quinta-feira, 26 de junho de 2014

A Rita

Cidade Capital
A Rita esteve em Varsóvia!
- Uau, fantástico... E quem é a Rita? - pergunta o leitor, se calhar intrigado por dar tanta importância a uma portuguesa na Polónia. Como se eu estivesse num salão da Ferrari e ficar todo contente por ter encontrado um Fiat 127.
A Rita é uma das pessoas que me ensinou a ser professor de Língua Portuguesa, se é que já atingi tal estatuto. É uma das pessoas que me ajudou na integração na Comunidade Portuguesa, que me amparou em momentos mais periclitantes e que me acompanhou nos primeiros passos na Cidade Capital. Juntamente com o Mário, a Rita foi parte integrante duma tríade de portugueses responsáveis pelo ensino do idioma lusitano numa das escolas de línguas mais conceituadas da cidade e fez parte crucial dos meus primórdios neste país. Graças a ela conheci pessoas e lugares, aprendi usos e hábitos, pude funcionar com mais facilidade. É uma pessoa pela qual eu guardo um carinho especial e que terá sempre um lugar diferente no meu grupo de amigos varsovianos.

Os meus primeiros tempos na capital polaca foram passados na companhia da minha (ex-)ex-namorada, dias difíceis porque não conhecia ninguém e Varsóvia assemelhava-se a um enorme formigueiro onde as pessoas nem sequer se cumprimentavam e não tinham interesse em conhecer outras pessoas. Conheci o Mário e a Rita quando procurava emprego, o Mário fez-me a entrevista e abriu-me as portas da Escola Bravo e a Rita mostrou-me o funcionamento da empresa e preparou-me para enfrentar turmas de curiosos alunos. Foram duas importantes muletas num período menos estável da minha vida, numa altura em que as saudades de Faro ameaçavam minar os planos de triunfo na Polónia. Eles, sabendo o que sofre um português no começo da sua aventura polaca, pegaram em mim e mostraram-me as coisas boas que existem em Varsóvia, levaram-me a sítios bonitos, proporcionaram-me experiências muito giras e que eu desconhecia por completo (um marcante passeio de bicicleta por Praga Norte no tempo em que ainda havia a feira junto ao Estádio, por exemplo) e, o mais importante, apresentaram-me portugueses. Foi a partir desse momento que a minha vida mudou, quando conheci portugueses em Varsóvia. Obviamente que nem todos eles se revelaram interessantes, como em todos os povos há sempre pessoas com quem temos mais afinidades que outras, pessoas que depois se tornam mais relevantes que outras, mas a presença de compatriotas numa paragem tão afastada do berço é importantíssima no plano da adaptação dum recém-chegado como era o meu caso. Graças à Rita conheci o meu melhor amigo (um mano!) John, a minha maninha algarvia Sónia, um outro amigalhaço que é o Ricardo e foram estas pessoas que formaram a minha base de apoio. A Sónia entretanto foi para os Estados Unidos mas o Ricardo e principalmente o John continuam cá e compõem aquele forte onde sei que me posso abrigar em caso de tempestades.

