quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Quando a coisa não está fácil

Estimados e amigos leitores, isto não está fácil.

Não está fácil encontrar tema para escrever na medida que, com o passar do tempo, as coisas que antes me surpreendiam tornaram-se comuns e o que era surpresa é banal nos dias que correm. Se ao princípio trabalhar como professor de Língua Portuguesa era um desafio extraordinário presentemente é um ganha-pão como qualquer outro. Se no começo eu achava incrível incendiar pistas de dança nas minhas atuações como DJ agora acho incrível quando tal não acontece.

Tenho tido dificuldade em arranjar temas sobre os quais valha a pena escrever sem resvalar na fácil tentação de converter o mishanapolonia num blogue de notícias. Não é esta a natureza deste espaço, este é um blogue sobre as impressões de um algarvio a viver na Polónia e tal facto causa(-me) cada vez menos impressão. Não quero falar do frio nem da vodca, não quero falar de louras nem da Segunda Guerra, são temas explorados e expirados. Daí que decidi fazer uma pausa e repensar a utilidade e essência do blogue por forma a não perder fidelidade nem qualidade de escrita.

Por outro lado, as ocupações ditas profissionais – não me considero um ‘empregado’ de ninguém tal como a palavra é geralmente compreendida – consomem fatias cada vez maiores do meu tempo. Felizmente ambas as carreiras têm vindo a descolar e os dias são passados em corridas constantes entre o computador, as aulas e discotecas, isto quando não há treinos de futebol. Portanto como pode o leitor constatar pela inexistência de artigos recentes, isto não está fácil.

Voltarei em 2016 com uma nova ideia para o mishanapolonia, ideia que ainda não a tenho mas com certeza há-de aparecer. Até lá, então.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Infâncias polacas

Aula de Inglês com a Asia, praticar estruturas gramaticais com o tema ‘o que costumávamos fazer quando éramos crianças’. Eu tentei dar uma de aventureiro, explicando que quando era puto costumava ir de bicicleta com a minha cambada até à lixeira da Câmara para apanhar latas (de bebidas) para as nossas coleções. Diálogo entre professor/amigo e aluna/amiga, originalmente em Inglês mas aqui reproduzido em Português:

- E tu, Asia? Como costumavas passar as férias de verão quando tinhas, digamos, oito anos?

- Eu costumava ir para a casa da minha avó no campo e era muito engraçado! Ia com uma amiga para umas dunas que lá havia, escavávamos as dunas e encontrávamos granadas e bombas da Segunda Guerra Mundial que não tinham sido detonadas e brincávamos com elas. Uma vez levámos uma granada no bolso para casa da minha amiga, a mãe dela descobriu e fez um escabeche dos diabos, chamou a Brigada Anti-Explosivos, os tipos invadiram a aldeia para esgravatarem as dunas de alto a baixo. Era só camiões a irem e virem, divertimo-nos muito! Outra ocasião estávamos sozinhas na casa dela e ouvimos um barulho estranho a vir do estábulo, quando fomos ver do que se tratava vimos que era uma porca que estava a dar à luz e ajudámos no parto. Nasceram oito porquinhos. Sabias que as porcas parem de pé?

Ir à lata na lixeira? Moss, menino…

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Natolin

Rua Belgradzka Anos passados desde a minha mudança, voltei hoje a Natolin. O bairro onde vivi as primeiras aventuras varsovianas a solo, o lugar onde comecei a cimentar a estadia na Polónia, o sítio que me acolheu durante metade da minha vida em Varsóvia. Natolin é o berço da minha experiência polaca e regressar a este canto a sul da cidade provocou uma cascata de emoções porque me fez recordar setembro de 2008 no tempo em que não tinha carro, as viagens noturnas ao Tesco de Kabaty, as farras na varanda até de manhã, a primeira namorada a sério, acordar às 5:30 no frio breu no inverno para começar a trabalhar às 7:10, o apartamento onde comecei a receber os meus primeiros amigos feitos em Varsóvia, onde finalmente instalei a antena parabólica e comecei a ver o Sporting na televisão – como o épico jogo no Etihad Stadium durante o qual a Ewa se trancou no quarto com medo que alguma peça de mobília que eu atirava pelo ar com os nervos lhe acertasse acidentalmente - e onde os 'munines' de Faro se amalhavam depois de inolvidáveis bezanas no Enklawa e no Klubokawiarnia. Natolin foi a transição de menino para homem porque quando terminou a minha relação com a Iza e fiquei dois meses sem casa foi Natolin que me recebeu e foi em Natolin que me fiz sozinho à vida profissional. Natolin foi trapézio sem rede, deu-me embalagem para encarar a Polónia de frente. Era lá que agendava entrevistas de trabalho, era lá que preparava as aulas que me proporcionaram reputação positiva como professor de línguas, era lá que ensaiava para as minhas primeiras atuações como DJ (um grande obrigado ao enorme Ed Szynszyl que me deu a primeira oportunidade no extinto Muza), era lá que acabavam noites de indescritível luxúria.

