Vais visitar uma amiga que está doente e deparas com esta caixa de pastilhas para a garganta em cima da mesa de cabeceira dela:
Por um segundo tive a impressão de ter ouvido o tropel de um exército a passar na rua dela.
A saga dum filho de Faro na Polónia (em Bielany, no norte de Varsóvia) - desde 2007
Vais visitar uma amiga que está doente e deparas com esta caixa de pastilhas para a garganta em cima da mesa de cabeceira dela:
Por um segundo tive a impressão de ter ouvido o tropel de um exército a passar na rua dela.
Azia por ter visto uma muito boa exibição de futebol adulto não ter sido recompensada com a vitória merecida. Azia por ter visto os adeptos do maior rival celebrarem no nosso covil. Azia por verificar que alguns sportinguistas não se comportam à altura do emblema que (alegadamente) apoiam.
Marco Silva tem tido imensas virtudes na criação e desenvolvimento do projeto futebolístico do Sporting 2014/2015, desde logo uma elasticidade notável na preparação dos onzes para enfrentar três competições onde o clube tem legítimas esperanças de fazer boa figura – Campeonato, Taça de Portugal e competições europeias. Enfrentou a Champions e os clássicos rivais nacionais com uma dupla de centrais que não calçava no Farense e (salvo em Maribor) não deslustrou em nenhuma circunstância, assinando até momentos de alto nível em muitos desses jogos. À qualidade individual superior dos adversários respondeu Marco Silva com sagacidade tática e muita competência na leitura do devir dos desafios, pecando apenas na falta de intensidade com que o Sporting defrontou os Moreirenses e Belenenses desta vida. No último dérbi, o Sporting entrou com sete rapazes da casa e dois defesas centrais com três jogos juntos. Não se notou nenhuma falta de rotina, Rui Patrício não teve remates para defender mas o Sporting não ganhou. Faltou-lhe qualidade e eficácia no momento de definir (com os adversários de domingo Liedson tinha enchido a marmita), faltou manha e ratice para congelar a bola durante cinco minutos, faltou o que falta às boas equipas para ganharem os jogos em que se apanham a ganhar. O futebol é cruel, é um mundo onde não há meritocracia, vence quem pode e não quem deve. Da mesma forma que soubemos encostar o rival ao último reduto (pena que Artur não tenha estado ao seu nível habitual mas contra o Sporting toda a merda de guarda-redes engata) também não soubemos guardar o ouro depois de o termos conquistado e demo-lo ao bandido. Azar, azelhice, azia.
Por isso os rivais naturalmente comemoraram. Foi o resultado esperado depois da estupidez de cantar olés a ganhar só por 1-0. Qualquer camelo sabe que esse comportamento só tem um resultado que é o relaxamento da equipa que está a ganhar – começa mais a pensar em cabritos e rodriguinhos do que em matar o jogo – e o espicaçar de quem está a perder – vai a todas as bolas por cima, espuma da boca, joga de raiva. Quando começaram os olés comentei com um colega de sofá que a coisa não ia acabar bem e que esse tipo de provocações era prematuro. Nem de propósito, a bancada leonina teve de engolir o pasodoble e rever a aula de futebol onde se aprende que o jogo só acaba no fim. Como se não fosse suficiente, tive de gramar a lendária fanfarronice do mascador de chicletes que esburaca o meu sensível tímpano gramatical cada vez que consegue articular três sílabas seguidas. Azelhice, azar, azia.
E não admira que essa frustração toda tivesse que ser expiada de um modo qualquer, nem que fosse apanhar o lampião mais à mão e descarregar nele a desilusão do pássaro julgado garantido que conseguiu fugir fora de horas. Neste ponto, onde o meu clube tem um historial quase impoluto, vejo um inusitado e crescente comportamento bélico, agressivo, de confronto constante e em todas as frentes. Se calhar devido à atitude pugnaz que o nosso Presidente tem adotado na defesa dos interesses do Sporting – postura que subscrevo no conteúdo que não na forma. É uma coisa que não é bonita de se ver nem coerente de se fazer, criticar as atitudes cínicas e reprováveis dos rivais mas imitá-las à primeira oportunidade. Não é assim que eu vejo o meu Sporting, não é desse jeito que eu destaco o meu clube dos outros.