A Rita veio a Varsóvia!
Quantos lamentos eu ouvi dela, que os polacos eram isto e aquilo, cheios de defeitos. Eu rebolava-me a rir porque entretanto já me tinha lançado na noite a todo o pano com elevada rotatividade de parceiras e não sofria de todo do mal dela, pelo contrário, às vezes até tinha problemas de agenda porque os encontros sobrepunham-se. E ela protestava, barafustava, guerreava comigo porque eu era um lambaraz e só tinha sucesso porque elas não percebiam o que eu lhes dizia. Uma vez encontrei-a com uma data de portugueses perdidos de bêbados no antigo Przekąski Zakąski, eu fui com uma amiga para a apresentar aos meus amigos patrícios e revelou-se um erro. A Rita apanhou uma piela de tal maneira que não se aguentava nas canetas, agarrava-se a mim para não cair e a minha amiga começou a desconfiar, pensava que eu queria uma no papo e duas no saco e ameaçou abandonar a discoteca para onde todos fomos em seguida. A duras penas consegui persuadi-la a ficar, que a Rita era apenas uma colega de trabalho e que o meu interesse era nela. Segundos depois de a ter convencido eis que a Rita protagoniza um episódio hollywoodesco, desequilibra-se e prega uma punhada na garrafa de cerveja que a minha companhia segurava, salpicando-a de cima a baixo, ao que se seguiu um épico espalho na mesa vizinha. Dividido entre a vontade de rebentar a rir e hipotecar o engate, abandonar a bêbeda para salvaguardar a minha prevista cópula ou fazer a coisa certa e ajudar a amiga lisboeta acabei por açaimar as hormonas e chamar um táxi para a Rita, coisa de que ela nem gozou porque fugiu incognitamente da casa de banho enquanto o chofer de praça esperava por ela sendo que o seu regresso a casa se ainda mantém envolto num espesso manto de mistério, tanto para mim como para ela.

A Rita voltou a Varsóvia!
Grande companheira, do tempo em que ganhávamos pouco mas ríamos muito. Bastante do meu êxito e da minha paixão por esta terra se deve a ela. Volta sempre, miguinha!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Jaruzelski, o general da Lei Marcial

Wojciech Jaruzełski Wojciech Jaruzelski, o último Presidente comunista da Polónia, morreu este domingo aos 90 anos de idade vítima de complicações relacionadas com linfoma. Figura sinistra e sombria, traço acentuado pelos óculos escuros que sempre usava devido a ter sofrido cegueira de neve em adolescente, o general Jaruzelski ficou infamemente conhecido a nível internacional por ter declarado em dezembro de 1981 a Lei Marcial no papel de líder da Conselho Militar de Salvação Nacional, uma decisão que justificou em 1992 numa entrevista a um jornal alemão:

“Era a estratégia lógica daquele momento porque os interesses da União Soviética na Polónia estavam a ser ameaçados pelas movimentações de Lech Wałęsa e o Kremlin ponderava invadir o país porque temia que o Solidarność fizesse um golpe de estado”

Estas afirmações colidem com o resultado da reunião do Politburo, três dias antes da imposição da Lei Marcial, na qual o líder do órgão Yuri Andropov, acossado pelas despesas da guerra no Afeganistão, foi claro:

“Não podemos assumir o risco de mandar tropas para a Polónia. Não sei qual vai ser o resultado desta situação mas se o poder tiver de cair nas mãos dos sindicalistas, que caia porque nós não vamos intervir sob pena de nos serem infligidas mais sanções económicas por parte dos países capitalistas, sanções essas que não conseguiremos suportar. Concentremo-nos no nosso próprio país, essa é a posição correta.”

Fragilizado pelas constantes greves internas e pela perda de apoio de Moscovo em consequência da nova política de reformas implantada por Mikhail Gorbachev (o líder soviético não tinha interesse em envolver-se em outro conflito além-fronteiras por temer contestações idênticas às sofridas aquando da Primavera de Praga), Jaruzelski acedeu em encetar conversações com o Solidarność, uma decisão que se revelaria crucial para o futuro do país. Na mesa-redonda triunfou a ideia dos sindicalistas de legalização das suas organizações e convocação de eleições livres para o Senado, o general mais tarde abandonaria todos os cargos políticos e militares, seria acusado de crimes contra a Constituição e contra os Direitos Humanos, acusações posteriormente retiradas em virtude da sua idade avançada e acentuado declínio do seu estado de saúde e viveria o resto dos seus dias numa vivenda no bairro varsoviano de Mokotów.