Nas vésperas de completar oito anos na Polónia, visitar Natolin foi como voltar à nossa escola primária e ver antigos colegas. O jardim onde eu vi pela primeira vez um ouriço na cidade, a casa onde morava a minha senhoria que infelizmente já faleceu, o supermercado onde a menina da charcutaria sempre me fazia olhinhos, o restaurante jugoslavo onde a minha ex adorava jantar, o mercadinho de rua no qual eu comprava bananas e cebolas, as pequenas ruas calcetadas junto ao bosque que eu percorria em passeios desintoxicantes, a estação de metro que significava o porto seguro depois de noites pesadas de copos no centro - tantas vezesEstação de metropoliotano Natolin acompanhado pelo meu leal escudeiro Giga - e claro, o prédio da rua Belgradzka n° 4 onde fui felicíssimo habitante durante um maravilhoso período da minha vida. Parece uma coisa sem muito sentido, ter tanta emoção por ir a um bairro que posso visitar sempre que me apeteça, mas o meu ritmo de vida mudou imenso neste último biénio e tem-me afastado de Natolin, daí que este retorno tenha provocado em mim enorme comoção, tanto foi o que vivi e cresci naquela zona a sul da Cidade Capital. 

Ter ido a Natolin hoje fez-me perceber uma coisa curiosa. É que já não é só de Faro que sinto saudades.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Dos gatos com os quais caçamos quando não temos cães

Fresquinho em Varsóvia Apesar de parecer uma tarefa complicada em virtude de diversas situações que têm desorganizado a minha agenda, este ano ainda não perdi a esperança de ir a banhos na Praia de Faro, banhos de sol e de sal que são fundamentais para a sobrevivência dum animal de praia em paragens afastadas do litoral como Varsóvia. A praia do Báltico polaco é um destino que já calendarizei um punhado de vezes mas que nunca se concretizou porque o trabalho não permitiu, a companhia faltou ou o destino estava superpopulado e desaconselhava a viagens longas - de Varsóvia à praia marítima mais vizinha são três horas de caminho e é impensável fugir no sábado e voltar ao domingo devido aos crónicos problemas de engarrafamentos nas estradas polacas. Sobra ao deslocado algarvio fazer curtas mas incisivas deslocações a estâncias locais onde se possa encontrar areia para estender uma toalha, de preferência junto a um lago ou a um rio suficientemente limpos para se poder passar os gomos por água fresca. Lançado à tarefa, localizei um par de lugares muito agradáveis e reboquei o meu camarada Duarte, um português que fala fenomenalmente polaco, para desbravarmos esses lugares.

Żyrardów é uma localidade conhecida pelos lofts que levaram muitos varsovianos (e um determinado farense) a ponderar mudar-se para esta vila apesar de se situar a 60 e poucos quilómetros da Cidade Capital. Esta terra também é célebre pelo açude que retém água da chuva e do rio Pisia Gągolina e que foi aproveitado pela autarquia para criar uma praia fluvial posteriormente referenciada pelas autoridades sanitárias nacionais como própria para banhos. Visitei o lugar com o Duarte e a amiga Kasia, geleira cheia de sandes e de cervejame, passámos um ótimo dia de praia, ganhámos uma corzinha que minimizou um pouco a minha vergonha por andar branco como a cal e ficou no ar um possível regresso ainda durante o estio. E o regresso seria concretizado se uma outra amiga não me levasse a um sítio na saída sul da cidade, sítio que se tornou num meu spot de verão preferido.

