terça-feira, 7 de novembro de 2017

Listopad

Novembro no centro de VarsóviaPenso que já aqui referi, se não o fiz é altura de o fazer, que é o outono polaco e não o inverno a estação do ano que menos gramo. Poder-se-ia pensar que fosse complicado para um algarvio suportar a dura invernia continental mas garanto-vos que comparado com o outono o inverno é piners .

O outono traz os primeiros frios e os dias mais curtos, é no outono que tenho de me pôr de rabo para o ar a tirar as grossas roupas quentes da arca que está na varanda, é no outono que acordo com o nariz entupido resultante da frieza noturna, é no outono que tenho de pôr mais uma ou duas camadas de fazenda em cima do organismo e fazer de cebola sempre que vou para dentro de portas, é no outono que gasto uma remessa de dinheiro com a mudança de pneus e de fluidos do carro, é no outono que se instala uma espécie de pré-neura que antevê os gélidos ares do ártico que arrefecem as curvas das orelhas e os pelos no nariz.

De todos os infinitos e insuportáveis três meses de outono é o novembro que mais detesto. É cínico e hipócrita. Não tem identidade própria, não é quente como o agosto nem realmente frio como o fevereiro. Não existe nada que realce novembro, até janeiro que é a segunda-feira dos meses pode ser encarado como um virar de página, um novo começo. Novembro é demasiado longe do princípio do ano e não suficientemente perto do fim, só serve para complicar e prolongar o caminho entre o fim do verão e as festas de dezembro. Como se diz na minha terra, não é pão nem bolo. O mês começa logo torto com o dia de Todos-Os-Santos que apesar de ser feriado - e a malta gosta de feriados tenham eles a origem que tiverem - é um dia sombrio, o dia em que se visitam cemitérios e ninguém vai a um cemitério por desporto, ninguém põe lá os pés a não ser que tenha lá um parente sepultado. É a triste romaria de gente taciturna enterrada em casacos e xailes negros, caminham de passo carregado pelas ruas molhadas do chuvisco, velhinhas e velhinhos ou estórias de gente que partiu no auge da vida. Uma depressão. Entretanto os técnicos da cidade começam a instalar as iluminações natalícias para as pessoas gradualmente perceberem que é preciso comprar prendas, mesmo que com mês e meio de antecedência. Não percebo por que não penduram as luzes logo em outubro quando a hora muda, faziam-se logo as compras de Natal, organizavam-se os jantares de empresa e de amigos nessa altura e despachava-se a coisa para termos mais vagar e fundos para planear a passagem de ano. Mais, é em novembro que começa a fazer frio demais para se jogar à bola ao ar livre sem ser enfiado em colãs, luvas e camisolas térmicas, coisa que sempre me fez confusão porque sempre me senti um pouco espartilhado dentro dessas peças de roupa que mais se adequam a desportos de montanha do que a futebol. A meu ver novembro só tem um dia giro, é o dia 20 que é o aniversário da minha irmã. Mesmo sendo um dia alegre no qual faço sempre questão de enfiar um penálti à saúde da minha mana, este dia do malfadado novembro avisa-me que duas semanas depois é a minha vez de ter uma unidade a somar no conta-quilómetros e isso deixa de ter piada a partir duma certa idade, principalmente quando a idade termina em -enta.

Novembro em polaco diz-se Listopad. É uma das poucas palavras que os portugueses podem pronunciar tal como se lê e deve ser a única virtude do termo. Li que Listopad provem dos vocábulos liść (folha) e pad  (derivação do verbo padać – cair). Então a própria palavra faz alusão a folhas cadentes, caducas, que são arrancadas dos galhos por rajadas que anunciam a época do escuro e da friagem. Tal depressivo mês podia perfeitamente ser riscado do calendário, não vinha mal nenhum à sociedade e era menos um mês de despesas.

1 comentário:

Filipe Nascimento disse...

Acho que esse sentimento é geral até mesmo entre os polacos hehe