Jaruzelski viveu o tempo suficiente para ver a conversão da Polónia à economia de mercado e a todas as mudanças que o país experimentou, testemunhou Jaruzełsk e Wałęsa em 2005 - Foto PAPa entrada do país na NATO e na União Europeia – facto que comemora dez anos – e assistiu às celebrações dos 25 anos do Acordo assinado a 4 de abril  de 1989 que lançou as bases para a abolição do comunismo na Polónia além de ter sentido o crescimento da importância da Polónia como parceiro comercial e estratégico da Europa Ocidental. Mais tarde reconheceria que o “comunismo falhou” e assumir-se-ia social-democrata apoiando Aleksander Kwaśniewski nas eleições presidenciais de 1995 contra Lech Wałęsa, eleições ganhas pelo primeiro.

Os polacos têm uma opinião geralmente negativa do general, principalmente aqueles pertencentes à ‘Geração Solidarność’. Não lhe perdoam o seu envolvimento enquanto Ministro da Defesa nos massacres de 1970 quando o exército avançou sobre manifestantes desarmados e de lhes ter mentido sobre a ameaça duma invasão soviética que nunca esteve nas cogitações do Kremlin. Ironia suprema, Wojciech Jaruzelski morreu no mesmo dia em que os polacos, aliás, 22.7% do eleitorado polaco escolhia os seus representantes no Parlamento Europeu, uma instância na qual o general nunca esperou ver a Polónia. Os seus compatriotas foram lestos a reagir à notícia da sua morte:

“Jaruzelski levou a expressão ‘ir à urna’ demasiado à letra”

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Estudo sobre a nova emigração

No âmbito de um projeto de investigação sobre a emigração portuguesa atual, “REMIGR: A Nova Emigração e a Relação com a Sociedade Portuguesa”, financiado pela FCT  e desenvolvido por uma equipa da Universidade de Lisboa, da Universidade de Coimbra e do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, o ‘mishanapolonia’ foi contactado no sentido de divulgar um inquérito online. Os objetivos deste projeto de investigação em causa são: conhecer o perfil dos portugueses residentes no estrangeiro, as suas trajetórias migratórias, os fatores que impulsionaram as saídas, as suas intenções de mobilidade, e as suas relações com Portugal.

Considero uma pesquisa interessante e o testemunho de jovens emigrantes pode ser muito útil para que se atinjam os objetivos dos responsáveis. Caso o leitor queira dispensar alguns momentos a responder ao inquérito, eis o link: http://tiny.cc/remigra

O pessoal agradece.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Epic Fail, ou como se diz em português, Pior a Emenda do que o Soneto

Depois de um par ou dois de anos sem ter sido organizada, ou pelo menos sem eu ter recebido tal convite, a Receção aos Portugueses da Polónia vai ser reatada como era tradição no dia 10 de junho que é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Decisão louvável, a de retomarem os encontros dos cidadãos portugueses com a sua Embaixada. A Edyta, diligente e simpaticíssima funcionária da representação diplomática portuguesa no meu país adotivo, fez a fineza de me contactar a fim de atualizar a sua base de dados com a minha morada corrente, um gesto que caiu muito bem porque demonstrou interesse e preocupação para com os patrícios que por cá labutam, para poder enviar o convite tendo a certeza que eu o ia receber. Bem o disse, melhor o fez. Ontem já cá cantava o honroso convite. Mas…

Cabeçalho do convite

Li, reli e não entendi. Uma embaixada portuguesa envia um convite a um português para um evento português relacionado com Portugal, com o Poeta português e com as Comunidades Portuguesas… escrito em inglês?! Procurei dentro do envelope se havia uma versão do convite para nativos lusos e descubro uma informação referente aos patrocinadores do evento, todos empresas portuguesas ou com grande participação de capital português. E…

Cabeçalho dos agradecimentos aos patrocinadores

Então qual foi a conclusão que este português tirou? A de que esta é uma receção ‘para inglês ver’ na medida em que o convite oficial foi feito ‘para inglês ler’. Nesta medida, thank you very much, Mr Ambassador, for your kind invitation but I believe I would feel a bit out of place among your English-reading guests. Nevertheless, I remain at your service for any Portuguese-related issues you find my help appropriate. Yours sincerely, Nuno Bernardes.