As águas do lago de Powsinek estão classificadas como de classe II (água não-potável própria para banhos, prática de desportos aquáticos e criação piscícola) e por isso são muito procuradas pelos habitantes da Cidade Capital em virtude da sua proximidade. Por iniciativa privada foi construída uma praia fluvial num dos braços deste lago e edificada uma estrutura de recreio e lazer comLago Powsinek apoio de bar e restaurante, lugar que colheu a minha preferência este verão e onde me fiz quase residente para banhos de sol e de água doce, servindo de anfitrião ao Duarte e família - os meus 'sobrinhos' fartaram-se de brincar com o 'tio' nas bóias - e conseguindo convencer o Dani e o John a aparecerem para beber uma geladinha. Colchões, esplanadas, adequada música lounge, o destino ideal para uma escapada de fim de dia ou para uma tarde de domingo.

Já no início da época estival tinha visitado o lago artificial de Tarnobrzeg, um local que se formou a partir do desvio de águas do vizinho rio Wisla para a desativada mina de extração de enxofre e onde foi erguida uma estação de purificação e limpeza permitindo que a água do lago se mantenha sempre limpa e cristalina. Por não se situar perto de grandes cidades, o lago de Tarnobrzeg não sofre com a pressão turística sendo mais um oásis azul-turquesa na grande mancha verde-floresta que é o centro-sul da Polónia. Um pequeno paraíso de areia fina e branca que me encantou no fim de semana em que o visitei.

Já nos cascos de agosto uma amiga levou-me para secretos piqueniques em praias que não aparecem nos almanaques, aninhadas nas margens sul do Wisla ou metidas nos seus afluentes. Praias amplas onde não se vê vivalma ou pequenas línguas de areia escondidas entre frondosos bosques cujos acessos são mais apropriados para BTTs do que para um carro citadino como o meu. Regatos percorridos a duras penas porque não é fácil caminhar no leito dum rio com uma mochila às costas e um saco de plástico cheio de material para a merenda, valendo depois a privacidade e o silêncio absoluto do lugar.

Rio Świder No verão que agora finda, um generoso verão onde recuperei muita da ilusão e vontade perdida na transição 2014/2015, um verão onde ainda não consegui visitar a Praia de Faro (mas haja fé que a estação só acaba na segunda metade de setembro), houve lagos que se vestiram de Ria e Costa. Não posso dizer que tenha sido a mesma coisa porque nada, absolutamente nada substitui a Praia de Faro. Contudo tenho de confessar que foram suplentes que aproveitaram duma excelente maneira a oportunidade para mostrar o seu valor, tão bem aproveitaram essa oportunidade que são aqui recomendados.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Falando de bola – lançamento da época leonina de 2015/2016

 

A coerência é a virtude dos imbecis

Oscar Wilde



PORTUGAL SOCCER SUPERCUP Provavelmente serei um imbecil, não gosto de ser apanhado em falso nem em contradição e por esse motivo não faço julgamentos nem aponto dedos a ninguém. Mesmo quando a falha do parceiro é gritante, mesmo quando o vejo a criticar aquilo que há pouco tempo tinha aplaudido. Serve esta introdução para comentar o agitado defeso futebolístico português de 2015.

Ponto prévio: O processo de despedimento de Marco Silva é discutível. Eu próprio tenho alguma dificuldade em avaliar a postura do Sporting nesta matéria porque não estou habituado a ver o Sporting comportar-se duma maneira tão aguerrida, quase cruel. Regra geral o Sporting é brando, uma brandura que tem origem nas raízes elitistas nobres do clube. As pessoas educadas não falam alto, não têm gestos bruscos e argumentar 'justa causa' para despedir um treinador querido pelos sportinguistas - apesar do pioneirismo dos despedimentos por justa causa pertencer ao rival da Segunda Circular - surpreendeu o universo leonino. Por outro lado, é um facto indesmentível que o Presidente do Sporting zelou pelos interesses do clube e fê-lo de forma acirrada ao mandar a conduta à fava espremendo a paciência da parte beligerante, que aconteceu ser o tal treinador querido pelos sportinguistas. Veja-se por que prisma for, o Sporting foi defendido pelo seu líder de forma intransigente e no fundo é para isso que o Presidente lá está.

