sexta-feira, 20 de julho de 2012

Das pérolas a porcos

Cerveja de fim de tarde em Varsóvia, duas raparigas polacas e um rapaz português. Conversa entre elas:

- Não sei o que se passa com os homens deste país, andam todos abichanados. Vestem-se como gays, andam como gays, falam como gays e aqueles que não são gays são labregos. Que desgraça a minha.

Seguiram-se uns segundos de silêncio, logo a mesma rapariga, olhos azuis turquesa marejados de indignação, enfatiza:

- Eu quero ter sexo, eu preciso de ter relações sexuais, mas com quem? Desde março que não se passa nada, o que há de errado comigo?

O português leva a garrafa de cerveja à boca para evitar comentários demasiado sinceros. Ela volta-se para ele e diz:

- Tu sabes que eu gosto muito de ti, diz-me porque é que eu não consigo ter ninguém.

O português, na sua inevitável latinidade, rende-se, pousa a garrafa depois de ter engolido o que faltava de um trago, olha-a dentro daquele olho cor de fundo de piscina e anuncia:

- Linda, se passares uma semaninha no sítio de onde eu sou voltas para a tua terra sentada num balde de gelo com o andar igual ao Lucky Luke.

Dito isto levantou-se e foi ao bar pedir mais três fresquinhas antes que dissesse mais alguma coisa de que se pudesse vir a arrepender no futuro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Crónicas de Lviv - 6

ukrnafta Consegui arrastar os jagunços para fora daquela cena de tragicomédia às 2:00, já me doía o braço dos subanos que o ucraniano me dava e tinha os ouvidos dormentes das perguntas da menina hiperativa de Lviv e ainda tinha umas centenas de quilómetros pela frente. Não estava cansado, estranhamente, sentia-me desperto e capaz de levar o carro mas confessei ao Dani, o outro condutor, que não me importava se parássemos numa bomba de gasolina para tomarmos um estimulante. Assim fizemos, já tínhamos localizado uma estação da Shell à entrada da cidade (porque a UkrNafta não inspirava muita confiança), ponto onde fomos abastecer carros e neurónios. O Dani grita: "Olha só para o preço do diesel!"

O gasóleo estava a €0.99 por litro, quase cinco vezes menos que em Portugal, quatro vezes menos que em Varsóvia (na Polónia os preços dos combustíveis não são cartelizados como em Portugal dando-se o caso de serem mais baixos em zonas onde o poder de compra dos polacos é mais reduzido, por exemplo, o preço da gasolina é mais alto em Varsóvia do que noutras cidades do país) e por isso decidimos atestar. Quando acabo a operação fixo o número da bomba, a importância e entro à procura do Red Bull da ordem, a estrica adicional para suportar melhor a viagem. Vejo latas de meio litro, dose cavalar, "nesta terra é tudo à bruta" pensei, mas ainda bem. Vou pagar, o funcionário pede-me 400 coroas das deles, eu vi que só tinha posto 250. Já estava a barraca armada.

O homem diz algo que eu não percebi, eu respondo "Ja, Mercedes" e repito a quantia em polaco. Ele diz que niet, niet e chama a colega que por sua vez abandona o cliente que estava a atender deixando-o em pé de guerra. Mais palavras em decibéis elevados e enervados, a mensagemdinheiro ucraniano sem passar e a mulher resolve assumir as rédeas da situação, o colega refugia-se atrás do balcão sacudindo a cabeça, faz-me lembrar o empregado do restaurante, a mulher pega em dois talões e aponta para eles e para as bombas, ralha em ucraniano apontando insistentemente para os talões e para as bombas e pergunta "rozumi?" Aí desorientei e expliquei tudo em polaco tim-tim-por-tim-tim e pareceu-me que estávamos a chegar a algum entendimento quando se ouve uma voz muito baixa, como se pronunciada debaixo de água "Um momento...". Era o segurança, falava português.

