sábado, 16 de março de 2013

República Católica da Polónia

Quanto mais perto da Igreja mais longe de Deus

 Lancelot Andrewes, bispo inglês


Francisco I Falar com a Kasia é sempre um prazer, rapariga inteligente e objetiva, daquelas pessoas com as quais aprendemos coisas e que por esse motivo dá gosto conversar com elas. Há muito que os nossos encontros ultrapassaram a fasquia da aula convencional de textos, gramática e exercícios. Falamos de tudo e mais alguma coisa, pisamos terrenos perigosos ao falar de temas mais sensíveis, rimos dos ridículos da Polónia e de Portugal, trocamos algumas impressões sobre temas mais pessoais, maldizemos quem temos de maldizer, louvamos quem seja digno de ser louvado, aconselhamo-nos leituras e escritores e no fim de cada um desses encontros saímos mais enriquecidos, ela com mais vocabulário e informação sobre a cultura e o pensar português e eu porque aprendi imenso sobre a história e personalidade deste povo. Contudo tanto eu como a Kasia temos um problema, uma pedra no sapato que nos impede de caminhar livremente nas ruas polacas: somos ateus.

Nos meus primórdios polacos senti na pele uma subtil mas muito presente tentativa de conversão ao catolicismo, pontuais viagens às igrejas mais próximas, uma xaropada violentíssima de duas horas (de pé) por alturas da Páscoa na cerimónia da bênção dos alimentos, um frustrado ensaio de me arrancar da cama para ir a uma missa dominical às 6:00 (aí eu ia perdendo a cabeça e quase que ofendi as pessoas) e uma (cada vez menos) discreta abordagem ao tema casamento mesmo que eu ainda não tivesse decidido se queria permanecer na Polónia a longo prazo. A maneira tradicionalista de ser neste país é consequência duma influência profunda da Igreja Católica nos setores mais primários da sociedade polaca, o tecido social com menos (in)formação está totalmente moldado pelos ditames duma organização tão poderosa que nem o Vaticano se atreve a meter o bedelho. Muito se tem escrito sobre esse peso, uma mão que conduz o rebanho quase como Kim Jong-un dirige o cardume obediente de 22 milhões de norte-coreanos que compõem a sua nação, um ditame severo que literalmente decide o que é errado e o que está certo, uma voz que diariamente avisa os ouvintes sobre os alegados inimigos da pátria polaca, inimigos esses que até no seio do seu próprio parlamento se encontram. A Igreja Católica tem braços políticos (o partido PiS) e nos media da Polónia (jornais, estações de rádio e canais de televisão) e controla os seus apaniguados por esses intermédios condicionando a informação e debitando uma quantidade absurda de lixo político nos canais de comunicação, sendo a infindável e irritante novela sobre as conspirações no acidente de Smoleńsk e a hilariante ideia de querer decretar Maria, mãe de Jesus, rainha da Polónia os expoentes máximos da sua paranóia.

Ilustrativo da daninha pressão que a Igreja faz na Polónia é o triste caso que se deu na página Wikipedia do novo papa Francisco I onde constava um capítulo referente às acusações de que Jorge Bergoglio terá colaborado com a regime autoritário militar vigente no seu país em 1976, um caso que levantou alguma polémica mas cujos elementos não são suficientes para se emitir opinião. Não fosse o Diabo tecê-las, alguém com poderes de edição na versão polaca da Wikipedia encarregou-se de apagar essa informação menos abonatória sobre o passado do ocupante da cadeira de S. Pedro mal a sua nomeação como líder da Igreja Católica foi divulgada para que o sumo pontífice não tenha a sua imagem afetada perante os crédulos e fieis seguidores da sua palavra. É um pouco triste que tal suceda, que muito do povo polaco seja manipulado por interesses claros e evidentes, talvez tão claros que encandeiam o rebanho deixando-os incapazes de pensar por si mesmos. Entretanto as linhas sobre a eventual cooperação do novo papa com a Junta Militar foram repostas no website, mas da péssima impressão que o incidente causou já ninguém se livra. Apetece dizer "Deus nos livre do PiS ganhar uma eleição outra vez".

