segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Lar, distante lar

Jardim das PirâmidesUma semana, cinco temporais e 100 000 calorias depois, aí estou eu às voltas com os sacos para decidir o que levar para Varsóvia e o que deixar em Faro. A roupa de verão vai fazer falta nos meses de Junho e Julho, algumas garrafas de licores portugueses fazem obrigatoriamente parte da bagagem, o critério difícil de definir porque tudo faz falta, tudo é necessário mas poucas coisas são utilizadas. É difícil despegarmo-nos das coisas que têm história e que tanto significam para nós mas o regresso a casa a isso implica.

Regresso… a casa? Mas, Faro não é “casa”? Voltar a casa significa voltar a Varsóvia ou voltar a Faro?

É realmente um sentimento ambíguo, este. Não consigo definir com clareza esse conceito de “casa”. Casa será onde temos a família e os amigos do berço ou onde moramos e pagamos impostos? Casa será onde se respira a nossa herança ancestral ou onde funcionamos no dia-a-dia? Casa é o quê, onde nos sentamos para comer o nosso prato favorito com a família ou onde nos sentamos para comer o prato que nós mesmos preparámos?

Casa, para mim, é um pouco de tudo. É a Ria Formosa, braço de mar que entra pelo sapal adentro, que me inspira o rumo e onde me reencontro a chapinhar em puto. É subir as escadas do metro Świętokrzyska e cumprimentar o PKiN embora ele esteja sempre enevoado e ignore esse pequeno português que teima em lhe dar os bons-dias. É o beijinhoRotunda da velha tia e o sorriso rasgado da mãe somados à formidável panela de feijão com massa ou com o sublime pargo assado no forno. É a karkówka grelhada com legumes congelados que satisfaz o estômago congelado do algarvio que nadou entre -15ºC para chegar a casa. É minis, charros e poker até às 4:30 da manhã com inigualáveis amigos, gente feita duma massa que não existe mais. É o verde-mar dos olhos da Ewa que sorriem felizes quando encaixam nos meus. É a viciante peladinha no Liceu nas noites de segunda-feira onde um gajo cospe a ceia de Natal, os 12 pastéis de nata dos últimos dias (verdade! 12-doze-12 numa semana), o tabaco, o álcool, o plasma e alma a fugir atrás duma bola (ainda faço a diferença, mesmo com 36 anos. Ah pois é, bebé!). É a noite do Klubo, do Opera, do Enklawa, do Organza, do Mono, do Tygmunt.

Casa, para mim, é onde me sinto bem. Quando viajamos nada se compara ao sensação de se regressar a casa porque é sempre bom voltar a Faro como sempre bom é retornar a Varsóvia. Sou um previlegiado ao ter duas casas tão boas onde viver.

1 comentário:

Ricardo Taipa disse...

Bom post! De facto estamos sempre divididos, não há volta a dar.

O contraste das fotografias... faz-me pensar o que realmente estou aqui a fazer mas quando em Portugal sinto falta da Polónia e quando na Polónia sinto falta de Portugal.

C'est la vie!