segunda-feira, 4 de março de 2013

A partir de agora é assim!

Manda a condição de sportinguista que apoie o Sporting Clube de Portugal e que fique satisfeito com os inêxitos dos rivais, condição essa com a qual não concordo na totalidade pois a minha praia é o Sporting e estou-me nas tintas se os outros ganham ou perdem. Ultimamente e se tiver mesmo mesmo mas mesmo de escolher prefiro que ganhe o FC Porto. Melhor dizendo, preferia. Um sportinguista que se preze reconhece no slb o seu ancestral arquirrival, pode ter amigos benfiquistas mas não se mistura com eles quando o tema é futebol, quer que o slb perca porque sim, porque está no ADN sportinguista o contentamento com as derrotas encarnadas, a miséria do clube de Carnide é motivo de regozijo no Lumiar, sempre assim foi e sempre há-de ser. Porém, este vosso sportinguista vai alinhar noutra corrente e começar a preferir as glórias do "Glórias" às do Porto. Passo a explicar porquê.

Nos últimos 25 anos temos assistido à elevação do FC Porto como potência maior do futebol português, sucessivos triunfos nas competições nacionais e conquistas internacionais guindaram os portistas ao patamar superior da bola nacional, um feito que se deve à ação obstinada de Pinto da Costa que não teve pejo em tornar público o seu objetivo enquanto líder do clube das Antas: Ultrapassar o slb em número de campeonatos conquistados durante o seu mandato. Objetivo ambicioso, complicado mas possível de se atingir aos olhos do presidente portista. No entanto havia uma entidade a obstaculizar esta cruzada, um clube que não tinha mais campeonatos que o slb mas tinha mais títulos que o FC Porto - O Sporting. Então a estratégia foi delineada, eliminar o obstáculo que se interpunha no caminho, um pouco como Hitler quis fazer a Varsóvia, cidade que incomodamente se colocava entre Berlim e Moscovo atrapalhando os planos nazis de construir um corredor entre a capital germânica e a metrópole russa. O Sporting passou então a sofrer na pele os efeitos nefastos dum plano maquiavélico que, mesmo que não tivesse sido concebido para o afetar diretamente, implicavam a anulação do seu valor enquanto potência futebolística, coisa que até nem era muito difícil de conseguir porque o Sporting não tem a massa adepta do rival encarnado, não tem o poder de mobilização, não tem o histórico nem tem a base de apoio de que o slb dispõe e com uma ou duas décadas de sequeiro dissolve-se o tecido adepto, ninguém vai querer ser do Sporting e é menos um clube no caminho.

O plano era para ser cumprido doesse a quem doesse e o modus-operandi era claro e estava à vista até dos menos atentos. Tráfico de influências, coação, compra de resultados, trocas de favores, putas e viagens pagas a árbitros, toda uma teia escura de ilegalidades e crimes que se cometeram para conseguir três pontos (antes dois pontos) ao domingo. Os penaltis inexistentes, os erros obscenos, as arbitragens escandalosas, os Calheiros, Martins dos Santos, Donatos Ramos, Jacintos Paixões, Graças Olivas, Josés Pratas, Augustos Duartes, Paulos Paratys, Isidoros Rodrigues, Paulos Costas, a trupe obediente e submissa que construiram um império de campeonatos sujos à custa do suor empregue pelos adversários que entravam em campo com as regras previamente subvertidas a seu desfavor, jogando contra 13 e 14, sem hipóteses de se baterem de igual para igual. O futebol enquanto jogo estava sempre viciado em desafios em que o FC Porto participasse, sempre! É impossível enumerar os jogos em que o Porto foi clara e despudoradamente beneficiado, é impossível inventariar a quantidade de pontos amealhados de forma ilícita, com juízes condicionados que adulteraram a verdade desportiva sucessivamente e durante anos.

