sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Este blogue já teve melhores dias

Pois é. Às vezes olho para o ícone do Live Writer e penso: “Eh pá, há tanto que eu não escrevo nada… Tenho de escrever qualquer coisa.”

E é logo aí que mirra a vontade de escrever. É que este blogue não é sobre ‘qualquer coisa’, é sobre coisas que importam a mim, a quem lê e a quem ouviu falar. É um blogue sobre as minhas impressões sobre a Polónia e a comparação que faço com o meu estilo de vida cá e o que tinha enquanto vivia em Faro, as coisas que fazia e já não faço confrontadas com as coisas que faço e não fazia. O problema é que as imagens do meu Faro estão cada vez mais embaciadas pelo passar do tempo, já são mais de seis anos em Varsóvia, e o contraste da minha vivência polaca já não é tão agudo como antigamente pois vou absorvendo os usos das pessoas de cá e muitos fatores de diversidade vão tornando-se comuns, corriqueiros e até começam a ser parte integrante do dia-a-dia do indivíduo. Não que me esteja a tornar polaco, mas a assimilação dos hábitos e das rotinas levam a que ache cada vez menos estranhas as coisas que há cinco ou seis anos me faziam abrir a boca de espanto e que me davam tremeliques nas pontas dos dedos que não passavam até que me sentasse ao computador para as contar. Por isso tenho tido cada vez menos tema para escrever.

Vou falar do quê, do Natal na Polónia? Já foi falado e refalado, entre o que eu escrevi e o que outros blogueiros portugueses emigrados neste país escreveram pouco há a adiantar ao tópico. O frio? Também já debitei aqui peçonha bastante sobre o inverno e as minhas opiniões, não há mais nada que eu possa acrescentar ao estafado “chiça, que tá um frio dos túbaros!” O Sporting? Oh!, aí apetece-me escrever toda uma epopeia, que o leão rampante devia ser substituído por uma Fénix verde, que se Bruno de Carvalho criasse uma seita conseguiria facilmente um milhão de matrículas logo no primeiro mês mas também seria assunto batido. Talvez falar das polacas, que toda a gente louva e endeusa mas esta é uma casa de gente séria e não quero criar atritos porque tenho ideias bem definidas sobre a mulher portuguesa e ainda me arriscava a boicotes e sabotagens .

Resta-me esperar que soprem ventos de estro, ventos que me tragam as vozes de Calíope e Polímnia, que me transportem para um estado de inspiração célica e que me dêem o poder de comunicar como há muito não consigo. O compromisso que tenho com o leitor a isso obriga.

Entretanto, festas felizes e que venha 2014. Se não fosse pela notícia de que o Justin Bieber ia deixar de cantar 2013 teria sido um belo ano de caca.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O arco da discórdia

Árco-íris da Praça do RedentorO dia 11 de novembro é o Dia da Independência da Polónia e o feriado mais importante do país, uma data que relembra a restauração da independência da Polónia em 1918 quando, após 123 anos de território particionado e dividido entre a Áustria, Prússia e Rússia, a Polónia reapareceu no mapa da Europa como estado soberano. Uma ocasião para exaltar o orgulho polaco, este dia é marcado por diversas manifestações de cariz nacionalista e contestatário às políticas de integração europeia, manifestações organizadas por diversos movimentos de ideologias que abrangem todo o espectro político mas com maior incidência sobre a extrema direita. É um dia que não é muito propício a passeios pelo centro das grandes cidades a não ser que se tenha curiosidade jornalística ou pouco amor à pele especialmente se a cor dos olhos e dos cabelos sugere proveniência mediterrânica ou atlântica, isto devido aos distúrbios que desde há três anos têm caracterizado o Dia da Independência.
 
Este ano o centro das atenções dos manifestantes em Varsóvia foram a Embaixada da Rússia, que foi apedrejada e vítima duma tentativa de invasão por parte de alguns manifestantes mais destemidos (ou enlouquecidos) e o arco-íris da Praça do Redentor, praça a que me refiro no artigo anterior. O arco-íris é uma criação da artista polaca Julita Wójcik instalada no centro da praça no verão de 2012 e que tem sido desde então origem de muita controvérsia por ser associado com movimentos homossexuais e por estar situado em frente a uma das igrejas mais tradicionais da capital polaca. Individualidades de diversos quadrantes já criticaram a estrutura de metal e flores artificiais com responsáveis políticos e religiosos à cabeça do pelotão apelidando o arco-íris de “desviante” ou “arco dos paneleiros”, declarações que potenciaram os quatro atentados a que o arco-íris já foi alvo no seu curto ano e meio de existênciaMarcha da Independência, a maioria por fogo posto, mas que não demovem a presidente da Câmara Municipal de Varsóvia, Hanna Gronkiewicz-Waltz, que afirmou publicamente que “o arco-íris será reparado tantas vezes quantas as que forem necessárias” endurecendo a posição do Poder Local contra as vozes contrárias à permanência da estrutura num local simbólico de cristandade e tradição. Teria sido melhor se o último conserto da instalação tivesse sido iniciado após o Dia da Independência e não concluído dois dias antes como acabou por acontecer.
 
O arco-íris da Plac Zbawiciela representa um braço-de-ferro entre a Polónia pró-europeia e progressista e a Polónia católica e conservadora, será tema de um quase perpétuo debate de valores e ideais, por tantos que o destroem por ser uma marca anti-cristã haverá outros tantos que o reconstroem como símbolo de uma cidade e de um povo tolerante. Logo após os incidentes que destruíram o arco-íris, voluntários e cidadãos anónimos colocaram ramos de flores na base da estrutura, organizações independentes fizeram no local eventos culturais apelando à paz e à coexistência de pensamentos. É mais uma prova de que há duas Polónias no mesmo território e que ainda há muito a fazer para que o país reme todo para o mesmo lado.
 
A minha opinião? Em primeiro lugar fiquei em casa porque não valia a pena armar-me em carapau de corrida e arriscar a ser varejado por algum grupo de bêbados apregoando a superioridade eslava. Em segundo lugar penso que é pública a minha opinião sobre a homossexualidade, contudo nunca me passou pela cabeça que o arco-íris pudesse ser interpretado como um monumento gay. Gosto dele, empresta colorido a uma zona da cidade sombria e espero que seja reparado rapidamente.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Plac Zbawiciela

Plac ZbawicielaBrunch de fim de manhã de terça-feira na Plac Zbawiciela, uma das minhas praças preferidas da cidade. Admirável sol de outubro, um rebuçado para os desconfiados varsovianos que já se enfiaram em blusões e sobretudos escuros como o dó, um desperdício de claridade empregue a iluminar tão cinzenta gente. Eu e a minha companhia dispomo-nos na esplanada do Charlotte de nariz para cima de modo a não falharmos nenhum raio de sol, ela com um típico chazinho, eu com um cesto de fatias de pão e dois potes, um de doce de amora e outro de chocolate de leite. Ela beberrica a sua água quente e eu lambuzo-me de doce enquanto trocamos impressões sobre a vida, as pessoas e trivialidades quejandas. Desfrutamos do calor, dos bem-acolhidos vinte e dois graus centígrados que se fazem sentir no centro de Varsóvia, ela ri-se divertida e aconchegada com o sol, eu enrugo a testa penitenciando-me por me ter esquecido dos óculos escuros em casa mas evitando proferir qualquer tipo de impropério, bem pelo contrário, dando graças ao excelente dia de que estávamos a gozar por ter bem presente na memória o tenebroso 15 de outubro de 2009 no qual caiu uma senhora nevasca por volta do meio-dia que me deixou a mim e ao meu compadre Mário enregelados desde a unha do dedo pequeno do pé até à ponta do mais hirto cabelo, caso que não se verifica na pessoa do meu dileto compadre visto a sua cabeça já ter sido minada de irreversível calvície. Por isso me mantenho franzido mas satisfeito pelo vigor do astro-rei, pela pujança com que os seus braços cercam a Cidade Capital. Um mimo, um prazer, um regalo. Nem o ruído das infinitas obras de modernização da cidade me apoquentam, com este sol nesta praça tudo me passa ao lado.

Nas mesas ao lado vários casais jovens e jovens sem estarem acasalados, raparigas de smartphone em punho, rapazes de ar hipster batucam absortos nos seus portáteis, pessoas mais velhas que tomam o seu chá, idosos que passeiam ou que vão às compras. Numa dessas mesas senta-se uma senhoraO cãozinho de idade, curvada pelo tempo mas de gesto nobre e bem vestida com a écharpe em plano de evidência. Chama o empregado de mesa e pede um chá – para não destoar – e um croissant de amêndoa, um deleite que encaixa perfeitamente no glorioso dia que se vive, dia de gozos e delícias. Ao lado da mesa desta elegante senhora está uma outra dez ou quinze anos mais nova à qual se junta um homem que se faz acompanhar de um cão, com certeza um passeio inesperado para o canídeo mas muito bem aproveitado para exercitar as pernas e os pulmões. Senta-se o homem mai-lo cão, o humano à conversa com a companheira e o quadrúpede a fitar o lanche da chique senhora que, por sua vez, não tardou a dar atenção que o simpático animal requeria, atenção essa consubstanciada nos flocos de massa doce que a dita senhora começa a distribuir ao bicho, grandes pedaços que são absorvidos com gula até à saturação. O saldo terá sido de um terço do croissant para o cão, o que justificou o rápido recolher do animal entre as pernas da cadeira onde se sentava o dono, provavelmente agoniado com tanto açúcar, apesar da insistência da senhora para que comesse mais bolo.

