quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Plac Zbawiciela

Plac ZbawicielaBrunch de fim de manhã de terça-feira na Plac Zbawiciela, uma das minhas praças preferidas da cidade. Admirável sol de outubro, um rebuçado para os desconfiados varsovianos que já se enfiaram em blusões e sobretudos escuros como o dó, um desperdício de claridade empregue a iluminar tão cinzenta gente. Eu e a minha companhia dispomo-nos na esplanada do Charlotte de nariz para cima de modo a não falharmos nenhum raio de sol, ela com um típico chazinho, eu com um cesto de fatias de pão e dois potes, um de doce de amora e outro de chocolate de leite. Ela beberrica a sua água quente e eu lambuzo-me de doce enquanto trocamos impressões sobre a vida, as pessoas e trivialidades quejandas. Desfrutamos do calor, dos bem-acolhidos vinte e dois graus centígrados que se fazem sentir no centro de Varsóvia, ela ri-se divertida e aconchegada com o sol, eu enrugo a testa penitenciando-me por me ter esquecido dos óculos escuros em casa mas evitando proferir qualquer tipo de impropério, bem pelo contrário, dando graças ao excelente dia de que estávamos a gozar por ter bem presente na memória o tenebroso 15 de outubro de 2009 no qual caiu uma senhora nevasca por volta do meio-dia que me deixou a mim e ao meu compadre Mário enregelados desde a unha do dedo pequeno do pé até à ponta do mais hirto cabelo, caso que não se verifica na pessoa do meu dileto compadre visto a sua cabeça já ter sido minada de irreversível calvície. Por isso me mantenho franzido mas satisfeito pelo vigor do astro-rei, pela pujança com que os seus braços cercam a Cidade Capital. Um mimo, um prazer, um regalo. Nem o ruído das infinitas obras de modernização da cidade me apoquentam, com este sol nesta praça tudo me passa ao lado.

Nas mesas ao lado vários casais jovens e jovens sem estarem acasalados, raparigas de smartphone em punho, rapazes de ar hipster batucam absortos nos seus portáteis, pessoas mais velhas que tomam o seu chá, idosos que passeiam ou que vão às compras. Numa dessas mesas senta-se uma senhoraO cãozinho de idade, curvada pelo tempo mas de gesto nobre e bem vestida com a écharpe em plano de evidência. Chama o empregado de mesa e pede um chá – para não destoar – e um croissant de amêndoa, um deleite que encaixa perfeitamente no glorioso dia que se vive, dia de gozos e delícias. Ao lado da mesa desta elegante senhora está uma outra dez ou quinze anos mais nova à qual se junta um homem que se faz acompanhar de um cão, com certeza um passeio inesperado para o canídeo mas muito bem aproveitado para exercitar as pernas e os pulmões. Senta-se o homem mai-lo cão, o humano à conversa com a companheira e o quadrúpede a fitar o lanche da chique senhora que, por sua vez, não tardou a dar atenção que o simpático animal requeria, atenção essa consubstanciada nos flocos de massa doce que a dita senhora começa a distribuir ao bicho, grandes pedaços que são absorvidos com gula até à saturação. O saldo terá sido de um terço do croissant para o cão, o que justificou o rápido recolher do animal entre as pernas da cadeira onde se sentava o dono, provavelmente agoniado com tanto açúcar, apesar da insistência da senhora para que comesse mais bolo.

O Céu da Plac Zbawiciela Barro mais uma fatia de pão com chocolate e enfio-a na boca, mastigo delambido para prolongar a festa dos sentidos que o sol e o chocolate despertaram no organismo, descanso os cotovelos na mesa e dou uma volta à praça com o olhar. O céu rebenta de azul, parece que os prédios nadam numa gigantesca piscina invertida por cima de Varsóvia e o sol estende-se pelas vielas mais estreitas de Śródmieście Południowe A Matylda continua a sorver o chá escondida atrás duns Ray-Ban vermelhos. Que bom que seria se o outono durasse assim até ao Natal.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O raio do outono

2013-10-09 15.10.13 As pessoas falam muito do inverno polaco e das suas condições extremas. Frio extremo, escuridão extrema, baixa extrema da pressão atmosférica, todo um ror de defeitos que fazem do inverno uma coisa temível apesar de inevitável. O inverno polaco incomoda-me bastante, não tanto pelo frio porque este só se sente quando estamos fora de portas uma vez que quando estou em casa podem estar -15ºC na rua que eu ando alegremente descalço, de boxers e t-shirt. É a neve que suja os sapatos e a entrada de casa, é o frio que me agrafa ao sofá aos fins de semana fazendo-me perder borgas épicas da noite varsoviana, é a moleza que se mete no corpo e que nos faz definhar de fome em frente ao televisor por preguiça de sair à rua para fazer compras. Mas apesar do inverno ser ruim e severo não me irrita tanto como o outono.

