quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma gaivota piava, piava…

Gaivota varsoviana Há temos afirmei que para Varsóvia ser perfeita, uma das coisas que falta é o mar. Varsóvia não tem mar, tem rio e essa já é uma característica que eu considero importante pois não há uma grande cidade que não tenha rio. Paris, Lisboa, Berlim, Londres, Roma, Viena, mesmo Faro que tem uma ria em vez de um rio, até o Porto são exemplos de cidades com um carisma e um encanto suplementar que só um rio pode conferir. Varsóvia tem o Vístula, o maior curso de água do país cuja bacia hidrográfica ocupa dois terços da Polónia, rio que divide a cidade em duas metades. Metades desiguais, é certo, mas esse tema já foi tratado em artigos anteriores e não é disso que quero escrever.

A saudade, aquele sentimento que de vez em quando mina os alicerces de qualquer português arreigado na estranja, às vezes bate com força. Saudades do cheiro da maré vazante, de ouvir a arrebentação à noite, do pôr do sol atrás das palmeiras da doca, de pisar a areia ardente de julho, de postas de corvina cozida. Saudades dessas coisas simples que nos fazem sentir menos longe e mais tranquilos, porque nem sempre é fácil viver todos os dias afastado da nossa terra, mesmo que a outra terra chamemos ‘casa’.

Estava na cozinha a preparar o pequeno-almoço e a juntar a papelada necessária para o trabalho quando me entra pela janela um som conhecido, como a buzina de um carro de amigos ou uma música que não ouvia há muitas luas. Levantei instintivamente a cabeça e virei uma orelha para a janela da cozinha, depois para a porta da varanda e fui seguindo aquele som, uma espécie de pio de ave que soava familiar mas que não encaixava muito naquela paisagem de prédios e ruas dum bairro a norte de Varsóvia. Estiquei o pescoço para fora da varanda e vi uma gaivota empoleirada num poste de iluminação pública. Ia entornando o café com leite, que cargas de cacetes faz uma gaivota em Varsóvia?

Apesar dos trezentos e tal quilómetros que separam a capital polaca do mar, existe uma espécie de gaivotas de rio que por vezes são avistadas nas margens pantanosas do Vístula e do Narew. Sendo o distrito de Białołeka na margem nascente do Vístula e o bairro de Tarchomin, onde se localiza o domicílio deste vosso amigo, precisamente voltado para o rio, não é de estranhar que apareçam gaivotas em terra sem que tal seja necessariamente sinal de tempestade no mar – ou no rio. Pelo vistos até não é situação inédita, as gaivotas aventurarem-se pela cidade à procura de comida, mas eu ainda não tinha notado o fenómeno.

Fiquei muito satisfeito por ter uma gaivota a piar perto da janela, aprendi que há outros pássaros em Varsóvia sem serem os medonhos corvos e as repulsivas gralhas, deu-me a impressão de estar de novo na terra onde nasci e logrou mitigar um bocadinho a saudade. Ultimamente tenho andado algo nostálgico e quando isso acontece… mala sorte. Ainda bem que a gaivota apareceu, carregou-me a bateria e já fui para o trabalho mais bem-dispostozinho.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Dona Polónia e os Seus Vizinhos, vol. 3 - Ucrânia

Chegando o inverno e logo a minha mãe escreve-me mensagens desesperadas, inflamadas pelas notícias de vagas de frio polar que assolam a Europa Central, a Polónia, pessoas que morrem de frio nas ruas e em casa, cortes de energia que deixam habitantes deste inóspito país sem eletricidade para os aquecedores, como estás meu filho, a mãe está tão preocupada, ai, tu agasalha-te bem e não te constipes. Ralações duma mãe que cresceu a nadar entre atuns na tépida costa algarvia e não concebe a ideia de pôr o tacho da sopa na varanda para que ela congele e se mantenha capaz de se comer mais tarde. Enquanto não a trouxer ao T2 de Tarchomin ela não descansa.

É no conforto do T2 de Tarchomin, janela com vista norte para a rua Myśliborska e assurpreendentemente (para a estação) verdes matas da Światowida ao fundo, que leio as inquietantes notícias que vêm da vizinha Kiev, quase a 800 km de Varsóvia mas de grande proximidade afetiva com a Polónia. Notícias sobre um povo saturado da tirania e crueldade dos seus governantes, um povo oprimido e reprimido durante gerações, um povo castigado por conflitos e guerras desde a 'polonização' do tempo da República das Duas Nações do séc. XVII até à mais recente U.R.S.S. passando por situações inimagináveis como a grande fome do Holodomor e o desastre nuclear de Chernobyl. Um povo, enfim, com muitas similaridades com o Polaco, similaridades essas que inspiram um olhar terno mas receoso por parte dos seus vizinhos a Ocidente.