O FC Porto é um clube que fundamenta os seus princípios desportivos na batota e no total desrespeito pelas regras do jogo, é um clube de gente criminosa, mafiosa, perigosa. É um clube que despeja creolina nos balneários do adversário para o inferiorizar, que coloca um Guarda Abel em posição estratégica para coagir o oponente, que tem um chefe de claque que anda de Porsche e está registado como desempregado, que compra resultados, que vicia as regras, que só não é punido (como a Juventus) porque Portugal é um país de gente aparvalhada e incapaz de dar um coice na injustiça. O FC Porto é um clube reconhecidamente trapaceiro que foi (ridiculamente) condenado, e o seu presidente, por corrupção desportiva. A sua batota impune e zombeteira, oportunamente identificada e denominada por Dias da Cunha como "O Sistema", contribuiu para o empobrecimento do meu Sporting, muito mais do que a palhacice idiota dos vizinhos da Norton de Matos, esses mais dignos de dó do que de ódio.

E por isso, caríssimos amigos, afirmo para quem quiser ouvir que se o Sporting não puder ser campeão ou ganhar os troféus que disputa, que os ganhe o slb. Eu sou uma pessoa com alguns princípios, levanto-me de madrugada para ganhar a vida de maneira séria e honesta e não posso tolerar que os batoteiros ganhem e saiam a rir de todos, fazendo pouco daqueles que se aplicam e transpiram na nobreza do seu trabalho, muito menos posso apoiar esse comportamento. Que ganhem os encarnados, então. São foleiros mas não são batoteiros.

PS - Cada vez que me lembro que estive por uma unha negra de limpar o sebo ao Pinto da Costa aqui em Varsóvia...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

De um fim de manhã difícil de adjetivar


Já dizia Miguel Esteves Cardoso que os períodos assim-assim são os mais difíceis de suportar, não têm o épico dos grandes momentos nem a profundeza histórica das tragédias funestas, são tempos cinzentos, baços, discretos dos quais nada digno de realce há a apontar. Corre agora um rio de tempos assim, de caudal manso e pardo tal como o céu de Varsóvia, cinza e bisonho que não é pão nem bolo, não é céu de inverno porque esse até é mais limpo nem é céu de primavera porque não despeja sol na cidade. Antes tapa-a com um lenço grosso de fraqueza como se abafasse as pessoas privando-as de ar e de vontade, deixando-as apagadas e sem chama. É o devir deste inexorável clima, chupa todo o sangue e a alma das gentes até que estas se transformem em ambulantes sacos de ossos e pele que vagueiam pelas ruas em piloto automático. Os novos combatem este estado de coisas com telemóveis conectados a amigos e redes sociais, palram combinando encontros ou comentam publicações, outros fumam violentamente enquanto sobem as cruéis escadarias da rua Obożna. Os meões de idade, ou quase meão no meu caso, andam no fio da navalha arriscando a queda na depressão se não reagem categoricamente ao estado de moleza que o tempo impõe, a disputa entre querer voltar para casa e o aborrecimento depois de ter lá chegado consome a maior fatia do tempo livre e não é aconselhável martelar muito sobre o tema.

Já houve algumas manifestações a uns extemporâneos raios de sol aqui há um par de dias, cantaram-se logo odes à primavera e ao bom tempo que já aí vem e vitoriando o soalheiro fim de semana que se prevê. Contentam-se com pouco, penso eu com a experiência de uma trintena e pouco de anos passados a curtir a pele ao sol algarvio, compreendendo a euforia algo desmedida mas pondo água na fervura ao olhar para o calendário. As folhas estão em fevereiro e a norma diz que este é um dos meses mais frios do ano, excecionalmente passamos mais de metade do mês acima de zero graus, não neva desde não me lembro quando, mas isso não significa que já se pode tirar as sacas de carvão da dispensa e preparar os churrascos típicos do advento primaveril, recordo-me muito bem de não muito pretéritas tardes de abril em que a primavera já era adulta e eu ainda apanhava com flocos de neves nas ventas, por isso tenho modero sempre o otimismo quando espreita o sol apesar de em meu redor as pessoas já andarem frenéticas.

O inverno não tem sido mau, não temos tido aquelas noites polares de -20º C que congelam a cartilagem da orelha e acho que só por uma meia-dúzia de vezes usei cachecol. As ceroulas só foram ponderadas uma vez, dormi sempre de cobertor escusando o edredão de penas a trabalhos forçados, não está a ser dos invernos mais rigorosos que passei. Mesmo assim, acho que prefiro esses dias de barbeiro do que os dias que correm em que nada há de bom nem de mau. Antes pelo contrário.