Essa sim, é a pior estação do ano e não me deem o discurso do ‘verão dourado polaco’ porque isso é tudo conversa de chacha. Não há nada de agradável numa estação nas quais os dias começam a ser dramaticamente mais curtos, a temperatura desce a olhos vistos – o que se torna um problema sério durante os treinos noturnos de futebol – o carro começa a ficar com uma camadinha de gelo no pára-brisas que nos consome minutos a raspar, não posso deixar as janelas abertas para arejar a casa sob risco de entrar numa arca frigorífica quando regresso a casa, faz vento, cai chuva, há uma leitosa névoa matinal (e noturna, ainda ontem no treino eu não conseguia ver a baliza oposta) que nos faz sentir ramelosos, um mar de folhas em cima do carro para sacudir todas as manhãs… Não encontro uma só virtude no outono e esta é uma estação que podia muito bem ser eliminada do calendário para evitar a rabugice que se apodera de mim. Ainda por cima a hora está quase a mudar para agravar mais a situação.

Os polacos têm sentimentos mistos em relação ao outono, conseguem encontrar-lhe algum encanto nas tonalidades das folhas caducas, no vento fresco Nevoeiro em Varsóviaque vem das florestas, na apanha de cogumelos ainda antes do sol nascer, na satisfação com que se aprestam a renovar o guarda-roupa de inverno. Parece-me até que gostam mais do outono do que do verão porque eles reclamam do calor quando o estio aperta, que é um inferno, insuportável, uma punição que só os sarracenos sulistas conseguem gramar. Eu não acho virtude nenhuma no outono, pronto. Vai entrar a época dos agasalhos com todas as coisas más que tal acarreta, até as cores das roupas quentes são mais deprimentes, azuis escuros, cinzentos, castanhos pesados, verdes secos, é medonho. Está hora de pegar na agenda telefónica e atualizar os contactos para se arranjar aconchego durante as noites arrefecidas de outubro e novembro, felizmente que a SportTv está a bombar em pleno e o livro da Bimby tem quase 200 receitas para me entreter.

domingo, 6 de outubro de 2013

No meio da tempestade, uma bonança

Bruno de Carvalho - El PresidenteNo corrente período de indefinição não tenho tido muitas razões para andar motivado ou esperançado, os planos estão todos em stand-by por causa da instabilidade que se vive nos meus interesses em Portugal e também devido à mudança de paradigma que tive de adotar como resultado de alterações fraturantes no plano da vida sentimental sofridas num passado recente. Tudo se afigura nublado para mim, o meu horizonte temporal estende-se a uma semana porque não consigo enxergar mais longe do que isso. Penso que todos passamos ou pelo mesmo, um período em que se põe tudo em causa e se desconfia da própria sombra, precisamos de frequentar outros lugares e ver outras pessoas para preservar a imagem, não a desgastar e não a impor. É um período desse que atravesso, de total clausura ou de fera libertinagem consoante os estímulos que me chegam sem nunca, porém, roçar as maluqueiras ou quadros de bipolarismo. Mecanismo racional de defesa ou reação endógena, sei que no geral não me tem apetecido grandes galhofas por falta de causas aceitáveis. No meio desta tempestade de sentimentos surge uma fonte de alegria justamente dum quadrante há muito enegrecido e ressequido: O Sporting.

