs ao Poder Judicial pois anulou todas as conclusões incriminatórias que perigavam os órgãos da máfia. Um poder que desacreditou uma das maiores fontes de esperança do povo português – o futebol.

Habituados a serem prejudicados pelo Estado, os portugueses sempre tiveram no futebol um escape de frustrações e o futebol sempre serviu para criar ilusão. O português vibra com o seu clube, exalta os seus heróis nas vitórias e roga maldições na hora da derrota. Quando perde, o português vai trabalhar de azia, fica resmungão, protesta se faz sol ou se chove, fica sem paciência para aturar quem quer que seja – os colegas, a mulher, o chefe, os filhos. Quando ganha ele beija prolongadamente a mulher (às vezes até com um bónus posterior) depois do jogo, sai mais cedo de casa para o trabalho, vai alegre e impante, dá os bons-dias a toda a gente e nem uma multa de trânsito o chateia. É assim que o tuga comum vive o futebol e essa vivência foi adulterada por uma corja de gatunos que ocupam cargos diretivos dum clube de futebol chamado Futebol Clube do Porto. Os dirigentes desse clube viciaram o futebol português nos últimos trinta anos, retiraram à maioria dos portugueses a ilusão, a magia, o divertimento, a distração que o futebol lhes causava. O futebol em Portugal foi gravemente lesado pelos comportamentos e ações protagonizadas pelo Futebol Clube do Porto, perdeu credibilidade e afastou espetadores e adeptos, os portugueses deixaram de acreditar na beleza do futebol porque os resultados estavam combinados, os árbitros comprados, os vencedores previamente escolhidos.

Dois clubes de Lisboa com entrada direta na Liga dos Campeões representa uma machadada séria no futuro próximo do clube de Campanhã, dinheiros que não entram nos cofres azuis-e-brancos, jogadores insatisfeitos por não poderem disputar os desafios mais mediáticos do planeta, fatores que agravam a crise duma época desastrosa em termos desportivos (3º lugar abaixo dum Sporting ainda em convalescença da pior temporada da história) e em termos de gestão (a venda de Otamendi, o melhor central da equipa, é a coisa mais estapafúrdia do ano). A liderança parece dar sinais de erosão (há quanto tempo não se via um treinador ser despedido do FC Porto?), há falta de referências e de mística no balneário portista (Mangala capitão? WTF?!) e prevêem-se dias difíceis na gestão do clube. Pinto da Costa não é eterno, o prazo de validade está a expirar e a sua saída deixará um imenso vazio e originará uma luta selvagem pelo poder porque há muita gente a mamar na teta da SAD portista, muitos administradores que ganham muito dinheiro com o modelo de gestão do FC Porto, muitos Adelinos, muitos Reinaldos, muitos Anteros, Cerqueiras, Madureiras, muita canalha que se banqueteia com o resultado das negociatas do FC Porto… e a mamagem está a acabar.

Pode ser que esta época seja uma antevisão das épocas que se seguirão. Faço votos que o campeonato ganho pelos encarnados e a conquista da entrada direta na fase de grupos da Liga dos Campeões por parte do Sporting (e a consequente oxigenação que os milhões da UEFA vão permitir aos cofres leoninos) signifique a viragem do futebol a Sul, o fim da dinastia bafienta dos barões do Norte, o fim da batota, da trafulhice e da corrupção. Pode ser também que tenhamos que assistir a mais uma época de trapaças e situações nebulosas porque o polvo ainda tem alguns tentáculos vivos mas a tendência é para definhar porque a verdade é como o azeite e vem sempre ao de cima. Vejam o que se passou na vizinha Espanha em que o ‘FC Porto espanhol’, o Barcelona, foi impedido de inscrever novos jogadores nas próximas duas janelas de transferências.

Por isso, e agora vem a parte da excomunhão, sinto uma leve satisfação em que a agremiação de Carnide tenha ganho o campeonato. Porque foram a melhor equipa do torneio e por isso são vencedores justos e porque a batota do FC Porto não foi premiada. Fico mais satisfeito por verificar que, nas duas maiores cidades do país, os adeptos do clube campeão escolheram como lugar de festejos monumentos em que a figura do Leão impera. E por fim, faço votos para que os triunfos encarnados mantenham a mesma regularidade que têm patenteado. Quatro campeonatos ganhos em vinte anos é um número muito apreciável para o “maior clube do mundo”.

Saudações leoninas!