PS – Quer dizer, até houve. Houve um chocolate tático que Mourinho deu em Nou Camp. Há pessoas – portugueses, digo – que insistem em minorar os feitos de José Mourinho e Cristiano Ronaldo. Esses cegos, para não lhes chamar estúpidos, não devem (ou são mentecaptos o suficiente para não conseguirem) compreender que estes nossos dois compatriotas devem ser os únicos agentes com dimensão global que contrariam a imagem internacionalmente acolhida de que Portugal é uma terra de corruptos, incompetentes e preguiçosos. Mourinho e Ronaldo são embaixadores mundiais do talento português, da qualidade portuguesa e do saber português. Tapar estas virtudes com ninharias de “o Cristiano é vaidoso” ou “o Mourinho é arrogante” é de uma tacanhez e de uma infelicidade de espírito indescritível, particularidades das quais o meu país está infelizmente a abarrotar. Tomara eu que tivéssemos Mourinhos e Cristianos no Parlamento...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Fundamentalismos alimentício-culturais

chá com leite Naqueles horríveis dias que passei em Paris, das poucas coisas que me consolaram foi o pequeno-almoço do hotel, não que fosse algo distinto, mas era abundante em termos de pães e doces, croissants e charcutarias, tinha uma gama interessante de sumos de fruta e leite e café com fartura. Fazia dessa refeição a mais importante e mais dilatada porque era boa e grátis, o custo de vida em Paris é uma loucura para a carteira de um professor de línguas radicado em Varsóvia, mesmo que os “restôs” que frequentasse estivessem situados no setentrional 18º bairro parisiense que começa na Porte de Clignancourt e se estende sombriamente para sul até surgirem pontos de interesse como o Moulin Rouge, casa onde me pediram dezasseis contos de réis de entrada quando eu trabalhava no parque então denominado EuroDisney, idos de 1993, ou a Basílica do Sacré-Cœur de onde se pode ter uma vista mais abrangente da capital francesa da qual se destaca o mamarracho Montparnasse, considerado o segundo edifício mais feio do mundo. Então, vamos lá conversar sobre esse pequeno-almoço.

Não posso deixar de frisar o quão mau foi para mim passar seis dias de clausura em Paris, terra que acalenta o sonho de muita gente, a cidade do amor, da luz, das baguettes, do raio que parta os franceses, povo mais chato, arrogante e presunçoso que tem uma língua gay irritantemente cheias de “õs” e “ãs” e uma seleção de futebol cujos títulos ganhos deve-os a imigrantes de primeira e segunda geração. Nada na França me cativa (só talvez a Disneyland Paris mas o parque de francês não tem nada) e de cada vez que atravessei o país de De Gaulle cheirei sempre sarilhos. A autoestrada é caríssima, o combustível também, se abdicarmos da autoestrada viajamos por uma paisagem que não tem nada de interessante tirando a pausa que fiz em St Jean de Luz na última viagem, nem a cuisine francesa me seduz, tendências modernas de doses pequenas não satisfazem o paladar dum raspa-tachos como eu habituado às consistentes sopas da minha avó. O pequeno-almoço francês também obedece a uma regra elementar que eu ignorava até ter vivido esta minha malfadada aventura gaulesa: o croissant só se come com coisas doces.

De faca cheia de manteiga na mão, preparava-me para barrar uma das metades do croissant quando fui advertido: “Alto! Que vais fazer?” Pensava que tinha escolhido mal o talher, olhei em volta para confirmar a certeza da opção e encolhi os ombros enquanto dizia que “vou comer. Não posso?”

- Mas vais comer o quê? O croissant com manteiga?

- Não só com manteiga, vou comê-lo com fiambre também.

- Não, não, não! Os croissants não se comem assim, comem-se com geleias, compotas, coisas doces. Isso é profanar o croissant!

- Mas qual é o mal de comer o croissant com fiambre? Em Portugal come-se assim tal como se come com salsicha, com ovos moles e amêndoa, com queijo, com...cerveja com xarope de amora

- Basta! O croissant come-se com doce! Se não o queres comer assim não o comas de todo, pelo menos à minha frente.