Não há muito tempo o mundo via o pior Sporting de sempre, bisonho e triste, um saco roto de vergonhas e a levar vexames em todos os estádios portugueses e europeus. Assistia-se ao extenuar dum extraordinário clube de futebol devido à criminosa e demente política gestora dos seus dirigentes, gente duma total inaptidão para a responsabilidade de que foram incumbidos e que atiraram o Sporting para a chacota e risada do povo, mesmo entre os bufões que já celebravam vitórias garantidas e que terminaram de mãos vazias tal como os seus rivais de avenida. O Sporting entristecia, envergonhava, adoecia, perdia e perdia e perdia até o mais fiel adepto esmorecer e abandonar a fé. Não se via melhoras nem jeitos disso acontecer, o cenário era péssimo e aventava-se a possibilidade de terminar de vez, acabar e começar de novo. Eu próprio defendi uma solução tipo Fiorentina, refundar o clube e recomeçar a história de passivo e contas limpas, suportando a gozação de disputar divisões mais baixas e de defrontar adversários mais modestos mas com a cabeça novamente levantada e sem poluição a atrapalhar o olhar. Até que surgiu Bruno de Carvalho.

Eu não acredito em Messias nem no sebastianismo, ainda estou cético em relação à presidência de Bruno porque já levei muita porradnha de gente que prometeu fundos e mundos para no fim levar com uma correia de desilusões no lombo e agora só acredito nos ‘prognósticos só no fim do jogo’ e não embarco em euforias prematuras. Mas há uma coisa que eu não posso negar, é que finalmente voltei a ter prazer a ver jogar o Sporting. Agora eu acordo em dia de jogo já a pensar na bola, já planeio o dia em função do horário da transmissão, já elimino compromissos que possam cair ao mesmo tempo que o Sporting joga – epá, não posso. Dá o Sporting –, já vou ao supermercado fazer as compras necessárias para ver o desafio, já voltei a pôr o cachecol por cima do televisor, já me sinto inquieto na análise às estatísticas e antevisão do jogo, já deixo o telefone ligado para comentar as peripécias da partida no WhatsApp com os meus amigos sofredores leoninos, já acabo os 90 minutos de sorriso no rosto em vez de lavado em suor sofrido e dececionado. Tenho perfeita consciência que este estado não vai durar para sempre nem é admissível que assim seja, não vamos passar da pior temporada da história para a melhor de sempre, mas há coisas que são inegáveis e que dão supremo prazer aos adeptos leoninos.

  • A equipa joga bem, equilibrada e com lógica nos processos, tem critério e sentido no que faz; Fredy Montero
  • Fredy Montero é um achado. Faz golos de coisa nenhuma, sendo uma meia-leca de gente (1,75m) superioriza-se no jogo aéreo a defensores mais espadaúdos e resiste ao choque;
  • Os jogadores são lutadores e solidários, ninguém se esconde, todos assumem as suas responsabilidades sem protagonismos nem azias;
  • Rui Patrício, Cédric, William Carvalho, André Martins, Adrien, Wilson Eduardo, futebolistas made in Sporting, são regularmente titulares. Mais de metade da equipa titular do Sporting foi formada na Academia o que faz os adeptos gostarem ainda mais deles, incentiva o apoio e o carinho à equipa Ainda Dier, está sempre à espreita duma oportunidade, Mané já se estreou e há ainda João Mário, Betinho e Esgaio se for caso disso.
  • O presidente está no banco e prova que está com a equipa, com os técnicos, com os adeptos. Ao eliminar os ‘croquetes’ criou empatia e ao unificar as claques no mítico topo sul tornou-se líder incontestado;
  • A malta vai à bola, assistências sempre acima de 30.000 espetadores comprovam que os sportinguistas acreditam no Sporting. Isto porque o Sporting voltou para os sportinguistas, voltou a ser o nosso grande amor.

O Sporting não vai ser campeão este ano, se calhar nem no próximo, mas é o grande vencedor da edição 2013-2014 da Liga Zon-Sagres. Qual fénix leonina, renasceu dos seus próprios escombros e de um gato magro e piolhoso fez-se novamente leão lustroso e de apetite feroz, uma equipa capaz de criar centelhas de orgulho e alegria nos olhos dos seus adeptos. Regressou ao seu lugar de destaque no futebol nacional seguindo políticas de acordo com os seus ideais, políticas de justeza, seriedade, retidão e verdade. É isto que valorizo no meu clube, esta postura ímpar que procuro imitar na minha vida e no meu dia-a-dia.  Esta é a grande vitória do meu Sporting, a de reconquistar fés perdidas de velhos leões desenganados (a pontos do pai do Artur, verde empedernido mas amargurado até ao azedume, largar sem esforço uma cédula de 10 para ir ver o Sporting encavar os fis d’olhéu) e de chamar novos adeptos à causa, como a minha sobrinha de 18 anos que ama o Sporting como o tio – quem é que tem moral para ser sportinguista com essa idade? Este é o exemplo que pretendo seguir e pôr em prática na minha pessoa. Lamber as feridas, olhar ao espelho, eriçar a juba e rugir de novo porque tal como para o meu Sporting, também para mim amanhã o sol nasce de novo.

