quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Retalhos da vida de um Algarvio - 10

"O clima de um país não tem preço" - Esta frase é de um grande amigo queixando-se da invernia arrefecida que viveu durante alguns anos nos arredores de Madrid. Sendo farense como eu, o Daniel gania de frio sempre que o calendário passava de Novembro e recordava os Invernos amenos à beira-ria. De facto, apesar da chuva e da humidade que se mete pelos ossos, as temperaturas nunca baixam dos 5ºC enquanto o sol brilha. Não sei se alguma vez soube dar valor a essa particularidade do clima algarvio mas agora sei bem o que vale.

Especialmente depois de S. Pedro me ter proporcionado esta fabulosa despedida num dia de Janeiro:

 20122008

E principalmente após a recepção que o mesmo dignatário me preparou na minha primeira manhã do ano em Varsóvia. -21ºC às 7:00, até estala a pele do couro cabeludo!

 22112008

Os lábios estão constantemente a precisar de serem untados com batom para aliviar o cieiro, as narinas escaldam com o atrito dos lenços de papel a secarem o incessante pingo que já vem misturado com o sangue que sai dos capilares entretanto rebentados devido à cristalização sofrida pelo efeito do frio, as orelhas ficam anestesiadas, os olhos marejam alérgicos ao vento, a respiração é difícil pois a baixa temperatura do ar torna-a custosa, a pele das pernas repudia o tecido gelado das calças e tenta esconder-se em vão da ganga que a arrepia, as luvas não são suficientes para agasalhar as pontas trementes dos dedos amedrontados de frio.

A bonança chega ao entrar em casa e sentir o aquecimento central, a atmosfera acolhedora da casa quentinha, as cómodas pantufas que encaminham os pés gélidos para o sofá aberto, amigo, que recolhe e conforta o corpo algarvio mártir do clima continental. Basta um duche retemperador para vestir de novo o fato morno do sossego e olhar com gozo a neve que teima em abafar o chão da rua. Tem pacência, Varsóvia. Amanhã vais levar comigo outra vez de manhã à noite.

5 comentários:

Ricardo Taipa disse...

Nem sei que diga...

Vamos maé vestir um gorro, luvas de cabedal forradas, ceroulas, :) dois pares de meias e andar depressa nas ruas para aquecer!

PM Misha disse...

Já 2 ou 3 moças me aconselharam que vestisse ceroulas. Mas eu tenho um complexo inexplicável que me impede de sequer imaginar-me com isso vestido.
Ripo um frio do caraças na pele dos túbaros, mas ceroulas é que não meto!
Além disso, diz que este fds a coisa melhora. Será?

r i t a disse...

"O clima de um pais não tem preço", gostei muito da citação! E olha que o teu amigo de certeza sabia o que dizia, porque aqui em Madrid é 8 ou 80, no inverso um frio horrível e no verão um calor insuportável!!

Geraldo Geraldes disse...

Caro Misha, essa tua ortodoxia em relação ao não uso de ceroulas, é admirável pelas contradições. Principalmente porque acima falaste em, e passo a citar: "Os lábios estão constantemente a precisar de serem untados com batom". E a palavra-chave nesta frase é batom.
Portanto, colocar batom nos lábios para não gretarem tudo bem. Agasalhar o nabo e os tomates (que com este frio lá ficam mais proximos de ervilhas) com as ceroulas já causa espécie! O importante é que o grelo depois não se queixe....

PM Misha disse...

pois, realmente é difícil de perceber. o menino põe batom nos beiços por causa do cieiro e fica cheio de comichões ao pensar em ceroulas!
o batom é muito mais apaneleirado que as ceroulas e um gesto muio menos macho, não faz sentido a minha atitude.
mas se nós atentarmos ao facto de eu ter trocado o algarve pela polónia... o que raios fará sentido neste blogue?!?

rita,
aqui já vivi -20 e +30. será como aí?