A ilação que tiro é que desportivamente estamos no bom caminho e que o Sporting está a tornar-se uma equipa cada vez melhor apesar de haver ainda muita lenha para rachar, não tivéssemos sido tão laxistas em alguns jogos em Alvalade e o empate de domingo teria hoje um impacto bem menor. Mas que sociologicamente alguns sportinguistas estão a contrariar a teoria da evolução humana e a adotar posturas que são mais frequentemente conotadas com adeptos de emblemas tradicionalmente antagónicos ao Leão, seja através dos casos de agressão física e verbal que alguns sportinguistas protagozinaram, seja pela inútil troca de ‘bocas’ nas redes sociais que só servem para comprovar algumas teorias minhas relacionadas com os QIs dos adeptos de diferentes clubes portugueses. É essa a maior azia, não a de não conseguir ganhar a um adversário que se revelou perfeitamente ao alcance dum Sporting mesmo mediano que fosse – e atenção, não pensem que não fiquei fodido por não ganhar aos índios – mas a de alguns sportinguistas…, perdão, de alguns lagartos não saberem estar à altura da dimensão do Sporting Clube de Portugal no momento da deceção.
Sinais de que talvez já não se façam sportinguistas como antigamente.
Voltamos a ver-nos. A princípio fizeste de conta que não me tinhas visto, mantiveste-te no teu lugar dando nítido sinal de que tinha de ser eu a tomar a iniciativa. Eu não fui ter contigo, orgulhoso, também magoado pela tua indiferença. Pensava que tinhas tantas saudades minhas como eu tuas mas tu nem mostraste um pingo de alegria, ficaste na mesma, fria, como de pedra. Entristeceste-me justamente quando eu fiquei tanto feliz por te ver de novo, depois de tantas semanas, tantos meses sem uma palavra, sem um contacto, sem uma ternura. Tentei perceber como podias comportar-te assim como se não tivesses sentido a minha falta, como se eu nunca tivesse feito parte da tua vida, como se eu não significasse nada. Ignoraste-me, logo a mim que tanto te quero, que te trato bem, que te estimo.
Engoli o sapo e fui falar contigo: 'Olá, pequena!', disse. Tu não reagiste. Não te afastaste, é verdade, mas também não te mexeste. Pensei: 'Cá calharás...' e voltei-te as costas. Fui ter com os meus colegas falar de outras mulheres, carros e telemóveis mas às vezes olhava para ti e tu ali quieta, impenetrável, altiva como um monumento num pedestal, junto às tuas pares sem me passar cartão. Que difícil foi para mim! Onde terias andado? Com quem terias estado? Ter-te-iam feito mais feliz do que eu fiz? Ter-me-ias esquecido para sempre?
Decidi correr. Fui correr porque estava nervoso, não sabia o que fazer nem dizer e fugi de ti. Dei voltas e mais voltas debaixo desta chuva parva de janeiro, quanto mais corria mais me lembrava da tua reação e mais vontade me dava de correr, correr até te esquecer, correr sem parar porque se parasse pensava e se pensasse chorava. Ah, sandeu! E acaso se esquece um grande amor? Acaso se olvida o sentimento maior? Acaso se apaga a marca eterna da nossa relação, da nossa cumplicidade, da nossa adoração mútua? Eu contigo era tudo, éramos um só, completávamo-nos, definíamos o conceito de harmonia, de graciosidade, de garbo. Quando não estavas comigo chamavas-me, penavas a minha ausência, sofrias atrocidades dos outros homens que nunca souberam dar-te o devido apreço, logo corrias para mim ou eu corria para ti e tudo ficava de novo como tem de ser. O mundo parava para nos contemplar, para nos admirar, para nos venerar. E um dia partiste, abandonaste-me e eu fiquei atordoado, sem ação. Nunca concebi o mundo sem ti, como iria começar a viver sem ti? Tive medo.
Quando parei de correr vi que estavas junto a mim. Não sei se fui eu que parei ao pé de ti ou se foste tu que vieste para perto de mim mas isso não importa. Repeti: 'Olá, pequena!' e tu como que rolaste para mim. Peguei em ti, acariciei-te, segredei-te 'Tive saudades' e tu rolaste para o meu peito. Abracei-te, beijei-te, atirei-te ao ar e por fim chutei-te para que o primeiro treino de conjunto depois da pausa de inverno começasse. Enquanto te mudavam de flanco, te pontapeavam à bruta ou te tocavam com delicadeza vi que tu só olhavas para mim, e quando por fim, cumprindo o teu destino, regressaste aos meus pés e anichaste-te na minha chuteira, de novo olhaste para mim e murmuraste encantada:
'Amo-te'
E eu a ti, bola.
Quando a segunda-feira se apresenta desta maneira, tu mal podes esperar para ver como corre o resto da semana.
Imagina se o Sporting não tivesse ganho ontem…
Diálogo numa aula de Língua Portuguesa entre o Professor e uma aluna:
- Kasia, conheces a estória do Capuchinho Vermelho?
- Acho que sim.
- Então conta lá.
- Era uma rapariga que trabalhava na cafetaria dum aeroporto. Ela servia cappuccinos aos clientes que tinham pouco tempo para apanhar o avião, depois os passageiros embarcavam, o avião caía e os passageiros que tinham bebido o cappuccino morriam.