Saudações leoninas, com orgulho restaurado e uma moral do camano para ir trabalhar amanhã!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Suestada

O Levante mete os velhos doentes e os novos malucos

Luís António Fernandes

Ria Formosa Nascente com a lua A revista francesa Météo vaticinou o verão mais frio dos últimos 200 anos anunciando até com 70% de certeza a inexistência de calor em julho e agosto. A publicação falou numa queda de um a três graus na temperatura média no território da Península Ibérica, em precipitação intensa, nebulosidade e surgimento do calor estival apenas em setembro e outubro, tudo culpa do inverno tardio e da pouca atividade solar.

Não sei como correu o verão no resto da Península Ibérica, não sei como foi no resto do território português nem sei como foi no resto do Algarve pois, como é sabido, raramente saio do meu spot da Praia de Faro. Sei como correu o verão mais frio dos últimos 200 anos no concelho de Faro e devo comunicar ao amigo leitor que passei um agosto como não passava há vários anos, com noites quentes que convidaram a patuscadas bem regadas de cerveja e caipirinhas levadas pela noite dentro e que muitas vezes acabavam dentro do Atlântico a assistir à aurora por trás da Ilha do Farol.

Entrando na última semana do verão seria de esperar que os dias de praia se tornassem ventosos e os fins de tarde mais frescos, que esse vento rodasse a ondulação do mar para sudoeste trazendo assim asPraia de Faro águas frias de fora. Os dias ficariam mais curtos e também mais nublados, as mangas passariam a ser compridas em vez de curtas, a pele perderia progressivamente o tom chocolate em favor numa cor mais de baunilha, até colocaram a capital algarvia sob um assustador alerta amarelo, significado de relâmpagos e trovôes com chuvas diluvianas como acompanhamento, um conjunto de fatores favoráveis ao aparecimento de neuras e quebras de moral… mas não.

Ria Formosa Poente A malta daqui da praia já se ri com o que é escrito sobre a meteorologia, dos aguaceiros prometidos, das ameaças de tempestades medonhas. O Mestre Dida mete-se quase todos os dias no seu saveirinho e vai passear pela Ria, os miúdos da escola de surf continuam a aprender a arte de cavalgar ondas de manga curta, os caloiros da UAlg vêm receber as praxes no areal, eu continuo a tomar belos banhos matinais de mar e rebolo-me com rir ao ver as previsões dos indígenas que prognosticam mais suestada, ou seja, água do mar na casa dos 22º / 24º C e o belo do levante que vai fazer subir o mercúrio para gáudio dos nativos algarvios que assim podem desfrutar dos encantos do sol sem a ‘Turma da Via Verde’ a zurzir. Mesmo agora foi dito que este vai ser o fim de semana mais quente do ano no Algarve, precisamente o fim de semana quando se inicia o outono.

Pois é, amigos. É engraçado ver que há quem pague para estar onde nós vivemos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O futebolista

O 'mishanapolonia' conseguiu chegar à fala com o mais recente reforço do Inter Warszawa, Nuno Bernardes. À conversa com o blogue, Nuno comentou o seu surpreendente regresso aos relvados e contou-nos como tem sido a sua adaptação a um novo futebol.

mishanapolonia - Nuno, um regresso ao futebol quase a atingir 40 anos. A pergunta impõe-se: Porquê?
Nuno - Porque quem praticou futebol oficialmente como eu pratiquei durante quase 20 anos fica sempre com o bichinho. Deixei de jogar pouco antes de vir para a Polónia mas nunca resisti a uma bola que saltasse na rua e não descansei enquanto não encontrei um grupo de peladinhas de fim-de-semana para matar a vontade, daí até pensar em voltar a jogar federado foi um saltinho.