Um ucraniano em Lviv que fale português, isso é menos natural que o preto de cabeleira loura ou o branco de carapinha mas caiu do céu. Num português ferrugento mas bendito ele explicou que o rapaz tinha cobrado a bomba do Dani a mim e que o Dani tinha pago a minha conta, a solução era fácil, cada um pagava a gasosa do outro e acertávamos as contas um com o outro mais tarde. O Pimpão não perdeu hipótese de meter conversa com o senhor, perguntou-lhe tudo e ele lá foi respondendo que tinha trabalhado em Lisboa e Tomar, que tinha sido muito bem recebido pelos portugueses e que por isso torcia por Portugal no Europeu. Era um facto, os ucranianos confessaram-nos a sua predileção por Portugal muito em parte devido à hospitalidade com que recebemos os seus compatriotas durante a sua diáspora. Foi uma conversa bem disposta, alegre e necessária para arejar o ambiente, depois dos problemas solucionados ele conclui com uma expressão que eu já tinha ouvido na Polónia: "A cabeça trabalha", o Dani completa: "Mas não é sempre" Seguimos viagem.

Sair de Lviv foi um alívio para o automóvel, recuperámos a calma nas suspensões, calou-se a chiadeira e calaram-se os munines também, cansados da aventura, dos cânticos, da pressa das coisas. À noite aquelas aldeias onde meninos e velhotes nos saudavam e vitoriavam parecem desertas, de dentro das casas não se vê um fio de luz, das chaminés não sai um risquinho de fumo, nada indicia que as casas tenham gente e só se vê pernadas de árvores, sebes mal podadas, sinaisSinal medonho escritos em cirílico, uma paisagem sinistra que só consegue melhorar quando imagino o mesmo lugar no inverno, o anoitecer prematuro, o frio insuportável, a aspereza das pessoas e da gastronomia rural eslava. As mesmas terras passam por nós, os mesmos nomes estranhos, as mesmas placas ferrugentas e estragadas que exibem as marcas de um passado negligente e austero, como se tivesse sido teletransportado 20 anos atrás no tempo, os Lada agora descansando numa garagem feita de ramos de carvalho, as casas sem reboco e por fim as luzes do posto fronteiriço, a cancela da liberdade, a passagem para a civilização, o escape para o éden, a fuga atrasada por mais uma fila, mais um controle, mais uma série de burocracias, uma boa meia hora em plena madrugada ucraniana à espera do visto nos passaportes.

Fuma-se para matar o tempo, todos menos o Giga e o Rui. Cansados, os munines rendem-se ao aparelho das formalidades. Já não estamos habituados a isto, desde a ponte sobre o Guadiana, e temos de levar a coisa na desportiva. Olho para trás e vejo um raio de sol a levantar-se sobre a planície ucraniana, sobre a terra que tanto me preencheu o imaginário da adolescência. Onde eu estive, aquela terra onde conduzi era União Soviética há pouco mais de 20 anos. Era a terra de Dasaev, de Gorbachev, de Kasparov, nomes da minha infância que habitavam paragens tão longínquas que me pareciam irreais, que só existiam na televisão. Os soviéticos, os terríveis, os malvados, os déspotas. Caramba!, eu estive lá, na terra que já foi deles, na ex-URSS.

Fronteira de voltaOs guardas mandam avançar, eu julgo que ouço o marchar de botas militares na minha direção e por um segundo vejo o escudo da foice, do  martelo e da espiga por cima do corredor automóvel em vez do tryzub – o tridente amarelo em fundo azul. Impressão minha.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