Decidi não alimentar ódios e desisti da ideia inicial ficando, no entanto, com aquela demonstração de fundamentalismo alimentar a remoer a moleirinha. Meses mais tarde, em conversa com um polaco, falávamos de povos bebedores de café (como o povo português) e bebedores de chá (como o polaco) e ele pergunta-me assim: “E tu, Nuno? Bebes chá com leite ou sem?”. Eu que só toco numa chávena de chá quando sou atacado por febres que o paracetamol não vence respondi decidido que “eu não bebo chá. Não é que não goste mas não tenho esse hábito”. O meu interlocutor voltou à carga: “Mas quando bebes, é com leite ou sem?”. Resolvi saciar-lhe o desejo receando que o interrogatório se perpetuasse e “epá... se calhar com um bocadinho de leite”. Rebentou a guerra.

- Mas como com leite?! Isso dá cabo do chá, fica o chá a saber a água suja. Não podes beber chá com leite.

- Está bem, calma. Assim como assim, eu não percebo nada de chá. Não sei qual é a diferença entre um Darjeeling e um Earl Grey, para mim é igual ao litro.

- Mas não bebas o chá com leite, isso é inaceitável.

Mais uma vez calei-me. De chá não percebo nada – haverá algarvios que bebam chá? - e qualquer polaco me dá 10-0 no tema. Entretanto a conversa derivou para outros temas mais mundanos e universais, parte daquilo a que eu designo como o meu mester, e o tópico mudou-se para cerveja, marcas, acompanhamentos, fermentações, graduações, com ou sem xarope... e aí atirei-me eu: “O quê?! Cerveja com xarope? Explica-me lá essa”. O polaco com que eu estava a falar acusou o toque, percebeu onde eu queria chegar e começou numa voz atabalhoada:

- Sabes? Às vezes apetece uma cerveja mas não apetece saborear a cerveja porque ela é amarga, desagradável, então juntamos um pouco de xarope de amora ou de gengibre para ficar mais docinha.

- Pela minha rica saúde! Vocês juntam xarope à cerveja porque não gostam do sabor da cerveja?

- Sim, é um pouco isso.

- Então não peçam cerveja! Peçam outra coisa qualquer, peçam uma Fanta ou uma 7up.

- Mas a cerveja mata a sede, só que é amarga.

- Vai-te encher de moscas! Vocês empurram pepinos azedos com shots de vodca, uma combinação que quase faz andar motores diesel, espetam com couve semi-apodrecida em todos os pratos típicos, bebem kefir que é um veneno para curar a ressaca, besuntam-se com pasta de rábano que é uma coisa que faz faíscas nos dentes e dizes que a cerveja é amarga? Pelo amor da minha santa mãezinha...

Foi o fim do tema. O meu amigo polaco ficou sem maneira de explicar tal incoerência de forma convincente, porque é que não se pode beber chá com leite mas pode-se beber cerveja com xarope - eu nem quis mencionar o pormenor hiperabichanado de alguns homens beberem-na de palhinha -, e eu decidi que sempre que tiver ou quiser beber chá fá-lo-ei com um farrapo de leite. Mas ele que não me apareça com uma imperial cor-de-rosa que leva logo com um gato fedorento pelos beiços!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Hiato

Polónia Antiga Um escrito famoso disse em tempos que o objeto mais precioso para ele era a borracha. Não o lápis com o qual ele rascunhava as ideias e os pensamentos, não a caneta de que se servia para perpetuar esses elementos de escrita, mas a borracha que se ocupava de apagar as palavras mal medidas ou os pensamentos mais descompostos. Se a borracha é o instrumento mais valioso para um escritor então a tecla DELETE deve ser o equivalente para um bloguista.

Acredite que é com pena que não escrevo com mais frequência e às vezes penso na falta de consideração para com o leitor, deixá-lo à espera de novidades ou de um artigo que o entretenha. Mas escrever sobre o quê?

- Sobre a tua vida na Polónia, cretino! Como pode um país assim tão diferente do teu cessar de dar motivos para se escrever?