Depois, decidiu-se contratar um treinador que estava em fim de vínculo com o maior rival da sua entidade patronal. Uma situação incomum mas que não obstante ter sido feita com clareza e legalidade - algumas individualidades até acrescentam em surdina que com a conivência do presidente encarnado - suscitou violenta reação de variados quadrantes dos adeptos e simpatizantes do clube da Luz. De ser apodado de 'Judas' até ver a sua imagem apagada das conquistas assinadas na última temporada, Jorge Jesus viu o seu inquestionável protagonismo ser minimizado como se o bicampeonato, façanha que 'o maior clube do mundo' não conseguia há mais de três décadas, tivesse sido alcançado com a equipa jogando em piloto automático.

As mesmas vozes que se ergueram para condenar o comportamento dos dirigentes do Sporting na condução do 'Caso Marco Silva' silenciaram-se cúmplices na campanha de branqueamento dos méritos de Jorge Jesus, treinador que só tinha predicados e que subitamente passou a possuir apenas defeitos. Em Carnide era bestial, no Lumiar tornou-se besta.

São compreensíveis as dores encarnadas sentidas por se perder o timoneiro em favor duma nau rival, especialmente quando o timoneiro teve arte para otimizar o rendimento da tripulação a índices27º título que lhes permitiu chegar a lugares há muito tempo arredados. É compreensível o desnorte que reina na Luz por se sentir que a equipa não vai render o mesmo que nos últimos anos como prova a recente exibição da Supertaça 2015 disputada no Estádio Algarve. É compreensível a frustração da instituição de Carnide por ter visto a mulher da sua vida fugir com o vizinho do lado e vê-la feliz. É compreensível a confusão que domina presentemente os espíritos benfiquistas mas essa é uma característica que já consta no DNA, como prova a confusão do ano de fundação e da contabilização de títulos (veja-se a capa da revista Record de 93/94 onde se assinala o 27º campeonato nacional conquistado pelos encarnados que somados aos de 2004/05, 09/10, 13/14 e 14/15 daria na minha modesta matemática 31 títulos, número que contrasta com o lema adotado para esta época).
 
O que não é compreensível, pelo menos para este imbecil, é a incoerência patenteada ao criticar ferozmente a postura dos outros quando a que se tem na própria casa não é minimamente melhor.

Ou talvez seja um sinal de que realmente o Sporting deixou de ser a coletividade do 'croquete', isto pode ainda estar a criar comichões muita gente e algumas pessoas poderão não saber ainda como reagir a esta nova realidade. O futebol é o momento e o momento presente não é o mesmo momento de há três meses. Engulam o sapo, preparem-se para a travessia, lidem com isso.

PS – Se calhar o momento até é o mesmo de há três meses. O Sporting a triunfar, Jesus a ganhar troféus, hmmm…

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Quando um copo de café com leite desperta a nostalgia

Já são quase oito anos a viver na Polónia e cada vez menos coisas me surpreendem neste país. Ao invés, é graças à adaptação e enraizamento cada vez mais consolidados que tenho conseguido aceder a propostas bastante interessantes e a ocasiões de realização profissional e pessoal que dificilmente (ou mesmo nunca) estariam ao meu alcance em Faro ou em qualquer outra terra portuguesa. A Polónia mostrou-me que tenho capacidade de pensar fora da caixa, fez-me crescer de uma maneira que eu não julgava possível, do ponto de vista emocional, sociológico, no plano das relações interpessoais e interculturais, se eu não tivesse vindo para cá não teria aprendido o que aprendi, não teria criado certas competências, não teria gozado o que tenho gozado, não aproveitaria as minhas potencialidades como tenho feito desde que assentei pé neste país. A Polónia tem dado inúmeras oportunidades, tem-me proporcionado condições incríveis para me desenvolver sendo também exigente na paga. Esta terra não dá nada sem receber algo em troca e do muito que já recebi houve coisas que também perdi por não ter sabido cuidar. Faz parte, aprende-se com os erros mas segue-se em frente porque amanhã o sol nasce outra vez.

