quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Kaczyński é o Deus e Rydzyk o seu Profeta

Cronologia dos factos:

  1. Em Abril deste ano um acidente aéreo em circunstâncias mais ou menos esclarecidas vitima o casal presidencial polaco e um considerável número de individualidades políticas, diplomáticas, militares e sociais na localidade russa de Smoleńsk;
  2. A enorme onda de choque e consternação que varre o país tem o seu apogeu com a decisão de sepultar Lech Kaczyński na catedral de Wawel em Cracóvia, um local que até então estava reservado a ser última morada de heróis nacionais. Paradoxalmente Kaczyński não tinha esse estatuto nem tampouco gozava de grande popularidade no país;
  3. As teorias sobre as causas do acidente começam a surgir acusando quase todos os protagonistas da vida da Polónia: Os russos, o partido liberal no Poder (PO), os judeus, os vietnamitas que vendem calças a 10 cêntimos, toda a gente que não siga as diretrizes do Ayatollah… digo, Padre Rydzyk ou que não tenha votado PiS é potencial suspeito de ter causado o acidente;
  4. Para homenagear as vítimas do acidente é erguida uma coroa de madeira em frente ao Palácio Presidencial cinco dias depois do acidente, uma iniciativa de grupos de escoteiros. A cruz tornou-se local de peregrinação onde os populares podiam depositar flores e velas para homenagear os mortos;
  5. Mais de 100 dias depois do acidente e dos funerais das vítimas, Governo e Presidente da República entendem que a cruz deve abandonar a frente do Palácio Presidencial e ser transferida para um local mais propício à sua função. O Povão reage contra a decisão inflamado pelos altifalantes da Radio Maryja e armados de crucifixos, bandeiras e cartazes amotina-se, desafia a Autoridade Policial que se vê obrigada a desmobilizar a multidão com gás lacrimogéneo. Outra cruz é erguida no lugar da antiga em jeito de provocação;
  6. A própria Igreja Católica está dividida entre muitos sacerdotes que consideram que a cruz deve permanecer em frente ao Palácio e outros que acreditam ser melhor transferi-la para um templo para não se criar um símbolo do falecido Kaczyński.

HipocrisiaMesmo sendo ateu e tendo uma visão muito própria, talvez suspeita, deste assunto vejo poucas diferenças entre estas atitudes e as dos fundamentalistas islâmicos que proíbem todas as formas de expressão contrárias à sua fé. Na Polónia, tudo o que seja oposto ao que rezam os cânones católicos é imediatamente classificado – e aqui cito o ex-primeiro-ministro e irmão gémeo do falecido presidente, Jarosław Kaczyński – de “verdadeiras intenções de acabar com a tradição e a história polaca” cujo melhor exemplo é o que o Governo e o Presidente PO têm vindo a mostrar.

Visto por fora, e tendo em conta que a pessoa protagonista era mais detestada do que amada no seu próprio país, é uma grande vergonha um país que aprendi a amar se tornar na anedota da Europa…

1 comentário:

Ricardo Taipa disse...

O Ayatolla ou o Taliban católico.

O poder desse homem e das antenas da Radio Maryja, TRWAM, Nasz Dziennik e a faculdade de jornalismo não tem igual em nenhum outro país da Europa nem sequer na Itália (sim eu sei que o Vaticano é um Estado), Espanha e Portugal - países de grande tradição católica que tiveram inclusivamente inquisição.