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sono

Rua Krakowskie PrzedmieścieÉ mais uma segunda-feira e a oportunidade de fazermos o que não fizemos na semana anterior, de corrigir os erros cometidos ou de arranjar novos erros para cometer. Tal como a maioria das pessoas, não nutro especial carinho pela segunda-feira, não a acolho com particular entusiasmo nem a rechaço com antipatia. A segunda-feira vem como vêm todos os males da vida como a falta de vista, as dores de coluna ou as declarações públicas de Jorge Jesus, há que saber conviver com as coisas que são inevitáveis ou que não controlamos e ter a consciência de que elas não mudam por muito que queiramos. A segunda-feira é uma dessas coisas.

Tive de dobrar a cerviz e anuir à barbárie de me darem trabalhos logo às 8:00, uma altura do dia (da semana, da vida) em que escassas são as funções no meu organismo que estão em desempenho aceitável se excetuarmos aquelas consagradas à satisfação de necessidades primárias porque essas não carecem de vontade incutida para se cumprirem. Adiante que é para não avacalhar o texto. Lá tive de começar a dar ao stick às oito da matina porque a vida não se compadece com caprichos, a semana a ter início a umas obscenas 6:15, uma hora a que só me levantava para fazer xixi. "Só te faz é bem!" dirão os mais prosaicos, "pobre mocinho" pensarão os condescendentes, o bom do vosso blogueiro não tem outro remédio do que abandonar o leito quando o relógio bate à hora determinada e enfrentar o boi da vida com os olhos fixos nos cornos sendo que no inverno a tarefa é mais difícil devido às cornadas de frio ártico e escuridão e aos pios feios e mecânicos dos corvos e gralhas que me esventram os flancos, um acompanhamento perfeitamente dispensável que acrescenta dificuldade a uma vivência já de si árdua. Esta nova experiência tem-se revelado complicada devido às circunstâncias acima explicadas mas igualmente em virtude dum grande apego à cama transmitido pelos genes da família materna, nomeadamente pelo avô que era grande amigo de dormir e que passou esse gosto à filha, minha mãe, especialista em sonos recordes de 10 e 11 horas que por sua vez me transferiu tal afeição. Pode o leitor já imaginar o ferro que me trespassa as vísceras quando o maldito alarme ordena a minha alvorada, perscrutar o pátio para encontrar um centímetro quadrado sem neve que dê fôlego a uma manhã gelada, esquadrinhar o céu na esperança de apanhar um fio de sol que eu possa segurar como uma criança segura no balão que a faz sorrir e imaginar viagens a terras de águas de cristal e dunas cor de trigo.

Esta foi uma dessas segundas duras de roer e não apenas para a minha mediterrânica pessoa porque muitos polacos me confessaram que também sentiam a moleza atacar-lhes o apetite para a vida numa manhã que até correu tranquila e divertida mas que foi substituída por um pesadíssimo saco de sono 20130311_160638que me caiu em cima depois das 13:00, fiquei molangueirão de tal maneira que não consegui conter o largo bocejo que tomou conta do meu rosto durante o resto do dia de trabalho até às 20:00, altura em que recolhi as fichas e bati a asa para casa não sem que antes ainda demorasse uma dezena de minutos a raspar a neve do pára-brisas e da capota e mais uma pausa no caminho para alimentar o carro a gasóleo. Voltei para casa arrastando um passo lento e custoso, sentei-me em frente ao computador batendo indolentemente este texto e agora que o concluí sinto um espasmo de felicidade a percorrer-me a espinha, não por me ter visto livre da companhia do meu amigo que está aí desse lado mas porque finalmente posso entregar este maço de ossos ao misericordioso Hipnos para que ele o restaure e para que consiga estar em condições de se erguer… daqui a seis horas e meia.

Eu também devo ser um bocado parvo, em vez de ir dormir ando aqui a escrever sobre o sono que tenho.

segunda-feira, 4 de março de 2013

As relações dos meus clubes verdibrancos com o papado

1977 – O Betis ganha a Taça do Rei e João Paulo I morre;

1982 – João Paulo II visita Portugal e o Sporting é campeão;

2000 – João Paulo II visita Portugal e o Sporting é campeão;

2005 – O Betis ganha a Taça do Rei, vai à Champions League e João Paulo II morre;

2013 – O Betis luta para ir à Champions League e Bento XVI resigna ao seu papado antes que os andaluzes se qualifiquem e que ele tenha de ir de saco.

Factos são factos, Ratzinger tem medo de morrer.