Realmente, este terra é um manancial de temas que nunca mais acaba, quase todos os dias sucedem coisas que nunca hão-de acontecer em Portugal ou em qualquer outra nação do ocidente europeu, como a nova lei das faturas e vendas a dinheiro que obriga cada contribuinte a manter em seu poder durante cinco anos, não sendo importante se se trata do recibo de compra dum plasma de 70 polegadas ou de uma imperial e um pires de arenque em vinagre ou a Kolęda, a visita que cada padre faz ao seu rebanho por alturas do Natal e que me deixa sempre no dilema entre ser bem-educado e convidá-lo a entrar mesmo que eu já saiba que as minhas respostas às perguntas do pároco irão cada vez mais abrir-lhe a boca, não de fome porque durante a kolęda os curas são opiparamente alimentados pelos fiéis desejosos de lhes contar relatos e provas de quão praticantes são, despejando talhadas de fiambres e outras charcutarias pela eclesiástica goela abaixo numa tentativa de comprar a simpatia do Criador através da satisfação gástrica do seu representante, mas de pasmo por ter diante de si um ser atlântico quase quarentão que renega divindades, não lhe apresenta bandejas de carnes frias nem cestas de frutas frescas, muito menos um licorzinho de bagas silvestres destilado num alambique caseiro, portanto ilegal, ao qual o sacerdote não se nega mesmo que seja contra os cânones do clero, não lhe canta loas nem lhe fala da velha e relha estória do casamento e procriação.

Os tempos aqui são de repriorização de objetivos, restabelecimento de metas e redefinição de focos de ação. 2013 começou com novidades inesperadas que obrigaram a embaralhar as cartas e dá-las de novo, por isso a atenção tem estado mais voltada para as questões de índole laboral porque essas é que me fazem comprar melões, um homem pode sobreviver com muita trampa mas não pode fazê-lo sem trabalho e enquanto a faísca da saúde não me faltar tem de ser por esse diapasão que afino.

Por isso e por outros motivos que não vale a pena trazer à colação, peço-lhe, leitor, um bocadinho de paciência. Tenho uma amiga que me explicou esta falta de tema, comparou-a à crise do Sporting, que os grandes também passam mal mas que inevitavelmente renascem das cinzas como fénixes e que eu só tinha de esperar. Assim como outro grande escritor definiu numa obra sua a origem dos melhores livros: Esperar que venha uma ideia, não forçar mas esperar, e se ela não vier espera-se mais um pouco.

Portanto…

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O que é que a gente tá aqui fazendo? - 14


Às dez horas da noite em Tarchomin parece que estou numa cidade da península de Kamchatka. Não se vê vivalma na rua, ninguém se aventura a sair de casa e enfrentar a poeira de neve que cai e que cobre os carros, as últimas pessoas a pisar aqueles passeios já debandaram há muitas horas, vieram da missa das sete enfiadas e atarracadas nos casacos e gorros caminhando a passadas curtas mas rápidas, meteram-se em autocarros ou em carros particulares, muitas moravam ali perto e depressa recolheram ao quentinho do lar. Eu dou uma vista de olhos ao bairro e certifico-me que de facto não se passa nada.

É dos livros, quando chega o inverno o humor dos polacos cai mais depressa que o escudo, resguardam a iniciativa em alguidares de café para se manterem acordados ou em vasilhas de chá para se manterem aquecidos. Não sou adepto desse desporto mas rendi-me à cafeína matinal, ajuda mesmo a despertar o encéfalo e a enfrentar os alfarrábios de Conjuntivo e preposições que me esperam ansiosos nas prateleiras da escola. O Homem é um animal de hábitos e a capacidade de adaptação e flexibilidade faz a diferença nestas paragens, a substituição ou aquisição de novos hábitos por mais estranhos que sejam faz parte do processo de integração, muitos deles até ajudam a enfrentar as condições climatéricas agora que o ar arrefece e a vontade de sair da cama é menor.

