terça-feira, 28 de março de 2017

Postais da Polónia - 22

A Rotunda antes do encerramentoFoi quando corria o verão de 2008 para o fim, numa fase em que eu gozava fortemente os prazeres da vida de solteiro em Varsóvia, que conheci a Sylwia, uma deslumbrante loura de olho azul petróleo. Estava a dançar no Klubokawiarnia, poleiro garantido das minhas noites de quinta a sábado, ela passou por mim a primeira vez e eu fiquei de boca aberta. Era a figura mais bela que eu alguma vez tinha contemplado, o adjetivo “linda” não lhe fazia jus. Apesar de se dirigir à casa de banho com uma garrafa de Carlsberg na mão, percebi nela uma graciosidade que nunca tinha encontrado, uma feminilidade tão intensa que imediatamente me cativou. Fiquei apaixonado. É certo que naquele tempo eu apaixonava-me com a mesma frequência que o Bas Dost empurra o repolho para o saco, mas aquela mulher matou-me. Quis meter conversa com ela mas como na altura não falava polaco decidi que arriscava em inglês se ela à volta me desse chance. E ela voltou, passou por mim, olhou e seguiu em frente. Desanimei. Ela voltou, passou mesmo à minha frente mas não olhou. Fiquei fulo, “esta gaja está a brincar com o fogo”. Voltou mais uma vez, olhou para mim… e sorriu. “Já foste!”, pensei. Fui atrás dela, encaixei-a a um canto e apesar de não falar polaco e dela não falar inglês não descansei enquanto não fiquei com o número de telefone dela. Afinal quem tem boca vai a Roma e Varsóvia até fica mais longe do que a capital italiana.

Mais tarde combinámos um café para nos conhecermos melhor e tal e coiso e através de SMS trocadas com a ajuda dum dicionário obsoleto e da péssima assistência que o Google Translate prestava ao tempo decidimos encontrar-nos na Rotunda, o ponto de encontro favorito dos varsovianos, que fica não muito longe da estação de metropolitano Centrum. Como o nome indica, é um local central e de fácil acesso, onde o pessoal gosta de se reunir antes de atacarem os bares, restaurantes ou boîtes da Baixa… digo, do Centro. Nesse tempo o meu compincha Mário morava num edifício alto em frente ao Palácio da Justiça, menos de um minuto a pé do ponto de encontro com a Sylwia, por isso passei por casa dele para uma cerveja e matar um pouco de tempo conversando acerca das minhas eufóricas impressões sobre o meu primeiro verão passado em Varsóvia. Uma conversa que ele ouvia com satisfação por já saber do que a casa gastava – ele já tinha alguns verões em Varsóvia no cabedal e todas asExplosão de 1979 aventuras que lhe contava ele já as tinha vivido na primeira pessoa. Quando faltavam uns cinco minutos para a hora recebo uma mensagem com um texto que compreendi à primeira mesmo que naquela época o meu domínio de polaco fosse um pouco mais do que inexistente e que rezava mais ou menos assim:

- São 19:55 e não estás cá, por isso vou para casa.

Cuspindo a cerveja saí disparado à medida que escrevia uma macarrónica desculpa em polaquinglês e valeu-me que a rapariga teve paciência, esperou mais meio minuto por mim e o filme teve um final feliz. Com esta lição aprendi que a pontualidade portuguesa não tem lugar na Polónia se queremos cair nas boas graças das raparigas e que até é conveniente chegarmos antes do tempo combinado se queremos faturar pontos de simpatia.

Foi com esta aventura que me estreei na “Rotunda”, um singular edifício em forma de círculo que servia de dependência do banco PKO desde 1966 e que era o sítio favorito para os varsovianos se encontrarem devido à facilidade de acessos providenciada pela proximidade de paragens de autocarro e elétrico bem como da já mencionada estação de metropolitano. Situado na rotunda Dmowskiego, unanimemente considerada o “miolo” de Varsóvia, a “Rotunda” ficava à entrada da rua pedonal Chmielna por onde se chega à zona nobre da rua Nowy Świat e aos seus restaurantes e cafés. Seguindo o bom hábito varsoviano combinei muitas vezes encontrar-me com pessoal naquele lugar, às vezes chegava mais cedo para ver pessoas amigas saudarem-se calorosamente, namorados abraçarem-se com fervor, desconhecidos cumprimentarem-se pela primeira vez. Era uma coisa muito varsoviana que mesmo sem ser nada de especial representava para mim um passo importante na minha adaptação e no reconhecimento de Varsóvia como um dos seus, sempre que eu propunha o rendez-vous na “Rotunda” a ideia era imediatamente aceite e isso deixava-me com a impressão que as pessoas me davam crédito.