Por outras palavras: Tal não foi a barraca que vocês deram, mariolas!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Balada de um dia cabrão

Por trás de Bemowo É um daqueles dias em que não me apetece sair de casa. Não porque o tempo esteja mau mas porque o humor não está para grandes convívios. Há dias assim, dias cabrões como diz o povo da minha terra, dias em que até o barbear aborrece. Dias em que acordo a pensar em voltar logo para a cama, não apetece fazer nada apesar do tanto que há para fazer. Só dá vontade de fazer as coisas mais elementares como coçar onde há comichão e relaxar os esfíncteres desde que tal não implique tarefas posteriores. Apetece mais passar fome do que fazer o pequeno-almoço, só a trabalheira que dá mexer o café no leite e barrar manteiga no pão - ainda mais essa, ter de ir ao pão! Ah, hoje é um dia daqueles, daqueles dias cabrões.

Os dias cabrões são os piores dias porque são os dias em que nada se passa, nada que nos chute para fora da modorra que se estende até à hora do treino, única altura do dia em que me apercebo que tenho qualquer coisa líquida a circular nas artérias. Isto deve ser da falta de trabalho, andamos num período de exames e a malta recolhe em casa para marrar deixando de poder dar atenção às aulas particulares e mirrando os proventos do professor. Os riscos duma profissão liberal.

É nestes dias em que mais me esforço para ver o sol que brilha além da neblina porque não há mal que sempre dure, a porra é quando um gajo se vai abaixo e deixa de acreditar em dias melhores. Se calhar não é a neblina que mais me afeta, é mais conseguir ver esse sol sabendo que ainda falta um bom bocado até que ele esteja por cima de mim. Às vezes sinto-me como naquele filme em que o recluso sabe que foi inocentado, sabe que vai ser libertado mas não sabe quando isso acontecerá e que conta cada dia que passa como mais um dia na choldra em vez de considerar esse dia como menos um que falta até se tornar um homem livre.

Acabo por pegar no carro e sair pela cidade fora, meter-me em ruas que nunca tinha percorrido em distritos aos quais nunca tinha ido e abancar em cafésSopa de Ovo Algarvia que nunca tinha visto. É um bom companheiro, o café. Foi preciso emigrar para eu começar a beber café, primeiro para despertar a meio das tardes de inverno quando o escuro embala o corpo e depois como auxiliar de escrita e leitura como o cão que se aninha no tapete aos pés do dono, é aconchegante e confortador. No treino a coisa corre bem. O homem coloca-me a fazer finalização num ambicioso exercício em que tenho de fazer passar o tiro num estreito espaço entre duas varas, ele atira-me bolas cheias de carapaus e quer que eu chute sem preparação. A primeira bola vai à gaveta, um golo da Eurosport que arranca aplausos aos colegas (brawo, profesorze!), a segunda vai fraca à figura e a terceira, puxada ao pé esquerdo, é atirada em trivela para uma parada monumental do guarda-redes que também merece aplausos. Jogar futebol tem um certo efeito terapêutico em mim, deixo as toxinas todas no campo, volto para casa mais tranquilo e com menos propensão em pensar em tristezas. Termino o dia de pijama sorvendo uma sopinha de ovo feita pela minha companheira de noites tristes e a ouvir as calamidades solenes que o Primeiro-Ministro português profere nas celebrações da caricatura e partido político a que preside, um partido pelo qual eu até tive simpatia no tempo em que defendia valores idênticos aos meus.

Epiteto escreveu um dia que "o Homem não se preocupa tanto com um real problema quanto com a ansiedade imaginada em torno desse problema". É capaz de ter razão, se pusermos o problema em perspetiva. Não há nada que seja tão terrível que não tenha solução e se não tiver solução é menos uma coisa com a que nos temos de preocupar. Haja saúde e um par de braços para trabalhar porque amanhã o sol nasce outra vez e nós já sabemos que Varsóvia não deixa ninguém parar para limpar o suor.

terça-feira, 22 de abril de 2014

E todos os sportinguistas vão excomungar-me depois de lerem isto

Belenenses 0 - Sporting 1 2013-2014 Foi bom que o nosso rival da 2ª Circular ganhasse o campeonato, uma vez que o Sporting não estava em condições de o ganhar. Digo-o porque prefiro que seja um clube do sul a ser campeão do que os batoteiros do norte.