1:00, toca a acordar que já é de dia

TrovoadaA noite cai e a temperatura não parece baixar, o ar continua húmido, pegajoso, lembra os entardeceres da República Dominicana aos quais só lhes falta o mar e as palmeiras. O resto existe, o calor e a sensação de que precisamos de outro banho cinco minutos depois de termos saído de debaixo do duche. Há um contraste incrível, uma diferença enorme entre a Polónia de inverno e a Polónia de verão. Do frio ártico que varre o país, das massas de ar polar que assolam a Europa Central e que nos fazem tiritar na rua, castigando-nos com violentos –20º ou –25º até ao calor abafado que obriga as pessoas a estufar debaixo de 30º ou até 35º, uma diferença de temperatura na casa dos 60 graus, coisa absurda. Os roupeiros têm de ser maiores para albergarem tanta roupa de inverno, de verão e de meia-estação que faz falta, casacos, sobretudos e blusões dividem a camarata com as t-shirts, camisolas e camisas mais frescas. O curioso é que, ao contrário do que se passa(va) na casa dos meus pais em Faro, não se pode tirar a roupa de inverno de lugar para colocar a de verão quando a estação muda porque não se sabe quando uma gabardina vai ser necessária em pleno julho ou um casaco mais forte vai fazer falta nos fins de tarde mais frescos de agosto. Temos de reservar um espaço imenso em casa para guardar toda a roupa, todos os sapatos e botas, todos os calções e gorros muitas vezes na mesma gaveta, uma tarefa interessante se tivermos em consideração a pequenez da maioria dos apartamentos de Varsóvia, pelos menos aqueles que pertencem aos meus amigos que por não nadarem em dinheiro têm de viver em áreas mais módicas.

Estas condições climatéricas são ideais para grandes trovoadas de verão, tempestades terríveis que assolam toda a Polónia sem deixarem nenhuma pedra por levantar. Há pessoas que não se importam com trovoadas, há mesmo que se ponha à janela para assistir ao espetáculo mas eu não sou desses, não gosto de trovoadas como já referi em artigos anteriores. Os entendidos dizem que as fobias tratam-se com a exposição contínua à fonte do medo, não queTrovoada em Ursynów eu tenha medo de trovoadas – prefiro chamar-lhe respeito. Acho que algo semelhante me está a acontecer visto que quando a tempestade de aproxima e quando a banda de trovões anuncia a sua chegada não me enervo tanto como antigamente. Quatro anos a conviver com estas situações já me dão algum calo e não me irrito tão facilmente. Mas há um problema que permanece e para o qual eu não hei-de ter remédio, é o horário que as malditas escolhem para aparecer, raramente durante o período de tempo que passo no trabalho, concentrado demais para ouvir e ver o que quer que seja, mas sempre alguns minutos depois da meia-noite, hora em que habitualmente toca a recolher na minha casa. Às vezes até chegam mais tarde, deixam que eu adormeça embalado pela brisa que sopra entre os ramos dos teixos que tenho em frente à varanda, a corrente fresquinha que passa de janela em janela e ajuda a cair no sono, mas depois entram ventanias vigorosas e repentinas que batem portas e vidros, explosões ensurdecedoras, clarões arrepiantes e olhinhos bem abertos porque não há quem consiga dormir com tanto barulho, tenho de me levantar para fechar as janelas porque batem nos caixilhos com tanta força que podem quebrar-se a qualquer momento. Acho que a Natureza faz de propósito, uma sinfonia de trovões, uma revolução que eclode quando a cidade está mais pacífica, mais tranquila, mais silenciosa. Parece que é para lembrar do sítio onde estamos, Varsóvia, onde nada surge fácil, tudo é obtido a duras penas, nada é ganho sem suarmos as estopinhas. Segunda-feira é por hábito o dia mais complicado da semana, pois eis uma trovoada épica durante a madrugada para começarmos bem a jornada, de bom espírito e motivados para o trabalho.

Nem quando os dias parecem bonitos Varsóvia nos faz a vida fácil.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Varsóvia e a nostalgia depois do Euro2012

Começou assim, a maior Fan Zone do Euro2012.

Fan Zone de Varsóvia

Por dentro era assim, 120000 m² de restaurantes, bares, bancadas e de muito espaço para ver a bola nos diversos ecrans disponíveis.

Fan Zone - interior

A festa acontecia tanto de dia como de noite, a rua Nowy Świat era o palco preferencial de todas as comemorações.

Nowy Swiat de noite

Nos dias anteriores aos quartos-de-final em Varsóvia, o Portugal – Rep. Checa, até encontrámos patrícios estacionados em pleno centro da Cidade Capital. À patrão!

Fan Zone com furgoneta portuguesa

Até os edifícios vizinhos se associaram ao evento. Havia festa, cor, alegria.