Na Polónia já fui ator de televisão e teatro, professor universitário e tradutor, modelo fotográfico e diretor comercial duma empresa, comentador na rádio e na televisão, DJ e jogador de futebol. Não sei o que pôr no cartão de visita além da minha morada e do meu nome, esse elemento que revela a minha portugalidade ao mais desprevenido, que fala de mim e dos meus, que responde à pergunta 'de onde és'. O meu nome é português e eu venho de Portugal, a terra do fado, do mar e da saudade. Saudade: Essa palavra que, tal como o meu nome, não tem tradução em nenhuma língua. Esse bicho que morde sempre que pensamos que já morreu, quando já nos julgamos imunes ao seu veneno, que as suas radiações já não nos afetam. Tão ativo tenho andado de escola em festa, de estação de televisão em relvado que não me tenho lembrado de Faro - não que alguma vez em me esqueça do berço mas porque me sinto tão bem por cá que não tenho sentido necessidade de voltar à terra ou de nela pensar, mesmo que há sete meses que lá não vá.

Mas por muito tempo que viva na Polónia, por muito ar polaco que respire, por muitas palavras polacas que profira, por muitas mulheres polacas com que durma, por muitas vodcas polacas que beba, por muitos relvados polacos que pise, por muitos cidadãos polacos que eu ensine, por muita rua polaca que percorra, por muita neve polaca que sacuda do carro, corre e sempre correrá nesta minha aorta sangue português e de estirpe algarvia. Nesse tipo de sangue o bicho saudade faz o seu habitat natural e não há nenhum antídoto contra esse malvado. Por esse motivo, depois de ter encontrado um lugar no centro da Cidade Capital que serve galões praticamente iguais aos galões que eu bebia na pastelaria Bijou com o meu avô Luís, provavelmente o único benfiquista que eu consegui(ria) amar, este vosso escriba sentou-se à mesa e enquanto sorvia o café com leite recordou o seu terno e divertido avô, bigode à Errol Flynn, infalível com a bica depois de almoço na esplanada d'O Seu Café, notável músico e campeão regional de xadrez, batoteiro incorrigível no dominó e mestre das sopas de batata doce e frade, ficando trancado em casa de azia quando o Glorioso perdia (a minha avó não me deixou entrar em casa no dia dos 7-1, 'vai-te embora que o teu avô tá de beiço') mas garantido na visita à farmácia onde o neto sportinguista trabalhava caso o clube da Luz vencesse, certo que foi ele que me conduziu até esta cafetaria para que eu voltasse a sentir o bicho a morder, se calhar para que me lembrasse dele, de Faro e de todos os que não tenho perto de mim mas que de mim fazem parte inseparável.

E que estarão sempre comigo, nem que seja quando me voltar a sentar aqui para beber um galão.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Tarchomin – O retiro do guerreiro

Tarchomin à noite Escolhendo morar numa zona afastada, assumi a inevitabilidade de receber poucas visitas. Apesar de a minha casa ser bastante confortável – dois quartos, sala, cozinha e uma casa de banho que dá para acampar – e de acomodar gente com fartura, o facto de morar longe desencoraja as pessoas a aparecerem. Isto apesar de ficar a apenas um quarto de hora de carro do centro da cidade ou a 25 minutos se optarmos pelo metro e elétrico. O problema reside mais na preguiça das pessoas em fazer os tais 15/25 minutos do que propriamente o afastamento entre o ponto de partida e o de chegada, o que acho curioso ao comparar com os tempos em que eu era criança quando famílias inteiras visitavam outras sem aviso prévio. Lembro-me, por exemplo, dos Belchiores aparecerem na casa dos meus pais para um uísque para os adultos e jogos de tabuleiro para os miúdos ou de irmos a casa do Zé Guerreiro depois do jantar para os homens falarem de negócios, as mulheres falarem do que quer que elas tivessem para falar enquanto as crianças bazavam para o quarto ler livrinhos do Cebolinha ou jogar A Viagem de Marco. Também eram 15/20 minutos de caminho mas não era nenhum suplício, antes uma alegria receber pessoas pois era certeza dum serão animado.