O poder do futebol esteve concentrado na cidade do Porto durante as últimas três décadas, um poder daninho. Um poder arquitetado em residências de luxo no Parque da Cidade, em Miramar e em Gaia, um poder exercido nos escuros das casas de alterne, um poder consumado em viagens pagas a árbitros, um poder consubstanciado em corrupção desportiva com prejuízos evidentes para todos os restantes competidores, um poder que se impôs ao Poder Judicial pois anulou todas as conclusões incriminatórias que perigavam os órgãos da máfia. Um poder que desacreditou uma das maiores fontes de esperança do povo português – o futebol.

Habituados a serem prejudicados pelo Estado, os portugueses sempre tiveram no futebol um escape de frustrações e o futebol sempre serviu para criar ilusão. O português vibra com o seu clube, exalta os seus heróis nas vitórias e roga maldições na hora da derrota. Quando perde, o português vai trabalhar de azia, fica resmungão, protesta se faz sol ou se chove, fica sem paciência para aturar quem quer que seja – os colegas, a mulher, o chefe, os filhos. Quando ganha ele beija prolongadamente a mulher (às vezes até com um bónus posterior) depois do jogo, sai mais cedo de casa para o trabalho, vai alegre e impante, dá os bons-dias a toda a gente e nem uma multa de trânsito o chateia. É assim que o tuga comum vive o futebol e essa vivência foi adulterada por uma corja de gatunos que ocupam cargos diretivos dum clube de futebol chamado Futebol Clube do Porto. Os dirigentes desse clube viciaram o futebol português nos últimos trinta anos, retiraram à maioria dos portugueses a ilusão, a magia, o divertimento, a distração que o futebol lhes causava. O futebol em Portugal foi gravemente lesado pelos comportamentos e ações protagonizadas pelo Futebol Clube do Porto, perdeu credibilidade e afastou espetadores e adeptos, os portugueses deixaram de acreditar na beleza do futebol porque os resultados estavam combinados, os árbitros comprados, os vencedores previamente escolhidos.

Dois clubes de Lisboa com entrada direta na Liga dos Campeões representa uma machadada séria no futuro próximo do clube de Campanhã, dinheiros que não entram nos cofres azuis-e-brancos, jogadores insatisfeitos por não poderem disputar os desafios mais mediáticos do planeta, fatores que agravam a crise duma época desastrosa em termos desportivos (3º lugar abaixo dum Sporting ainda em convalescença da pior temporada da história) e em termos de gestão (a venda de Otamendi, o melhor central da equipa, é a coisa mais estapafúrdia do ano). A liderança parece dar sinais de erosão (há quanto tempo não se via um treinador ser despedido do FC Porto?), há falta de referências e de mística no balneário portista (Mangala capitão? WTF?!) e prevêem-se dias difíceis na gestão do clube. Pinto da Costa não é eterno, o prazo de validade está a expirar e a sua saída deixará um imenso vazio e originará uma luta selvagem pelo poder porque há muita gente a mamar na teta da SAD portista, muitos administradores que ganham muito dinheiro com o modelo de gestão do FC Porto, muitos Adelinos, muitos Reinaldos, muitos Anteros, Cerqueiras, Madureiras, muita canalha que se banqueteia com o resultado das negociatas do FC Porto… e a mamagem está a acabar.