Prédios decorados

Agora que o torneio acabou, vê-se isto.

Desmantelamento da Fan Zone

E as intermináveis obras da segunda linha do metropolitano que hão-de durar até ao ano 2063.

Cruzamento Swietokrzyska - Marszalkowska

O problema de viver um certame destes por dentro é a sensação de vazio que se sente depois do circo partir, já é a minha segunda vez (2004 e 2012) e nunca fica mais fácil…q;,(

ps – John e Dani, juntos não perdemos nenhum!

sábado, 30 de junho de 2012

Crónicas de Lviv - 5

Centro histórico de Lviv Pelos vistos parámos junto ao centro histórico de Lviv pois do ponto onde estacionámos até à praça da cidade velha foram dois minutos a pé e logo encontrámos um restaurante com ar catita para comermos e bebermos alguma coisa enquanto assistíamos ao Dinamarca - Holanda. A senhora do restaurante, de sorriso nervoso mas amigável, arruma as mesas para sentar as nove pessoas que acabaram de chegar. Eu tento o polaco com o empregado de mesa, um jovem louro e magro demasiado agitado para a freguesia que havia em casa. Ele recusa o polaco com as mãos e diz "inglish, inglish". "All right", respondo surpreendido e peço "can we have seen beers, please?". Ele diz que sim, eu sento-me para ver o jogo, o Fava grita "Beer! Beer!", não deve ter percebido que eu já tinha feito o pedido, as ementas são servidas, tudo em alfabeto cirílico com descrições em inglês nem sempre esclarecedoras. Quase todos escolheram um "piece of the best part of beef", eu pedi uma "Chicken Kyïv" porque em Roma gosto de ser romano. "Bom, e essas cervejas?" pergunta o Xavier espantado.

Passaram-se quase 10 minutos e nada de cerveja, faço sinal ao empregado que responde com um salto de trás do balcão à moda de Shaolin, os olhos azuis quase a saltarem da cara, cada vez mais agitado e tenso. "Beer? Ok, how many?" Começo então a sentir que está algo errado neste filme, já lhe tinha dito que eram sete. Repito o pedido e ele desaparece na copa embora a torneira da cerveja estivesse perto da nossa mesa, no balcão, por detrás do qual ele salta que sem um samurai quando é chamado. Mais 10 minutos, o Fava está pior que estragado e pede uma coisa na lista que ele não sabe o que é, chegam fatias de enchidos, salpicões e linguiças, era o pedido do Fava que chegou rapidamente, de cervejas nem sombra. De repente vejo o empregado outra vez atrás do balcão a olhar para nós como um rato olha nervosamente para os bigodes do gato que espreitam pela toca. "Excuse me", pedi. "What about our beers?" O rapaz dá um pique na minha direção, suava e tremia, pensei que ele tivesse tomado speeds ou que andasse a nadar em estimulantes. "Beer? Ok, how many?" Aqui o Dani levantou-se para fumar, o Giga pregou um barrano de palma da mão no tampo da mesa que meteu a clientela em sentido e abalou porta fora praguejando. Eu saio também para acalmar os rapazes, o Giga preocupadíssimo porque só falta hora e meia para o jogo, o Pimpão com uma calma olímpica junta-se ao grupo depois de ter perguntado aos polícias como ir ter ao estádio, tem boas notícias, diz que autocarro para o estádio é a 400m, o percurso para a Arena Lviv dura não mais que 20 minutos ... e eis que se junta ao nosso grupo o nosso querido empregado, uma vara loura tremendo como gelatina, a pedir fogo. O Giga quase que o engole mas ele é rápido a dizer "one minute, prosto (simples)". Realmente, assim que o rapaz se calou as vozes portuguesas anunciaram o jantar. Correram as reses para a mesa, devoraram (é esse o termo) as rações que lhes foram servidas e engoliram a cerveja morna que finalmente chegou à mesa. A conta pedida imediatamente para evitar mais demoras e o Pimpão, a calma enervante, o rosto inexpressivo, lança a pergunta “Então mas eu não posso beber um cafezinho?”

