quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eles não sabem porque o fazem

Ainda que não seja a natureza deste blogue, por vezes fazem-se incursões em campos mais profundos e académicos que resultam em análises sociológicas. Vamos à estória introdutória.

Há uma semana ia sendo envolvido numa zaragata a propósito do meu automóvel ter sido rebocado, refira-se que justamente, e por um polaco ter passado à minha frente na fila para apresentar os documentos e resgatar o carro. Estava com o John e a Ewa e quando me apercebi que o indivíduo ia aproveitar a falta de jeito da minha namorada para reivindicar a posição para antecipar-se pulei da cadeira e disse que estávamos primeiro logo secundado pelo meu brother John. Entre a apatia do segurança e o “caguei para vocês” do polaco este entrou mesmo no gabinete apesar dos nossos protestos, o que me levou a irromper esquadra adentro e reclamar que fosse atendido perante atónitos polícias polacos. A ação não teve o fim pretendido porque um dos agentes da autoridade convidou-me a sair com o argumento de que “esse não era um assunto da conta dele e que não devia ser resolvido naquele gabinete”. O polaco olhava para mim com cara triunfante e eu, azul de raiva, ainda fui a caminho dele e dando-lhe duas palmadas nas costas avisei-o de que “nós já conversamos lá fora”. Saí para esperar a minha vez e sentei-me na sala de espera notando o espanto das pessoas que também aguardavam serem atendidas e reparei que a Ewa estava muito nervosa, obviamente porque não havia previsto a minha reação, a típica reação dum latino quando se sente injustiçado. O John acalmou-me dizendo que seria melhor não fazermos fitas e eu concordei também para que a rapariga parasse de gaguejar. O engraçado foi a seguir quando o dito cujo polaco sai da gaiola e olha a medo para nós, eu já caminhando de um lado para o outro para não o ter de encarar, o John abre o dicionário de palavrões em inglês e levanta-se a caminho dele. Prenunciei uma cena de porrada à antiga porque o meu amigo estava muito irado, o segurança paralisado de surpresa, as pessoas que esperavam a sua vez chocadas e de boca aberta e o polaco teve de sair em passo apressado antes que fosse lamber asfalto. Vá lá que o meu colega disse que era melhor não fazermos estrilho… Passou.

No dia seguinte, estou na fila do supermercado para pagar as compras quando entra um homem no mesmo corredor em sentido contrário. A senhora da caixa avisa que é proibido entrar por ali mas ele abana a cabeça, murmura qualquer coisa e segue caminho ante o espanto dos presentes. Tive prestes a ir atrás dele, pegar-lhe pelo cachaço e pô-lo na rua mas, se o segurança que é pago para isso não o fez, eu também não me ia armar em defensor da moral e bons costumes, deixei-o seguir a rir-me da estupidez dele.

Hoje, em conversa com a Marta, tirei uma conclusão. Os polacos são naturalmente transgressores, é uma herança dos tempos de ocupação que viveram desde quase sempre. A Polónia esteve sempre envolvida em conflitos e ficou sem autonomia ou independência durante muito tempo, foi ocupada, partilhada, apagada do mapa, disposta a bel-prazer da Alemanha, Áustria, União Soviética entre outras potências invasoras. As leis que os polacos eram obrigados a cumprir não tinham sido redigidas por iguais mas sim pelo inimigo, ora leis nazis, ora socialistas, ora fosse de quem fosse. Neste contexto, prevaricar era um ato de heroísmo, transgredir um sinal de insurreição e infringir era um gesto de irreverência contra o regime. Impunha-se violar a lei, perverter, desvirtuar o que tinha sido infligido pelos maus da fita como prova de que o espírito e a alma da “Águia Branca” não se vergaria às sevícias. Desobedecer era uma ação de orgulho, uma causa e essa atitude foi transportada para os dias de hoje.

Explica muitas coisas mas não as tornam aceitáveis aos meus olhos, não fiquem surpreendidos se um dos próximos artigos versar sobre a minha primeira briga na Polónia. Ainda por cima agora que já se sente o inverno às portas de Varsóvia.

4 comentários:

John Cunha disse...

Depois de 7 anos aqui ja tenho uma mao cheia de historias sobre a falta de respeito por filas e o conceito de quem chegou primeiro e servido primeiro.

Ja nao e nada de novo...

Mas tenho um exemplo que ate eu fiquei de boca aberta...

Estou a tirar o BREVET aqui na Polonia e ha umas semanas atraz fiz um pequeno voo para um aerodromo a 20km para o norte de Varsovia.

Ao aproximar-me ao aerodromo pedi autorizacao(a torre de controlo) para aterar. Foi me condedido autorizacao com a especificacao 'Number one for landing' que indica que o aviao a aterar a seguir era o meu.

Isto tem um significado muito importante em termos de seguranca porque para mim indica que a pista esta livre e que posso me focar na aterragem e indica aos outros avioes que ha uma aeronave a aproximar-se a pista.

Quase no final da minha aproximacao (a ums 150m do chao) vejo pelo cantinho do meu olho uma aeronave (a minha direita) a aproximar-se a pista de aterragem. O mesmo vira bruscamente e mete-se a minha frente para aterrar na mesma pisita.
Ele fez isto e aterrou sem pedir nem receber autorizacao da torre de controlo.
Eu tive de abortar a aterragem e fazer outro circuito antes de uma nova tentativa a aterrar.

O meu instructor, furioso, pegou no radio e dirigiu-se ao pilot da outra aeronave : "Nao e permitido a ultrapassagem no circuito nem aterrar sem autorizacao!"

O outro piloto so respondeu "A pista e longa, aterre atraz de mim!"

Geraldo Geraldes disse...

Bem, a história do John bate todas as que ouvi sobre o desrespeito pelas filas na Polónia. Nem no ar a malta ganha tino.
Só queria acrescentar que em todo o caso é estranho que estando o polaco normal positivamente nas tintas para respeitar qualquer fila (p.ex. ver polacos entrar num avião num qualquer aeroporto inglês é sempre um espectáculo pelo salve-se-quem-puder), na maioria das situações eles são muito rígidos e querem fazer sempre as coisas by-the-book.
Mas esta cena das filas, é um dos primeiros grandes choques culturais que um tuga tem quando chega à Polónia. E nós nem podemos dizer que somos dos mais respeitadores...

Ricardo Taipa disse...

Nem digo muito mais porque a minha vontade por vezes é mesmo andar à porrada com um deles. Na Polónia ou é 8 ou 80. Gente fina e com quem queremos manter amizade ou labregos que só a murro.

PM Misha disse...

são uns coninhas para dar lugar Às senhoras, para lhes abrir a porta mas para parar nas passadeiras e respeitar filas tá quieto!
mas um dia passo-me com eles, já faltou mais.