O Céu da Plac Zbawiciela Barro mais uma fatia de pão com chocolate e enfio-a na boca, mastigo delambido para prolongar a festa dos sentidos que o sol e o chocolate despertaram no organismo, descanso os cotovelos na mesa e dou uma volta à praça com o olhar. O céu rebenta de azul, parece que os prédios nadam numa gigantesca piscina invertida por cima de Varsóvia e o sol estende-se pelas vielas mais estreitas de Śródmieście Południowe A Matylda continua a sorver o chá escondida atrás duns Ray-Ban vermelhos. Que bom que seria se o outono durasse assim até ao Natal.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O raio do outono

2013-10-09 15.10.13 As pessoas falam muito do inverno polaco e das suas condições extremas. Frio extremo, escuridão extrema, baixa extrema da pressão atmosférica, todo um ror de defeitos que fazem do inverno uma coisa temível apesar de inevitável. O inverno polaco incomoda-me bastante, não tanto pelo frio porque este só se sente quando estamos fora de portas uma vez que quando estou em casa podem estar -15ºC na rua que eu ando alegremente descalço, de boxers e t-shirt. É a neve que suja os sapatos e a entrada de casa, é o frio que me agrafa ao sofá aos fins de semana fazendo-me perder borgas épicas da noite varsoviana, é a moleza que se mete no corpo e que nos faz definhar de fome em frente ao televisor por preguiça de sair à rua para fazer compras. Mas apesar do inverno ser ruim e severo não me irrita tanto como o outono.

Essa sim, é a pior estação do ano e não me deem o discurso do ‘verão dourado polaco’ porque isso é tudo conversa de chacha. Não há nada de agradável numa estação nas quais os dias começam a ser dramaticamente mais curtos, a temperatura desce a olhos vistos – o que se torna um problema sério durante os treinos noturnos de futebol – o carro começa a ficar com uma camadinha de gelo no pára-brisas que nos consome minutos a raspar, não posso deixar as janelas abertas para arejar a casa sob risco de entrar numa arca frigorífica quando regresso a casa, faz vento, cai chuva, há uma leitosa névoa matinal (e noturna, ainda ontem no treino eu não conseguia ver a baliza oposta) que nos faz sentir ramelosos, um mar de folhas em cima do carro para sacudir todas as manhãs… Não encontro uma só virtude no outono e esta é uma estação que podia muito bem ser eliminada do calendário para evitar a rabugice que se apodera de mim. Ainda por cima a hora está quase a mudar para agravar mais a situação.

Os polacos têm sentimentos mistos em relação ao outono, conseguem encontrar-lhe algum encanto nas tonalidades das folhas caducas, no vento fresco Nevoeiro em Varsóviaque vem das florestas, na apanha de cogumelos ainda antes do sol nascer, na satisfação com que se aprestam a renovar o guarda-roupa de inverno. Parece-me até que gostam mais do outono do que do verão porque eles reclamam do calor quando o estio aperta, que é um inferno, insuportável, uma punição que só os sarracenos sulistas conseguem gramar. Eu não acho virtude nenhuma no outono, pronto. Vai entrar a época dos agasalhos com todas as coisas más que tal acarreta, até as cores das roupas quentes são mais deprimentes, azuis escuros, cinzentos, castanhos pesados, verdes secos, é medonho. Está hora de pegar na agenda telefónica e atualizar os contactos para se arranjar aconchego durante as noites arrefecidas de outubro e novembro, felizmente que a SportTv está a bombar em pleno e o livro da Bimby tem quase 200 receitas para me entreter.

domingo, 6 de outubro de 2013

No meio da tempestade, uma bonança

Bruno de Carvalho - El PresidenteNo corrente período de indefinição não tenho tido muitas razões para andar motivado ou esperançado, os planos estão todos em stand-by por causa da instabilidade que se vive nos meus interesses em Portugal e também devido à mudança de paradigma que tive de adotar como resultado de alterações fraturantes no plano da vida sentimental sofridas num passado recente. Tudo se afigura nublado para mim, o meu horizonte temporal estende-se a uma semana porque não consigo enxergar mais longe do que isso. Penso que todos passamos ou pelo mesmo, um período em que se põe tudo em causa e se desconfia da própria sombra, precisamos de frequentar outros lugares e ver outras pessoas para preservar a imagem, não a desgastar e não a impor. É um período desse que atravesso, de total clausura ou de fera libertinagem consoante os estímulos que me chegam sem nunca, porém, roçar as maluqueiras ou quadros de bipolarismo. Mecanismo racional de defesa ou reação endógena, sei que no geral não me tem apetecido grandes galhofas por falta de causas aceitáveis. No meio desta tempestade de sentimentos surge uma fonte de alegria justamente dum quadrante há muito enegrecido e ressequido: O Sporting.

Não há muito tempo o mundo via o pior Sporting de sempre, bisonho e triste, um saco roto de vergonhas e a levar vexames em todos os estádios portugueses e europeus. Assistia-se ao extenuar dum extraordinário clube de futebol devido à criminosa e demente política gestora dos seus dirigentes, gente duma total inaptidão para a responsabilidade de que foram incumbidos e que atiraram o Sporting para a chacota e risada do povo, mesmo entre os bufões que já celebravam vitórias garantidas e que terminaram de mãos vazias tal como os seus rivais de avenida. O Sporting entristecia, envergonhava, adoecia, perdia e perdia e perdia até o mais fiel adepto esmorecer e abandonar a fé. Não se via melhoras nem jeitos disso acontecer, o cenário era péssimo e aventava-se a possibilidade de terminar de vez, acabar e começar de novo. Eu próprio defendi uma solução tipo Fiorentina, refundar o clube e recomeçar a história de passivo e contas limpas, suportando a gozação de disputar divisões mais baixas e de defrontar adversários mais modestos mas com a cabeça novamente levantada e sem poluição a atrapalhar o olhar. Até que surgiu Bruno de Carvalho.

Eu não acredito em Messias nem no sebastianismo, ainda estou cético em relação à presidência de Bruno porque já levei muita porradnha de gente que prometeu fundos e mundos para no fim levar com uma correia de desilusões no lombo e agora só acredito nos ‘prognósticos só no fim do jogo’ e não embarco em euforias prematuras. Mas há uma coisa que eu não posso negar, é que finalmente voltei a ter prazer a ver jogar o Sporting. Agora eu acordo em dia de jogo já a pensar na bola, já planeio o dia em função do horário da transmissão, já elimino compromissos que possam cair ao mesmo tempo que o Sporting joga – epá, não posso. Dá o Sporting –, já vou ao supermercado fazer as compras necessárias para ver o desafio, já voltei a pôr o cachecol por cima do televisor, já me sinto inquieto na análise às estatísticas e antevisão do jogo, já deixo o telefone ligado para comentar as peripécias da partida no WhatsApp com os meus amigos sofredores leoninos, já acabo os 90 minutos de sorriso no rosto em vez de lavado em suor sofrido e dececionado. Tenho perfeita consciência que este estado não vai durar para sempre nem é admissível que assim seja, não vamos passar da pior temporada da história para a melhor de sempre, mas há coisas que são inegáveis e que dão supremo prazer aos adeptos leoninos.

  • A equipa joga bem, equilibrada e com lógica nos processos, tem critério e sentido no que faz; Fredy Montero
  • Fredy Montero é um achado. Faz golos de coisa nenhuma, sendo uma meia-leca de gente (1,75m) superioriza-se no jogo aéreo a defensores mais espadaúdos e resiste ao choque;
  • Os jogadores são lutadores e solidários, ninguém se esconde, todos assumem as suas responsabilidades sem protagonismos nem azias;
  • Rui Patrício, Cédric, William Carvalho, André Martins, Adrien, Wilson Eduardo, futebolistas made in Sporting, são regularmente titulares. Mais de metade da equipa titular do Sporting foi formada na Academia o que faz os adeptos gostarem ainda mais deles, incentiva o apoio e o carinho à equipa Ainda Dier, está sempre à espreita duma oportunidade, Mané já se estreou e há ainda João Mário, Betinho e Esgaio se for caso disso.
  • O presidente está no banco e prova que está com a equipa, com os técnicos, com os adeptos. Ao eliminar os ‘croquetes’ criou empatia e ao unificar as claques no mítico topo sul tornou-se líder incontestado;
  • A malta vai à bola, assistências sempre acima de 30.000 espetadores comprovam que os sportinguistas acreditam no Sporting. Isto porque o Sporting voltou para os sportinguistas, voltou a ser o nosso grande amor.

O Sporting não vai ser campeão este ano, se calhar nem no próximo, mas é o grande vencedor da edição 2013-2014 da Liga Zon-Sagres. Qual fénix leonina, renasceu dos seus próprios escombros e de um gato magro e piolhoso fez-se novamente leão lustroso e de apetite feroz, uma equipa capaz de criar centelhas de orgulho e alegria nos olhos dos seus adeptos. Regressou ao seu lugar de destaque no futebol nacional seguindo políticas de acordo com os seus ideais, políticas de justeza, seriedade, retidão e verdade. É isto que valorizo no meu clube, esta postura ímpar que procuro imitar na minha vida e no meu dia-a-dia.  Esta é a grande vitória do meu Sporting, a de reconquistar fés perdidas de velhos leões desenganados (a pontos do pai do Artur, verde empedernido mas amargurado até ao azedume, largar sem esforço uma cédula de 10 para ir ver o Sporting encavar os fis d’olhéu) e de chamar novos adeptos à causa, como a minha sobrinha de 18 anos que ama o Sporting como o tio – quem é que tem moral para ser sportinguista com essa idade? Este é o exemplo que pretendo seguir e pôr em prática na minha pessoa. Lamber as feridas, olhar ao espelho, eriçar a juba e rugir de novo porque tal como para o meu Sporting, também para mim amanhã o sol nasce de novo.