Arena Lviv Depois de lhe termos prometido porrada, de lhe ameaçarmos meter os dentes para dentro e de responder ao “thank you, come back soon!” da empregada com um “I don’t think so” entre dentes, arrancámos para a praça dos autocarros, um largo completamente desorganizado onde as pessoas sobem e descem dos autocarros sem que se veja uma paragem no horizonte, as camionetas fazem manobras de marcha-atrás no meio do trânsito, os carros que se desviam dos autocarros galgam passeios e mandam os peões borda fora, um campo minado. A chuva caía, tépida e pegajosa, misturava-se com o suor da corrida e do almoço comido à pressa, arfamos ao entrar no autocarro, apertados como conservas. Começo os cânticos com o Giga, parceiro de gritarias adolescentes de Liceu e Alvalade, contagiamos os tugas desconhecidos e alguns alemães tiram fotos. A viagem para o estádio dura os tais 20 minutos feitos sempre com palmas e gritos, provocações amigáveis e ambiente de festa. O autocarro parou num campo de nada, um pântano onde se via um trilho de calçada pouco largo, insuficiente para dar vazão ao caudal de espetadores. Percebemos que tínhamos ficado a um ou dois quilómetros do estádio, ainda tínhamos de andar por aquele caminhito e gramar com pessoas de marcha mais lenta ou, como alternativa, perder o amor aos calcantes e percorrer a distância de patas na lama. Foi assim que chegámos às portas do estádio após uma dúzia de minutos, um pouco na lamoja e outro no cimento. Ouvíamos os clamores das claques, a música do estádio, o speaker em português, duas ucranianas tiramPortugal fotos junto do estádio, o Dani colou-se na foto e elas encantadas, logo o resto da alcateia também se juntou para a posteridade, elas coradas, desorientadas com a concentração de latinos por metro quadrado. De repente um telefonema, o Xavier com uma tragédia: “O Pimpão perdeu o passaporte e o bilhete!” Eu já não tinha bateria, o Giga tinha o telefone dele desligado e já ia a 100 à hora disparado para a bancada, o Rui nada dizia, o Fava encolhia os ombros e o Dani estava mais concentrado nas ucranianas. Ninguém ficou surpreendido com a notícia, o Pimpão é um cabeça de vento e já tinha perdido o telemóvel em Varsóvia, adiante que vai jogar Portugal e o Pimpão que volte ao restaurante. Temos pena.

O jogo correu como correu, onze contra onze e no final ganhou a Alemanha. No fim, à saída do estádio, encontrámo-nos com o Pimpão que revelou não ter encontrado o restaurante, um doidivanas destes que não deu com o restaurante que fica em linha reta a partir da praça de autocarros. Voltámos, suados, afónicos e frustrados com a derrota injusta. Percorremos os caminhos até ao malfadado restaurante e lá estavam passaporte e bilhete, o empregado inquieto talvez pensasse que nos ia ter de aturar outra vez, fugiu para trás do balcão por onde espreitava como um coelhinho assustado. Eu fui para a praça  do mercado comer um hambúrguer e ver a festa que os alemães estavam a fazer, à nossa Golo da Alemanhacusta, cabrões! Uma ucraniana acerca-se de mim e pergunta: “Sorry, you from Portugal?” Apeteceu-me responder mal e dizer que era das Ilhas Comores ou do Nepal mas ela estava tão sorridente e emanava tanta simpatia que não consegui fazê-lo e disse a verdade. Ela quase que explode de alegria e excitação e dispara uma série de perguntas, se gosto de Lviv, como é que eu estou a ver a organização ucraniana do certame, o que foi que eu visitei até agora, impressões, enfim. O namorado (ou amigo dela) quase que me obriga a beber uma vodca com ele, eu delicadamente recuso com “spasibo” consecutivos porque ainda tenho de conduzir de volta para Cracóvia, a minha nova amiga de Lviv levanta-lhe a voz e ele desiste. Ela continua com perguntas e eu respondo à medida que a paciência permite, sinto-me como uma ave rara, um animal exótico. Um ucraniano que fala espanhol e polaco oferece dormida num apartamento recém-renovado, falamos em polaco e ele surpreende-se com o meu nível, dá-me murros de contente “kurwa, ja ty dobrzy mówisz po polsku, ja jebie!” e prega-me outra punhada, estranha forma esta de se mostrar amistoso. Passa o Tiago Teejay, o manhoso aproveitou que ia ver o jogo e marcou uma atuação numa discoteca da cidade. Bem trabalhado.