Rotunda atualmente - Foto Gazeta Wyborcza onlineEscrevi o parágrafo anterior dominantemente no tempo pretérito porque a “Rotunda” já não existe. O edifício sofreu com a violenta explosão de gás de 1979 – acidente onde perderam a vida 49 pessoas. A estrutura ficou de tal forma abalada pela violência da explosão que se considerou reconstruir o edifício de raiz, decisão que se revelaria crucial para o destino da Rotunda; o edifício ficou marcado para demolição visto a fachada do prédio ter sido alterada no restauro após o acidente e não coincidir com o traçado original. A deliberação foi tomada em 2015 e os trabalhos de desmantelamento da Rotunda começaram este ano. Porém, o organismo camarário responsável pela conservação e restauro do património revogou essa decisão atendendo a que a fachada corresponde de facto ao que consta no plano original e os trabalhos foram suspensos deixando a Rotunda com um aspeto de prédio despido de vida, um triste esqueleto metálico no âmago da Cidade Capital.

Dizem que há planos para revitalizar a Rotunda e torná-la de novo no ponto de encontro oficioso dos Varsovianos, dizem que há investidores decididos a recuperar um edifício que é inevitavelmente um símbolo de Varsóvia. Pelo valor sentimental que a Rotunda tem para mim e para todos os que diariamente vivem Varsóvia, é imperioso que se recupere a Rotunda e que se feche a cratera que se rasgou em pleno coração da capital polaca. Varsóvia sem a Rotunda é como Faro sem o Largo da Palmeira.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Quando comprar não significa necessariamente que se traga compras para casa

Há semanas eclodiu uma discussão, leia-se uma civilizada troca de pontos de vista, entre mim e uma aluna a propósito da tradução em polaco da palavra portuguesa “comprar”. Tudo isto porque eu traduzi o verbo de duas maneiras diferentes, contemplando os aspetos perfetivo e imperfetivo que tanto azucrinam os estrangeiros que tentam aprender polaco. Tudo porque eu disse:

- “Comprar” significa “kupić” (perf.) ou “kupować” (imperf).

Isto detonou a discussão e a pergunta da estudante.

- Mas, espera. Significa “kupić” ou “kupować”?

- (meio encavacado) E há diferença?

- Claro. “Kupić” usa-se quando tu compras alguma coisa e  “kupować” para o processo de comprar sem que necessariamente compres alguma coisa.

Aí fiquei completamente baralhado. Como é que se pode comprar sem necessariamente comprar? Ou compras ou não compras, não pode haver um verbo para “não comprar”, não há verbos que definam “não-acontecimentos”. Ainda debati este tema com mais uma ou duas pessoas até que finalmente me elucidaram e eu cheguei à conclusão de que este “kupować” significa algo como “ir às lojas”, tipo o nosso português “ver as montras”. Ou seja, não declarar a intenção de comprar mas também não descartando uma eventual compra caso se veja algo que se agrade. Andei matutando nesta situação até uma outra aluna col14467aocar luz sobre o caso e explicar-me esse tal processo de ir às compras sem comprar nada.

- São resquícios dos tempos socialistas, Nuno. Naquela era as pessoas iam às lojas mas não sabiam o que comprariam porque não sabiam o que lá havia. Podias ir com a intenção de comprar carne e voltar com arroz ou açúcar, podias sair de casa para comprar pão e regressar de mãos a abanar. Nunca se sabia o que se ia comprar porque nunca se sabia o que a loja tinha naquele dia. A única coisa que havia sempre era vinagre.

É curioso perceber como as culturas criam palavras para definir determinadas ações ou factos. Como em Portugal nunca experimentei dificuldade em comprar o que queria, desde que tivesse dinheiro, não imaginava que existisse em alguma língua do mundo um verbo que definisse “não-comprar” ou “comprar do que houver podendo acontecer que não se compre nada”

Cada vez me surpreendo mais com esta gente.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Adeus Tarchomin - Virar de página

Em 2013 iniciei um ciclo importante na minha estadia na Polónia com a minha mudança para o bairro periférico de Tarchomin, situado a norte da margem leste do Vístula. Após quatro anos de muito feliz permanência em Tarchomin chegou a hora de encaixotar os pertences na sequência do juntar de trapinhos com a Lena e aqui estou eu a caminho de Bielany, noroeste de Varsóvia, para uma nova etapa de vida.

mudançaAo deixar aquela que foi a minha casa mais duradoura na Polónia não consigo evitar um profundo sentimento de saudade, aquele tão português misto de perda, afeto e nostalgia. Foi no nº 6 da rua Kamińskiego que dei um salto gigante na minha adaptação a este país. Habituado que estava a permanecer debaixo da asa protetora das mulheres com quem vivi, nunca tive a curiosidade (por não ter tido necessidade) de me envolver nas situações práticas do dia a dia como negociar um contrato de arrendamento de casa ou agendar a troca de pneus aquando da mudança de estação. Sofri as conhecidas “dores de crescimento” enquanto passava pelo inevitável período de transição entre o gorado plano inicial de vida com a (entretanto tornada ex-)namorada e o mundo de interrogações que enfrentava no novo pouso. Em Tarchomin, tirando a questão do registo de permanência para o qual tive a ajuda preciosa da Matylda, tive de me virar sozinho e sem rede. Se Natolin foi como a minha universidade em Varsóvia, Tarchomin foi o meu primeiro emprego.