Saudações leoninas, com orgulho restaurado e uma moral do camano para ir trabalhar amanhã!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Suestada

O Levante mete os velhos doentes e os novos malucos

Luís António Fernandes

Ria Formosa Nascente com a lua A revista francesa Météo vaticinou o verão mais frio dos últimos 200 anos anunciando até com 70% de certeza a inexistência de calor em julho e agosto. A publicação falou numa queda de um a três graus na temperatura média no território da Península Ibérica, em precipitação intensa, nebulosidade e surgimento do calor estival apenas em setembro e outubro, tudo culpa do inverno tardio e da pouca atividade solar.

Não sei como correu o verão no resto da Península Ibérica, não sei como foi no resto do território português nem sei como foi no resto do Algarve pois, como é sabido, raramente saio do meu spot da Praia de Faro. Sei como correu o verão mais frio dos últimos 200 anos no concelho de Faro e devo comunicar ao amigo leitor que passei um agosto como não passava há vários anos, com noites quentes que convidaram a patuscadas bem regadas de cerveja e caipirinhas levadas pela noite dentro e que muitas vezes acabavam dentro do Atlântico a assistir à aurora por trás da Ilha do Farol.

Entrando na última semana do verão seria de esperar que os dias de praia se tornassem ventosos e os fins de tarde mais frescos, que esse vento rodasse a ondulação do mar para sudoeste trazendo assim asPraia de Faro águas frias de fora. Os dias ficariam mais curtos e também mais nublados, as mangas passariam a ser compridas em vez de curtas, a pele perderia progressivamente o tom chocolate em favor numa cor mais de baunilha, até colocaram a capital algarvia sob um assustador alerta amarelo, significado de relâmpagos e trovôes com chuvas diluvianas como acompanhamento, um conjunto de fatores favoráveis ao aparecimento de neuras e quebras de moral… mas não.

Ria Formosa Poente A malta daqui da praia já se ri com o que é escrito sobre a meteorologia, dos aguaceiros prometidos, das ameaças de tempestades medonhas. O Mestre Dida mete-se quase todos os dias no seu saveirinho e vai passear pela Ria, os miúdos da escola de surf continuam a aprender a arte de cavalgar ondas de manga curta, os caloiros da UAlg vêm receber as praxes no areal, eu continuo a tomar belos banhos matinais de mar e rebolo-me com rir ao ver as previsões dos indígenas que prognosticam mais suestada, ou seja, água do mar na casa dos 22º / 24º C e o belo do levante que vai fazer subir o mercúrio para gáudio dos nativos algarvios que assim podem desfrutar dos encantos do sol sem a ‘Turma da Via Verde’ a zurzir. Mesmo agora foi dito que este vai ser o fim de semana mais quente do ano no Algarve, precisamente o fim de semana quando se inicia o outono.

Pois é, amigos. É engraçado ver que há quem pague para estar onde nós vivemos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O futebolista

O 'mishanapolonia' conseguiu chegar à fala com o mais recente reforço do Inter Warszawa, Nuno Bernardes. À conversa com o blogue, Nuno comentou o seu surpreendente regresso aos relvados e contou-nos como tem sido a sua adaptação a um novo futebol.

mishanapolonia - Nuno, um regresso ao futebol quase a atingir 40 anos. A pergunta impõe-se: Porquê?
Nuno - Porque quem praticou futebol oficialmente como eu pratiquei durante quase 20 anos fica sempre com o bichinho. Deixei de jogar pouco antes de vir para a Polónia mas nunca resisti a uma bola que saltasse na rua e não descansei enquanto não encontrei um grupo de peladinhas de fim-de-semana para matar a vontade, daí até pensar em voltar a jogar federado foi um saltinho.

m - Mas aos 39 anos não é vulgar ver-se regressos ao futebol, é mais uma idade adequada para a reforma e um estilo de vida mais pacífico.
N - Talvez seja, mas eu sempre andei contra-corrente (risos). O facto é que me apercebi que ainda estou em condições físicas aceitáveis e nos jogos com os amigos nunca corria menos que os meus colegas (bem) mais novos, era mais competitivo que os outros, aguentava sempre a pedalada e sentia-me confortável em campo. Por isso decidi experimentar de novo o futebol de 11, por uma questão de gozo. Para saber se aguento uma época de treinos e jogos e para poder um dia contar aos netos que o avô jogou no estrangeiro.

m - E como tem corrido esse regresso?
N - Muito bem. Encontrei colegas com muito entusiasmo pelo futebol e que me acolheram bem apesar de eu ser o mais velho de todos, oito anos mais velho do que o seguinte. Não tem havido problema.

m - Mesmo com a linguagem?
N - A linguagem do futebol é universal e rapidamente se aprendem os básicos. Czas, do niego, szanuj, jestem, masz são coisas que se aprendem depressa. Também não é preciso ser um licenciado em filologia para comunicar dentro de campo.

m - O futebol polaco é muito diferente do futebol português?
N - Completamente. A única coisa em comum é a bola, o resto é outra história. Na Polónia encara-se a baliza como o lugar onde a bola deve estar, entãoInter - Drukarz estica-se rapidamente a bola na frente e todos os jogadores correm que nem doidos para a baliza do adversário. É aí que a coisa fica complicada para mim porque já não tenho pernas nem caixa para ir atrás deles nem para encarar sozinho a transição. Às vezes aparecem-me dois e três na ressaca e tenho de mandar um pela proa para evitar males maiores.

m - Então o que faz para se adaptar a esse futebol?
N - Tento impor o meu, bola no chão, progressão com os colegas, passes simples mas pela certa, dou atrás para ir buscar na frente, quase sempre tento o um-dois. Não fui criado na escola britânica, não sei jogar em chutão nem sou queniano para correr como louco, jogo como sei e tento explicar aos meus colegas que a bola não se cansa e por isso é a bola que tem de correr.

m - E eles compreendem-no?
N - Pela reação deles eu percebo que eles me compreendem e que até tenho uma certa razão, mas aquilo está-lhes na massa do sangue e muitas das vezes que eu peço a bola porque estou sozinho tenho como resposta um barroaço na frente para o nosso avançado que está com três em cima. Apetece-me esganá-lo mas tenho de manter a cabeça fria.

m - Já fez um jogo que não correu lá muito bem...
N - Pois foi. Perdemos 2-5 em casa na estreia para o campeonato. Foi um jogo bizarro, fomos para o intervalo a ganhar por 1-0, aos 47 mins sofremos o 1-1, o treinador manda-me aquecer para dar alguma calma ao meio-campo, levamos o 1-2 aos 50 e o 1-3 quatro minutos depois logo após a minha entrada. Nem tinha tocado na bola e já tinha encaixado três batatas.

m - Para o meio-campo? Mas o Nuno não era guarda-redes?
N - Era mas decidi que ia jogar de campo. Já não tenho vida para meter a cabeça onde os outros metem os pés.

m - No jogo aconteceu o que se chama ter galo.
N - Não foi galo, foi azelhice mesmo. Havia jogadores que sentiram nitidamente o peso da estreia e nem conseguiam dominar uma bola, tremiam que nem gelatina. Serviu para aprender. Não se pode sofrer 3 golos em 7 minutos.

m - Como lhe correu o jogo a nível individual?
N - Mal porque perdemos e eu não gosto de perder nem nas paciências. Senti que ainda não tenho os níveis físicos necessários para aguentar 90 minutos e perdi alguns duelos individuais na força, mas com treinos regulares isto vai ao lugar. Consegui no entanto algumas aberturas interessantes, parece que ainda meto a seta onde meto o olho (risos).

m - Nuno, que expetativas para esta época?
N - Não me lesionar e jogar bem para ajudar a equipa. Já conheço bem os sinais que o meu corpo me manda, os ligamentos e os adutores são muito caprichosos, reclamam frequentemente e por esse motivo tenho de gerir o esforço. Também preciso de descansar mais porque a capacidade de regeneração não é a mesma, menos álcool, menos refrigerantes, mais sono. Vai ser complicado compatibilizar o futebol com o trabalho como DJ mas quem corre por gosto não cansa. Fundamentalmente quero acabar a época fisicamente em bom plano para ver se na temporada seguinte repito a experiência.

m - O quê? Pensa jogar na próxima temporada?
N - E por que não? Se a carcaça aguentar o cachão desta época por que não hei-de fazer mais um ano? Adoro treinar, adoro o jogo, adoro o ambiente do balneário, o ritual de me equipar, sair de noite ao frio só para estar com a rapaziada. Só quem nunca jogou futebol é que não compreende o que é a paixão pelo futebol, o que nos leva a abandonar o quentinho de casa para levar porrada à chuva, torcer pés, boladas na cara, canelas roxas, cabeçadas e punhadas e ainda pagar do próprio bolso. A alegria dos colegas quando se marca um golo é paga suficiente para todos estes sacrifícios. O futebol é a coisa mais bela do mundo e eu só tenho de agradecer os generosos cromossomas que tenho que me permitem continuar a desfrutar da minha paixão.
 
Foi assim a conversa com o camisa 3 do Inter Warszawa, Nuno Bernardes. Boa sorte e que não lhe amassem muito o chassi porque peças para este modelo já não se fazem mais.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Há três dias que não tomo banho de água doce

Aliás, que não tomava porque entretanto tive de tratar disso. Já tinha o cabelo feito em palha de aço.