Os munines comem os hambúrgueres de forma pastosa, o ucraniano continua a dar-me socos, a miúda de Lviv metralha perguntas, os alemães cantam cada vez mais alto, a chuva volta.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Crónicas de Lviv - 4

Escudo de Lviv A estrada para Lviv é um consolo, uma via rápida larga e lisa, sem buracos nem remendos, um bálsamo para a suspensão do carro e para as costas dos passageiros. 70km naquelas condições fazem-se bem, até se pode puxar um bocadinho pelos cavalos para compensar o atraso na Polónia e na fronteira. O caminho é feito por prados delimitados por árvores longínquas e riachos tranquilos, viaja-se com tranquilidade e pela primeira vez desde há muitas horas os munines sentem-se mais calmos, abrem as janelas para deixar o ar fresco lavar o ambiente, não resmungam e até gozam a paisagem eslava, cenário que não existe no Algarve. "Já imaginaram que daqui a quatro meses isto vai estar com um palmo de neve?" atiro eu para quebrar o gelo. Todos concordam a meia voz, estão mais calmos mas não totalmente, precisamos acelerar para evitar percalços.

Passamos por uma aldeia, pobre como todas aquelas pelas quais passaremos no caminho. Crianças de 5, 6, 8 anos estão à beira da estrada e acenam bandeirinhas da Ucrânia gritando à nossa passagem, nós respondemos buzinando e mostrando cachecóis e bandeiras deLviv - O Mercado Portugal, bonito de se ver. Outra aldeia e mais crianças, mais bandeirinhas, cumprimentos e acenos, buzinadelas e gritos por Portugal. Um velhinho está entre as criancinhas no passeio da estrada e ergue dois braços unidos em cima da cabeça pelas mãos, vê-lo trouxe-me uma ideia terrível, como se ele vitoriasse e agradecesse a nossa chegada, como se nós o viéssemos libertar, como se lhe trouxéssemos esperança. Passa um senhor numa bicicleta ferrugenta, roupas modestas mas a mesma simpatia no aceno e no sorriso. Os muninos apaudem divertidos, eu buzino e tento vislumbrar o horror da história recente nos gestos desta gente, pessoas humildes mas ricas de simpatia e hospitalidade, recebem o turista com prazer, não parecem desconfiados nem reservados, pelo contrário. As aldeias sucedem-se e os nomes estranhos também, coisas escritas em cirílico como Новояворіськ, Івано-Франкове, Підрясне e por fim Львів – Lviv

Lviv entrada Chegamos a Lviv, aqui moram mais de 750.000 pessoas e dizem dela que é a melhor cidade ucraniana para se viver, segundo uma publicação da Focus de 2009. Considera-se Lviv a cidade mais bonita da Ucrânia. Se é verdade, então eu não quero conhecer as outras. A entrada ocidental de Lviv pela M10, a via que nos trouxe, dá-nos a conhecer uma cidade envelhecida, degradada, triste e depressiva. Prédios de cinco e seis andares com reboco a cair cujos tijolos estão à vista e à disposição das alterações climáticas, as varandas perderam parte do cimento e ficam com as grades à mostra como gengivas atacadas de escorbuto, mato a crescer no passeio, uma tristeza. A rua Shevchenka, apelido célebre neste país, é uma artéria estragada pelo abandono dos responsáveis e governantes, pela falta de alocação de verbas para a renovação das rodovias, dá uma péssima imagem ao visitante. Piso irregular de paralelipípedos que castigam a suspensão do A180, piso que sobe no carril do elétrico e desce no restante da traça, eu sem saber por onde conduzir e o Fava que manda “vai sempre em frente, puto. Sempre em frente”, ele promovido a navegador uma vez que o meu GPS só me ajudou até à fronteira. O carro pulava nervosamente naquele trilho de bestas, roçava, raspava e chorava, eu chorava com ele, cada golpe no carril, cada depressão no terreno, cada murro na suspensão eram também sentidos por mim. O Fava grita “vira agora à esquerda”, eu abrando e pergunto-lhe “mas como?”