A partir de agora é assim!

Manda a condição de sportinguista que apoie o Sporting Clube de Portugal e que fique satisfeito com os inêxitos dos rivais, condição essa com a qual não concordo na totalidade pois a minha praia é o Sporting e estou-me nas tintas se os outros ganham ou perdem. Ultimamente e se tiver mesmo mesmo mas mesmo de escolher prefiro que ganhe o FC Porto. Melhor dizendo, preferia. Um sportinguista que se preze reconhece no slb o seu ancestral arquirrival, pode ter amigos benfiquistas mas não se mistura com eles quando o tema é futebol, quer que o slb perca porque sim, porque está no ADN sportinguista o contentamento com as derrotas encarnadas, a miséria do clube de Carnide é motivo de regozijo no Lumiar, sempre assim foi e sempre há-de ser. Porém, este vosso sportinguista vai alinhar noutra corrente e começar a preferir as glórias do "Glórias" às do Porto. Passo a explicar porquê.

Nos últimos 25 anos temos assistido à elevação do FC Porto como potência maior do futebol português, sucessivos triunfos nas competições nacionais e conquistas internacionais guindaram os portistas ao patamar superior da bola nacional, um feito que se deve à ação obstinada de Pinto da Costa que não teve pejo em tornar público o seu objetivo enquanto líder do clube das Antas: Ultrapassar o slb em número de campeonatos conquistados durante o seu mandato. Objetivo ambicioso, complicado mas possível de se atingir aos olhos do presidente portista. No entanto havia uma entidade a obstaculizar esta cruzada, um clube que não tinha mais campeonatos que o slb mas tinha mais títulos que o FC Porto - O Sporting. Então a estratégia foi delineada, eliminar o obstáculo que se interpunha no caminho, um pouco como Hitler quis fazer a Varsóvia, cidade que incomodamente se colocava entre Berlim e Moscovo atrapalhando os planos nazis de construir um corredor entre a capital germânica e a metrópole russa. O Sporting passou então a sofrer na pele os efeitos nefastos dum plano maquiavélico que, mesmo que não tivesse sido concebido para o afetar diretamente, implicavam a anulação do seu valor enquanto potência futebolística, coisa que até nem era muito difícil de conseguir porque o Sporting não tem a massa adepta do rival encarnado, não tem o poder de mobilização, não tem o histórico nem tem a base de apoio de que o slb dispõe e com uma ou duas décadas de sequeiro dissolve-se o tecido adepto, ninguém vai querer ser do Sporting e é menos um clube no caminho.

O plano era para ser cumprido doesse a quem doesse e o modus-operandi era claro e estava à vista até dos menos atentos. Tráfico de influências, coação, compra de resultados, trocas de favores, putas e viagens pagas a árbitros, toda uma teia escura de ilegalidades e crimes que se cometeram para conseguir três pontos (antes dois pontos) ao domingo. Os penaltis inexistentes, os erros obscenos, as arbitragens escandalosas, os Calheiros, Martins dos Santos, Donatos Ramos, Jacintos Paixões, Graças Olivas, Josés Pratas, Augustos Duartes, Paulos Paratys, Isidoros Rodrigues, Paulos Costas, a trupe obediente e submissa que construiram um império de campeonatos sujos à custa do suor empregue pelos adversários que entravam em campo com as regras previamente subvertidas a seu desfavor, jogando contra 13 e 14, sem hipóteses de se baterem de igual para igual. O futebol enquanto jogo estava sempre viciado em desafios em que o FC Porto participasse, sempre! É impossível enumerar os jogos em que o Porto foi clara e despudoradamente beneficiado, é impossível inventariar a quantidade de pontos amealhados de forma ilícita, com juízes condicionados que adulteraram a verdade desportiva sucessivamente e durante anos.

O FC Porto é um clube que fundamenta os seus princípios desportivos na batota e no total desrespeito pelas regras do jogo, é um clube de gente criminosa, mafiosa, perigosa. É um clube que despeja creolina nos balneários do adversário para o inferiorizar, que coloca um Guarda Abel em posição estratégica para coagir o oponente, que tem um chefe de claque que anda de Porsche e está registado como desempregado, que compra resultados, que vicia as regras, que só não é punido (como a Juventus) porque Portugal é um país de gente aparvalhada e incapaz de dar um coice na injustiça. O FC Porto é um clube reconhecidamente trapaceiro que foi (ridiculamente) condenado, e o seu presidente, por corrupção desportiva. A sua batota impune e zombeteira, oportunamente identificada e denominada por Dias da Cunha como "O Sistema", contribuiu para o empobrecimento do meu Sporting, muito mais do que a palhacice idiota dos vizinhos da Norton de Matos, esses mais dignos de dó do que de ódio.