Vista da janela do quartoApesar de serem férias de trabalho devido a uma delicada situação familiar, as férias deste verão têm sido ricas em muitos eventos típicos da comunidade. Como o leitor já sabe se acompanhar o blogue há algum tempo, eu evito todas as festas sazonais do botox e do bicarbonato porque não acho piada nenhuma àquilo. Malta às cotoveladas só para ver rapazes e raparigas célebres, fortunas de tempo a esperar por uma nesga de bar para pagar uma obscenidade por uma imperial ou uma caipira. Festas do botox e do bicarbonato também as tenho em Varsóvia onde as raparigas célebres locais dão ratadas de beleza às tugas, essas sim que valem a pena presenciar e passar um período de sauna para ter  a oportunidade de examinar mais de perto as verdadeiras composições genéticas que são os seus abençoados corpinhos. Portanto, sobre as festas da pulseira estamos conversados.

Quase nascido e criado na Ria, casa de família na Praia de Faro há mais de 35 anos, é nessa praia que assento arraiais durante as férias de verão e dali (ou daqui porque é na Praia de Faro que escrevo estas linhas) não saio a não ser que seja por uma muito boa razão – Sudoeste, Farense, Columbus Boat Party, Sporting. Outros vizinhos de praia organizam pantagruélicas jantaradas que se estendem noite dentro e que muitas vezes terminam dentro de água, banhos de mar às 3, 4 ou 5 da matina como aconteceu na sexta à noite na casa do Nuno. 13 pessoas à mesa para contrariar a superstição, dezenas de espetadas de frango com bacon e ananás, quilos de limas, gelo e açúcar amarelo a prognosticar um tsunami de caipirinhas (foram feitas mais de cem, seguramente), um frigorífico lotado de minis, muita conversa de bola e o epílogo apoteótico de esperar pelo sol na costa de geleiras e toalha. Uma comunhão perfeita de elementos humanos e naturais, a lua gorda e curiosa a iluminar o mar tépido, a cerveja fresca a passar pelas mãos dos amigos do peito e a jorrar. Regresso a casa num profundo estado ébrio sem paciência para remover o salitre, força apenas para lavar os dentes e desmaiar na cama.

Dia seguinte iniciado como o habitual banho de bons-dias à hora do almoço, o aperitivo e as primeiras notícias do dia à do Fava, uma tarde inteira de praia sob um sol que há anos não torrava assim em agosto, arrastar as pernas até à esplanada para um par de imperiais de fim de dia, picar qualquer coisa enquanto se vê o Grande Amor a despachar mais um adversário (os deuses devem estar loucos!), celebrar a vitória com mais cervejame e pezinhos de rock n’roll (a buba dá pra tudo) num dos quiosques da praia que tem música ao vivo, outra desgraceira consumada ainda por cima amplificada pela ideia maligna do Toni às 3:00 quando os concertos terminaram: Butes dar um mergulho? Três homens e duas mulheres em pelota a chapinhar na água que nem um bando de patos perdidos, de novo voltar para casa bezano, de novo demasiado impertinente para tomar duche.

O último dia da aventura começou como os acima descritos mas teve uma cambiante a meio da tarde, o Farense – Aves no Estádio de S. Luís e eu nunca falho quando o Farense joga em Faro. Só por isso passei o chassi por baixo do duche e permiti algum champô no desesperado couro cabeludo. Fui à bola, jantei com as altas cúpulas do clube para discutir o jogo e à meia-noite, quando já estava a imaginar uma noite descansada, eis que a Iryna com uma mensagem me desvia para uma festa de anos num bar da Praia. Não consigo dizer não àquele par de olhos cor de mel, aos cabelos áureos, as linhas da escola eslava, por isso acabei por aceitar os shots de tequila que ela me propôs mesmo que isso me custasse uma arruaça intestinal a meio da noite. Sacrifícios necessários para poder assistir ao sorriso dela, o caminho para o êxito nunca foi fácil.

 

Hoje já entrei em contagem decrescente para o retorno a Varsóvia, cidade da qual já sinto falta. Tenho saudades da minha casa lá, do meu carro, dos hambúrgeres dominicais, das alvas pernas a passarem na rua Chmiełna, dos neons do Platinium, do meu lugar cativo no Pepsi Arena, dos amigos. Tenho saudades de Varsóvia, claro, mas tenho já saudades deste verão e destas férias. E por isso vacilo.

Esta reentrada não vai ser fácil…

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Praia de Faro, 25º dentro de água

Praia de Faro à noite Repete-se o sentimento por esta altura, um misto de sensações que vai desde a nostalgia de mais um verão cálido algarvio que vai ficar pelas costas, a cidade capital que me espera com indiferença aparente mas roída de saudades por dentro passando pela revisão de todas as coisas pessoais e de família que devia tratar, papéis para regularizar e outros para conferir. Passa-se o mês em revista, vê-se o que foi feito e o que há para fazer, sacode-se o sal do cabelo, mete-se umas garrafinhas de azeite na mala que isso em Varsóvia anda ao preço do ouro, chouriças e milho para fazer xarém e arranca o emigrante de volta à terra do trabalho. Uma imagem um bocado cliché mas verdadeira resultado do apego que o português tem às suas coisinhas e à inexistência de tais artigos onde vive, pena que não se possa levar amêijoas e postas de corvina na bagagem.

Nesta altura do ano faço a minha pré-época, vejo quais as perspetivas de trabalho, as propostas e projetos que me esperam até ao próximo verão. Faço-o em função do ano letivo e de outras ocupações que preenchem o horário semanal, decido para onde me viro e ataco o trabalho revigorado pela carga de sol que trago do Algarve, contente por rever os amigos e os queridos (e queridas) que ficaram em Varsóvia.

Este ano a pré-época é diferente de todas as anteriores, os acontecimentos recentes a nível pessoal fazem-me reconsiderar o planoVarsóvia à noite de vida na Polónia e as confusões familiares não me deixam partir de consciência totalmente tranquila. Muitos pensamentos se cruzam e  influenciam a decisão final, que não é fácil porque é provavelmente o único momento nestes quase seis anos de vida fora no qual pondero seriamente a possibilidade de regressar a Faro. Trata-se no fundo de escolher entre dois males, hipotecar muito em Faro para continuar a ganhar em Varsóvia ou salvar o que tenho em Faro perdendo (se calhar para sempre) o que tenho em Varsóvia.

Haja luz para ajudar a decidir. Honestamente, banhos de mar a 22º à meia-noite com o Jotinha seguidos de tertúlias de bola com o Marguilho e o Soneca até às 2:00 da manhã puxam decididamente a corda para um dos lados.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Por que eu adoro ser algarvio 2

Ilha da Culatra, ponto do país onde se consome mais cerveja ‘Sagres’ per capita, lugar onde só se vende dois tipos de líquidos – a dita ‘Sagres’, a ‘Super Bock’ é repudiada, e café. Um grupo entra num café, integrado no grupo vai um quequinho cuja origem não revelo mas que será óbvia para o leitor. Todos pedem cerveja, diálogo entre o empregado de mesa e o referido cliente:

 

C – Um Iced Tea, por favor.

(silêncio no café, o empregado de mesa perplexo com o pedido)

E – Ice Tea?! E de que sabor?

C – De manga.

(o empregado, pronúncia típica dos marítimos de Olhão)

E – Atão e quer de manga curta ou manga comprida?

(o café vem abaixo com as gargalhadas, o cliente corrige envergonhadamente o pedido)

C – Uma imperial…

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Por que eu adoro ser algarvio

Diálogo num restaurante conhecido de Faro entre uma cliente e um funcionário. Ela típica turista de agosto, insuportável pronúncia alfacinha, petulância a escorrer por cada madeixa oxigenada. Ele filho de Faro, a escola toda, a língua afiada como o sabre dum samurai:

(diálogo transcrito com as pronúncias pessoais dos intervenientes)

- Então e que páixe táim?

- Temos sardinhas, carapaus, sargues, doradas, pêxe-espada, rbales, atum, raia e crvina.

- Ah… Mas só tem essas qualidades de páixe?

- Bem, realmente vocês no oceanário têm mais.

- (silêncio a digerir a resposta) Hmmm… pode ser sardinhas.

Algarvio devia ser nacionalidade, adoro a minha malta!!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Regresso à raíz

Há sempre a esperança que se sente um chuchu ao nosso lado, uma companhia bonita e adorável para passar o tempo da viagem, um foco de atenção diferente do habitual livro para matar quatro horas a retorcer as pernas por não ter lugar onde as pôr. Há sempre a expetativa de apanharmos uma linda moça no assento junto ao nosso, meter conversa, trocar números de telefone, combinar cafezinhos ou caipirinhas, prestar-se a mostrar a região e os encantos que não vêm nos guias mas que só os indígenas conhecem, a hospitalidade lusitana à disposição. Confiamos também num lugar à janela para mirar o planeta de cima, reconhecer rios e vilas, adivinhar montanhas e vales, procurar as casas de amigos e familiares. Pois bem.

