O regresso ao mercado de solteiros fez-me olhar de novo para a noite de Varsóvia, ou se calhar foi Varsóvia que voltou a olhar para mim com aqueles olhos gulosos que começam a abrir logo na quinta-feira para só fecharem na manhã de domingo. Sinto de forma cada vez mais intensa os apelos das ruas do centro da cidade, os bares da Mazowiecka e da Nowogrodzka, os Pawilony e as casas de vodca da Nowy Świat, lugares ideais para a vida airada mas perigosos para quem se quer manter são. A cidade telefona, manda mensagens, mete-se comigo no facebook, pergunta e convida, é um jogo constante de gato e rato ao qual tenho sabido resisitir em nome do futebol.
Ontem experimentei a sorte e fui dar um giro com um companheiro português também outro recém-regressado ao clube da malta soltinha, ver como está a Cidade Capital, cumprimentá-la de noite que já há muito não acontecia, olhar para o que se passa na Chmielna e na Foksal, ruas importantes na movida varsoviana. Ele combinou um blind date, uma daquelas coisas que há nos filmes americanos, eu servi de par na lusitana dupla atacante daquela noite e
entrámos em campo dispostos a assinar uma boa exibição. Começámos de forma ligeira porque entradas de leão resultam em saídas de sendeiro, o meu comparsa cautelosamente a matar saudades do Jack Daniels, eu mantive-me fiel à minha convicção abstémia e chupei um smoothie de morango e Red Bull, mojitos para as meninas. A língua desemperrou e passaram-se três horas de conversas e gargalhadas, mais uma rodada, já passava da meia-noite e as miúdas propuseram mudança de lugar e de bebida porque era hora de coisas mais sérias e a vodca tinha de escorrer. Joguei a carta do carro, estou a conduzir e não posso beber, para evitar a conversa do costume - ah, não bebes porque já estás velho - porque o problema da vodca é o mesmo do medronho quando é bom, a primeira é um veneno, a segunda é água e as seguintes sabem a mel. Servi uma cytrynówka aos meus companheiros de noite, anunciei a minha retirada devido ao facto de me ter levantado cedíssimo (o que até nem era mentira), despedi-me e meti-me no carro a caminho de casa já antevendo um consolado sono. Durante a viagem o telefone brilha e desvia-me do curso e do plano, uma proposta daquelas que não se consegue recusar, o sono podia esperar pelo menos mais umas horas.
Gotas de chuva num parapeito alheio despertaram-me para a manhã adulta de sábado, o ansiado regresso a casa fez-se sob precipitação indecisa, uma chuva que não sabia se ficava ou se ia embora de vez. Era o meu estado de espírito, tão bem que me soube o aperitivo que pensava em repetir a dose na noite seguinte apesar de saber que era melhor aguentar os cavalos e abrigar o corpinho porque domingo há jogo. No carro tocava um cd dos Delfins, o Miguel Ângelo dizia que 'quando alguém nasce, nasce selvagem'. Sorri e perguntei aos meus botões: Será que também morre selvagem?
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