Tal como a Bielorrússia, a Ucrânia é vista pelos polacos com uma simpatia talvez derivada do passado penoso dos ucranianos, sabendo nós que o polaco perde-se por uma boa história de martírio e sofrimento. A proximidade, não sendo exatamente recíproca porque do lado ucraniano não existe tanta afeção pela Polónia - provavelmente devido a feridas abertas pela limpeza étnica e pelo genocídio que tiveram lugar a meio do século passado, feridas que a Polónia tratou com os benefícios ganhos com a viragem a Ocidente, com o progresso conquistado pela conversão à economia de mercado e à integração na UE mas que a Ucrânia continua a lamber, talvez ciumenta por não ter os 'entretenimentos' que os vizinhos polacos -, tem dado frutos interessantes como foi a organização conjunta do Campeonato da Europa de Futebol em 2012. Mesmo assim, e como testemunhei neste mesmo blogue, sentiram-se imensas diferenças entre a organização polaca, muito mais agilizada, e a ucraniana, permanentemente afogada em burocracias. Há uma ligação histórica entre as duas nações que não é completamente pacífica mas que foi atenuada na última década do séc. XX após a independência da Ucrânia e a tomada de posição do recém-empossado presidente ucraniano Leonid Kravtchuk (recusa em integrar a CEI, afastamento militar e económico de Moscovo) e durante o mandato de Viktor Yushchenko (aproximação à UE e NATO). Contudo, os acontecimentos recentes na Praça da Independência kievita vieram exaltar os sentimentos anti-Kremlin da Polónia e os apelos à resistência e punição dos reponsáveis políticos ucranianos são agora uma constante em Varsóvia. A Polónia exalta o direito à liberdade dos ucranianos, mobiliza a opinião pública mundial contra a violação dos Direitos Humanos perpetrada pela Administração, sensibiliza os agentes internacionais para a gravidade da situação. É a alma eslava que se junta em prol duma causa comum, o cordão umbilical que une polacos e ucranianos que, apesar de afetado pelos danos causados em anos antigos, não só não foi destruído como tem-se fortalecido.

Também eu lanço uma palavra de ânimo aos manifestantes ucranianos que lutam por liberdade e democracia, mesmo que estejam à beira duma guerra civil. No mundo já não há lugar para déspotas e quem ordena isto contra a sua própria carne e sangue não merece mais do que justiça popular.
 
свобода для України!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Perspetiva


Por intermédio de uma amiga conheci o Paweł, um rapaz de idade próxima dos dezasseis anos oriundo de perto de Olsztyn, a terra dos lagos, no nordeste da Polónia. Deu-me a ideia dum rapaz abatido, confortado com a vida que tem, sem grandes planos para o futuro nem aparente vontade em fazê-los mesmo que, como qualquer um de nós, desconhecesse se tem mais um ano de vida pela frente, mais dez, mais trinta ou mais sessenta. O Paweł tem um sorriso largo mas que não me pareceu franco, foi educado quando nos cumprimentou (a mim e à minha amiga) porém com ar de quem assim foi ensinado, a cumprimentar e a falar bem às pessoas mesmo se não tivesse vontade nem interesse. O pai do Paweł veio receber-nos muito contente por termos vindo, explicou muitas coisas sobre a família e a sua história, abria os braços para frisar a ideia e dar detalhe à narrativa. O Paweł não parecia impressionado com a lenga-lenga, até tinha aspeto de estar incomodado com aquilo tudo, com tanto pormenor, como se a sua privacidade estivesse a ser devassada pelo pai que contava a vida toda a estranhos, virava a cabeça ou sorria educadamente para não nos mandar à fava. Brilhavam-lhe os olhos quando falava de automóveis, de mecânica, do sonho de ter uma garagem própria e arranjar motores e suspensões. O pai reparava no desconforto do filho mas continuava a historiar, hesitava nos momentos mais difíceis, escolhia bem as palavras apesar de ser uma pessoa de formação académica modesta, escapava-se-lhe um impropério quando mencionava aspetos que ele considerava mais revoltantes mas rapidamente emendava a mão, pedia desculpa meio envergonhado e retomava o raciocínio procurando episódios mais alegres para aliviar o ambiente.

