terça-feira, 9 de março de 2010

Retalhos da vida de um Algarvio - 12

Poczta Estamos na fase de preparar os formulários de impostos, o IRS polaco, altura de recolher as declarações de rendimentos dos diversos patrões que as pessoas no meu ramo de negócio têm. Juntá-las, compilá-las, aprontá-las, contactar fulano, beltrano e cicrano, papéis que ainda são mandados de e para a Silésia onde eu tive a primeira residência na Polónia. Tive de ir aos Correios e como em Varsóvia funciona a Poczta Główna, a repartição central da Poczta Polska, que está aberta 24h/dia aventurei-me para comparar envelopes A4.

A repartição tem uma área de receção ao cliente bastante grande, contam-se dezenas de guichés à disposição dos utentes, divididos em 6 secções cujas especialidades desconheço na totalidade. É interessante ver que os Correios vendem um pouco de tudo neste país desde detergentes, chocolates, pensos higiénicos, brinquedos entre produtosSala principal postais. Tirei a senha e aguardei a minha vez, desviando-me de um sem-abrigo fedorento (coitado) que preenchia um boletim do Lotek, o totoloto polaco. Muitas senhoras de idade esperavam que fossem atendidas entre protestos pela demora, protestos infundados porque o ritmo de aviamento até era rápido. Gosto muito de observar os modos das pessoas, as suas variações de fisionomias quando as coisas correm bem ou correm mal, as diferenças de reacção entre os polacos e o Zé Português, tão igualmente coléricos ou bonacheirões como gémeos apesar de terem um continente a separá-los. Entrou uma morena alta de olhos cinzentos, blusão de penas branco que realça o carmim das unhas, ela pegou no telefone e eu peguei-lhe no olhar porque é inevitável mesmo depois de quase mil dias em contacto com esta realidade, o magnetismo daquele olhar é narcótico, viciador, deixamo-nos ir e assim ficamos suspensos sem conseguir (nem querer) reagir até que a campainha faz avançar mais um número.

Regressei à sala dos descontentes, baratas que zanzavam para cá e para lá, impacientes com o pouco avanço das senhas até que chegou a minha vez. Recordei o discurso, procurei a declinação adequada e ao chegar ao balcão encontrei uma menina de rosto pequeno e tímido, longos cabelos louros e olhos de azul como um oceano profundo de embaraço ao receber-me com um sorriso envergonhado. Perguntei-lhe se podia comprar apenas três dos tais envelopes A4 e recebi resposta afirmativa acompanhada dum rubor que denunciava o acanhamento. Recebi, paguei e sorrindo agradeci para a Anna que me retribuiu também com um sorriso cada vez mais envergonhado naquele rosto pequeno e de olhos expressivos, quase que pedindo desculpa pelo seu comportamento.

Saí contente. Bendita seja esta terra onde ser português ainda é uma mais-valia, nem que seja neste domínio.

6 comentários:

Ricardo Taipa disse...

Amen! Como diz um algarvio que conheco; aqui na Polónia estamos muito expostos a radiacoes...

Paulo Soska Oliveira disse...

Ó chefe,
segundo a lei, qualquer entidade que te tenha que fornecer um PIT-11 é obrigada a fazê-lo até ao fim de Fevereiro.

E depois, www.szybkipit.pl e mandas essa porra online...

PM Misha disse...

e fizeram-no, como manda a lei. mandaram os papéis para a minha antiga residência, daí a papelada entre varsóvia e a silésia.

quanto ao szxhgzhxrzk.pl, isso funciona para quem está zameldowado. não é o caso do blogger.

Paulo Soska Oliveira disse...

então como é que recebes os PIT-11 ?

PM Misha disse...

há quem mos entregue em mão, aqueles com quem eu tenho relações mais próximas, há quem mos mande para tychy, aqueles com quem colaboro esporadicamente.

daí a papelada entre varsóvia e a silésia.

PM Misha disse...

ok, já percebi a tua confusão. estive temporariamente zameldowado em tychy, residência dos pais da minha ex-namorada, quando me mudei para a polónia.
entretanto essa zameldowania expirou e pronto.

kapujesz?