m - Mas aos 39 anos não é vulgar ver-se regressos ao futebol, é mais uma idade adequada para a reforma e um estilo de vida mais pacífico.
N - Talvez seja, mas eu sempre andei contra-corrente (risos). O facto é que me apercebi que ainda estou em condições físicas aceitáveis e nos jogos com os amigos nunca corria menos que os meus colegas (bem) mais novos, era mais competitivo que os outros, aguentava sempre a pedalada e sentia-me confortável em campo. Por isso decidi experimentar de novo o futebol de 11, por uma questão de gozo. Para saber se aguento uma época de treinos e jogos e para poder um dia contar aos netos que o avô jogou no estrangeiro.

m - E como tem corrido esse regresso?
N - Muito bem. Encontrei colegas com muito entusiasmo pelo futebol e que me acolheram bem apesar de eu ser o mais velho de todos, oito anos mais velho do que o seguinte. Não tem havido problema.

m - Mesmo com a linguagem?
N - A linguagem do futebol é universal e rapidamente se aprendem os básicos. Czas, do niego, szanuj, jestem, masz são coisas que se aprendem depressa. Também não é preciso ser um licenciado em filologia para comunicar dentro de campo.

m - O futebol polaco é muito diferente do futebol português?
N - Completamente. A única coisa em comum é a bola, o resto é outra história. Na Polónia encara-se a baliza como o lugar onde a bola deve estar, entãoInter - Drukarz estica-se rapidamente a bola na frente e todos os jogadores correm que nem doidos para a baliza do adversário. É aí que a coisa fica complicada para mim porque já não tenho pernas nem caixa para ir atrás deles nem para encarar sozinho a transição. Às vezes aparecem-me dois e três na ressaca e tenho de mandar um pela proa para evitar males maiores.

m - Então o que faz para se adaptar a esse futebol?
N - Tento impor o meu, bola no chão, progressão com os colegas, passes simples mas pela certa, dou atrás para ir buscar na frente, quase sempre tento o um-dois. Não fui criado na escola britânica, não sei jogar em chutão nem sou queniano para correr como louco, jogo como sei e tento explicar aos meus colegas que a bola não se cansa e por isso é a bola que tem de correr.

m - E eles compreendem-no?
N - Pela reação deles eu percebo que eles me compreendem e que até tenho uma certa razão, mas aquilo está-lhes na massa do sangue e muitas das vezes que eu peço a bola porque estou sozinho tenho como resposta um barroaço na frente para o nosso avançado que está com três em cima. Apetece-me esganá-lo mas tenho de manter a cabeça fria.

m - Já fez um jogo que não correu lá muito bem...
N - Pois foi. Perdemos 2-5 em casa na estreia para o campeonato. Foi um jogo bizarro, fomos para o intervalo a ganhar por 1-0, aos 47 mins sofremos o 1-1, o treinador manda-me aquecer para dar alguma calma ao meio-campo, levamos o 1-2 aos 50 e o 1-3 quatro minutos depois logo após a minha entrada. Nem tinha tocado na bola e já tinha encaixado três batatas.

m - Para o meio-campo? Mas o Nuno não era guarda-redes?
N - Era mas decidi que ia jogar de campo. Já não tenho vida para meter a cabeça onde os outros metem os pés.

m - No jogo aconteceu o que se chama ter galo.
N - Não foi galo, foi azelhice mesmo. Havia jogadores que sentiram nitidamente o peso da estreia e nem conseguiam dominar uma bola, tremiam que nem gelatina. Serviu para aprender. Não se pode sofrer 3 golos em 7 minutos.

m - Como lhe correu o jogo a nível individual?
N - Mal porque perdemos e eu não gosto de perder nem nas paciências. Senti que ainda não tenho os níveis físicos necessários para aguentar 90 minutos e perdi alguns duelos individuais na força, mas com treinos regulares isto vai ao lugar. Consegui no entanto algumas aberturas interessantes, parece que ainda meto a seta onde meto o olho (risos).

m - Nuno, que expetativas para esta época?
N - Não me lesionar e jogar bem para ajudar a equipa. Já conheço bem os sinais que o meu corpo me manda, os ligamentos e os adutores são muito caprichosos, reclamam frequentemente e por esse motivo tenho de gerir o esforço. Também preciso de descansar mais porque a capacidade de regeneração não é a mesma, menos álcool, menos refrigerantes, mais sono. Vai ser complicado compatibilizar o futebol com o trabalho como DJ mas quem corre por gosto não cansa. Fundamentalmente quero acabar a época fisicamente em bom plano para ver se na temporada seguinte repito a experiência.

