segunda-feira, 13 de junho de 2011

A Cosa Nostra. Sim, a verdadeira Mafia polaca

Kielbasa morto Como já anteriormente escrevi, nos anos 90 vigoravam na Polónia dois grupos adversários de crime organizado ambos sedeados em localidades nas imediações de Varsóvia: Pruszków e Wołomin. Ambas as organizações dedicavam-se a atividades como extorsão de dinheiro em troca de proteção ao negócio, contrabando de bebidas alcoólicas, falsificação de moeda, tráfico de droga, produção de anfetaminas sendo que o gangue de Pruszków ainda somava sequestros e assassinatos por encomenda no seu menu de ofertas. Eram grupos bastante violentos que foram responsáveis por um número considerável de homicídios na década de 90 inclusivé a morte do General Marek Papała, um chefe de polícia de Varsóvia cujo assassinato permanece como o mais grave crime por resolver na Polónia devido à complexidade do processo e aos nomes envolvidos suspeitando-se que altas patentes do Governo se tivessem relacionado com o submundo do crime e com antigos membros da polícia secreta do regime comunista.

As mafias de Pruszków e Wołomin eram, no entanto, muito queridas entre alguns setores da sociedade civil e os vizinhos gostavam muito de terem mafiosos no seu bairro porque tal era garantia de segurança e de qualidade de vida. Um amigo meu que mora em Pruszków contou-me que conheceu um deles e que o sujeito era bastante simpático e prestável, ajudando qualquer vizinho que tivesse uma solicitação. Supõe-se que “mexia os seus cordelinhos” e que no fim do dia ou da semana o pedido do vizinho, fosse ou não legal, estava atendido. Viver perto de um membro de gangue significava que não havia assaltos, a propriedade privada era respeitada e as pessoas podiam circular tranquilas na rua porque estas eram pesadamente vigiadas pelos seguranças do grupo. Apesar de todo o aparato de vigilância o referido mafioso conhecido do meu amigo acabou por ser morto por um rival em fevereiro de 1996 com 35 anos.

Muitos destes criminosos emergiram com a transição da Polónia para um regime democrático com a abertura de casas de câmbio ou casinos ilegais, outros já tinham ganho algum dinheiro com ocupações ilícitas na Alemanha como roubos de automóveis e falsificação de documentos e regressaram ao país aquando da mudança de regime aproveitando as facilidades que a jovem e frágil democracia polaca dava aosCarro de mafioso morto oportunistas. Instalaram-se uns e outros com negócios legais onde faziam a sua lavagem de dinheiro, abriram restaurantes e galerias de arte, stands de automóveis de luxo, editoras de música. Um dos cabecilhas do gangue de Pruszków é indicado como o maior precursor e promotor do género disco-polo e era proprietário duma superdiscoteca na costa do Báltico considerada à data um dois maiores pontos de diversão de todo o país. De pequenos negócios de fachada rapidamente passaram para os crimes às claras, o tráfico de cocaína e heroína, a produção de anfetaminas – a maior fábrica de anfetaminas da Europa era propriedade dum membro do grupo de Wołomin até a Polícia a ter liquidado em 1995. Pessoas eram coagidas, tributos eram colhidos, os tentáculos das duas organizações sufocavam a Polónia e ninguém conseguia abrir um estaminé no país sem que pagasse o dízimo a um dos clãs senão mesmo aos dois.

Entretanto a rivalidade aguçou-se porque começou a não haver mercado suficiente para os dois grupos, as primeiras fricções surgiram e rapidamente eclodiram problemas graves entre Pruszków e Wołomin, cidades separadas geograficamente por 40km com Varsóvia no meio. A escalada de violência agravou-se e começaram os atentados a membros de uns e outros, alguns falhados mas muitos concretizados como o responsável pela fábrica de anfetaminas acima mencionada que foi executado em 1998 com uma rajada de metralhadora à porta duma pastelaria em Praga Sul ou o chefe do bando de Pruszków que foi assassinado em 1999 em Zakopane por um elemento de Wołomin quando regressava ao hotel depois de uma tarde de esqui. Neste ponto já a polícia polaca tinha as suas investigações num ponto avançado e enquanto muitos mafiosos se matavam entre eles, célebres tiroteios em restaurantes varsovianos à boa maneira dos gangues americanos nos anos 20, as autoridades também foram prendendo outros que sobravam contando também com o depoimento de alguns arrependidos que ajudaram a desmantelar as quadrilhas.

Hoje as mafias de Pruszków e Wołomin estão adormecidas, não totalmente aniquiladas pois pelo menos em Pruszków ainda se vêem automóveis de alta cilindrada de vidros completamente negros a circularem nas ruas e há um certo culto e admiração por parte dos mais jovens, divididos entre a falta de oportunidades de trabalho e consequente desemprego e a monotonia de dias iguais entregues ao álcool e à vadiagem. Em Varsóvia são leves os traços desses tempos, um dos meus amigalhaços é representante duma conhecida cadeia de lojas de bijuteria e acessórios para senhoras e recusou energicamente a pálida abordagem que lhe foi feita quando quis abrir um espaço no centro da capital, não sendo mais incomodado desde esse ponto. A vigilância policial é apertada e dos tempos do crime organizado à moda polaca já só sobram as estórias. No entanto não deixei de apanhar um enorme susto quando apanhei esta imagem no elétrico perto da Rotunda q:)

Mafiosos italianos

2 comentários:

Custom disse...

Excelente artigo Nuno. De facto já li algumas coisas sobre máfias de leste mas não conhecia nada sobre a Polónia.

Vai-te preparando porque o Mundial da Peitada estar quase aí!
Abraço

Ricardo Taipa disse...

Muito interessante. Já tinha ouvido falar num desses gangues mas desconhecia a história.

Em Łódź também estavam bem presentes e fizeram rebentar pequenos engenhos explosivos. Um deles foi num dos restaurantes Sphinx.