sábado, 13 de novembro de 2010

Azia

Azia Diz-se na minha terra e não sem razão que “um homem doente é pior do que uma mulher grávida” frisando o total estado de vulnerabilidade em que um homem mergulha quando algo lhe abala a saúde. Este homem que vos escreve caiu anteontem à cama fustigado por uma colossal azia sem razão aparente, não houve copofonia na noite anterior nem excessos gastronómicos, provavelmente um bichinho que pairava no ar e que resolver contaminar o sistema. A indisposição gástrica nem causou vómitos mas gerou logo ondas de pânico e pavor, dores insuportáveis e loas à morte que se avizinhava, a reação típica dum homem doente, logo incapaz. Entra em campo a mulher, a curandeira que tem como missão recuperar o macho moribundo através dos seus conhecimentos seculares, mezinhas da bisavó, tirar as dores lancinantes que ela nem calcula, o sofrimento, a atrocidade que ela não sabe nem sonha.

No meu tempo, a minha mãe cozinhava caldos insonsos de arroz e frango cozido separadamente e alimentava-me com essa mistela até que o equilíbrio gastro-intestinal fosse reposto contribuindo desse modo para repulsa que ainda hoje sinto por canja. A associação é inevitável. se estou doente como canja, canja é a comida da doença, só como canja quando estou doente, não quero canja porque é sinal de que estou doente. Como na Polónia a canja é uma sopa comum e que até é prato principal em muitos almoços familiares de domingo preparei-me para o Rosoł que a Ewa ia preparar e avisei-a que…

- Não quero canja, isso dá-me ânsias e disso já tenho de sobra.

- Mas eu posso fazer-te uma canjinha ou outra sopinha assim.

- Não, obrigado. Eu não quero sopa.

- Então come groselhas negras, a minha mãe come-as sempre quando está mal do estômago com um copinho de vodca e…

Aqui tive de interromper.

- Escuta bem o que o Nuno te diz. O Nuno não tem organismo eslavo como vocês, o Nuno não come groselhas negras porque não há disso na terra dele, o Nuno trata os problemas de estômago com Coca-Cola e domperidona (trazida de Faro) como manda a lei. Obrigado pela preocupação mas eu tenho os meus próprios remédios (e puxei dos galões). Afinal, em 15 anos de farmácia devo ter aprendido qualquer coisinha.

E a conversa ficou-se por aqui porque ela viu que eu começava a ficar impertinente e não há nada pior que aturar um homem doente et pour cause rabugento. Pegou nela e foi visitar os pais, eu estendi-me a custo no sofá onde passei a tarde a assistir a reposições aborrecidas do House, Ossos e Family Guy. Dormitei entre gemidos, cercado pelos estúpidos pensamentos que me assaltam sempre que estou nestes fados: “Nunca mais como batatas fritas de pacote, canja não, canja não!” Três horas depois regressa ela com tachos atafulhados de comida.

- Olha, a minha mãe ficou preocupada contigo e mandou estes escalopes panados, couve-flor cozida e um franguinho assado no forno. Não sei se gostas mas pronto, espero que te faça bem.

Só consegui mordiscar um escalope perto da meia-noite, quando me senti com forças e apetite suficientes para abrir a porta do frigorífico. Os escalopes estavam uma delícia, a couve-flor dispensei-a à herbívora cá de casa e no dia seguinte estava em grande forma.

Moral da história: A integração da cultura adotiva naquela que trazemos do berço dá bons resultados, a prova está que eu nunca curei problemas de estômago com panados… mas resulta! q:)

PS – Acresce o facto da mãe da minha da namorada gostar de mim. Isso sempre sucedeu, as mães delas sempre gostaram mais de mim do que as suas filhas. Ainda estou para perceber porquê.

1 comentário:

NeL disse...

lolololol é sempre assim..um gajo quando anda mesmo mal é mesmo pior que as mulheres gravidas...essa é eterna! lolol panados é que é! =)