
Hoje acordei com uma anormal disposição para o trabalho, algo que vai totalmente contra a minha natureza desde que me conhecço como gente. Como de costume, às 6:00 de Varsóvia, (5:00 em Portugal, no Algarve e "na Madeira, menos uma hora nos Açores" como dizem na telefonia) o meu implacável alarme fez o especial favor de começar o meu dia a toque de
Tina Turner. Já o sol era adulto na Polónia e invadia o apartamento tomando cada móvel como seu trono, eu desligo o alarme em definitivo em vez de rebolar mais 10 minutos na cama e pulo directamente em direcção da cozinha para o pequeno-almoço. Entre duas dentadas numa sandes de paté, vou a medo à janela para medir a densidade da habitual neblina que embacia a paisagem matinal e surpreendo-me quando verifico que a visibilidade é superior a 50 metros, passando bem até dos 500 metros. O céu está finalmente em tons de azul, o mercúrio bate nos 12º, hoje já posso sair à rua sem camisola interior e até dá para caprichar no visual usando os Ray-Ban da moda. A Primavera chegou mesmo a Varsóvia.
Com uma agradável
música pop polaca no leitor de mp3, vou saltitante para a estação do metro onde espera-me a inevitável batalha para um lugar de proa no ataque às carruagens. Deixo os
gnus cornearem por uma miséria de segundos e ocupo o meu quadradinho tranquilo pois ainda tenho um eléctrico ou dois para apanhar enquanto o carro não regressa da Silésia. Já há muito tempo que apaguei a palavra
stress do meu dicionário e nem dou hipótese a que seja afectado por situações causadoras dessa "modernice", daí que vou descansadinho entre uma manada de polacos arfantes, um descontraído algarvéu de fones curtindo a paisagem urbana do Leste Europeu causando admiração nos passageiros ultrajados pela incómoda demonstração pública de calma. Na última estação o tempo pareceu estar mais cinzento mas bastou-me atirar um olhar reprovador para o céu que o sol desculpou-se imediatamente, estendendo-me cumprimentos na forma dos seus raios. Desculpas aceites, vamos trabalhar.
Em inglês entendo-me durante a manhã, com empresários e funcionários debato actualidades e projecções futuras. Tento convencê-los que a Polónia vai mesmo conseguir organizar o
Euro 2012, que vai construir a 2ª linha do Metro a tempo do torneio, que vai mesmo modernizar as jurássicas estradas. "Bolas, nós somos Portugal, o país menos desenvolvido dos desenvolvidos e conseguimos sozinhos! Vocês não conseguirão porquê?". Eles respondem: "Porque nós somos muito mesquinhos". Portugal e Polónia, tão distantes e tão parecidos. Terminei a cruzada quixotesca contra o cepticismo desta gente. Se eu também ponho imensas reticências sobre a capacidade dos polacos e (pior!) ucranianos montarem um certame da dimensão dum Euro de bola, porque cargas de diabos hei-de convencê-los que irão ser felizes para sempre? Voltei a casa debaixo dum sol novo e preparei o meu almocinho como mandam os meus cânones.
Estou contente porque está calor e vão brotando florzinhas nos ramos secos das

árvores, quer dizer que daqui por umas semanas terei sebes verdejantes a esconderem os casebres velhos e abandonados que ladeiam o meu caminho para o Metro. É bom ver as garotas com menos trapos e mais atrevimento, o humor muda para melhor e como hoje é terça vou ter o meu grupo de alunos do 4º semestre. Eles arranjam sempre perguntas do arco-da-velha sobre a imagem que o nosso país tem do deles e divertimo-nos alguns minutos a comparar opiniões antes de entrarmos no trabalho a sério. Há pelo menos duas meninas muito imaginativas que tentam sempre entalar-me com perguntas traiçoeiras sobre os defeitos de ser português mas, felizmente, em 20 anos de futebol consegui aprimorar o
golpe de rins e tenho defendido os remates mas traiçoeiros das minhas queridas e lindas alunas. Sereno e confiante, tomo o meu lugar de "lektor" na sala e preparo o sorriso magnânimo para as metralhadoras de olho azul. A Maria pergunta-me:
"Ó Nuno, é verdade que todos os latinos são infiéis?"