O avião partiu com duas horas de atraso em relação ao previsto, zanga amenizada com um lugar dos tais à janela para eu poder apreciar Varsóvia diminuir progressivamente até se tornar um mosaico de contornos escuros gradualmente substituidos por outros verdes e finalmente por uma extensa mancha de cor indefinida sem prédios nem estradas, um grande vazio que depois desaparece de vez tapado pelas nuvens que adoram cobrir a Cidade Capital. Já eu sonhava ter a fila de assentos só para mim quando chega uma jovem mãe com o filho de 5 ou 6 anos que olha para mim, instalado de livro em riste, e choraminga:

- Eu quero ir à janela. Porque é que eu não posso ir à janela…

A mãe explicou que eles tinham os lugares que tinham e eu pensei que era uma excelente resposta porque nem por sombras eu ia abdicar do meu rico lugarinho panorâmico e dá-lo àquele patife cabelo de lixívia que não sabe avaliar a bela vista que teria sob os olhos.

- Minha senhora, – disse eu – ele pode ficar no meu lugar, não me importo de ficar na coxia – pensando que seria melhor passar-lhe o lugar e aproveitar a felicidade do puto para passar pelas brasas.

Um gesto de cortesia portuguesa que havia de me custar o sossego poisRia Formosa na Praia de Faro cedo o miúdo descobriu no outro lado do corredor um outro miúdo com jogos num tablet e começou a pular entre a janela e a coxia, condenando o meu sono a um plano efémero e exageradamente otimista. Depois de dar muita porradinha nas minhas pernas e de tentativas infrutíferas de pegar num superficial sono, a mãe daquele terrorista-mirim teve piedade de mim e propôs-me a devolução do MEU lugar, desesperadamente aceite e devidamente gozada com uma soneca instantânea somente interrompida com o sinal de descida para Faro.

A Ria recebeu-me serena e em tons de azul pacífico, sem especial pompa mas bebeu logo uma imperial comigo. Ali ficamos os dois à conversa para matar saudades, como dois amigos que há muito não se viam. A Ria é fixe e é sempre bom voltar a vê-la.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O tímido sol eslavo


São diferentes, começam quase à mesma hora mas muito mais claras, mesmo que seja apenas um tímido sol eslavo a clarear a cidade sempre dá outra energia e ânimo. As manhãs de segunda-feira nunca são recebidas de braços abertos mas agora são um pouco melhor aceites precisamente devido ao tímido sol eslavo que ilumina o bairro, descobre flores, aquece o carro. Nada é mais aborrecido do que sair de casa de noite e voltar a casa de noite, passei meses sem ver a luz do dia nas paredes do quarto até que veio o verão para reanimar as hostes.

Em vez da longa e às vezes enervante viagem para a Universidade, viagem suspensa devido ao período de férias, o percurso matinal é de 5/7 minutos até ao interface de Młociny no extremo norte de Varsóvia. Aí se situa não só a estação terminal do metro mas também as extremidades das carreiras de autocarro, de elétrico, apanha-se lá o autocarro para Katowice, Poznań, Łódź, Rzeszów, Berlim e demais cidades polacas, também se apanha o transporte para o infame aeroporto low-cost de Modlin mas o que mais me agrada neste interface, além de estar apenas a 10 minutos de autocarro de casa, é o parque de estacionamento grátis para os beneficiários do passe social, um parque coberto para mais de mil carros que está à disposição dos utentes das 4:30 às 2:30 e que tem ligação direta para os diversos transportes públicos da área, luxos das capitais europeias, Varsóvia a primeira da Europa de Leste a dispor de tais estruturas.

O metro serve para quando estou a correr em cima da hora, quase todos os dias porque tenho uma noção de tempo bastante elástica como todo o bom português, mas hoje saí de casa com vagar e por isso só percorri metade do caminho debaixo da terra optando por ir de elétrico até ao trabalho para poder observar as pessoas e os seus gestos. Pude confirmar os lentos mas existentes progressos da construção da segunda linha de metropolitano, especialmente no centro financeiro da cidade - Rotunda das Nações Unidas - mas sobretudo ver e regalar-me com as cores estivais da Cidade Capital mesmo que seja um tímido sol eslavo a dar destaque às sebes e canteiros de relva verde que delimita cada passeio. As largas avenidas projetadas por esquadros de sorumbáticos arquitetos socialistas são sulcadas por composições cada vez mais modernas, ar condicionado que funciona a valer, cadeiras instaladas a 45º para não bater com os joelhos nas costas do assento da frente, carruagens que cheiram a limpo e ajudam a melhorar um pouco o humor daqueles que se preparam para mais uma semana de trabalho. Eu vou de pé à janela, quase o único passageiro que não tem o nariz enfiado num livro ou as orelhas afogadas com auscultadores. Prefiro ver a cidade, descobrir recantos que ainda não conhecia, admirar-me com a grandeza duma mansão antiga ou abrir a boca de choque à passagem dum par de pernas como só esta terra sabe produzir. Não há como contornar esta evidência, sejam encobertas por leggings ou nuas no verão, levemente tapadas por meias de renda no inverno ou saudavelmente ao léu, as pernas da mulher polaca são um património genético deste país que é exibido com garbo acentuando ainda mais os contrastes em que Varsóvia é rica. Só neste país se imagina circular pelos blocos iguais e bocejantes dum bairro como Żoliborz - que ironia, na rua do Padre Popiełuszko - e surgir de repente um par de tenazes de marfim capaz de nos queimar a menina dos olhos se não usarmos óculos de sol. Mesmo este vosso escriba, com quase seis anos de praia, ainda leva estaladas de espanto quando lhe caem os olhos naquelas espadas de louça. Uma coisa parva, como se diz na minha terra.

Tive de voltar a Ursynów para tratar de negócios, uma empresa que estava tão confortavelmente instalada no Centro mudou as suas instalações para um distrito que já habitei em tempos mas que agora não me fica em mão. O autocarro - outra agradável surpresa, o 189 já não é uma cafeteira vomitada que atirava o fumo do escape para dentro do veículo mas sim um moderno e asseado autopullman que me fez recordar as viagens para Lisboa na Mundial Turismo no tempo, não muito remoto, em que não havia autoestrada para Alvalade - deixou-me em Służew para dali apanhar o metro até Imielin, um trajeto que iniciou um processo de repassagem de algumas recordações que encalhou nas bezanas de solteiro muitas vezes sacudidas pelo sino do sinal da estação final, o que era menos mal porque eu morava na penúltima estação. Aproveitei a sombra dum bordo para me esconder do menos tímido sol eslavo de meio-dia para almoçar uma sandes de ovo mexido da qual tive de retirar os pepinos - que merda de costume polaco este de meterem pepinos em tudo o que se coma, estou para saber se também enfiam pepinos nos Corn Flakes - e um iogurte de damasco (não perguntem...).

Agora estou tranquilamente sentadinho num banco no centro da Cidade Capital, mais uma vez a observar a vida das suas pessoas como tanto gosto de fazer. Vieram alguns pombos pedir-me migalhas que não tenho, outros dançam inchados tentando impressionar as fêmeas com bateres de asa, uma senhora com o dobro do meu peso e o quádruplo da minha idade sentou-se num banco em frente e puxou de um cigarro, trouxe um cão tão velho e tão gordo quanto ela que penosamente se arrasta pela praça a farejar não se sabe o quê, um casal de namorados está escondido ao lado esquerdo da praça e parece tão apaixonado que ela nem se importa com a gastroscopia que ele parece fazer-lhe com a língua, alguns bêbados e drogados partilham outro banco com três adoráveis e grisalhas senhoras que não se incomodam com a fedorenta vizinhança e lançam olhares vazios e silenciosos aos miúdos que correm atrás dos pássaros acompanhando a correria com um lento abano de cabeça.

Passou uma morena não muito bonita nem muito esbelta mas com proporções e medidas de encostar às cordas qualquer das alegadas pin-up portuguesas - ou será mais apropriado chamar-lhes pin-down? - que infestam o ar com a sua típica e insuportável mania. Um chuchu que não me importava de conhecer e de lhe
pagar um copo, uma mulher que me fez levantar os olhos do monitor e ver que a praça está agora mais clara, que o tímido sol eslavo saiu de trás das nuvens e derrama ainda mais luz sobre Varsóvia.

Passa uma loura de bandelete, incríveis pernas ajustadas ao comprimento... digo, ao "curtimento" da sua saia, top justo que lhe salienta as gostosas circunferências do busto, passos firmes, o chão parece que salta de emoção ao ser pisado por ela. Os pássaros levantam voo assustados com qualquer coisa talvez com ela, as velhinhas também se levantaram se calhar afrontadas por tamanha exibição de beleza, os namorados continuam a curtir como se não houvesse amanhã, a velhinha trocou o cigarro por um gelado daqueles que parece uma sandes de waffle, os bêbados nem deram por ela passar, continuaram inertes ou cambaleantes no seu limbo de álcool, passa uma segunda loura metida num apertado tailleur preto, cabelo curto estilo Annie Lennox, eu levanto-me e vou curtir o tímido sol eslavo para outra freguesia antes que se me queime a menina dos olhos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

O que é que a gente tá aqui fazendo? - 15

Quando num dia de sol, com uns resplendorosos 25ºC, um gajo está sentado ao computador a fazer traduções de textos contendo palavras como ‘okołowierzchołkowych’…

Epá, foda-se!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Parabéns!

Parabéns, meu Amor!

O povo diz que não há amor como o primeiro e têm razão, desde que te conheci que te tornaste num elemento essencial à minha existência, quase o alimento da minha alma, uma substância indissociável da minha pessoa. Não entraste de rompante na minha vida, até nisso foste inteligente porque sabes que os grandes alaridos não causam em mim grande impressão, sabias que eu tinha de ser levado de maneira subtil, pé ante pé, conquistando cada milímetro cúbico com calma e certeza porque a concorrência era enorme e de poderio. Apareceste humilde, não apresentaste grandes credenciais, não mostraste um currículo impressionante, não vi nenhumas linhas a negrito, exibiste modéstia sem que parecesses indigente e contrastavas a pesporrência dos outros com a tranquilidade própria de quem é melhor, distanciando-se do restante com confiança, com categoria, com carisma, esse carisma que me venceu e me atirou irreversivelmente para os teus braços.