Pois é. Eu procuro sempre ver o lado positivo da coisa, mesmo na altura em que toda a gente lamenta a chegada do inverno eu consigo perceber que os dias começam a ser mais longos a partir do solstício de dezembro, quando a neve cai aos caixotes eu alegro-me porque isso é sinal de subida de temperatura, quando o termómetro marca -15º ou -20º eu ainda encontro motivos de satisfação pois nesses dias geralmente o sol brilha (não aquece, é certo, mas ao menos brilha) e quando os dias estão encobertos significa que vai estar à volta de -5º e assim já não preciso de cachecol nem de gorro. Há sempre uma outra face em cada moeda e eu tento olhar para aquela que mais me agrada ou que melhores sensações me desperta, ainda estou para descobrir o que é que esta rua nevada dum bairro do norte de Varsóvia tem de positivo. Mas tranquilo, alguma coisa boa há-de ter e eu hei-de encontrá-la para evitar que o meu munine Rui Miguel faça a pergunta que dá título ao artigo.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Triunfar!

Agora que acabei o último trabalho de 2012, agora que olho pela janela e vejo o sol a pôr-se por trás do Palácio da Cultura e da Ciência, agora que posso descomprimir e apontar agulhas para a passagem do ano, também posso passar em revista o ano que hoje finda e avaliar se foi bom ou não.

Foi mais ou menos.


  • Vivi o meu segundo Europeu de Futebol depois do 2004 português. Varsóvia e o reservado e pouco emotivo povo polaco não resistiram ao carnaval do futebol e foram contagiados pelo vírus da bola, a Cidade Capital apresentou a maior Fan Zone da Europa, como era de esperar tive a visita de munines que quiseram acompanhar a seleção e demos um saltinho à Ucrânia para marcarmos presença na estréia da Equipa das Quinas na competição, vivendo aventuras nesses dias que foram aqui contadas e relatadas;
  • Atingi o patamar mais elevado possível em algumas das minhas atividades profissionais. Professor na Universidade de Varsóvia, uma das mais conceituadas do país e da Europa, um marco de qualidade das minhas competências e uma linha de inigualável prestígio no meu currículo, um filho de Faro (curiosamente não o único) a elevar o nome da cidade natal. DJ no Platinium, provavelmente a discoteca mais concorrida e reputada de Varsóvia, ponto de encontro da nata da cidade e onde só os nomes maiores da terra têm lugar. Aquela cabina foi minha, aquele chão foi meu, aquele povo todo entregou-se totalmente a mim e tal há-de acontecer novamente. Durante o set lembrei-me muitas vezes da malta do Largo da Caganita e da Escola do Carmo, eles estavam todos ali comigo na cabina, eles também tocavam comigo;
  • Assisto com mágoa ao envelhecimento da família, apesar de andarem rijos e lúcidos. Nota-se o peso dos anos nas expressões faciais, no discurso, na ambição, mais saudosistas e menos efetivos. Reflexo do conta-quilómetros mas também da situação atual em Portugal que contamina todas as esferas da sociedade, uma pena mas também uma inevitabilidade;
  • O regresso à casa de partida no campo das relações pessoais, as coisas complicaram-se nos últimos meses e vejo-me de novo no mercado de transferências com a trouxa às costas. Não vai ser pior do que em 2008 quando me separei da Iza, nessa altura não tinha trabalho, não falava a língua e quase não conhecia ninguém, mas é sempre um passo atrás no plano e no projeto. Ainda assim, sinto-me com mais ilusão que nunca, com grande vontade de arregaçar as mangas, ir para a luta e arranhar-me todo até conseguir alcançar aquilo a que sempre me propus desde o longínquo dia 8 de outubro de 2007 quando cruzei a fronteira germano-polaca: Triunfar.
Amigo leitor, que 2013 seja o ano do seu... digo, do nosso triunfo. E que os nossos inimigos se conservem bem de saúde para poderem assistir ao show.

Saúde e sorte.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A carpa – símbolo gastronómico do Natal polaco (e não só)

Carpa Na ceia de Natal polaca aparecem coisas que não lembram ao diabo! Comparando com a mesa de consoada portuguesa, os polacos destacam-se por apresentarem mais variedade - uma dúzia de pratos diferentes segundo a tradição -  sendo que nenhum é de carne e a maioria é composta por diferentes tipos de peixe. A ceia natalícia neste país não é uma oportunidade para a refeição lauta e bem regada tão característica na nossa terra porque, tradicionalmente, não se colocam bebidas alcoólicas na mesa. Outra situação na qual a consoada é diferente é na consensualidade que os pratos reúnem, em Portugal ninguém discute a bacalhauzada com batatinha, couve e grão, às vezes um ovo para enricar o banquete, porque é uma especialidade ao gosto de todo o português, o fiel amigo é tradicional do Natal mas acompanha-nos durante todo o calendário como todo o (nosso) prazer. No caso polaco não é bem assim, o peixe típico de Natal – a carpa – também gera consenso mas negativo: Ninguém gosta de carpa.