E por isso, caríssimos amigos, afirmo para quem quiser ouvir que se o Sporting não puder ser campeão ou ganhar os troféus que disputa, que os ganhe o slb. Eu sou uma pessoa com alguns princípios, levanto-me de madrugada para ganhar a vida de maneira séria e honesta e não posso tolerar que os batoteiros ganhem e saiam a rir de todos, fazendo pouco daqueles que se aplicam e transpiram na nobreza do seu trabalho, muito menos posso apoiar esse comportamento. Que ganhem os encarnados, então. São foleiros mas não são batoteiros.

PS - Cada vez que me lembro que estive por uma unha negra de limpar o sebo ao Pinto da Costa aqui em Varsóvia...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

De um fim de manhã difícil de adjetivar


Já dizia Miguel Esteves Cardoso que os períodos assim-assim são os mais difíceis de suportar, não têm o épico dos grandes momentos nem a profundeza histórica das tragédias funestas, são tempos cinzentos, baços, discretos dos quais nada digno de realce há a apontar. Corre agora um rio de tempos assim, de caudal manso e pardo tal como o céu de Varsóvia, cinza e bisonho que não é pão nem bolo, não é céu de inverno porque esse até é mais limpo nem é céu de primavera porque não despeja sol na cidade. Antes tapa-a com um lenço grosso de fraqueza como se abafasse as pessoas privando-as de ar e de vontade, deixando-as apagadas e sem chama. É o devir deste inexorável clima, chupa todo o sangue e a alma das gentes até que estas se transformem em ambulantes sacos de ossos e pele que vagueiam pelas ruas em piloto automático. Os novos combatem este estado de coisas com telemóveis conectados a amigos e redes sociais, palram combinando encontros ou comentam publicações, outros fumam violentamente enquanto sobem as cruéis escadarias da rua Obożna. Os meões de idade, ou quase meão no meu caso, andam no fio da navalha arriscando a queda na depressão se não reagem categoricamente ao estado de moleza que o tempo impõe, a disputa entre querer voltar para casa e o aborrecimento depois de ter lá chegado consome a maior fatia do tempo livre e não é aconselhável martelar muito sobre o tema.

Já houve algumas manifestações a uns extemporâneos raios de sol aqui há um par de dias, cantaram-se logo odes à primavera e ao bom tempo que já aí vem e vitoriando o soalheiro fim de semana que se prevê. Contentam-se com pouco, penso eu com a experiência de uma trintena e pouco de anos passados a curtir a pele ao sol algarvio, compreendendo a euforia algo desmedida mas pondo água na fervura ao olhar para o calendário. As folhas estão em fevereiro e a norma diz que este é um dos meses mais frios do ano, excecionalmente passamos mais de metade do mês acima de zero graus, não neva desde não me lembro quando, mas isso não significa que já se pode tirar as sacas de carvão da dispensa e preparar os churrascos típicos do advento primaveril, recordo-me muito bem de não muito pretéritas tardes de abril em que a primavera já era adulta e eu ainda apanhava com flocos de neves nas ventas, por isso tenho modero sempre o otimismo quando espreita o sol apesar de em meu redor as pessoas já andarem frenéticas.

O inverno não tem sido mau, não temos tido aquelas noites polares de -20º C que congelam a cartilagem da orelha e acho que só por uma meia-dúzia de vezes usei cachecol. As ceroulas só foram ponderadas uma vez, dormi sempre de cobertor escusando o edredão de penas a trabalhos forçados, não está a ser dos invernos mais rigorosos que passei. Mesmo assim, acho que prefiro esses dias de barbeiro do que os dias que correm em que nada há de bom nem de mau. Antes pelo contrário.

