quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O que é que a gente tá aqui fazendo? - 14


Às dez horas da noite em Tarchomin parece que estou numa cidade da península de Kamchatka. Não se vê vivalma na rua, ninguém se aventura a sair de casa e enfrentar a poeira de neve que cai e que cobre os carros, as últimas pessoas a pisar aqueles passeios já debandaram há muitas horas, vieram da missa das sete enfiadas e atarracadas nos casacos e gorros caminhando a passadas curtas mas rápidas, meteram-se em autocarros ou em carros particulares, muitas moravam ali perto e depressa recolheram ao quentinho do lar. Eu dou uma vista de olhos ao bairro e certifico-me que de facto não se passa nada.

É dos livros, quando chega o inverno o humor dos polacos cai mais depressa que o escudo, resguardam a iniciativa em alguidares de café para se manterem acordados ou em vasilhas de chá para se manterem aquecidos. Não sou adepto desse desporto mas rendi-me à cafeína matinal, ajuda mesmo a despertar o encéfalo e a enfrentar os alfarrábios de Conjuntivo e preposições que me esperam ansiosos nas prateleiras da escola. O Homem é um animal de hábitos e a capacidade de adaptação e flexibilidade faz a diferença nestas paragens, a substituição ou aquisição de novos hábitos por mais estranhos que sejam faz parte do processo de integração, muitos deles até ajudam a enfrentar as condições climatéricas agora que o ar arrefece e a vontade de sair da cama é menor.

Pois é. Eu procuro sempre ver o lado positivo da coisa, mesmo na altura em que toda a gente lamenta a chegada do inverno eu consigo perceber que os dias começam a ser mais longos a partir do solstício de dezembro, quando a neve cai aos caixotes eu alegro-me porque isso é sinal de subida de temperatura, quando o termómetro marca -15º ou -20º eu ainda encontro motivos de satisfação pois nesses dias geralmente o sol brilha (não aquece, é certo, mas ao menos brilha) e quando os dias estão encobertos significa que vai estar à volta de -5º e assim já não preciso de cachecol nem de gorro. Há sempre uma outra face em cada moeda e eu tento olhar para aquela que mais me agrada ou que melhores sensações me desperta, ainda estou para descobrir o que é que esta rua nevada dum bairro do norte de Varsóvia tem de positivo. Mas tranquilo, alguma coisa boa há-de ter e eu hei-de encontrá-la para evitar que o meu munine Rui Miguel faça a pergunta que dá título ao artigo.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Triunfar!

Agora que acabei o último trabalho de 2012, agora que olho pela janela e vejo o sol a pôr-se por trás do Palácio da Cultura e da Ciência, agora que posso descomprimir e apontar agulhas para a passagem do ano, também posso passar em revista o ano que hoje finda e avaliar se foi bom ou não.

Foi mais ou menos.


  • Vivi o meu segundo Europeu de Futebol depois do 2004 português. Varsóvia e o reservado e pouco emotivo povo polaco não resistiram ao carnaval do futebol e foram contagiados pelo vírus da bola, a Cidade Capital apresentou a maior Fan Zone da Europa, como era de esperar tive a visita de munines que quiseram acompanhar a seleção e demos um saltinho à Ucrânia para marcarmos presença na estréia da Equipa das Quinas na competição, vivendo aventuras nesses dias que foram aqui contadas e relatadas;
  • Atingi o patamar mais elevado possível em algumas das minhas atividades profissionais. Professor na Universidade de Varsóvia, uma das mais conceituadas do país e da Europa, um marco de qualidade das minhas competências e uma linha de inigualável prestígio no meu currículo, um filho de Faro (curiosamente não o único) a elevar o nome da cidade natal. DJ no Platinium, provavelmente a discoteca mais concorrida e reputada de Varsóvia, ponto de encontro da nata da cidade e onde só os nomes maiores da terra têm lugar. Aquela cabina foi minha, aquele chão foi meu, aquele povo todo entregou-se totalmente a mim e tal há-de acontecer novamente. Durante o set lembrei-me muitas vezes da malta do Largo da Caganita e da Escola do Carmo, eles estavam todos ali comigo na cabina, eles também tocavam comigo;
  • Assisto com mágoa ao envelhecimento da família, apesar de andarem rijos e lúcidos. Nota-se o peso dos anos nas expressões faciais, no discurso, na ambição, mais saudosistas e menos efetivos. Reflexo do conta-quilómetros mas também da situação atual em Portugal que contamina todas as esferas da sociedade, uma pena mas também uma inevitabilidade;
  • O regresso à casa de partida no campo das relações pessoais, as coisas complicaram-se nos últimos meses e vejo-me de novo no mercado de transferências com a trouxa às costas. Não vai ser pior do que em 2008 quando me separei da Iza, nessa altura não tinha trabalho, não falava a língua e quase não conhecia ninguém, mas é sempre um passo atrás no plano e no projeto. Ainda assim, sinto-me com mais ilusão que nunca, com grande vontade de arregaçar as mangas, ir para a luta e arranhar-me todo até conseguir alcançar aquilo a que sempre me propus desde o longínquo dia 8 de outubro de 2007 quando cruzei a fronteira germano-polaca: Triunfar.
Amigo leitor, que 2013 seja o ano do seu... digo, do nosso triunfo. E que os nossos inimigos se conservem bem de saúde para poderem assistir ao show.