Há dias em que eu me pergunto se efetivamente estou a desempenhar um bom trabalho…
Os fins de ano têm sempre uma coisa que eu não gosto: os balanços.
Esta minha antipatia por balanços já vem do tempo quando eu trabalhava na Farmácia Alexandre, na década de 90, muito antes da informatização das farmácias. Nessa altura o balança era feito à unha, um colega empoleirado num escadote assomando-se às prateleiras dos antibióticos anunciando quantas caixas de Britacil havia, a dosagem e o tamanho da embalagem. Outro enfiavam o nariz nas empoeiradas gavetas para dizerem quantas carteirinhas de Aspirina lá estavam – naquele tempo vendiam-se comprimidos avulso – ou lamelas de Nimed, pessários, xaropes de óleo de rícino, frasquinhos de formicida, champôs Johnson’s, todos os centímetros quadrados da farmácia era passados a pente fino e tudo registado digitalmente, ou seja, com os dedos a segurarem a esferográfica e os blocos de papel. Começava-se às 19:00 duma dada sexta-feira logo que as portas fechassem, a primeira noite ia até à uma ou duas da manhã, sábado o dia todo madrugada adentro e domingo até ao almoço. Era um horror!, mesmo que a equipa de colegas fosse divertida.
A tentação de fazer um balanço do ano quando entramos na reta final de dezembro é grande, olhamos para trás e tentamos perceber o que fizemos bem para repetir e o que fizemos mal para tirar ilações. O mal é que recordamos com mais facilidade as coisas ruins, talvez porque deixam uma marca maior. Quando a vida nos corre de feição nem nos lembramos disso, não refletimos, achamos que é assim que deve ser e não registamos esse período como especial ao passo que quando nos acontece um dissabor este permanece mais tempo na memória, martela o subconsciente e não nos deixa sossegados. O subconsciente é uma coisa desnecessária, é como o apêndice – só sabemos que existe quando começa a dar problemas. Lamentamos quando temos azares mas não mostramos gratidão no momento da felicidade, é assim a nossa maneira de ser. Egoístas e mal-agradecidos.
A somar a isto tudo, o problema das últimas impressões ficarem sempre mais presentes. Podemos ter tido um ótimo primeiro trimestre mas tudo isso vai ficando nos fundos da nossa sala de recordações à medida que eventos mais recentes vão entrando e sendo arrumados nas prateleiras mais próximas da porta da sala, ocupando o lugar das memórias mais atrasadas. Uma fabulosa mariscada caseira em janeiro pode muito bem ser suprimida em favor um frio ‘feliz natal’ em dezembro ou uma enorme farra de abril preterida por uma chatice de outubro. Por isso é que eu não gosto de fazer balanços, porque mais depressa me lembro dum corte falhado que deu uma oportunidade ao adversário em novembro do que da minha elevação imperial e cabeceamento irrepreensível para golo em março. Sou só eu que penso assim?
2014 não me deixa muitas saudades. Considerando a falta de objetividade que já expliquei acima e que me impede de analisar este ano num todo homogéneo, arrisco a qualificar este ano como o pior desde que me radiquei neste país. Desde sérios revezes familiares a complicações de cariz pessoal e profissional, 2014 serviu-me uma ementa completa de problemas e ralações que me colocaram numa roda de hamster durante semanas e meses, apático, incapaz de reagir, logo nesta terra que não perdoa aos indolentes e aos acanhados. Se por um instante caísse na tentação de fazer um balanço de 2014 diria que tinha sido um ano de merda, que pouco ou nada me tinha acontecido de positivo e que a única coisa de boa que este ano tem é o estar perto do fim. No entanto não o vou fazer para não contrariar a minha natureza. Esta diz-me que 2015 vai ser um ano de confirmações, realizações, conquistas e êxitos. Sempre foi assim desde que cá cheguei, o sol aparece sempre mesmo depois da mais intensa borrasca, mesmo nos tempos de maior incerteza consegui dar a volta por cima e tocar o barco para a frente.
Por isso, estimado leitor, permita-me que mande 2014 para o raio que o parta mais toda a negatividade com que me surgiu. Permita-me enxotar este ano maldito que, à parte alguns salpicos de alegria e satisfação, só me trouxe arrelias e chatices. Permita-me chutar o ano velho para longe, para tão longe que nem lhe consiga sentir o fedor. E se quiser junte-se a mim, ponha-se comigo à janela espreitando a rua que vem de Nascente, tentando perceber o que vai trazer 2015. Tenho grande fezada, amigo leitor, que vai ser um grandioso ano para nós.
Até porque há pouco tempo conheci o mais belo par de olhos azuis que alguma vez vi… E olhe que já vi muitos!