PS – Quer dizer, até houve. Houve um chocolate tático que Mourinho deu em Nou Camp. Há pessoas – portugueses, digo – que insistem em minorar os feitos de José Mourinho e Cristiano Ronaldo. Esses cegos, para não lhes chamar estúpidos, não devem (ou são mentecaptos o suficiente para não conseguirem) compreender que estes nossos dois compatriotas devem ser os únicos agentes com dimensão global que contrariam a imagem internacionalmente acolhida de que Portugal é uma terra de corruptos, incompetentes e preguiçosos. Mourinho e Ronaldo são embaixadores mundiais do talento português, da qualidade portuguesa e do saber português. Tapar estas virtudes com ninharias de “o Cristiano é vaidoso” ou “o Mourinho é arrogante” é de uma tacanhez e de uma infelicidade de espírito indescritível, particularidades das quais o meu país está infelizmente a abarrotar. Tomara eu que tivéssemos Mourinhos e Cristianos no Parlamento...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Fundamentalismos alimentício-culturais

chá com leite Naqueles horríveis dias que passei em Paris, das poucas coisas que me consolaram foi o pequeno-almoço do hotel, não que fosse algo distinto, mas era abundante em termos de pães e doces, croissants e charcutarias, tinha uma gama interessante de sumos de fruta e leite e café com fartura. Fazia dessa refeição a mais importante e mais dilatada porque era boa e grátis, o custo de vida em Paris é uma loucura para a carteira de um professor de línguas radicado em Varsóvia, mesmo que os “restôs” que frequentasse estivessem situados no setentrional 18º bairro parisiense que começa na Porte de Clignancourt e se estende sombriamente para sul até surgirem pontos de interesse como o Moulin Rouge, casa onde me pediram dezasseis contos de réis de entrada quando eu trabalhava no parque então denominado EuroDisney, idos de 1993, ou a Basílica do Sacré-Cœur de onde se pode ter uma vista mais abrangente da capital francesa da qual se destaca o mamarracho Montparnasse, considerado o segundo edifício mais feio do mundo. Então, vamos lá conversar sobre esse pequeno-almoço.

Não posso deixar de frisar o quão mau foi para mim passar seis dias de clausura em Paris, terra que acalenta o sonho de muita gente, a cidade do amor, da luz, das baguettes, do raio que parta os franceses, povo mais chato, arrogante e presunçoso que tem uma língua gay irritantemente cheias de “õs” e “ãs” e uma seleção de futebol cujos títulos ganhos deve-os a imigrantes de primeira e segunda geração. Nada na França me cativa (só talvez a Disneyland Paris mas o parque de francês não tem nada) e de cada vez que atravessei o país de De Gaulle cheirei sempre sarilhos. A autoestrada é caríssima, o combustível também, se abdicarmos da autoestrada viajamos por uma paisagem que não tem nada de interessante tirando a pausa que fiz em St Jean de Luz na última viagem, nem a cuisine francesa me seduz, tendências modernas de doses pequenas não satisfazem o paladar dum raspa-tachos como eu habituado às consistentes sopas da minha avó. O pequeno-almoço francês também obedece a uma regra elementar que eu ignorava até ter vivido esta minha malfadada aventura gaulesa: o croissant só se come com coisas doces.

De faca cheia de manteiga na mão, preparava-me para barrar uma das metades do croissant quando fui advertido: “Alto! Que vais fazer?” Pensava que tinha escolhido mal o talher, olhei em volta para confirmar a certeza da opção e encolhi os ombros enquanto dizia que “vou comer. Não posso?”

- Mas vais comer o quê? O croissant com manteiga?

- Não só com manteiga, vou comê-lo com fiambre também.

- Não, não, não! Os croissants não se comem assim, comem-se com geleias, compotas, coisas doces. Isso é profanar o croissant!

- Mas qual é o mal de comer o croissant com fiambre? Em Portugal come-se assim tal como se come com salsicha, com ovos moles e amêndoa, com queijo, com...cerveja com xarope de amora

- Basta! O croissant come-se com doce! Se não o queres comer assim não o comas de todo, pelo menos à minha frente.