Gosto muito desta minha já praticamente ex-casa. É um T2 com mais de 80 m2 , uma casa de banho maior do que muitos apartamentos do centro do Varsóvia, varanda devidamente orientada para ter a antena satélite instalada e se poder assistir aos jogos do Sporting e até – para indescritível alegria minha – do Farense. Fiz dele um refúgio perfeito tanto para a preparação de aulas e atuações, a tranquilidade dum bairro longínquo permitia melhor concentração no trabalho, como para a libidinagem própria dum rapaz solteiro. Tinha quarto para os hóspedes de Faro, acolhi a minha mãe por algumas semanas, estava contentíssimo. Cheguei uma ocasião a pensar que tinha efetivamente conseguido alcançar o tipo de vida que queria e que nada me faria mudar de rumo.

Mas como diria um dos poucos heróis portugueses contemporâneos (1) a vida tinha planos próprios e tratou de alterar os planos que eu lhe tinha reservado. No menos que esperava eis que surge uma mulher. É uma coisa engraçada, que sempre que os homens pensam que as coisas estão encarriladas surge uma mulher para baralhar as cartas e as dar de novo. Como se na régie desta série de televisão que é a vida o realizador se lembrasse de introduzir um elemento novo, um personagem convidado para fazer subir as audiências do programa. Não percebo se é por sadismo de quem mexe os cordelinhos, se para manter o equilíbrio universal uma vez que estava a divertir-me tanto (teria eu esgotado o plafond de hedonismo?) mas no melhor que eu estava a curtir a minha existência surgiu uma mulher. Não qualquer mulher, porque com certeza não seria uma mulher qualquer que seria capaz de pôr este vosso escriba a ponderar nova mudança de estilo de vida e partilhar teto, mas uma mulher excecional.

Assim, por força das vicissitudes do amor, abandono aquele que foi o meu covil durante quatro intensos anos. Anos de sofrimento, anos de gozo, fundamentalmente anos de crescimento e maturação. Graças a Tarchomin estou agora mais apto e confiante, sinto-me mais capaz de triunfar em Varsóvia e o facto de me mudar para a casa da Lena é uma prova disso mesmo – de que é hora de abraçar outros desafios.

Que os ventos continuem a soprar na mesma direção, assim seguirei em frente.

(1) – Prof. Agostinho da Silva

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Primus Inter Pares - O Platinium fechou

Num espasmo da minha cada vez mais comatosa carreira de DJ, no passado mês de dezembro fui convidado para atuar em alguns clubes de Varsóvia. Foi uma oportunidade para atualizar a biblioteca, desempoeirar as pen-drives e ver o que se passa na noite varsoviana pois a vida de homem comprometido não permite, ou não devia permitir, grandes farras. Uma dessas festas foi numa das minhas catedrais de desbunda, o Platinium

Flyer festa 40 anosSoube com tristeza que vai encerrar e senti um aperto na garganta quando desci da cabine, auscultadores e discos na mala, sabendo que não ia mais voltar àquele lugar. Um clube onde quis tocar mal entrei pela primeira vez, um autêntico santuário de mulheres deslumbrantes e sensuais, verdadeiras feiticeiras de luxúria em dança furiosa e fascinante que me fizeram pôr em causa todos os conceitos que tinha sobre beleza e graciosidade. O Platinium sintetizava a noite da Europa de Leste,  ou Europa Central, como os polacos preferem. Era um supermercado de emoções e prazeres onde os relógios perdiam os ponteiros e as carteiras voltavam ocas para casa. Os olhares femininos batiam muito mais que os shots de vodca, esbofeteavam, arranhavam, despiam e lambiam para depois chutarem contra a parede. Os lavabos dos homens ficavam em frente dos das mulheres e cruzavam-se olhares atrevidos enquanto elas retocavam o batom e eles ajeitavam a fivela do cinto. O house era sempre de altíssimo quilate e na pista os suores corriam como gins e uísques derramados no gelo, toques e abraços, línguas e cabelos, ombros e coxas. O pecado em saltos altos e decotes agudos, os táxis entregavam raparigas bonitas e arranjadas e recebiam feras loucas e famintas, era como uma câmara de transformação onde se dissolviam todos os filtros e logo na primeira noite percebi que valia (quase) tudo.