Não considere, amigo leitor, estas linhas como queixa. A vida de um homem solteiro é bem mais preenchida do que se imagina pois a lida da casa é dividida por uma pessoa só e entre cozinhar, lavar louça, lavar e estender roupa, passar a ferro, fazer as compras, aspirar seis divisões e passar a esfregona em três delas (os quartos e a sala são alcatifados), limpar pó e uma limpeza aprofundada de cozinha e casa de banho pelo menos uma vez por mês, preparar ou corrigir aulas, pesquisar e organizar músicas, fazer o saco do treino/jogo e outras coisinhas devoradoras de tempo, pouco sobra para o verdadeiro lazer doméstico como espojar-se no sofá a ver um filme, ler um dos três livros que tenho em cima da mesa de cabeceira ou mesmo saber o que se passa nas redondezas do Tinder. Então, não receber visitas não é uma situação alegre mas também não é propriamente uma chatice. Moro em Tarchomin, no norte de Varsóvia, pertinho mas do outro lado do rio e só o nome do bairro causa logo estertores aos potenciais visitantes.

O que as pessoas não conhecem é o passado medieval e ilustre de Tarchomin. Com efeito, existem registos de que a zona onde moro hoje já era habitada por alturas do séc. XIII e posteriormente foi residência de famílias pertencentes à nobreza até aos séculos XVI e XVII. Tornou-se um polo de reunião dos Olędry, imigrantes protestantes de origem holandesa e alemã que fugiram das suas terras de origem devido a perseguições movidas pelos cristãos e que viveram em algumas zonas da Polónia com especial incidência ao longo do rio Vístula e nas margens dos seus afluentes criando povoações com leis e credos próprios.Rua Światowida

Na idade moderna e já no séc. XIX foi em Tarchomin que se construiu uma fábrica de vinagre que depois se tornou no maior produtor de adubos do país e no início do séc. XX foi igualmente em Tarchomin que se instalou aquela que se tornaria na maior empresa polaca do ramo farmacêutico, a POLFA. Apesar da distância geográfica até ao centro de Varsóvia, o meu bairro tem tudo o que me faz falta para viver tranquilo e satisfeito. O elétrico já chega a casa desde dezembro do ano passado, o que dá um jeitaço do camano nas noites de maior caudal de bebida. Há bombas de gasolina, farmácias e supermercados abertos 24/7, tenho um enorme passadiço ao longo do rio para as minhas corridas de início de época, existe todo o tipo de reparações e serviços domésticos, automobilísticos e até relacionados com vestuário e calçado ao dispor da população e hoje reparei que já começaram a abrir os caboucos para o primeiro centro comercial desta zona da cidade.

As pessoas franzem o rosto quando lhes digo onde moro. “Épa, isso é muito longe!” Mas quando percebem que se leva apenas uma vintena de minutos acabam por perceber que não é tão longe. E claro, quando veem o meu latifúndio domiciliário.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Falando de bola - balanço leonino de 2014/2015