Tu sabes quantas vozes me alertaram? Quantas pessoas me disseram para te evitar? Que tu eras má companhia, que só me ias dar desgostos, que eu merecia melhor partido, tão bom rapaz que eu era e já me estava a dar a um fado tão desgraçado. Opá, até dentro da família que é de onde têm de sair os melhores conselhos (se bem que de bom a minha família pouco tem produzido) me disseram para deixar de pensar em ti porque havia pretendentes mais capazes, mais aptos a darem-me as alegrias que um petiz procura. Gritavam-me as evidências, olha que te vais dar mal, olha que eu não te quero ver sofrer. Lembro-me de qual foi a tua resposta, encolheste os ombros e disseste que era verdade, que com outra opção eu teria mais festejo e foguetes, foste sério e honesto como sempre foste na tua imaculada existência, tal como na questão da tua idade que nunca forjaste nem nunca deturpaste a realidade para que celebrasses grandes datas antes dos outros. Até nesse detalhe mostraste a tua natureza íntegra e vertical.

Durante estes longos anos sempre te mostraste coerente, nunca me enganaste. Desiludiste-me às vezes mas foste sempre fiel aos teus princípios e aos valores que partilho. Sou como tu, identifico-me contigo e com o que apregoas, com o que simbolizas, não gosto de jogadas subterrâneas nem de hipocrisias. Tal como tu, o que sou digo com frontalidade e clareza, não uso subterfúgios nem artifícios. Amo-te porque nunca te corrompeste, nunca te prostituíste, nunca te vendeste por um punhado de lentilhas, sofreste horrores que a tua própria gente te infligiu mas mantiveste o porte nobre que sempre vi em ti e que sempre adorei, por teres recusado anabolizantes ilegais empequeneceste, se calhar até minguaste mas tudo em ti continuava autêntico, tu eras e foste sempre tu e não a fantasia opada que os outros perseguiam. Sofremos, pois sofremos, mas nunca feneceu a enorme admiração que sempre nutri pela forma como sempre caminhaste de cabeça levantada apesar das dificuldades mostrando-me que pobreza não significa falta de asseio e que é preferível passar fome mas andar de cara e roupa lavada do que ajavardar em abundância e fumar priscas.

Juntos caímos e juntos nos reergueremos. Juntos porque juntos sempre estaremos, assistirei ao teu remontar e ansiarei pelo momento em que voltarás a ser grande, enorme, gigante porque é esse o teu desígnio. Meu Amor, juntos nos nossos valores não haverá muros nem montanhas que nos atrapalhem, juntos nos nossos ideais conquistaremos todas as batalhas que nos colocarem, juntos na nossa crença derrotaremos todos os adversários e por fim, juntos na nossa fé venceremos. Por fim atingiremos a Glória porque é assim que tu te cumpres, é assim que tu és, é assim que tem de ser.

Parabéns, meu Amor. Parabéns, Sporting Clube de Portugal. Se tu não existisses eu criava-te para eu poder ter um clube.

Sporting, tu és a minha vida e eu sem ti não sei viver.


PS - E parabéns para ti também, Renato. Este texto é a minha prenda.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A Grande Tromba de Água de Domingo

Na semana passada, uma imagem desoladora correu mundo. Varsóvia debaixo de água, a consequência dum fenómeno de precipitação intensa (20 litros por m2,nalgumas zonas até duas vezes mais), que apanhou a cidade desprevenida e que causou imenso transtorno aos habitantes da capital polaca. O pior sucedeu no domingo de manhã com várias áreas a serem inundadas pela água da chuva principalmente na Trasa Armii Krajowej, uma via rápida a norte da cidade que liga a estrada proveniente de Białystok com a autoestrada para Łódź e Poznań, onde vários carros ficaram submersos tendo os seus proprietários que esperar pela ajuda empoleirados nas capotas. Quatro estações de metropolitano estiveram encerradas devido à água que invadiu as plataformas impossbilitando o funcionamento das comboios. Felizmente tudo ocorreu num fim de manhã de domingo (das 11:00 às 14:00) o que não complicou demasiado a vida aos varsovianos, no entanto isso não impediu que muitas vozes se levantassem a criticar as deficientes infraestruturas da cidade e a atuação da Presidente da Câmara, Hanna Gronkiewicz-Waltz no que concerne ao caso específico da Trasa AK, uma artéria que já tem historial de inundações. 

Nas declarações subsequentes ao acontecimento, a Presidente da cidade atirou responsabilidades para a GDDKiA (Generalna Dyrekcja Dróg Krajowych i Autostrad, o equivalente polaco à 'Estradas de Portugal'  - antes JAE ou IEP) dizendo que "está à espera que a Direção Geral de Estradas inicie as reparações na Trasa AK agendadas, ao que tudo indica, para este ano e para as quais decorre concurso de adjudicação". Confrontada com o facto de não ainda não ter encetado obras no obsoleto (datado dos anos 80) sistema de escoamento de águas, Gronkiewicz-Waltz justificou a decisão com "os enormes perturbações que um corte total da via causaria aos automobilistas" e que essas obras "terão lugar aquando a renovação do piso para não se ter de cortar a estrada duas vezes". A responsável adianta que os coletores de esgoto da secção norte de Varsóvia esgotaram a sua capacidade e que não há capacidade financeira para intervir de forma mais eficaz.

Nesse domingo eu passei duas horas à espera que a chuva passasse para poder ir ao supermercado. Claro, podia ter pegado num guarda-chuva e abalado mas detesto chuva e prefiro esperar o tempo que for preciso até que pare de chover do que me meter debaixo de água. Depois vi nas notícias as desoladoras imagens de Varsóvia coberta de água e envergonhei-me duma capital europeia sofrer tais embaraços sem ter um plano de prevenção eficiente, sendo que achei a questão da "falta de capacidade financeira" uma desculpa idiota sendo Varsóvia a cidade do país onde se gere mais riqueza. Porém a desculpa não é assim tão idioto pois embora Varsóvia seja de facto a cidade onde mais dinheiro se faz na Polónia, (talvez mais de) metade do dinheiro que é criado na Capital não fica na Capital. Explicando:


Três quartos dos habitantes de Varsóvia não são de Varsóvia, trabalham em Varsóvia mas não reside oficialmente na cidade. Estas pessoas estão registadas nas suas cidades de origem e por esse motivo é lá que pagam os seus impostos, daí que apenas 25% da riqueza criada na cidade possa ser aplicada na própria cidade. Isso já dá uma ideia da disparidade entre o dinheiro produzido e o dinheiro investido. A somar a esta situação há ainda o imposto de coesão Janosikowe, uma taxa que obriga as voivódias (divisões administrativas equivalentes aos distritos portugueses) que tenham receitas superiores a 150% da média do país a pagarem pelas outras com menos dinheiro. Isto obriga a que a Mazóvia, região onde se situa a capital da Polónia, contribua de forma gigante para este fundo de coesão independentemente se a riqueza produzida pela região seja gasta na mesma região. Tal imposto trava o desenrolar de muitas obras essenciais para o desenvolvimento de Varsóvia, um perfeito exemplo é a segunda linha do metropolitano onde as obras de pelo menos duas estações vão ter de esperar por fundos da União Europeia porque a cidade não pôde disponibilizar dinheiro por ter de pagar o Janosikowe referente ao ano passado.

Pode-se assim perceber que as situações estranhas e surreais que acontecem na Polónia não são exclusivamente consequência de incúria e incompetência dos seus governantes mas por condições anteriormente impostas que os ultrapassam, o Janosikowe está constantemente a ser posto em causa pelas voivódias mais ricas mas o lóbi criado pelas mais pobres impede que o imposto seja abolido. E é compreensível, além de receberem os impostos dos 'engravatados de Varsóvia' ainda recebem dinheiro do fundo polaco de coesão. Quem está disposto a abdicar dum bolo assim?

terça-feira, 28 de maio de 2013

As virgens de Carnide

A este raciocínio poupam-se alguns amigos meus benfiquistas aos quais ofereço um respeitoso silêncio. Sei o que lhes dói porque já passei pelo mesmo.