Várias vezes voltei como cliente e várias vezes embriaguei-me com álcool e pernas, várias vezes nessas várias vezes olhava com gula para a cabine do DJ e imaginava-me por trás dos controles, maestro daquela orgia de sons e perfumes, a ditar de que forma as ancas se mexeriam, a pautar o ritmo dos impulsos, a decidir quando eles podiam ir fumar um cigarro e quando elas voltavam para a pista para que eles viessem atrás delas. Várias, tantas, tantíssimas vezes me perdi e encontrei naquele chão profano procurando compreender se seria melhor tornar-me o chefe da festa musical ou apenas deleitar-me com os lindos frutos que aquele pomar oferecia sem descanso... até que um dia (obrigado, Zinha!) consegui chegar à fala com quem contratava os DJs e após uma audição a um trabalho meu recebi um convite para fazer o warm-up (primeiro DJ que prepara o público para a atuação do DJ principal) de uma noite de sexta. Foi como se tivesse recebido uma proposta para fazer testes no Sporting! Fiquei tão contente que dormi uma média de quatro horas por dia na semana antecedente à atuação porque todas as noites aperfeiçoava o set. No Platinium tive a sorte e a honra (se calhar algum mérito, modéstia à parte) de trabalhar no ano em que o clube foi considerado Best Club in Warsaw, o que não é fácil considerando a concorrência. Fiz parte da equipa de DJs no clube mais mediático da capital da Polónia, cumpri o sonho de mandar numa festa no melhor clube da cidade e como cereja no topo do bolo em dezembro de 2013 recebi os meus amigos e atuei para eles na inesquecível festa dos meus 40 anos (lembram-se daquele soberbo passeio de limusine?).

Na minha última atuação senti que o Platinium já se despedia de mim, não havia muita gente porque os proprietários desinvestiram e não apostaram mais em marketing desde que o negócio da venda ficou fechado. Porém mesmo a meia-casa, mesmo já no inverno duma vida pujante e memorável, lá de cima da cabine consegui de novo ver uma pista cheia de toques e abraços, de línguas e cabelos, de ombros e coxas. Consegui ver de novo os meus amigos perdidos de bezana a enfardar barcos de vodca-Red Bull como se não houvesse amanhã e um blogueiro algarvio entalado entre o balcão do bar e o voluptuoso par de seios e os lábios de uma sueca (pois...), garrafas de vodca espetadas de cabeça para baixo nos frapés da zona VIP, muita mas mesmo muita extravagância.

O Platinium fechou. Parte da minha identidade varsoviana partiu com ele.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Uma Algarvia na Polónia



Finalmente, depois de muitas hesitações, a minha mãe resolveu visitar a Polónia. Sempre lhe fez confusão a duração da viagem, quatro horas dentro dum avião para ela equivale a quatro anos para o mortal comum, mas como eu e a Lena íamos no mesmo voo a tortura foi menos dolorosa. Descolámos às 23:30, cruzámos a Europa durante a madrugada e aterrámos em Varsóvia perto das 5:00. Contrariando a minha dificuldade em adormecer em transportes consegui dormitar umas horas, tal não era a sonolência, e quando acordei olhei para os lados vi a minha namorada a dormir que nem uma pedra, porém quando virei a cabeça para a direita lá estava a minha estoica mãe de olho mais aberto que o mocho da anedota.

- Então, não dormiste? - Perguntei ao que ela acenou negativamente. Já ter entrado na aeronave tinha sido um progresso, tranquilizar-se ao ponto de passar pelas brasas a bordo será o passo seguinte.

Depois de duas semanas na Cidade Capital a minha mãe pôde desmistificar algumas ideias que possivelmente teria, pelo menos sabe agora que o verão em Varsóvia pode ser tão ou mais quente do que em Faro, que a minha casa não oferece risco de congelamento durante os rigorosos invernos polacos, que as imperiais nesta terra podem ser de litro, que o carrinho que era do nosso tio João continua estimado e bem tratado. Fascinou-se com os corvos e as gralhas, aves repulsivas na minha opinião mas exóticas para quem não convive com elas, agradou-lhe a largura e limpeza das avenidas, a imponência dos monumentos, a vitalidade da Cidade Velha, o tamanho das doses nos restaurantes. No dia do aniversário, a Lena levou-a a um restaurante grego onde às sextas se dança em cima das mesas depois do jantar e quando lá cheguei encontrei-as num pé de baile felizes da vida com dois mojitos semi-bebidos na mesa ao lado. Eu vinha cansado depois do treino e por isso contive-me na dança mas a cota respondia com vigor às solicitações da polaca, pulando e girando até que o gás se me acabou e dei por finda a rebaldaria quando o relógio caminhava para as duas da matina.