O entroncamento não tinha semáforos, não tinha faixas pintadas no chão, circulavam quantos carros coubessem mais os autocarros e as linhas se elétrico que por ali se cruzavam. Nasciam automóveis de todas as direções e sem a mínima noção de ordem ou regra, as pessoas toureavam os elétricos para passarem para o passeio oposto. Quem já conduziu no Arco do Triunfo em Paris que eleve a sensação ao cubo. Buzinavam-me para que avançasse mas eu não via frestas, um motorista menos paciente ultrapassa-me pelo lado onde eu pensava que estava umLviv caminho para o centro autocarro e não coubesse mais nada. Fecho os olhos, mordos os lábios, murmuro um “perdoa-me, cavalinho” e enfio-me no redemoinho de carris, pedras e trânsito. O carro salta, guincha, escoiceia mas sobrevive à tortura, nem um risco (por fora porque por baixo devia estar em carne viva). No semáforo seguinte encontrámos o bar onde supostamente estava malta de Faro e por milagre, dez metros à frente, um lugar para estacionar certamente criado pelos deuses do automóvel que tiveram misericórdia do meu carrinho e guardaram aquele benzido espaço para que ele descansasse e lambesse as feridas.

Saímos do carro, o ar estava húmido e doce. O Dani já tinha estacionado mais atrás, eu olho para o carro e peço-lhe desculpas, ele não me quer ouvir, diz para eu me ir embora. Assim faço. Temos duas horas para o jogo começar e ainda temos de arranjar um lugar para comer.

No bar já não há ninguém de Faro, só alemães. Ao virar a esquina olho de novo para o meu carro e quase que jurava que o ouvi soluçar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Crónicas de Lviv – 3

Lviv! O carro quase que nem arrefeceu e deve ter acordado assarampantado com a pressa, ele que pouco habituado está a estas corridas - passa 4/5 dias por semana a dormir na garagem. “Lá vêm os gajos outra vez” pensou. Os mesmos gajos que o fatigaram no dia anterior já lhe estavam a abrir portas e a enfiarem-lhe coisas no porta-bagagens estava ele sossegado a dormir, isto pouco passava das 10:00. Nem os bons-dias lhe disseram e já tinha outra longa estrada para engolir, esta ainda mais aborrecida que a anterior, a estrada de Cracóvia para a fronteira com a Ucrânia. Ainda por cima a rapaziada não estava na melhor das formas, o Giga mal dormido, o Fava com o chassi ainda amolgado das escalas aéreas do dia anterior, o Rui com as pernas amarrotadas de ter estado no banco de trás do carro, o Xavier e o Pimpão porque partilharam o quarto com duas canadianas - nunca se soube o que aconteceu, talvez nunca se saberá - e eu ainda ligado à corrente depois da despertina de Red Bull e trompetes. O Dani encolheu-se à meia-noite e por isso estava fresquinho a contrastar com o bolor dos outros companheiros de viagem. Era este o estado do plantel quando se lançaram ao caminho.