O primeiro de muitos troféus A época futebolística terminou com uma vitória do meu Sporting na Taça de Portugal, vitória suada e sangrada como todas as vitórias deste amaldiçoado clube que não consegue alcançar um triunfo tranquilo, fazendo sofrer os seus adeptos com exibições descoloridas ou, quando as coisas até estão a correr de feição, arranjando maneira de complicar a tarefa até tudo se perder. Quis a Fortuna (e a competência dos sportinguistas envolvidos na Final) que desta vez a Taça vestisse de verde, sete anos depois dum improvável Tiuí ter dinamitado as cogitações dos corruptos de Campanhã. A conquista da Taça de Portugal confirma o percurso ascendente do Sporting iniciado com a eleição de Bruno de Carvalho como Presidente do Clube. O Sporting tinha encerrado a sua pior campanha desportiva num deplorável sétimo lugar, vivia em convulsão devido à contestação criada em volta da gestão de Godinho Lopes e as perspetivas não eram animadoras tendo em conta as frágeis finanças do Clube. Sem dinheiro, sem presença nas competições europeias, sem plantel com qualidade ou com valor de mercado, Bruno de Carvalho herdou um Sporting para o qual até eu, eterno otimista, preconizava soluções draconianas como a refundação do Sporting à imagem da Fiorentina. Felizmente a direção do Sporting tinha outros planos, reanimar o Clube, restaurar a sua credibilidade e ressuscitar a fé na equipa e com a ajuda dum treinador de eleição, Leonardo Jardim, perito em fazer muito com pouco, alcançou-se o milagre de colocar o Sporting na fase de grupos da Liga dos Campeões no ‘ano zero’ da nova Administração. Vendido o artífice do milagre (há quantos anos o Sporting não vendia um treinador?), Bruno de Carvalho acerta novamente na escolha do timoneiro com a aposta em Marco Silva, consensualmente apontado como um dos melhores treinadores da nova vaga e com resultados muito positivos na liderança dum clube pequeno. Entre ventos e tempestades ainda não clarificadas na totalidade, Marco Silva assina uma temporada muito boa batendo o recorde de pontos neste século, consentindo menos derrotas que o clube campeão, rubricando ótimas prestações na Liga dos Campeões com uma equipa alicerçada em jogadores da formação e confirma as suas potencialidades ganhando a Taça de Portugal, única competição nacional acessível ao Sporting em virtude do atraso no Campeonato e da Taça Lucílio Batista ter vencedor anunciado por decreto desde da sua criação, depois num jogo épico de bravura e caráter. A Gestão pouco ortodoxa de Bruno de Carvalho consegue, no espaço de dois anos, transformar um clube moribundo numa força desportiva vencedora, capaz de seduzir futebolistas mais capacitados que procurem projetos aliciantes de carreira e de atrair investimento. A nação sportinguista voltou por fim a sair à rua para vitoriar a sua equipa e extravasar a alegria. Por fim caiu a timidez de se ser do Sporting, provou-se que o Leão é capaz de ganhar mesmo com meios inferiores aos dos diretos adversários e que conseguimos concretizar objetivos que outras equipas melhor apetrechadas não conseguiram. Aqui reside o meu segundo regozijo da época.

Não ver o fc porto ganhar nada este ano deu-me imenso prazer. Mais prazer me está a dar ver o clube em outsorcing, o que prova que algo está a mudar em Campanhã. Nunca vi um treinador do clube ter tanta autonomia a escolher um plantel, todas as contratações que os azuis-e-brancos fizeram desde que o atual presidente entrou em funções têm sido ‘contratações do Presidente’ salvo escassas exceções ao passo que este ano o basco Lopetegui teve carta branca para trazer Adrián, Marcano, Fernández, Campaña, José Angel, maltinha que nem no Ramaldense calçava. Quando as más exibições exasperaram as bancadas do Dragão, ao contrário do habitual em Pinto da Costa, ninguém deu o corpo às balas pelo treinador, foi este que saiu sozinho a terreiro para defender os seus jogadores, não se ouviu a mensagem de dentro para fora que é costume nos azuis-e-brancos quando rebentam crises desportivas. Não houve toque a reunir, ficou JulenA Taça É Nossa! Lopetegui agarrado ao leme da nau dando a imagem de que ninguém estava com ele para o ajudar a dobrar a tormenta, um esmagador silêncio presidencial enquanto a equipa caminhava para o bi-descampeonato, coisa tremenda para um clube habituado a ganhar para poder suportar uma estrutura que custa fortunas ao mês entre administradores de SAD, jogadores emprestados, comissionistas e favores devidos. Quero acreditar, eterno otimista, que o fim do ‘pontificado’ está próximo e que os longos anos negros de trapaçarias serão em breve apenas uma memória feia do que era o nosso futebol nas cinzentas décadas de 80 e 90. Quero crer que o karma também funciona no futebol e que os batoteiros sejam punidos pelo que fizeram, uma pena justa e tendo a do Boavista como referência.

Espero que as duas conquistas protagonizadas por clubes de Lisboa seja o primeiro passo do definhamento do grupo de Campanhã. Espero que as investigações que decorrem na FIFA sejam um sinal claro de que a falsidade e a intrujice não têm lugar no desporto-rei. Espero que o Sporting se mantenha no trilho do sucesso desportivo mesmo que tal suscite tentativas de branquear este facto inegável através de manobras de diversão e peças de jornalismo de vão de escada encomendadas por atacado. Espero que o poder do futebol volte para Sul porque, a não ser o Sporting a ganhar, prefiro que ganhem uns patetinhas foleiros do que uma quadrilha de mafiosos.