Pode ser que esta época seja uma antevisão das épocas que se seguirão. Faço votos que o campeonato ganho pelos encarnados e a conquista da entrada direta na fase de grupos da Liga dos Campeões por parte do Sporting (e a consequente oxigenação que os milhões da UEFA vão permitir aos cofres leoninos) signifique a viragem do futebol a Sul, o fim da dinastia bafienta dos barões do Norte, o fim da batota, da trafulhice e da corrupção. Pode ser também que tenhamos que assistir a mais uma época de trapaças e situações nebulosas porque o polvo ainda tem alguns tentáculos vivos mas a tendência é para definhar porque a verdade é como o azeite e vem sempre ao de cima. Vejam o que se passou na vizinha Espanha em que o ‘FC Porto espanhol’, o Barcelona, foi impedido de inscrever novos jogadores nas próximas duas janelas de transferências.

Por isso, e agora vem a parte da excomunhão, sinto uma leve satisfação em que a agremiação de Carnide tenha ganho o campeonato. Porque foram a melhor equipa do torneio e por isso são vencedores justos e porque a batota do FC Porto não foi premiada. Fico mais satisfeito por verificar que, nas duas maiores cidades do país, os adeptos do clube campeão escolheram como lugar de festejos monumentos em que a figura do Leão impera. E por fim, faço votos para que os triunfos encarnados mantenham a mesma regularidade que têm patenteado. Quatro campeonatos ganhos em vinte anos é um número muito apreciável para o “maior clube do mundo”.

Saudações leoninas!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Uma polaca, um algarvio e um guisado

Jardim do Padre Popiełuszko A vida de um emigrante é feita de uma constante adaptação ao ambiente que o rodeia, há aspetos de diversos quadrantes que obrigam a essa adaptação e que passam pela adaptação da visão ao planeamento urbanístico da cidade onde se vive, por exemplo, mudar o registo do passeio que costumava ser artisticamente configurado em pedra de calçada portuguesa para uma monocromática e impessoal sucessão de bloco de cimento. Adaptamos a postura que não pode ser tão exuberante porque os nativos do país adotivo são mais reservados e reprovam manifestações exageradas de afeto, falamos mais baixo e gesticulamos menos, às vezes os olhos falam mais do que a boca. Essa adaptação passa também pelos outros sentidos, há odores que nos faltam e que foram entretanto substituídos por outros, há sons que nos acompanham no dia-a-dia da nova terra que nunca fizeram parte da nossa vida, o elétrico a travar, o sinal sonoro de que a porta do vagão do metropolitano está a fechar, a linguagem que as pessoas usam para comunicar, a chave que produz um som diferente ao entrar na fechadura. A textura da água que corre da torneira é diferente, o ar que se respira tem outra espessura, as coisas que compramos no supermercado não são exatamente as mesmas, o detergente da roupa lava de maneira distinta, o próprio organismo reconhece as desigualdades e vai-se formatando após a estranheza inicial. Esta adaptação é contínua e dura desde o primeiro instante de permanência na nova terra até que se a abandone para sempre, nunca seremos iguais aos que cá nasceram por muito tempo que passemos na terra deles. Podemos ser até passar a ser um deles mas nunca seremos iguais a eles, por muito que eu jogue futebol com polacos vou sempre preferir o passe curto e a progressão de pé para pé do que esticar na frente e ver os dois laterais subirem ao mesmo tempo, por muito que eu me sente no inverno em bares com polacos vou sempre pedir uma imperial em vez duma cerveja quente com cravinho. Falarei polaco mas serei português até ao fim, terei necessidades portuguesas, reações portuguesas e gostos portugueses. Principalmente, gostos algarvios.

Não é fácil satisfazer o gosto algarvio numa paragem tão afastada do Algarve como é a Polónia. É difícil matar o desejo dumas conquilhas com molho de manteiga e coentros, dum passeio junto à Doca de Faro, dum ajuntamento de malta para petiscar antes de ver o Sporting, dum tiro de medronho após um lauto repasto de javali assado com batatas e griséus num forno da serra do Caldeirão. Muito menos fácil é encontrar lugares que sejam tão especiais ao ponto de nos fazerem recordar tempos únicos, idades singulares, momentos excecionais. Encontrei um lugar assim.