Tive o prazer de cozinhar para a minha mãe, obviamente com a ajuda inestimável da Bimby que surpreendeu pela praticidade – Para fazer um bacalhau à Zé do Pipo tinha de sujar alguns três tachos e aqui só se usa um aparelho – disse. Conheceu alguns dos meus amigos, foi ver um jogo do Inter, passeou pela cidade, provou pierogi e panquecas de batata, viu como se fazem pastéis de bacalhau em Varsóvia (cortesia do amigo Costa do Portucale) serenou ao fim de quase nove anos de incógnita e compreendeu porque gosto tanto de cá viver.

A próxima batalha vai ser trazê-la cá no inverno, não para que ela tirite de frio nem para provar a horrível cerveja quente, mas por causa da neve. É que para nós algarvios, a neve e o nevar é uma coisa de filmes de televisão. Eu estreei-me na neve quando já tinha 28 anos, a minha mãe viu neve em Faro quando tinha 5 ou 6, eu vi nevar pela primeira vez numa noite de novembro em Varsóvia, a minha mãe ainda não viu nevar. Pode ser que, agora que ela já conhece o caminho, seja mais fácil de convencê-la a embarcar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 24

A chegar à Ilha do FarolJá há muito tempo que não passava umas férias tão boas em Faro. Apresentei a minha cidade-berço à namorada, ela conheceu os meus amigos de infância e a minha família, curtimos um tempo que convidava constantemente a banhos de sol e de sal, participámos naquela que é para mim a melhor festa do Algarve (Columbus Boat Party) e desfrutámos imenso de Faro. Foi com misto de espanto e alegria que constatei a vitalidade e o dinamismo que Faro evidenciou enquanto eu lá estive, a primeira quinzena de agosto. A Baixa estava sempre cheia de gente de Faro e de fora, conheci estabelecimentos recentes com conceitos modernos e atraentes e que são obra e ideia de gente minha amiga, entre os quais destaco o requintado Mezzanine do João Tiago, o refrescante The Woods do Mauro e o elegante Aperitivo do Miguel Gião que continua a ter aquele toque de Midas que o distingue da concorrência. A nova unidade Chelsea perto da Zara e o disco-bar Castelo são dignas de menção honrosa, casas que oferecem predicados de bom-gosto não só aos farenses como aos visitantes. Um salto qualitativo enorme em comparação com o que Faro habitualmente tinha para dar e que acabou com a pergunta que sempre fazia: „Onde é que eu vou levar a moça?”

Fiquei orgulhoso e comovido, confesso, quando cheguei à Rua de Sto. António numa bela sexta-feira e vi esplanadas completas. Eu já estava habituado a ver a principal artéria comercial de Faro como uma rua-fantasma de lojas encerradas e anúncios de trespasses onde a caca de cão minava de forma perene o belo desenho de calçada portuguesa e o esplendor de casas como a boutique Pigalle ou as sapatarias Charles e Italus (o furor que fez aquele reclamo luminoso em forma de cruz) já só existiam no meu imaginário – uma era da qual vem o original e resistente gato de neons da Ótica Graça – porém subitamente deparo-me com um amplo leque de cafeterias e estabelecimentos comerciais pujantes de ofertas e cheios de fregueses. Até o velhinho café Aliança reabriu as portas com uma nova conceção mas preservando o charme ancestral próprio de um dos três cafés mais antigos de Portugal.

É uma dupla satisfação, esta de ver Faro a recrescer. Por um lado nota-se que o povo está mais animado, readquiriu a alegria que eu sempre lia nos rostos da minha gente mas que andava arredada devido aos últimos tempos austeros. Os restaurantes da ilha2013-08-03 01.19.49 do Farol e da Praia de Faro estavam cheios, na Festa da Ria Formosa era difícil encontrar lugar para sentar e comer. Está mais folgado, o algarvio. Está mais tranquilo, recuperou a vontade e a iniciativa, quer fazer coisas, jantar fora e ir a lugares, tem planos e projetos, abandonou o pensamento curto prazo e o “logo se vê”. Por outro lado não posso ficar indiferente a ver rapaziada que eu prezo tendo sucesso numa indústria tão competitiva como a restauração e numa terra tão ingrata para os seus próprios filhos como é Faro. As casas acima mencionadas são uma amostra dos novos ventos que sopram na minha cidade no campo do empreendorismo, novidades de risco porque priorizam a qualidade e o requinte à habitual chungaria que traz lucro fácil. É o caminho mais complicado mas aquele que na minha opinião enobrece tanto os que apostaram no nível elevado dos seus serviços como a cidade que ganha por ter estabelecimentos de tal categoria. O cliente é presenteado com atendimento e produto de classe, fica com vontade de voltar, todos lucram.