Decidi não alimentar ódios e desisti da ideia inicial ficando, no entanto, com aquela demonstração de fundamentalismo alimentar a remoer a moleirinha. Meses mais tarde, em conversa com um polaco, falávamos de povos bebedores de café (como o povo português) e bebedores de chá (como o polaco) e ele pergunta-me assim: “E tu, Nuno? Bebes chá com leite ou sem?”. Eu que só toco numa chávena de chá quando sou atacado por febres que o paracetamol não vence respondi decidido que “eu não bebo chá. Não é que não goste mas não tenho esse hábito”. O meu interlocutor voltou à carga: “Mas quando bebes, é com leite ou sem?”. Resolvi saciar-lhe o desejo receando que o interrogatório se perpetuasse e “epá... se calhar com um bocadinho de leite”. Rebentou a guerra.

- Mas como com leite?! Isso dá cabo do chá, fica o chá a saber a água suja. Não podes beber chá com leite.

- Está bem, calma. Assim como assim, eu não percebo nada de chá. Não sei qual é a diferença entre um Darjeeling e um Earl Grey, para mim é igual ao litro.

- Mas não bebas o chá com leite, isso é inaceitável.

Mais uma vez calei-me. De chá não percebo nada – haverá algarvios que bebam chá? - e qualquer polaco me dá 10-0 no tema. Entretanto a conversa derivou para outros temas mais mundanos e universais, parte daquilo a que eu designo como o meu mester, e o tópico mudou-se para cerveja, marcas, acompanhamentos, fermentações, graduações, com ou sem xarope... e aí atirei-me eu: “O quê?! Cerveja com xarope? Explica-me lá essa”. O polaco com que eu estava a falar acusou o toque, percebeu onde eu queria chegar e começou numa voz atabalhoada:

- Sabes? Às vezes apetece uma cerveja mas não apetece saborear a cerveja porque ela é amarga, desagradável, então juntamos um pouco de xarope de amora ou de gengibre para ficar mais docinha.

- Pela minha rica saúde! Vocês juntam xarope à cerveja porque não gostam do sabor da cerveja?

- Sim, é um pouco isso.

- Então não peçam cerveja! Peçam outra coisa qualquer, peçam uma Fanta ou uma 7up.

- Mas a cerveja mata a sede, só que é amarga.

- Vai-te encher de moscas! Vocês empurram pepinos azedos com shots de vodca, uma combinação que quase faz andar motores diesel, espetam com couve semi-apodrecida em todos os pratos típicos, bebem kefir que é um veneno para curar a ressaca, besuntam-se com pasta de rábano que é uma coisa que faz faíscas nos dentes e dizes que a cerveja é amarga? Pelo amor da minha santa mãezinha...

Foi o fim do tema. O meu amigo polaco ficou sem maneira de explicar tal incoerência de forma convincente, porque é que não se pode beber chá com leite mas pode-se beber cerveja com xarope - eu nem quis mencionar o pormenor hiperabichanado de alguns homens beberem-na de palhinha -, e eu decidi que sempre que tiver ou quiser beber chá fá-lo-ei com um farrapo de leite. Mas ele que não me apareça com uma imperial cor-de-rosa que leva logo com um gato fedorento pelos beiços!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Hiato

Polónia Antiga Um escrito famoso disse em tempos que o objeto mais precioso para ele era a borracha. Não o lápis com o qual ele rascunhava as ideias e os pensamentos, não a caneta de que se servia para perpetuar esses elementos de escrita, mas a borracha que se ocupava de apagar as palavras mal medidas ou os pensamentos mais descompostos. Se a borracha é o instrumento mais valioso para um escritor então a tecla DELETE deve ser o equivalente para um bloguista.

Acredite que é com pena que não escrevo com mais frequência e às vezes penso na falta de consideração para com o leitor, deixá-lo à espera de novidades ou de um artigo que o entretenha. Mas escrever sobre o quê?

- Sobre a tua vida na Polónia, cretino! Como pode um país assim tão diferente do teu cessar de dar motivos para se escrever?