O Paweł é um doente oncológico, tem uma perna amputada, um cancro que já está localizado nos pulmões e tem metásteses em cada centímetro cúbico do corpo, está por semanas ou meses. Este rapaz de dezasseis anos nunca mais jogará futebol com os amigos da Mazúria, nunca limpará as mãos em desperdício depois de reparar um amortecedor, nunca sentirá aquele mel quente que nos invade quando se faz amor com uma mulher pela primeira vez, nunca terá uma moca daquelas marafadas depois dum charro, não lhe será dada a oportunidade de fazer merda e aprender com os erros, não lhe foi dado o famigerado 'livre arbítrio' que os católicos tanto gostam de mencionar como razão para os atos irracionais do Homem. Nada. Ao Paweł não lhe foi dado nada, foi-lhe arrancada uma perna, o cabelo, as ilusões, os sonhos, a inocência. O Paweł tem uma agulha de soro espetada no abdómen e uma espada cravada no coração, sabe que está a morrer mais depressa que os outros meninos da idade dele mas nem tem consciência que nunca mais voltará à sua casa, nunca mais brincará no seu quarto, nunca mais dormirá na sua cama.

Discutem-se penáltis e foras de jogo, lamenta-se que o Philip Seymour Hoffman tenha morrido tão novinho, coitado, fazem-se contas ao orçamento para pagar os luxos que são a internet, o telemóvel, o seguro do carro, umas calças de ganga novas, um blusão para a neve, lamenta-se chorosamente que ele é insensível e não lhe dá atenção ou que ela é a rainha do drama e incapaz de pensar com lógica. Enquanto isso o Paweł definha.

Nunca o cliché 'pôr as coisas em perspetiva' foi tão bem aplicado como quando conheci o Paweł, um rapaz que provavelmente não verá as flores frescas da primavera deste ano, não gozará a sombra duma árvore este verão, não terá mais nenhum Natal.

Precisamos todos de ganhar tino. A vida são dois dias e hoje já conta.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Postais da Polónia - 19

Parece mentira, e ainda bem para a saúde do blogue, que ainda há coisas e imagens que me surpreendem ao fim de mais de seis anos de Polónia. Abancado com a Patrycja no Starbucks da Plac Bankowy (Praça do Banco, nome herdado do extinto Banco da Polónia cuja sede foi lá erguida no século XVIII), canecas de café aromatizado com leite entre as palmas das mãos, sorvíamos a nossa mistura enquanto comentávamos trivialidades em português, olhávamos para a rua pela janela e víamos as pessoas caminhando em passo rápido tentando fintar o frio. Nesse exercício de observação sociológica parei os meus olhos num objeto que não tinha visto nem reparado até então, uma espécie de fogareiro metálico colocado no passeio e cercado por baias.

A Patrycja assumiu o papel de cicerone de História Polaca e contou-me que tal fogareiro tornou-se comum no país durante o inverno de 1981, ano em que foi imposta a Lei Marcial na Polónia. O koksownik começou a ser instalado nas paragens de autocarro e elétrico nos meses mais frios do ano para aquecer os passageiros que esperavam transporte, hábito que ainda se mantém em Varsóvia não obstante as ditas estruturas se terem modernizado e tornado a espera mais confortável, bem como em locais onde se costumam concentrar sem-abrigo. Feito de ferro e usando um carvão especial denominado coque, tornou-se um objeto evocativo desses tempos cinzentos de repressão, funcionava então como um oásis de calor no meio de tanto gelo, um abrigo, quase como um teto onde as pessoas se podiam juntar e consolar. Ver aquele cesto de ferro atulhado em carvão numa das mais nobres zonas de Varsóvia causou o efeito contrário, uma gota de fealdade num largo tão bonito, uma sombra do passado que insiste em ficar presente, um testemunho do sofrimento que constitui o esqueleto da história recente da Polónia.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A neve, essa filha duma magana

Passou o Natal, época na qual geralmente já se fizeram sentir rijos frios, e também a passagem de ano. Passou até o Dia de Reis e as parvas das gralhas continuavam à procura de bichinhos para comer, pulando alegremente por cima das folhas arrancadas das árvores pelos ventos de outono. Passaram 20 e tal dias desde o solstício que assinala a entrada no longo túnel negro do inverno e nem uma folipa de amostra, simpáticos raios de sol incidiam diariamente sobre a Cidade Capital transmitindo toda a força da sua energia, contagiando o cidadão com o seu vigor, conferindo-lhe vitalidade, dando vida. Foi belo e parecia querer prolongar-se para lá dos limites que a cronologia impõe.