20160618_105905Por isso mando daqui um abraço de reconhecimento pela coragem àqueles que possuem uma visão inovadora e a noção de que Faro precisa de locais assim, bem como a ousadia de meterem mãos à obra e edificarem os seus projetos, e uma palavra de agradecimento por contribuirem desta forma para a prosperidade da minha terra. Graças à vossa determinação e audácia sinto-me melhor quando volto à nossa cidade e tenho mais opções para onde levar os meus amigos. Que nunca vos falte a inspiração.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Isto não foi só um jogo de futebol - III

Bandeia ao pescoço no Euro2012Por norma não sou supersticioso. Tenho algumas pequenas neuroses como tentar que seja o pé direito o primeiro a tocar no chão quando me levanto de manhã mas não tenho problemas com gatos pretos, passar por baixo de escadas ou entornar sal na mesa. Porém a coisa muda de figura no que diz respeito ao futebol porque nesse campo há coisas de que não abdico – um determinado par de boxers que (quase) sempre visto quando o Sporting joga, se a bola sai nossa nas peladinhas ou nos jogos eu tenho de a tocar antes do adversário e a minha velhinha bandeira de Portugal que está sempre ao pescoço em dia de jogo da Seleção. Há quatro anos tirei a bandeira do pescoço antes dos penáltis contra a Espanha e deu no que deu, nunca me perdoei e estou absolutamente convencido de que fomos eliminados do Euro2012 por me ter esquecido de pôr a bandeira onde devia, uma cruz que carrego comigo desde então. Neste Campeonato Europeu não facilitei e mal cheguei a Varsóvia, porque os dois primeiros jogos de Portugal vi-os em Faro no Jardim das Pirâmides na companhia da turma de outrora, vesti a minha camisola, atei a bandeira à nuca e repeti o ritual em cada jogo prometendo lavar a camisola apenas se perdêssemos.

Geralmente costumo ver os jogos sempre no mesmo lugar mas desta calhou não repetir nenhum local. Sozinho em casa contra a Hungria, com dois Nunos num bar à beira do rio contra a Cróacia, na casa de amigos com polacos e portugueses contra a Polónia, na casa dum português com casais amigos contra o País de Gales e a Final foi assistida em ecrã gigante entre compatriotas e respetivas namoradas num parque aberto com geleiras cheias de Super Bock. Estava preocupado porque não gostava de mudar de lugar entre jogos e porque nesse dia a minha Maria quis ver a partida e resolveu juntar-se à comitiva, um novo dado na equação que poderia desestabilizar a harmonia e a consequência dos resultados de Portugal. Envolto nesta tempestade de pensamentos, entre a possibilidade de ela poder trazer má sorte e a segurança que a minha bandeira me conferia mais a insuportável carga de nervos que uma Final implica, mamei com o John - inseparável compincha nestas batalhas - duas frescas quase de rambetão, acendi o primeiro dos 150 cigarros e ante os protestos da comadre que já não podia ver-me a andar de um lado para o outro, sentei-me no chão com o resto do pessoal a ver o jogo.

Os franceses ganhavam quase todas as segundas bolas e os duelos corpo-a-corpo, têm mais envergadura que os portugueses e os únicos que lhes podiam dar luta nesse aspeto eram Pepe, Fonte, William e Cristiano. Quando este ficou inutilizado perto do primeAdrien e Renatoiro quarto de hora de jogo, quando eu pensava que ia beber o resto da geleira num só gole, senti uma onda de calma olímpica a trespassar-me o corpo e em vez de prenunciar a derrota cantada em virtude de termos perdido o nosso melhor jogador experimentei uma profunda serenidade como que sentisse que a infelicidade do nosso capitão iria catapultar a Seleção para uma demonstração de união e solidariedade que culminaria na vitória que todos dedicariam a Cristiano Ronaldo.