Realmente, este terra é um manancial de temas que nunca mais acaba, quase todos os dias sucedem coisas que nunca hão-de acontecer em Portugal ou em qualquer outra nação do ocidente europeu, como a nova lei das faturas e vendas a dinheiro que obriga cada contribuinte a manter em seu poder durante cinco anos, não sendo importante se se trata do recibo de compra dum plasma de 70 polegadas ou de uma imperial e um pires de arenque em vinagre ou a Kolęda, a visita que cada padre faz ao seu rebanho por alturas do Natal e que me deixa sempre no dilema entre ser bem-educado e convidá-lo a entrar mesmo que eu já saiba que as minhas respostas às perguntas do pároco irão cada vez mais abrir-lhe a boca, não de fome porque durante a kolęda os curas são opiparamente alimentados pelos fiéis desejosos de lhes contar relatos e provas de quão praticantes são, despejando talhadas de fiambres e outras charcutarias pela eclesiástica goela abaixo numa tentativa de comprar a simpatia do Criador através da satisfação gástrica do seu representante, mas de pasmo por ter diante de si um ser atlântico quase quarentão que renega divindades, não lhe apresenta bandejas de carnes frias nem cestas de frutas frescas, muito menos um licorzinho de bagas silvestres destilado num alambique caseiro, portanto ilegal, ao qual o sacerdote não se nega mesmo que seja contra os cânones do clero, não lhe canta loas nem lhe fala da velha e relha estória do casamento e procriação.

Os tempos aqui são de repriorização de objetivos, restabelecimento de metas e redefinição de focos de ação. 2013 começou com novidades inesperadas que obrigaram a embaralhar as cartas e dá-las de novo, por isso a atenção tem estado mais voltada para as questões de índole laboral porque essas é que me fazem comprar melões, um homem pode sobreviver com muita trampa mas não pode fazê-lo sem trabalho e enquanto a faísca da saúde não me faltar tem de ser por esse diapasão que afino.

Por isso e por outros motivos que não vale a pena trazer à colação, peço-lhe, leitor, um bocadinho de paciência. Tenho uma amiga que me explicou esta falta de tema, comparou-a à crise do Sporting, que os grandes também passam mal mas que inevitavelmente renascem das cinzas como fénixes e que eu só tinha de esperar. Assim como outro grande escritor definiu numa obra sua a origem dos melhores livros: Esperar que venha uma ideia, não forçar mas esperar, e se ela não vier espera-se mais um pouco.

Portanto…

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O que é que a gente tá aqui fazendo? - 14


Às dez horas da noite em Tarchomin parece que estou numa cidade da península de Kamchatka. Não se vê vivalma na rua, ninguém se aventura a sair de casa e enfrentar a poeira de neve que cai e que cobre os carros, as últimas pessoas a pisar aqueles passeios já debandaram há muitas horas, vieram da missa das sete enfiadas e atarracadas nos casacos e gorros caminhando a passadas curtas mas rápidas, meteram-se em autocarros ou em carros particulares, muitas moravam ali perto e depressa recolheram ao quentinho do lar. Eu dou uma vista de olhos ao bairro e certifico-me que de facto não se passa nada.

É dos livros, quando chega o inverno o humor dos polacos cai mais depressa que o escudo, resguardam a iniciativa em alguidares de café para se manterem acordados ou em vasilhas de chá para se manterem aquecidos. Não sou adepto desse desporto mas rendi-me à cafeína matinal, ajuda mesmo a despertar o encéfalo e a enfrentar os alfarrábios de Conjuntivo e preposições que me esperam ansiosos nas prateleiras da escola. O Homem é um animal de hábitos e a capacidade de adaptação e flexibilidade faz a diferença nestas paragens, a substituição ou aquisição de novos hábitos por mais estranhos que sejam faz parte do processo de integração, muitos deles até ajudam a enfrentar as condições climatéricas agora que o ar arrefece e a vontade de sair da cama é menor.

Pois é. Eu procuro sempre ver o lado positivo da coisa, mesmo na altura em que toda a gente lamenta a chegada do inverno eu consigo perceber que os dias começam a ser mais longos a partir do solstício de dezembro, quando a neve cai aos caixotes eu alegro-me porque isso é sinal de subida de temperatura, quando o termómetro marca -15º ou -20º eu ainda encontro motivos de satisfação pois nesses dias geralmente o sol brilha (não aquece, é certo, mas ao menos brilha) e quando os dias estão encobertos significa que vai estar à volta de -5º e assim já não preciso de cachecol nem de gorro. Há sempre uma outra face em cada moeda e eu tento olhar para aquela que mais me agrada ou que melhores sensações me desperta, ainda estou para descobrir o que é que esta rua nevada dum bairro do norte de Varsóvia tem de positivo. Mas tranquilo, alguma coisa boa há-de ter e eu hei-de encontrá-la para evitar que o meu munine Rui Miguel faça a pergunta que dá título ao artigo.