m - O quê? Pensa jogar na próxima temporada?
N - E por que não? Se a carcaça aguentar o cachão desta época por que não hei-de fazer mais um ano? Adoro treinar, adoro o jogo, adoro o ambiente do balneário, o ritual de me equipar, sair de noite ao frio só para estar com a rapaziada. Só quem nunca jogou futebol é que não compreende o que é a paixão pelo futebol, o que nos leva a abandonar o quentinho de casa para levar porrada à chuva, torcer pés, boladas na cara, canelas roxas, cabeçadas e punhadas e ainda pagar do próprio bolso. A alegria dos colegas quando se marca um golo é paga suficiente para todos estes sacrifícios. O futebol é a coisa mais bela do mundo e eu só tenho de agradecer os generosos cromossomas que tenho que me permitem continuar a desfrutar da minha paixão.
 
Foi assim a conversa com o camisa 3 do Inter Warszawa, Nuno Bernardes. Boa sorte e que não lhe amassem muito o chassi porque peças para este modelo já não se fazem mais.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Há três dias que não tomo banho de água doce

Aliás, que não tomava porque entretanto tive de tratar disso. Já tinha o cabelo feito em palha de aço.

Vista da janela do quartoApesar de serem férias de trabalho devido a uma delicada situação familiar, as férias deste verão têm sido ricas em muitos eventos típicos da comunidade. Como o leitor já sabe se acompanhar o blogue há algum tempo, eu evito todas as festas sazonais do botox e do bicarbonato porque não acho piada nenhuma àquilo. Malta às cotoveladas só para ver rapazes e raparigas célebres, fortunas de tempo a esperar por uma nesga de bar para pagar uma obscenidade por uma imperial ou uma caipira. Festas do botox e do bicarbonato também as tenho em Varsóvia onde as raparigas célebres locais dão ratadas de beleza às tugas, essas sim que valem a pena presenciar e passar um período de sauna para ter  a oportunidade de examinar mais de perto as verdadeiras composições genéticas que são os seus abençoados corpinhos. Portanto, sobre as festas da pulseira estamos conversados.

Quase nascido e criado na Ria, casa de família na Praia de Faro há mais de 35 anos, é nessa praia que assento arraiais durante as férias de verão e dali (ou daqui porque é na Praia de Faro que escrevo estas linhas) não saio a não ser que seja por uma muito boa razão – Sudoeste, Farense, Columbus Boat Party, Sporting. Outros vizinhos de praia organizam pantagruélicas jantaradas que se estendem noite dentro e que muitas vezes terminam dentro de água, banhos de mar às 3, 4 ou 5 da matina como aconteceu na sexta à noite na casa do Nuno. 13 pessoas à mesa para contrariar a superstição, dezenas de espetadas de frango com bacon e ananás, quilos de limas, gelo e açúcar amarelo a prognosticar um tsunami de caipirinhas (foram feitas mais de cem, seguramente), um frigorífico lotado de minis, muita conversa de bola e o epílogo apoteótico de esperar pelo sol na costa de geleiras e toalha. Uma comunhão perfeita de elementos humanos e naturais, a lua gorda e curiosa a iluminar o mar tépido, a cerveja fresca a passar pelas mãos dos amigos do peito e a jorrar. Regresso a casa num profundo estado ébrio sem paciência para remover o salitre, força apenas para lavar os dentes e desmaiar na cama.

Dia seguinte iniciado como o habitual banho de bons-dias à hora do almoço, o aperitivo e as primeiras notícias do dia à do Fava, uma tarde inteira de praia sob um sol que há anos não torrava assim em agosto, arrastar as pernas até à esplanada para um par de imperiais de fim de dia, picar qualquer coisa enquanto se vê o Grande Amor a despachar mais um adversário (os deuses devem estar loucos!), celebrar a vitória com mais cervejame e pezinhos de rock n’roll (a buba dá pra tudo) num dos quiosques da praia que tem música ao vivo, outra desgraceira consumada ainda por cima amplificada pela ideia maligna do Toni às 3:00 quando os concertos terminaram: Butes dar um mergulho? Três homens e duas mulheres em pelota a chapinhar na água que nem um bando de patos perdidos, de novo voltar para casa bezano, de novo demasiado impertinente para tomar duche.