Comecei a perceber que os franceses não estavam preparados para jogar contra um Portugal sem CR7 porque os jogadores das Quinas deram as mãos e desmultiplicavam-se em ações de sapa, guerrilheiros ibéricos que sabotavam as iniciativas gaulesas tentando bicar Lloris quando fosse possível e a partir dos 75 minutos constatei que eles estavam cansados, pensavam que iam limpar o jogo em hora e meia e estavam nos Campos Elíseos antes da meia-noite mas já se viam a ter de disputar um prolongamento contra aqueles pequenos e insolentes sacaninhas de vermelho. Fernando Santos põe Eder em campo e estranhamente concordo com a substituição, elogio a audácia, 'O pino vai segurar a bola e esperar pelos médios, os franciús estão rebentados!'. Os meus amigos aplaudem a jogada porque o Ricardo, camarada carioca dos meus primeiros dias de Varsóvia e que assistia ao jogo conosco, tem apelido idêntico – Éder. Dizem que ele vai resolver o jogo, eu rio para dentro e penso 'Era lindo, mas tal coisa significava o fim do futebol!'. Os cigarros desapareciam, a cerveja também, as unhas começaram também a sofrer consequências, a noite chegou e trouxe com ela o prolongamento, Patrício salva mais uma, e outra, o Gignac no poste!!, eu agarro o John pelos colarinhos que cospe a cerveja e grito-lhe a velha máxima que 'se esta não entrou então não entra nenhuma, punheta!' e vou rezando que 'quem não mata, morre'. Cresce a crença que podemos realmente ganhar o jogo, que podemos fechar o bico ao galo e protagonizar um St.Denisazo. Raphael à trave! O John urra que 'foda-se! Era esta!' Em silêncio concordo com ele e faço votos para que este golo não venha a fazer-nos falta. Pouco depois Eder recebe de João Moutinho, enxota Koscielny, flete para o meio e de cabeça em baixo puxa a culatra direita e reencarna Eusébio contra a Coreia do Norte em 1966. Histeria no nosso acampamento! O John pula e abraça o Ricardo, o Éder, e todos os que lhe aparecem à frente, a moça encolhe-se com medo que eu lhe pregue alguma punhada distribuida pela emoção, todavia mantenho-me sentado a digerir o que está a acontecer, leio a frustração dos franceses na reação de Pogba, os gajos estão desorientados porque não esperavam que isto pudesse acontecer, puxo mais um cigarro e olho para o relógio, faltam 11 minutos. Isto pode mesmo acabar bem.

À entrada para os descontos levanto-me e fujo. Fugi para um lugar onde não havia ninguém e vi de esguelha o último minuto da Final. Percebi que íamos ser campeões europeus e eu não sabia como proceder. Ia acontecer o maior evento da nossa história contemporânea desde o 25 de abril, caramba! Nunca na vida imaginei que veria o meu país campeão de futebol e agora não estava preparado para o momento. Eram sempre os outros, nunca nós, mas agora era a nossa vez. Como se faz? Tinha receio, era a primeira vez e a primeira vez é sempre atabalhoada, ansiedade, inexperiência. Ronaldo de joelho entrapado salta no banco e empurra o nosso selecionador, empurra toda a equipa, empurra uma nação para o seu destino vitorioso, para o triunfo. O árbitro apita, somos campeões e eu desabo a chorar.

Não sei quanto tempo fiquei chorando ajoelhado na relva mas deve ter sido um bom bocado porque senti uma mão nas costas e a voz do Ricardo, esse Éder, dizendo.

- Cara, parabéns! Mas levanta daí porque você tem de me agradecer o gol e o segurança está olhando para você faz cinco minutos.

Levantei-me chorando e chorando abracei aquele meu Éder, chorando telefonei à minha mãe, chorando recordei-lhe o tio João e o avô Luís que com certeza estavam também a limpar os olhos e a brindar com tinto do Poceirão, chorando se aproximou o John para um abraço e palavras embargadas, chorando gritámos 'Campeões!'

Foi a maior alegria da minha vida juntamente com o título de 2000.

A miúda afinal não trouxe azar, a bandeira cumpriu a sua função e Portugal cumpriu-se como Nação.

Portugal Campeão da Europa

PS – A maior diferença entre ver os jogos da Seleção em Portugal e no estrangeiro é que fora de Portugal não importa se é o Adrien que joga ou o Renato Sanches. É Portugal quem joga. Eu prefiro assim.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Isto não foi só um jogo de futebol - II

Portugal derrota a CroáciaÀ medida que vou descendo à Terra e processando os factos vou finalmente compreendendo a dimensão do sucedido. O Portugal-França de 10 de julho não foi apenas a final do Campeonato Europeu mas também o final dum estado de coisas, Portugal é finalmente uma seleção vencedora!

