domingo, 6 de junho de 2010

Na Polónia sê Polaco - 10

Nesta última sexta organizei uma festa de aniversário-surpresa para a minha comadre, tive de puxar o lustro ao polaco para convidar os amigos dela que só falam neste idioma encriptado mas consegui reunir à mesma mesa a interessante cifra de uma dúzia de polacos mais outros tantos portugueses para celebrar a efeméride. Publicidade propositada, o jantar foi nas novas instalações do Portucale (abraço ao Chefe Costa que continua a ser o maior!) que são muito agradáveis e que dispõe agora duma facilidade que antes não tinham: Uma esplanada que me fez salivar só de pensar nos jogos do Mundial que começa JÁ DAQUI A  UMA SEMANA!!!

Um jantar de aniversário perfeitamente normal e dentro dos padrões portugueses de celebrações do tipo, mesa decorada a rigor, pratos de nomes exóticos para uns mas o trivial para os outros, o bom serviço a que um português está habituado quando se senta à mesa no seu país. Alguns dos convidados polacos admiraram-se com tanta sofisticação e começaram a pensar que toda aquela pompa e o trabalho que tive em contactar as pessoas e organizar a logística só podia ser sinal de que eu iria pedi-la em casamento e começaram a conjeturar tudo e mais alguma coisa. Enquanto os tugas derretiam garrafas de tinto e esmigalhavam o excelente Naco na Pedra (bacalhau no forno aqui para o ja), os convidados eslavos picavam coisas poucas devido ao adiantado da hora –21:30 é demasiado tarde para eles “jantarem” e escrevo “jantarem” entre aspas porque chá e torradas não é o meu conceito de jantar – e porque estavam ansiosos pelo grande momento. Um ou outro pediram um peixinho ou salada de polvo mas nada que se comparasse às grandes pratadas de calorias que os selvagens portugueses devoravam entre gargalhadas de boca cheia de onde voavam brócolos e feijão frade como resultado de mais uma anedota porca. Engraçado foi também ver os comportamentos pós-jantar com os polacos… melhor, as polacas saindo para fumar o seu cigarrinho depois de mascarem meia dúzia de batatinhas e os lusitanos heroicamente agrafados à cadeira bocechando os pedaços de carne dos dentes com Dão e perguntando pelas sobremesas enquanto jogavam um olho manhoso às ancas louras que passavam por eles.

Eu só soube desta situação no dia seguinte depois de termos ido para a boîte do costume. Achei curiosa a reação dos amigos da Ewa que, vendo mesa decorada a rigor e um número significativo de convidados, logo supuseram que era o momento da aliança e da revelação. Nenhum português pensou nisso muito menos o autor destas linhas, regista-se mais um caso curioso de diferenças culturais ou a falta de hábito que os polacos têm de confraternizar com amigos em torno de uma mesa de um bom restaurante. Comer fora, para nós, é uma coisa ritual. Comer fora, para eles, pode significar casório. Tenho de pensar melhor na próxima vez que quiser jantar fora com os amigos da minha Maria :)

6 comentários:

Carlos disse...

Então Sov! Quando é o casamento?! :)

PM Misha disse...

Da Poups? q:)

A promessa que eu fiz à família foi, ainda este ano se formos campeões do mundo!

Carlos disse...

lol
Há vezes em que me lembro nas aulas do que escreves e do que dizes sobre as tuas experiências aí. É interessante as diferenças que detectas.
Por acaso tenho de estudar a Escola de Chicago que aborda a emigração polaca. Já fizeste uma diferenciação entre uma Polónia rural e urbana que me parece ainda corresponder a uns estudos já realizados (mas ainda não vi bem).
Tem-me faltado tempo.

Ricardo Taipa disse...

<> ehehe

Também não é o meu! Uma ocasião comprei no Biedronka, a meio da semana, uma garrafa de tinto nacional (um Porta da Ravessa) e acabei por ouvir o comentário - da minha sogra - que não entendia qual a ocasião para festejar!

Não lhes cabe na cabeça que um apreciador de vinho pode apenas querer saborear um bom tinto acompanhado, por exemplo, de um queijo mais picante ou que o vinho se pode saborear sem ser para ficar bêbado.
Tive de lhe dizer que, ao contrário da maioria dos polacos, pode-se beber álcool sem ser para ficar ébrio e adormecer de boca escancarada num sofá ou na relva de um parque público.

Boa descrição dos hábitos de mesa neste teu artigo. Ir ao restaurante, para alguns polacos, ainda é uma espécie de cerimónia com direito a "marinarka" e sapatos bicudos estilo Aladino! lol

PM Misha disse...

gravata,
no que puder ajudar, dispõe.

ricardo,
parece que quando eles bebem álcool é com a exclusiva intenção de apanharem uma carraspana não tendo o hábito de apreciar um vinho ou beber SÓ uma imperial com as pessoas. no teu tasco escreveste uma coisa interessante, que eles "precisam" de beber para diluírem a barreira social que têm por serem tão reservados e que nós não temos essa necessidade de nos alcoolizarmos devido à nossa natureza mais descontraída. de facto, um português não precisa de se enfrascar para estar à vontade com os amigos mas os polacos só se relaxam com baldes de vodca à frente e despejados a galope.

Geraldo Geraldes disse...

Ainda bem que elas se ficaram por saladinha de polvo. No dia em que veja polacas a devorar feijão frade, o país perdeu o encanto.
Ps: Fizeste essa promessa porque é o Queiroz que está à frente daquilo.....