A paisagem é diferente das planícies da Mazóvia, agora é mais feita de rios e montes, casinhas aninhadas nas encostas e bosques frondosos a  ladear a estrada estreita que ginga pelos sopés. É escusado recordar o martírio que é circular nestes caminhos claramente impreparados para o caudal de turistas da bola que rolava em si. Radares, semáforos, camiões, pavimento em mau estado, curvas apertadas, tudo o que possa protelar o trânsito foi cuidadosamente colocado naquela estrada. O computador de bordo do carro indicava uma velocidade média de 53km/h, andávamos a pisar ovos e o Giga começa a enervar-se, "Foda-se pá! Vamos chegar atrasados! Eu já sabia, devíamos ter saído às 8 ou às 9!", a eterna mania de querer uma noSubcarpácia papo e duas no saco ou a vontade de aproveitar a noite de Cracóvia até à última e ao mesmo tempo arrancar para Lviv pela fresquinha. O Fava finalmente aborrece-se e manda um par de gritos para o Giga se calar, o Rui continua amarfanhado no banco de trás sem tugir nem mugir, eu bebo um golo de água enquanto faço os meus cálculos, mais 50km até Rzeszów onde vamos apanhar um casal amigo, dali 85km até à fronteira e a partir daí o GPS não ajuda. Tento tranquilizar as hostes, que temos vagar mas a passagem por mais uma vila, Jarosław, desespera de vez o Gegante, 1,90 e 90 e tal quilos de impertinência no lugar da frente, já vai contagiando as pessoas e até eu começo a fazer contas se sumir em vez de somar. Apanhamos um funeral, mau sinal para as minhas fés, mas a seguir um casamento, o que neutraliza o mau presságio. Livramo-nos da vila, caminho livre até à capital da Subcarpácia onde recolhemos o tal casal, ele vestido à português e ela com uma camisola... alemã. O Fava dá um salto, "Moss, mas a gente vai levar inimigos para o jogo? Essa gaja fica já aqui, que merda é essa?!" Eu respondo que eles ajudam no orçamento da gasosa e a fera amansa. No outro carro, o Pimpão conta que desejou boa sorte aos noivos do tal casamento e eles meteram-lhe uma garrafa de vodca pela janela do carro, Wyborowa, foi o rir. Tudo bem, vamos lá para a Ucrânia de vez.

Trânsito na fronteira Finalmente estrada limpa de trânsito mas sem grandes velocidades devido às patrulhas pelo caminho, a 1km da fronteira vê-se uma fila imensa de carros, imóveis, pessoas fora dos carros a comer e a fumar. O Giga, a tensão quase a 22/13, inquieta-se e já não tem posição no banco da frente, aproximamo-nos da fila e vemos indicações para um corredor criada especialmente para os possuidores de bilhetes do Euro2012. Um guarda fronteiriço polaco pergunta: “Match?” e dá-nos uma credencial para passarmos à frente daquela manada toda, a temperatura dentro do carro arrefece um pouco. Alguns metros à frente, o controlo ucraniano, uma guarda de cabelo moreno apanhado atrás, farda militar, chapéu de polícia com uma pala de um palmo de altura, olhos escuros e sérios cravados num rosto esteticamente perfeito mas sem expressão, estica o braço e ordena rispidamente: “Passports! Papier auta!” enquanto verifica a matrícula do carro e rabisca um talão que há-de me dar mais tarde. O Rui abre a boca pela primeira vez em 6 horas: “Oi, a gaja é gira” e eu provoco: ”Metes-te com esta gente e vais para o calabouço passar uma semana a pão e laranjas” A malta ri, estamos bem dispostos mas os passaportes não voltam. Passam-se cinco, dez, quinze minutos e já estamos fora do carro a esticar as canetas. O Fava tem a infeliz ideia de tirar fotografias ao posto fronteiriço: “Bora lá, maltinha! Junta aí para a primeira foto na Ucrânia”Ucrânia mas logo surge um fiscal expedito a reprovar a ação: ”Niet! Foto niet!”. É óbvio, estamos num local de extrema importância estratégica e as fotografias não são autorizadas. Mais um cigarro, o Dani precisa de pôr gasolina mas ouviu dizer que não se deve usar a primeira bomba depois da fronteira porque o combustíve é de má qualidade, mais uma das muitas coisas que se ouviu da Ucrânia, a terra de todos os medos e mistérios. A guarda volta com os passaportes, diz qualquer coisa em ucraniano que podia ser um elogio ao meu penteado ou que eu cheirava mal da boca mas despede-se com um “Good luck” e um sorriso que limpou o céu e a nossa mente de todo o tipo de nuvens e preocupações. Aquele sorriso iria iluminar o nosso caminho para Lviv, a viagem e a estadia iam correr bem, a vitória seria nossa, força Portugal!, que os munines já entraram na Ucrânia.