A carpa é um peixe originário da Ásia e foi introduzido no rio Danúbio há coisa de 2000 anos, não se sabe (ou não importa para aqui saber) qual foi o trajeto do teleósteo até chegar frita à mesa dos polacos (e dos alemães, checos e eslovacos) mas sabe-se que é um peixe que não goza de boa reputação neste país. É considerado um peixe sujo e essa fama advém de viver em rios e lagos, muitos deles poluídos, ganhando assim um gosto a lodo que só consegue ser neutralizado depois de muita depuração. Por isso é comum comprar-se carpas dois ou três dias antes da véspera de Natal e conservá-las numa tina de água doce para que a sua carne perca progressivamente o sabor a lama, o que nem sempre é conseguido e que explica a aversão que muitos polacos têm  pelo seu prato emblemático de Natal, amplificada pela notória falta de jeito que os polacos têm para lidar com espinhas de peixe. A consoada deste ano passei-a por cá e testemunhei a diferença que há entre uma carpa asseadinha e outra que não se lavou porCarpa frita dentro o suficiente, o cheiro e o travo a lama no primeiro caso mesmo que eu comesse sem reclamar a posta que me serviram, e a carne limpinha se bem que sem sabor distinto – a carpa é servida frita com batatas assadas mas sem azeite, vinagre, alhinho ou limão. Em ambos os casos foi elogiada a minha perícia no manejo das espinhas e no aproveitamento que fiz da posta, os meus colegas comensais deixavam mais de metade do peixe no prato, bem porque não sabiam separar as espinhas como também porque não se queriam dar a tanto trabalho para comer aquela coisa ruim.

Por isso fiquei a pensar no porquê dos polacos terem elegido para símbolo da consoada uma refeição de que quase ninguém gosta e que torna a ocasião num fastio em vez de ser um prazer. A Karolina contou-me que tal se deve ao impedimento que a Igreja Católica decreta ao consumo de carne na quadra natalícia obrigando os polacos a pensar em alternativas, sendo o peixe a mais direta. Como o mar não está próximo de todos os polacos, estes voltaram-se para os seus muitos rios e lagos onde há peixe com fartura, deitaram os anzóis ao leito e começaram a desbastar cardumes de carpas dado que este é o peixe que se deixa apanhar com mais facilidade. É uma explicação aceitável mas insuficiente para que eu comece a ter gosto em ver uma posta de carne frita na minha mesa de consoada. Mas podia ser beeeeeem pior, a apenas um par de horas, na vizinha República Checa o jantar típico de Natal é sopa de cabeça e vísceras de carpa ;)

O ganso assado no forno no almoço de Natal? Ah, isso é outra conversa…

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

ECAS


TAFKAP - The Artist Formerly Known As Prince


Amigo leitor, antes de começar a ler o artigo deixe-me que lhe diga que este vai ser uma daquelas prosas dramáticas sobre o inverno polaco, tema sobre o qual já dissertei noutras ocasiões mas que me é sempre chegado, particularmente quando caem as primeiras neves. Portanto considere-se avisado, se não quiser continuar a ler mude de canal que eu compreendo, ficamos amigos à mesma, só que eu tenho mesmo de escrever sobre estas coisas para as tirar dos ombros. Se soubesse o que nós passamos nesta terra cada vez que muda a estação compreenderia todo este barafustar.