A Elwira é uma jovem aprendente de Língua Portuguesa, gosta de ir ao meu país para surfar, tem um grupo de amigos com o qual gosta de curtir e apanhar sol e esta é a sua motivação para aprender Português. Além de ser extraordinariamente bonita - é uma Cameron Diaz de cabelo moreno, 'kitada' com a sensualidade eslava que escorre de cada mulher polaca e uma voz rouca capaz de fazer o Marquês de Sade soar como Shakespeare- é uma rapariga de uma simplicidade surpreendente, muito boa onda, sempre tranquila e com um talento especial para encontrar lugares para as nossas aulas. Lugares que combinam com ela, tranquilos, simples mas incrivelmente sexys. Lugares que dão para estudar, para conversar, para comer... e que coisas se podem comer!

Num destes dias a conversa estendeu-se no período pós-aula, sentados em cima dos pés falámos de coisas importantes e ninharias, ela a dizer-me dum curso que ia fazer à Florida e eu a contar-lhe da minha próxima viagem a Faro, decidimos almoçar porque já passava das duas da tarde e estávamos cheios de fome. A ementa apresentava uma tal carne guisada com molho e puré de batata como acompanhamento, decorada com folhinhas de salsa e que resultou na minha escolha. Um prato simples que se tornou na descoberta do ano. A primeira garfada pôs-me a ver estrelas e transportou-me trinta e tal anos atrás no tempo, para o quintal de pedra da casa da minha avó situada na Rua do Alportel, para as jogatanas de futebol na Escola do Carmo, para a apanha de lingueirão com o meu tio no parchal da Ria, para as bancadas de cimento do Estádio de S. Luís, coisas que nenhum cliente ou funcionário do Zagadka desconfia que tenham existido. Uma invasão de sensações familiares a cada dentada na carne, uma explosão de memórias sempre que o molho inundava o palato. Raios e coriscos!, que aquilo que eu estava a comer era a carne de vaca à jardineira que a minha mãe faz.
 
No top 3 dos meus pratos preferidos, a posição primeira está perpetuamente ocupada pelo feijão guisado do meu avô Luís, uma rica sopa espessa que segurava uma colher na vertical no meio do prato, feita em tachos que eram raspados com fatias de pão caseiro e lambidos por mim no final da refeição. A segunda posição pertence a um pudim feito aquando duma consoada pela saudosa Dona Graça e que me fez rebentar lágrimas nos olhos de satisfação quando a língua o esmagou contra o céu da boca. Na terceira posição está este guisado polaco que, ao fechar os meus olhos, me fez sentar 30 anos depois à mesa da minha mãe, tirar o guardanapo das bolsinhas de renda que ela fazia e regalar-me com uma jardineira das dela.
 
A segunda garfada fez-me levantar da cadeira, dirigir-me à Elwira que ao meu lado ouvia divertida os meus grunhidos de prazer e pregar-lhe um beijo na testa (a minha vontade era outra), grato por me ter concebido aquele inexprimível deleite. Ao lado, no Jardim do Padre Popiełuszko, velhinhos sentavam-se nos bancos a gozar o sol primaveril. A Elwira olhava para mim com aqueles seus olhos de pantera e ria-se de mim, um algarvio entregue a um guisado como se mais nada no planeta importasse. Há coisas que nos fazem sentir assim – muito bem.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Da relação que há entre Clark Gable, psicologia e o Ikea

Travesseiro do Ikea
O suíço Carl Jung, autoridade no campo da psicologia e psiquiatria, criou o termo Anima para definir a personalidade interior feminina do homem, o lado feminino numa tradução mais corrente. Não há estudos que provem que as mulheres são mais atraída por homens que possuam uma anima desenvolvida, até porque o grau de desenvolvimento desse modelo é progressivo e acompanha o processo de envelhecimento do indivíduo - quanto mais velho o homem mais a anima está presente na sua personalidade - e isso derruba qualquer teoria nessa direção, apesar de nesta terra a conjuntura ser favorável aos homens masculinos devido à pouca pica que muitos Adãos indígenas suscitam às raparigas polacas e do crescente número de gajos que, já licenciados em metrossexualidade, estão a escrever a tese de mestrado em androginia. Enfim.