O último dia da aventura começou como os acima descritos mas teve uma cambiante a meio da tarde, o Farense – Aves no Estádio de S. Luís e eu nunca falho quando o Farense joga em Faro. Só por isso passei o chassi por baixo do duche e permiti algum champô no desesperado couro cabeludo. Fui à bola, jantei com as altas cúpulas do clube para discutir o jogo e à meia-noite, quando já estava a imaginar uma noite descansada, eis que a Iryna com uma mensagem me desvia para uma festa de anos num bar da Praia. Não consigo dizer não àquele par de olhos cor de mel, aos cabelos áureos, as linhas da escola eslava, por isso acabei por aceitar os shots de tequila que ela me propôs mesmo que isso me custasse uma arruaça intestinal a meio da noite. Sacrifícios necessários para poder assistir ao sorriso dela, o caminho para o êxito nunca foi fácil.

 

Hoje já entrei em contagem decrescente para o retorno a Varsóvia, cidade da qual já sinto falta. Tenho saudades da minha casa lá, do meu carro, dos hambúrgeres dominicais, das alvas pernas a passarem na rua Chmiełna, dos neons do Platinium, do meu lugar cativo no Pepsi Arena, dos amigos. Tenho saudades de Varsóvia, claro, mas tenho já saudades deste verão e destas férias. E por isso vacilo.

Esta reentrada não vai ser fácil…

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Praia de Faro, 25º dentro de água

Praia de Faro à noite Repete-se o sentimento por esta altura, um misto de sensações que vai desde a nostalgia de mais um verão cálido algarvio que vai ficar pelas costas, a cidade capital que me espera com indiferença aparente mas roída de saudades por dentro passando pela revisão de todas as coisas pessoais e de família que devia tratar, papéis para regularizar e outros para conferir. Passa-se o mês em revista, vê-se o que foi feito e o que há para fazer, sacode-se o sal do cabelo, mete-se umas garrafinhas de azeite na mala que isso em Varsóvia anda ao preço do ouro, chouriças e milho para fazer xarém e arranca o emigrante de volta à terra do trabalho. Uma imagem um bocado cliché mas verdadeira resultado do apego que o português tem às suas coisinhas e à inexistência de tais artigos onde vive, pena que não se possa levar amêijoas e postas de corvina na bagagem.

Nesta altura do ano faço a minha pré-época, vejo quais as perspetivas de trabalho, as propostas e projetos que me esperam até ao próximo verão. Faço-o em função do ano letivo e de outras ocupações que preenchem o horário semanal, decido para onde me viro e ataco o trabalho revigorado pela carga de sol que trago do Algarve, contente por rever os amigos e os queridos (e queridas) que ficaram em Varsóvia.

Este ano a pré-época é diferente de todas as anteriores, os acontecimentos recentes a nível pessoal fazem-me reconsiderar o planoVarsóvia à noite de vida na Polónia e as confusões familiares não me deixam partir de consciência totalmente tranquila. Muitos pensamentos se cruzam e  influenciam a decisão final, que não é fácil porque é provavelmente o único momento nestes quase seis anos de vida fora no qual pondero seriamente a possibilidade de regressar a Faro. Trata-se no fundo de escolher entre dois males, hipotecar muito em Faro para continuar a ganhar em Varsóvia ou salvar o que tenho em Faro perdendo (se calhar para sempre) o que tenho em Varsóvia.

Haja luz para ajudar a decidir. Honestamente, banhos de mar a 22º à meia-noite com o Jotinha seguidos de tertúlias de bola com o Marguilho e o Soneca até às 2:00 da manhã puxam decididamente a corda para um dos lados.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Por que eu adoro ser algarvio 2

Ilha da Culatra, ponto do país onde se consome mais cerveja ‘Sagres’ per capita, lugar onde só se vende dois tipos de líquidos – a dita ‘Sagres’, a ‘Super Bock’ é repudiada, e café. Um grupo entra num café, integrado no grupo vai um quequinho cuja origem não revelo mas que será óbvia para o leitor. Todos pedem cerveja, diálogo entre o empregado de mesa e o referido cliente:

 

C – Um Iced Tea, por favor.

(silêncio no café, o empregado de mesa perplexo com o pedido)

E – Ice Tea?! E de que sabor?

C – De manga.

(o empregado, pronúncia típica dos marítimos de Olhão)

E – Atão e quer de manga curta ou manga comprida?

(o café vem abaixo com as gargalhadas, o cliente corrige envergonhadamente o pedido)

C – Uma imperial…