Mas tudo o que é bom tem fim e resulta que, mesmo atrasada e indesejada, a neve acabou por aparecer e polvilhar Varsóvia com finíssimos filetes de água gelada que prejudicam o andamento de pessoas e veículos. Quase dez minutos gastos hoje de manhã só para a retirar da capota, do pára-brisas, dos retrovisores e faróis, das janelas e do capô. Hoje vai ser o meu primeiro treino de futebol debaixo de neve, as merdas a que um gajo já com idade para ter juízo se submete em nome duma paixão. Luvas, colãs, protetores de pescoço e gorro, vou parecer um jogador da seleção das Ilhas Faroé mas essa não há-de ser a figura mais triste que fiz (e farei) na vida.

A neve. Sentia tantas saudades dela como tenho saudades de ter papeira.


domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio. Nosso.

11 de janeiro de 1994. O Sporting Clube de Portugal organizou um jogo de futebol entre a sua equipa principal e um combinado de jogadores de diversas nacionalidades para ajudar Sergei Cherbakov, jovem futebolista leonino que tinha ficado paraplégico na sequência de um acidente de viação. Esse combinado de jogadores designado ‘Resto do Mundo’ era composto por elementos da nata do futebol mundial na altura e que eram amigos de Cherba, caso de Igor Shalimov, figura de proa do Inter Milão. O desafio foi presenciado por mais de 20.000 espetadores e terminou com a vitória por 2-1 para o Sporting, a maior ovação do público não foi para o homenageado Cherbakov nem para os marcadores dos golos leoninos Nélson e Porfírio. Foi para o capitão da equipa do Resto do Mundo aquando da sua substituição ainda no decorrer da primeira parte. Quem era? Eusébio.

Como jovem adepto sportinguista e assistindo ao jogo pela televisão, ver Eusébio sair do solene relvado do Estádio de Alvalade debaixo de uma chuva de aplausos e posteriormente ouvi-lo dizer que tinha tido todo o prazer em vir a Alvalade ‘dar um abraço de solidariedade ao Cherba’ calou-me fundo. O maior símbolo do rival, a figura do clube cuja filosofia define o meu conceito de ódio não teve problemas em, aos 52 anos, calçar de novo as chuteiras para se associar a uma iniciativa de cariz sportinguista. Percebi então que Eusébio era um benfiquista diferente, um benfiquista acima das querelas clubísticas, um benfiquista global. Passou a merecer a minha admiração e respeito.

Não sou da era em que Portugal só era falado no estrangeiro por Amália e Eusébio mas não posso ignorar o tremendo contributo que o cidadão Eusébio da Silva Ferreira deu para o reconhecimento do meu país. Muita gente sabe o que é Portugal graças a Eusébio e isso coloca-o ao lado dos maiores portugueses da história como a mencionada Amália, Saramago ou Vasco da Gama.

Eusébio tornou maior a minha Pátria. Fez mais pelo bom nome de Portugal que todos os políticos, todos os empresários, todos os governantes do século XX e XXI juntos. Sempre sem reivindicar protagonismo, sempre cultivando amizades, sempre com um amor extremo pela sua terra. E por isso eu, insignificante sportinguista, curvo-me ante o seu gigantesco nome. Que descanse em paz, Pantera Negra.

O King

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Peúgos

Diz o povo professor que ‘a necessidade aguça o engenho’. Não sei se por uma questão de necessidade, parece-me ainda não ser o caso, se por brio, uma das coisas que aprendei a fazer no distante ano 2000 (Beto Acosta, Beto Acosta, és o nosso matador. Matadooooor! Matadooooor!) quando me mudei para a minha casa atingindo o sonho de morar sozinho foi cerzir peúgos. Esse engenho adveio do enorme prazer que eu sempre tive em andar descalço ou de peúgos em casa, coisa severamente verberada pela minha mãe enquanto estive aninhado sob a telha dela, provavelmente porque ignorava tal prazer por, sendo mulher e senhora, não lhe ficar bem patinhar as assoalhadas de joanete ao léu. Ela justificava a sua reprovação com um argumento plausível, ‘não me andes descalço que ficas com os peúgos todos encardidos’ mas só até certo ponto porque quando eu andava de pé descalço eram só os pés que ficavam encardidos, ou no dizer farense da minha mãe ‘cheios de garro’, e esse era um problema que só a mim dizia respeito. Não obstante ser dela o esforço de passar lixívia pelas célebres meias das raquetes até que o sujo saísse, não era ela quem me vinha esfregar os artelhos para remover a nhaca que ali se colasse em virtude de tardes de bola na Escola do Carmo ao calor abafado do Algarve, nem era essa uma parte da minha anatomia que eu exibisse despudoradamente para que as vizinhas soubessem que o filho da Lili era um porcalhão e mais porca era ela que tinha um filho assim tão labregozinho. Eram incoerências em que os adultos de vez em quando incorriam no seu processo de educação de filhos, eu aceitava a regra idiota na medida em que isso não me fazia pobre nem doente mas sempre tive para mim que no dia em que eu tivesse a minha própria casa andaria nela descalço até me descolar a pele da planta do pé, ganhar panarícios ou criar esporões.