Talvez tenha sido o meu lado feminino que me permitiu desfrutar do prazer libertador que está presente no ato de ir às compras, talvez tenha sido o meu lado feminino a empurrar-me para a loucura que fiz na semana passada quando rebentei um punhado de contos de réis em meias e boxers na Levi's, na loja da Adidas e no Ikea. O Dani estava de folga e precisava de ir ao Ikea, o que até me dava jeito para comprar ambientadores e copos de vinho tinto para poder receber as visitas com a pompa devida, assim aproveitei a boleia e dei um salto ao Parque Comercial de Targówek para adquirir algumas coisas para a casa, o que me dá bastante prazer pois sou uma pessoa que gosta dos confortos do lar e aprecio ter as coisinhas arrumadas apesar de morar sozinho e não ser fiscalizado a tempo inteiro. Nos primórdios da minha estadia em Tarchomin, a prioridade eram a sala, o escritório e a cozinha, depois dei atenção à casa de banho e finalmente o quarto de dormir, zona mais desprezada pelos meus primeiros investimentos domésticos desde que passei a ser senhor único do lar visto que é uma divisão que serve apenas o propósito de dormir. Porém, o facto de ter passado a dormir numa cama de solteiro, situação que eu não experimentava há talvez 15 anos, obrigou a adaptações prementes como a da minha roupa de cama que é toda formato de casal. Lençóis, fronhas, edredões, cobertores e resguardos, tudo de tamanho desadequado para uma caminha tão estreita, por isso empreguei umas pelegas nuns artigos para o dormitório, em especial no travesseiro.

Se a segunda metade de 2013 foi fértil em turbulências, o primeiro terço de 2014 não tem sido mais sossegado entre inquietudes pessoais (valha-me que em termos profissionais não me posso queixar) de aquém e além-Polónia. É um tempo de profundas reflexões e decisões daquelas que podem mudar a vida própria e das pessoas mais próximas, um trabalho contínuo de ponderação que requer serenidade e limpeza de espírito. Muitas dessas decisões deixo-as para depois da noite, para poder descansar e pensar no que fazer. A cama é um bom lugar para eu refletir, consigo ouvir as conversas dos neurónios, o
Modo Rhett Butler
escuro ajuda-me a focar no essencial porque às vezes eu preciso de fazer outras perguntas até chegar à resposta que quero. Depois de lavar os dentinhos subo para o colchão, adoto a posição de defunto que é deitado de barriga para cima e o meu cérebro entra em processo dialético, começo a magicar nas coisas até adormecer, de manhã consigo raciocinar com mais clareza e a resposta aparece mais depressa... ou não, o que até é melhor porque significa que o problema não tem solução e na minha terra diz-se que 'o que não tem solução solucionado está'. A pensar nas coisas do quarto fui ao Ikea e encontrei um travesseiro que se dizia concebido para as pessoas que dormem de costas ou de lado, despertou-me a curiosidade e enfeirei um exemplar. À noite experimentei-o.

Não sei se foi por ter passado uma manhã com um amigo, a conversa e o desabafo que tive com ele, ter um ouvinte com quem pudesse ter aliviado alguns dos meus stresses. Não sei se foi por ter comprado roupa, o que me causa sempre um suspeito estado de euforia provavelmente resultante duma anima em plena evolução. Não sei se é o travesseiro que é mesmo bom ou apenas um placebo. Sei é que graças àquele dia com o Dani e às compras que fiz, travesseiro incluído, sinto-me mais leve, tenho acordado mais descansado e andado com um humor em modo Rhett Butler.

- Frankly, my dear, I don't give a damn!