Fundas e pistolas, sachos e baionetas, forquilhas e rifles, fisgas e revólveres, de tudo foi apontado aos sportinguistas que riram da desgraça dos seus rivais encarnados - perderem três títulos nos últimos minutos das finais. Lamentaram-se os perdedores acusando os sportinguistas em causa (nem todos os sportinguistas fizeram pouco da situação) de pouco patriotismo, de pequenez institucional por nem terem chegado às decisões, de inveja, de celebrar mais as derrotas alheias do que refletir na vergonha de época que assinaram. Pode ser que não tenham ainda percebido a atitude desses sportinguistas, por isso venho por este meio esclarecer que:

  1. A 14 de maio do ano de 2005, o Sporting perdeu no Estádio da Luz hipotecando nesse jogo as possibilidades de lutar pelo título de campeão nacional. Quatro dias depois perderia no próprio Estádio José Alvalade a final da Taça UEFA com o CSKA de Moscovo. Estes dois sucedimentos originaram uma onda de larachas e anedotas sobre o Sporting e sobre o seu treinador de então, José Peseiro, alcunhado de 'treinador do quase' porque quase era campeão, quase ganhava a Taça UEFA, quase que... Adeptos benfiquistas comemoraram a vitória dos
    russos na rotunda do Marquês de Pombal abraçados a moscovitas segurando cachecóis do CSKA, eu próprio fui provocado por simpatizantes dos encarnados no restaurante lisboeta onde jantei a seguir ao jogo.
  2. A 11 de maio do ano de 2013, o clube sedeado em Carnide perde no Estádio do Dragão nos últimos segundos hipotecando nesse jogo as possibilidades de lutar pelo título de campeão nacional. Quatro dias depois perderia em Amesterdão a final da Liga Europa com o Chelsea nos últimos segundos. Onze dias depois perderia no Estádio Nacional a final da Taça de Portugal nos últimos minutos. Antes tinha ganho ao Sporting no seu estádio num jogo manchado por erros de arbitragem flagrantes com claro e consensual prejuízo para os 'Leões'.
  3. Em 2005 a imprensa fez uma cobertura moderada e deu algum destaque às hipóteses que a equipa leonina tinha em protagonizar uma época histórica, conquistando simultaneamente campeonato nacional e um título europeu.
  4. Em 2013 a imprensa fez manchetes e abriu noticiários televisivos com a iminência duma época de sonho (sic) consubstanciada num campeonato garantido (ou reservado) ainda com 3 jornadas para terminar.
  5. Em 2005 não se registou nenhuma campanha de súbito apelo ao patriotismo português embora na equipa portuguesa presente nesse encontro tivessem jogado a titular seis jogadores portugueses, quase todos internacionais A: Ricardo, Miguel Garcia, Beto, Pedro Barbosa, João Moutinho, Sá Pinto mais Nélson, Rui Jorge, Custódio e Hugo Viana no banco de suplentes.
  6. Em 2013 surge um movimento de inflamação nacionalista suportada à dimensão nacional pelos media para que os portugueses apoiassem incondicionalmente a equipa portuguesa paricipante na final na qual apenas jogou um português (André Almeida) e dois ficaram no banco (Paulo Lopes e André Gomes), futebolistas desconhecidos para a maioria dos compatriotas.
  7. Em 2005 não havia Facebook nem Twitter, por isso não era possível 'apagar' amigos das nossas existências. Gramávamos com os gozos deles sempre que eles nos apareciam à frente, engolíamos e seguíamos em frente com a dignidade possível mesmo que nunca tivéssemos feito publicidades antecipadas nem tivéssemos cantado vitórias prematuras.
  8. Em 2013 fomos bombardeados com ideias e sugestões de que neste ano 'é tudo nosso!', em todos os murais se viam contagens decrescentes para os fogos de artifício, para as rolhas dos espumantes saltarem, para as comemorações provocatórias no local tornado célebre pelo rival, para a confirmação da ímpar grandeza do 'maior clube do mundo'.
Sabemos como a história foi, sabemos como as pessoas são.
Não nos congratulamos com a vitória do FC Porto porque têm sido esses pilhos que mais têm prejudicado o Sporting nas últimas três décadas. Não vitoriamos a vitória do Chelsea porque é um clube que representa a podridão do dinheiro fácil que está a destruir o desporto-rei. Não celebrámos a vitória do Vitória de Guimarães porque é um clube que nada nos diz...
... mas festejamos a derrota da vossa arrogância, da vossa insuportável arrogância que não conseguem conter enquanto estão na mó de cima e que depois de torna em vergonhosa frustração quando passam para a mó de baixo como se viu no deplorável espetáculo protagonizado por Cardozo e o seu próprio treinador. Representam o que há de mais foleiro no desporto, o não saber perder e - pior - não saber ganhar.

O peixe morre sempre pela boca e enquanto vocês continuarem a vomitar peçonha, enquanto continuarem a darem espetáculos de presunção, enquanto prosseguirem nas provocações e no espírito petulante que caracteriza a vossa gente, nós continuaremos a festejar e a alegrar-nos com o vosso insucesso. Soubessem vocês ganhar e respeitaríamos agora a vossa dor, mas não sois dignos de tal misericórdia. Não vos respeitamos porque vocês não se sabem dar ao respeito.

Portanto, inchem! Até que a cabeçorra vos rebente!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Os polacos e os elevadores


Como é que se mete um elefante num frigorífico em três tempos?

1º tempo - abrir a porta do frigorífico;
2º tempo - introduzir o elefante;
3º tempo - fechar a porta do frigorífico.

Como é que se mete uma girafa num frigorífico em quatro tempos?

1º tempo - abrir a porta do frigorífico;
2º tempo - remover o elefante;
3º tempo - introduzir a girafa;
4º tempo - fechar a porta do frigorífico.


Os polacos têm um problema com os elevadores, não gostam de elevadores mas gostam menos de escadas e por isso têm de gramar os elevadores nem que seja para um primeiro andar. Leva-se menos tempo a subir um lanço de escadas para se chegar ao primeiro andar do que esperar pela chegada dum elevador desde as lonjuras do 12º piso, aguentar pacientemente a diminuição da velocidade da cabine quando esta atinge o nível pretendido, mais uma eternidade até que as portas abram o suficiente para espremer o corpo entre as pessoas que ainda saem do elevador e a lateral dos acessos. Quando finalmente conseguem passar pelo afunilado corredor de entrada - nunca percebi porque é que não esperam que as pessoas saiam para poderem ter espaço para entrar - estacionam imediatamente dois passos à frente da entrada batendo furiosamente nos botões dos andares como se fossem Jerry Lee Lewis ao piano, soprando e bufando enquanto a porta não se fecha e atirando furiosos olhares a quem chega atrasado ao embarque e protela a partida da nave.

Outra coisa que os polacos odeiam nos elevadores é quando alguém se atreve a partilhar a viagem na 'sua' cabine, um aborrecimento ter de dar os bons-dias ao estranho, ter de dividir o ar com ele, cheirar a sua água de colónia, sentir o chão se o intruso ousar mexer-se. No mundo ideal cada polaco teria um elevador privado cujas portas abrissem e fechassem em 2 nanossegundos e que os transportasse para o andar desejado numa velocidade superior à que os perdigotos atingem quando saem da boca em forma de espirro, nem que seja para um primeiro andar. Os polacos vivem maldizendo o seu trabalho, queixam-se da rotina e da monotonia (bem, para falar a verdade não há nada de que os polacos não se queixem - até do bom tempo) mas esperam que o elevador os leve para a sua secretária o mais depressa possível.

Não sei quantas vezes fui fuzilado por ter tido o arrojo de entrar no elevador atrás dumas ancas femininas adequadamente entaladas numa saia justinha mas formal enquanto a dona da saia já premia em delírio o botão verde do fechar, também não sei quantas vezes obriguei homens e mulheres a mastigar um 'bom dia' contrariado à minha descontraída penetração no autismo deles. Deve ser lixado, querer ser mau-feitio e azedo com o mundo quando se vai para o trabalho estrangulado por uma gravata que mais parece uma grilheta e entra um gajo de cabelo espetado, barba por fazer, calções de ganga e ténis da Le Coq a distribuir cumprimentos sorridentes e ainda por cima a avaliar gulosamente as medidas das garinas.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quinta à tarde com um pardalinho

22º em Varsóvia é o equivalente a 32º em Faro por vários motivos. Porque o ar é seco e não se movimenta, porque não há brisa marítima que sopre, porque não existe uma praia na qual se possa refugiar. Basta o mercúrio pular ligeiramente acima dos 20º para os polacos se espojarem na relva dos parques como lagartixas que aceitam os tímidos raios de sol primaveril, calorzinho prazeiroso mas insuficiente para animar este algarvio a apanhar esses banhos de claridade que não bronzeiam nem aquecem verdadeiramente, quando muito esticar-me em espreguiçadeiras que alguns restaurantes dispõem para os seus clientes mandriarem em conforto. Foi o que fiz hoje aproveitando um buraco de quatro horas no dia de trabalho.

aqui tinha mencionado um belo lugar que entretanto se tornou num dos meus preferidos, o Cafe Kafka, lugar de paragem obrigatória pelo menos uma vez por semana para aconchegar o estômago com as suas massas e lavar as vistas com a sua freguesia. Graças ao quente abraço do sol, muitas polaquinhas já escolhem arregaçadas saias como toilette e isso proporciona uma agradável paisagem de pernas de leite a cortar o verde do parque Kazimierzowski, alvas ninfetas discretamente espiadas por cima das páginas dum companheiro de digestão. É notável o poder de renascimento que o sol confere à cidade e às pessoas, todas as roupas sombrias e tristes são trocadas por tonalidades garridas e berrantes, as sweat-shirts dão lugar a blazers de linho, as botas de trekking são substituídas por sapatos de pano, os gorilas carecas de lata de cerveja em riste saem de cena para que hipsters viciados em sodas e gadgets ocupem os seus lugares. Entre eles, rindo despreocupadas e descarregando quantidades incalculáveis de sensualidade em cada cruzar de perna estão elas, pueris e inocentes no seu ar tranquilo, venenosas e penetrantes quando tocam no nosso olhar, uma mistura milimetricamente equilibrada de inocência e volúpia que nenhum ser com um pingo de testosterona a correr-lhe no sistema consegue ignorar. As t-shirts de golas redondas e alargadas permitem a visão (ou a previsão) de níveas maravilhas escondidas durante meses, sufocadas pelas rigorosas lãs e fazendas mas que agora pedem ar fresco e liberdade, quase como se quisessem ter o papel de maças na mão de malabaristas, serem atiradas ao ar e recolhidas em permanente balanço e desatino. Os vestidos de linho compõem quadris geometricamente desenhados onde nenhum centímetro está em demasia, caem com a formosura e graciosidade duma leve capa de água colorida e permitem idear imaculadas nádegas cor de algodão que combinam em excelência com os olhos celestes que lhes acentua a brancura da pele e com o áureo cabelo que remata tão bela criatura. Um colírio, um bálsamo, uma sinfonia, uma obra-prima, um prazer imensurável. Retomo a leitura aconselhada por uma amiga com olho de lince nestas coisas dos escritores, precisamente para não me perder (mais) em pensamentos indecentes e inconsequentes, engulo a última garfada de esparguete procurando não chupar o fio para evitar alegorias, volto-me para a fatia de bolo de amoras e natas e eis que noto a visita inesperada dum ladrão penado, um pardalinho que terá aterrado na mesa, saltitado furtivamente para o pires e enquanto eu me esmifrava a cocar as miúdas o mariola banqueteava-se com a minha sobremesa debicando sucessivamente o chantili até ficar com o bico todo branco, uma espécie de palhaço alado engraçadíssimo que atraiu a atenção de duas formosas donzelas que entretanto se sentaram na mesa da minha direita.