Ontem à tardinha ameaçou, vi que o asfalto estava esbranquiçado e que as rachas do pavimento tinham sido preenchidas por uma pasta branca que dava a sensação de frio. Não fiquei muito contente com o panorama porque tinha jogo de futebol à noite e imaginei um arranque a diesel, uma carga de trabalho até alcançar o nível e agilidade para jogar como deve ser. Pensei também na quantidade de café que tinha em casa, se era altura de reabastecer o armário porque com a temperatura a descer há um série de molezas que tomam conta do corpo, tiram a vontade e esta só consegue ser reposta com a colaboração de abastadas chávenas de café com leite, sem açúcar para o estímulo ser ainda maior. Entretanto a noite caiu e saí de casa para o meu jogo, o termómetro do carro registava -0,5º C e eu pensava se ia jogar de luvas ou não. Acabei por deixar as luvas no saco, ignorei o briol, cerrei os dentes e saltei para a arena, corri que nem um cavalo para não sentir frio e a estratégia deu resultado - não dei pelo frio e ganhámos 3-0 com dois golos meus, um de pé esquerdo e outro de calcanhar (peço desculpa pela cagança mas tinha de dizer isto!). Voltei para casa e inchado e arcado e dormi o sono dos justos.

Hoje já não houve ameaças veladas nem pré-avisos, a neve cascou e ainda casca severamente na Cidade Capital. As pessoas esperam pelos autocarros enfaixadas em cachecóis e gorros atafulhadas em grossos blusões ou volumosos sobretudos, sai-lhes um ar duro da boca e dos narizes rosados que lhes dá um aspeto ainda mais triste e enfermo. Sinto a neve misturar-se com o gel e começo a teorizar sobre os gorros e couros cabeludos dos polacos, se eles usam o gorro porque têm o cabelo ralo e isso faz-lhes frio na gorra ou se cortam o cabelo rente para poderem usar gorro e não terem frio na gorra, se eles não usam gel porque já sabem que o cabelo fica empastado quando neva ou se não usam nada porque o cabelo deles é tão fraquinho que qualquer leva de espuma da Garnier arranca-lhes madeixas inteiras.


No meio desses pensamentos passei o primeiro compromisso do dia e sentei-me para o pequeno-almoço, li as frescas e fiquei sabendo que Alvalade mete água mesmo sem o Sporting jogar. Aliás,  o ECAS - Equipa Conhecida Anteriormente por Sporting. É esta a designação que escolhi para aquele bando de moços que jogam à bola com camisolas verdes e brancas às riscas porque aquilo não tem nada a ver com Sporting, não fazem esforço, não se dedicam, a devoção é inteiramente da massa adepta e de Glória só me lembro da mulherzinha que vendia abacates ao pé da casa da minha avó. O emblema também não tem relação nenhuma com a realidade, não merecem ter um leão rampante ao peito mas antes uma onça velha e magra, caquética, que erra pelos relvados portugueses e europeus numa vexatória demonstração de decadência.

Arrumei o computador e peguei no copo do café, sentam-se duas adolescentes na minha mesa, sacam dos telemóveis e comentam fotografias do facebook, comentam os penteados das colegas, comentam os comentários. Eu assopro o café para o arrefecer e olho à minha volta, centenas de pessoas a caminho dos seus trabalhos. Passa um rapaz com um cachecol da Legia, joga hoje à noite em Wrocław na casa do campeão polaco para defender uma vantagem de sete pontos sobre o segundo, começo a pensar se não farei melhor em ver o jogo da Legia do que o do ECAS mas logo penso que não, que isso seria como trocar a esposa que está doente e bichada por uma amante mais jovem e vibrante. "Mas trata-se disso mesmo, qualquer homem faria o mesmo!", penso eu procurando desculpas para a facada no matrimónio, para justificar a preferência por uma mulher mais nova de pele mais clara e luzidia, cheia de vida e jovialidade, fogosa na cama e louca na pista de dança. Para quê seguir com este saco de ossos a que alguém chama de equipa, este feixe de misérias nas palavras de Guerra Junqueiro, um esfregão futebolístico que me envergonha quando saímos de braço dado? As raparigas riem alto, guincham como dobradiças de portas velhas, não respeitam a minha angústia, não percebem a minha dor, não vêem o meu calvário.

Lá fora a neve segue impiedosa, pune Varsóvia pelo verão radioso que viveu este ano. Tal como eu vou ser punido mais logo à noite pela má-sorte de ter nascido lagarto.



ps - Acredite, caro leitor, que eu queria escrever sobre o inverno polaco quando me sentei ao computador, mas entretanto outros pensamentos me assaltaram e deu nisto que se lê. Desculpe lá...