Nascido na primeira metade dos anos 70 – ainda vivi quatro meses e meio de salazarismo – num tempo em que o futebol, não necessariamente jogado com bolas, era a diversão principal da malta, não foi surpresa que eu crescesse apaixonado pelo desporto-rei e que seguisse com devoção as peripécias dos meus dois clubes preferidos, Farense e Sporting por esta ordem. Em 1982 perguntei por que razão Portugal não estava no Mundial se a Espanha era mesmo ao lado. Eles teriam sido tão sacanas que nem nos tinham convidado para a festa? A resposta foi crua, não tínhamos sido suficientemente bons para nos qualificarmos e restava-nos apoiar o Brasil. A Seleção Nacional ocupava o lugar de um tio distante que me vinha visitar de quando em quando, não era muito famoso, não vencia muitas vezes e a primeira vez que deu sinal de vida foi aparecendo na televisão a partir de França em 1984 quando assisti a uma monumental chapelada de Sousa à Espanha, tremendas defesas do valente e saudoso Bento, incansáveis cavalgadas de Chalana na esquerda e ao felino Jordão a bisar frente a Bats. Pouco tempo depois em Estugarda, aquela castanhada imperial de Carlos Manuel fez-me manter os olhos no tio vermelho-e-verde porque afinal ele sempre era gajo para me dar umas alegrias.

Mas não, regressámos à vida de país pequenino habituado a ver os grandes na televisão, até que em 1989 e 1991 alcançámos triunfos à escala mundial. Iniciou-se então um período em que nos tornámos clientes habituais das grandes competições, presentes em todos os Mundiais realizados a partir de 2002 com um honroso 4º lugar em 2006 na Alemanha e nos Europeus desde 1996 registando uma presença na final de 2004 naquele que é considerado um dos dois maiores melões do futebol português. Em (quase) todas estas presenças, um denominador comum – jogámos muito, encantámos, iludimos… não vencemos. Era esse o nosso fado, a nossa sina, a dum povo bom mas brando, gajos porreiros, dão uns toques fixes mas acagaçam-se quando defrontam os senhores da bola. Quando chegava o momento das decisões terminava o futebol do “Brasil da Europa”, era insolente pensar que se podia ir mais além, ou era o árbitro que verificava o nosso peso reduzido nas instituições que regem o futebol ou erros próprios consequência de pressão psicológica insuportável, seguidos dos habituais discursos redondos “que é preciso levantar a cabeça e olhar em frente”. A atitude típica de quem “deu o que pôde e a mais não era obrigado”. Nunca se impôs um golpe de asa, nunca se exigiu uma superação, os Portugueses estavam habituados a serem como os testículos – de alguma maneira participavam na festa, até chegavam a bater à porta mas nunca os deixavam entrar.

Por culpa do chip de humildade e servilismo habituámo-nos a ver os senhores da bola a ganhar, contentando-nos com umas pontuais desfeitas à Holanda e Inglaterra e eventuais cócegas às Franças e Alemanhas. Sem ser em 2004, nunca nos aventurámos a fixar objetivos mais ambiciosos porque isso era sonhar demasiado alto e aos portugueses tal era terminantemente proibido. Sonhar. Sempre foi essa a grande diferença entre a Seleção Portuguesa e as grandes potências europeias – Portugal sonhava, os outros planificavam.

Escrevi as últimas linhas propositadamente no tempo pretérito porque é minha convicção que essa era findou. Um pontapé do mais mal-querido jogador da mais mal-amada seleção portuguesa que me lembro injetou uma dose cavalar de vaidade nos Portugueses. Vaidade, essa substância a que o Lusitano é tão visceralmente alérgico e que o faz desdenhar dos maiores portugueses contemporâneos – José Mourinho e Cristiano Ronaldo. De repente deixámos de ser aqueles gajos porreiros que se convida para animar um jantar para sermos uma sumidade continental do domínio do futebol, éramos campeões, Campeões, CAMPEÕES CARALHO!!

O contexto da vitória de Portugal no Euro2016 e a maneira como foi conseguida, desdeCristiano marafado com as barracas da nossa defesa o convencimento mundial duma derrota antecipada até à subtração dramática do seu timoneiro no relvado, quero muito acreditar que signifique o abrir de um novo capítulo para Portugal e para os Portugueses e que os meus compatriotas vão interiorizar a ideia de que também eles são capazes de triunfar indepentemente das circunstâncias. Os Portugueses não são inferiores a nenhum povo no globo, mostrámo-lo há 500 anos e recordámo-lo agora em condições muito adversas. Somos competentes, talentosos, profissionais, inteligentes, capacitados e ainda por cima somos desenrascados que é uma definição que não consta em nenhum outro idioma no mundo! Temos o direito (e o dever) de olharmos para todos olhos nos olhos, de reivindicar a nossa relevância, o nosso peso. Chega de fado, do destino, da fatalidade, dessas merdas todas com as quais jutificamos e desculpamos o fracasso.

Que nunca mais um Português se deixe subjugar pois o esplendor da nossa Pátria foi novamente levantado! O Europeu mostrou que quando o País se une alcançam-se feitos incríveis.

E que a classe política reflita na postura dos homens que representaram Portugal em França. Serviram o País com sentido de responsabilidade, com todo o esmero e sem olharem a interesses pessoais. Vejam como foram recebidos pelo povo. Agora pensem.