- Oh, que pássaro tão giro!

(pássaro em uma gíria polaca para pénis. Eu levo a limonada à boca e respondo com a pouca calma que os nervos permitiam)

- É. Já viu? Não tem vergonha nenhuma.

('sai ao dono', pensei em dizer mas nem o pássaro era meu nem era do meu pássaro que queria falar. Dei mais um golo na limonada para evitar dizer disparates e rezei para que elas não se levantassem e viessem ver o meu pássaro. Quero dizer, o pássaro que estava na minha mesa)

- Os passarinhos são tão divertidos, eu gosto muito de pássaros. - diz uma delas.

(engulo o resto da limonada de um trago, enxoto o pardal para que pudesse finalmente comer o bolo que entretanto já tinha sido ratado pela ave em quase um quarto. Admirável a capacidade que o bicho revelou em comer bolo.)

- Pois é, em chegando a primavera os passarinhos parece que ganham nova vida.

(atiro com quase o bolo todo pela goela abaixo para selar o chorrilho de baboseiras que me saíam da boca, meto o livro debaixo do braço e abalo desengonçadamente dali antes que dissesse algo ainda mais comprometedor.)

- Do widzenia! - despeço-me de forma atrapalhada cuspindo pedaços de amora. Subo a rua Obożna
para voltar ao escritório da Universidade e começo a limpar a transpiração procurando apagar o episódio da mente e tentando focar-me no trabalho que me esperava. No passeio, um corvo esgravata o cadáver fresco duma gralha, tem o bico cheio de penugem. Uma imagem que eu não esperava ver nunca, sempre tive os corvos e as gralhas como primos de inverno varsoviano, parentes iguais no grau de feiura e mau agouro e agora ali estava um a esventrar o outro num acto de tal crueldade que parecia posto lá de propósito por Varsóvia para me avisar que eu não me esquecesse da outra face da Cidade Capital, que dá com uma mão mas que tira com outra.

Eu agora atravesso uma fase mais budista, de maior introspeção e reavaliação de muitas coisas. Este talvez tenha sido este o sinal que precisava receber para sentir que é aqui que eu devo estar... e ficar.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Força Farense, alé!

Farense!

14.000 pessoas (quase 1 em cada 3 habitantes de Faro) juntaram-se no mítico Estádio de São Luís para celebrar o regresso do Sporting Clube Farense aos campeonatos profissionais, um passo mais no caminho árduo que o clube está a percorrer até chegar ao seu local de sempre – a Superliga. Um farense residente em Varsóvia devorou cigarros ouvindo o relato e abriu uma Amarguinha para comemorar a vitória e a ascensão à II Liga.

Se és de Faro, és do Farense!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Do desejado mas inútil sol do mês de abril


Já durante a noite tinha ouvido a chuva a cair, tamborilando no parapeito da janela como o anel de um guarda prisional a bater nas grades da cela em sinal de aviso. Alertado pelas pedras de água que me impediam o sono esperei pelo habitual, pela trovoada, inseparável companheira das chuvadas varsovianas, escudeira fiel dos dilúvios da Cidade Capital. Fiquei de sobreaviso para não saltar da cama à primeira descarga, irritado por antecipação, em estado de pré-fúria por antever uma noite em branco, o culminar ideal para a tarde de merda que tinha tido - podemos escolher tudo na vida, até o momento e estilo da morte, mas não podemos escolher a família. Nada mais natural. Mas o trovão não veio, a chuva percebeu que eu estava demasiado zangado com as minhas coisas para lhe dar importância e abandonou ou seus propósitos, talvez com medo que eu a xingasse, adormeci de novo e não me mexi até amanhecer.

O dia nasceu prometedor, 10° C sempre é melhor do que a invernia que sofremos este ano, um inverno que pareceu perpétuo. Saí para a rua como um coelho de focinho para o ar a cheirar o céu cor de rato para tentar perceber se aquela tonalidade era só mau feitio ou se tinha algum fundamento meteorológico. Fui buscar o carro, tinha-o deixado numa garagem situada por trás dum cemitério nos confins da cidade, três quartos de hora de elétrico e autocarro, vivendas envelhecidas de paredes descascadas com carcaças automóveis ferrugentas no perímetro, muros de reboco caído, passeios decrépitos em que a única marca de vida é o musgo que cresce arrastadamente, um musgo com medo de ser verde, com medo de destoar no meio daquela pobreza plástica e que por isso se tornou também cinzento, um musgo camaleónico que se adaptou à tundra de asfalto e brita de Młociny para não ser corrido a pontapés de ciúmes.

O ruído estranho não era do motor como eu receava mas do compressor do ar condicionado que entregou a alma ao criador, um arranjo mais económico do que eu pensava e que resultou numa surpresa agradável e tão desejada como uma sombra na ilha de Tavira em agosto, recuperei o carro e dei uma volta a ver se encontrava algum lugar onde pudesse fazer a troca de pneus para os de verão mas nada, tive de voltar para o centro da cidade montado numa roda pequena que desestabiliza a condução. Paciência.

Entretanto clareou e a promessa de chuva nâo se cumpriu, as nuvens compreenderam a minha magna irritação e os olhares de ódio que os varsovianos lhes enviaram desde a crosta terrestre e abriram frechas que o sol alargou com prazer entornando raios generosos de luz e calor. Parece que é desta que ele, o sol, mesmo que seja ainda um imberbe sol de abril, veio para ficar. Espero que sim porque conduzir com este pneu suplente é o mesmo que andar com uma perna de pau.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O país das estátuas gigantes

No tempo da Guerra Fria era costume nos países do Pacto de Varsóvia erguerem-se monumentos às grandes personalidades do regime. Figuras de Lenine em Budapeste, enormes estátuas a Ceaucescu em cidades romenas, um portento de mármore em honra a Estaline em Praga. Uma prática comum em ditaduras cujo líder quer ver a sua imagem adorada e perpetuada, recordamos as estátuas de Saddam Hussein derrubadas por vontade dos próprios iraquianos ou as abismais réplicas de Kim il-Sung e Kim Jong-il - fundador da Coreia do Norte e filho / sucessor respetivamente. O culto da imagem do Chefe de Estado, a imagem vigilante, o olho grande sobre a população como que a dizer 'durmam (in)tranquilos porque estou atento'. Essa prática nunca colheu adeptos nos países democráticos e mesmo na Polónia se assistiu a um derrube de estátua aquando do processo de democratização do país, concretamente o monumento a Felix Dzierzhinski que existia na Plac Bankowy e que dava nesse tempo o nome à praça (Plac Dzierżyńskiego). Os tempos mudaram, a Polónia democratizou-se, humanizou-se, civilizou-se até mas manteve alguns dos tiques comunistas em vários setores da sociedade principalmente num que talvez fosse o mais insuspeito de todos neste campo - a Igreja Católica.

É sobejamente famosa a forma como a Igreja manipula a informação e o raciocínio de uma parte significativa da população polaca, tanto que 30% de polacos continua a acreditar que Smoleńsk foi mesmo atentado porque o presidente Lech Kaczyński detestava os russos e por isso o Kremlin queria
limpar-lhe o sarampo. É também conhecida a estapafúrdia estátua de Jesus Cristo erigida sabe-se lá com que fundos nos arredores dum vilarejo de 20.000 almas chamado Świębodzin, um mamarracho de 36 metros de altura que até ficou direcionado... para a Alemanha. Pois a autoridade-sombra volta a ser notícia pela iminente inauguração em Częstochowa duma estátua de 14 metros de João Paulo II, objeto considerado a maior estátua do mundo ao papa polaco, obra polémica na ótica de vários arquitetos devido à escala, aos materiais utilizados (plástico) e ao seu posicionamento que obstrói uma das principais entradas rodoviárias da cidade.

Częstochowa é a capital espiritual da Polónia, cidade gémea de Fátima, e é lar de 235.000 pessoas. Talvez seja o único lugar onde tal construção tem cabimento mas começo a ficar preocupado com as preocupações dos polacos, protestam que os hospitais não têm meios e que as estradas são das piores do continente porém canalizam uma pipa de massa para este tipo de aquisições perfeitamente dispensáveis. Fica uma pergunta no ar para alguém me esclarecer, qual a diferença em conceito entre as estátuas acimas mencionadas e estas recentes levantadas em solo polaco?