Chegou a era tão ansiada da emancipação doméstica e a minha emigração para Santo António do Alto originou novas regras, andar descalço até de inverno, muitas vezes descalço até ao pescoço gozando o chão de corticite dos meus quartos sem que ninguém me apontasse dedos ou ralhasse comigo. Percebi então que esse prazer tinha um preço, buracos que apareciam em posições estratégicas dos peúgos: Calcanhares, o dedão, a trivela. Os meus peúgos preferidos viam-se progressivamente desgastados, coçados, transformados em coleções de fibras têxteis avulsas sem trambelho nenhum. Rapidamente conheci o fundo da gaveta das meias, sinal de que o número de indivíduos residentes naquele habitat estava a baixar drasticamente, problema aborrecido porque nunca fui homem de ganhar o suficiente para comprar a quantidade e ter a variedade de peúgos com que sempre sonhei. Fiquei a saber que tinha de os restaurar, para isso muni-me de linha e agulha e fiz-me à vida porque um homem enrascado é pior que uma mulher grávida. Desde então, mal ou bem tenho cosido muitos pares de meias e dado vidas extra a muitos peúgos que em condições diferentes tinham facilmente ido parar ao caixote do lixo.

Quando vim para a Polónia trouxe o meu estojo de costura, não fosse o diabo tecê-las e eu não saber como se diz dedal nesta Babilónia. Entretanto as agulhas perderam-se por artes mágicas, não sem que antes eu tivesse aprendido como se cosem meias, o que me animou a procurar os ditos instrumentos de costura para poder dar conta da roupa dos calcantes. No cartucho das agulha que comprei na semana passada saiu-me este aparelho do lado esquerdo, para que raios serve?

Agulhas

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Este blogue já teve melhores dias

Pois é. Às vezes olho para o ícone do Live Writer e penso: “Eh pá, há tanto que eu não escrevo nada… Tenho de escrever qualquer coisa.”

E é logo aí que mirra a vontade de escrever. É que este blogue não é sobre ‘qualquer coisa’, é sobre coisas que importam a mim, a quem lê e a quem ouviu falar. É um blogue sobre as minhas impressões sobre a Polónia e a comparação que faço com o meu estilo de vida cá e o que tinha enquanto vivia em Faro, as coisas que fazia e já não faço confrontadas com as coisas que faço e não fazia. O problema é que as imagens do meu Faro estão cada vez mais embaciadas pelo passar do tempo, já são mais de seis anos em Varsóvia, e o contraste da minha vivência polaca já não é tão agudo como antigamente pois vou absorvendo os usos das pessoas de cá e muitos fatores de diversidade vão tornando-se comuns, corriqueiros e até começam a ser parte integrante do dia-a-dia do indivíduo. Não que me esteja a tornar polaco, mas a assimilação dos hábitos e das rotinas levam a que ache cada vez menos estranhas as coisas que há cinco ou seis anos me faziam abrir a boca de espanto e que me davam tremeliques nas pontas dos dedos que não passavam até que me sentasse ao computador para as contar. Por isso tenho tido cada vez menos tema para escrever.

Vou falar do quê, do Natal na Polónia? Já foi falado e refalado, entre o que eu escrevi e o que outros blogueiros portugueses emigrados neste país escreveram pouco há a adiantar ao tópico. O frio? Também já debitei aqui peçonha bastante sobre o inverno e as minhas opiniões, não há mais nada que eu possa acrescentar ao estafado “chiça, que tá um frio dos túbaros!” O Sporting? Oh!, aí apetece-me escrever toda uma epopeia, que o leão rampante devia ser substituído por uma Fénix verde, que se Bruno de Carvalho criasse uma seita conseguiria facilmente um milhão de matrículas logo no primeiro mês mas também seria assunto batido. Talvez falar das polacas, que toda a gente louva e endeusa mas esta é uma casa de gente séria e não quero criar atritos porque tenho ideias bem definidas sobre a mulher portuguesa e ainda me arriscava a boicotes e sabotagens .

Resta-me esperar que soprem ventos de estro, ventos que me tragam as vozes de Calíope e Polímnia, que me transportem para um estado de inspiração célica e que me dêem o poder de comunicar como há muito não consigo. O compromisso que tenho com o leitor a isso obriga.

Entretanto, festas felizes e que venha 2014. Se não fosse pela notícia de que o Justin Bieber ia deixar de cantar 2013 teria sido um belo ano de caca.