Saúde e sorte.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A carpa – símbolo gastronómico do Natal polaco (e não só)

Carpa Na ceia de Natal polaca aparecem coisas que não lembram ao diabo! Comparando com a mesa de consoada portuguesa, os polacos destacam-se por apresentarem mais variedade - uma dúzia de pratos diferentes segundo a tradição -  sendo que nenhum é de carne e a maioria é composta por diferentes tipos de peixe. A ceia natalícia neste país não é uma oportunidade para a refeição lauta e bem regada tão característica na nossa terra porque, tradicionalmente, não se colocam bebidas alcoólicas na mesa. Outra situação na qual a consoada é diferente é na consensualidade que os pratos reúnem, em Portugal ninguém discute a bacalhauzada com batatinha, couve e grão, às vezes um ovo para enricar o banquete, porque é uma especialidade ao gosto de todo o português, o fiel amigo é tradicional do Natal mas acompanha-nos durante todo o calendário como todo o (nosso) prazer. No caso polaco não é bem assim, o peixe típico de Natal – a carpa – também gera consenso mas negativo: Ninguém gosta de carpa.

A carpa é um peixe originário da Ásia e foi introduzido no rio Danúbio há coisa de 2000 anos, não se sabe (ou não importa para aqui saber) qual foi o trajeto do teleósteo até chegar frita à mesa dos polacos (e dos alemães, checos e eslovacos) mas sabe-se que é um peixe que não goza de boa reputação neste país. É considerado um peixe sujo e essa fama advém de viver em rios e lagos, muitos deles poluídos, ganhando assim um gosto a lodo que só consegue ser neutralizado depois de muita depuração. Por isso é comum comprar-se carpas dois ou três dias antes da véspera de Natal e conservá-las numa tina de água doce para que a sua carne perca progressivamente o sabor a lama, o que nem sempre é conseguido e que explica a aversão que muitos polacos têm  pelo seu prato emblemático de Natal, amplificada pela notória falta de jeito que os polacos têm para lidar com espinhas de peixe. A consoada deste ano passei-a por cá e testemunhei a diferença que há entre uma carpa asseadinha e outra que não se lavou porCarpa frita dentro o suficiente, o cheiro e o travo a lama no primeiro caso mesmo que eu comesse sem reclamar a posta que me serviram, e a carne limpinha se bem que sem sabor distinto – a carpa é servida frita com batatas assadas mas sem azeite, vinagre, alhinho ou limão. Em ambos os casos foi elogiada a minha perícia no manejo das espinhas e no aproveitamento que fiz da posta, os meus colegas comensais deixavam mais de metade do peixe no prato, bem porque não sabiam separar as espinhas como também porque não se queriam dar a tanto trabalho para comer aquela coisa ruim.

Por isso fiquei a pensar no porquê dos polacos terem elegido para símbolo da consoada uma refeição de que quase ninguém gosta e que torna a ocasião num fastio em vez de ser um prazer. A Karolina contou-me que tal se deve ao impedimento que a Igreja Católica decreta ao consumo de carne na quadra natalícia obrigando os polacos a pensar em alternativas, sendo o peixe a mais direta. Como o mar não está próximo de todos os polacos, estes voltaram-se para os seus muitos rios e lagos onde há peixe com fartura, deitaram os anzóis ao leito e começaram a desbastar cardumes de carpas dado que este é o peixe que se deixa apanhar com mais facilidade. É uma explicação aceitável mas insuficiente para que eu comece a ter gosto em ver uma posta de carne frita na minha mesa de consoada. Mas podia ser beeeeeem pior, a apenas um par de horas, na vizinha República Checa o jantar típico de Natal é sopa de cabeça e vísceras de carpa ;)

O ganso assado no forno no almoço de Natal? Ah, isso é outra conversa…

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

ECAS


TAFKAP - The Artist Formerly Known As Prince


Amigo leitor, antes de começar a ler o artigo deixe-me que lhe diga que este vai ser uma daquelas prosas dramáticas sobre o inverno polaco, tema sobre o qual já dissertei noutras ocasiões mas que me é sempre chegado, particularmente quando caem as primeiras neves. Portanto considere-se avisado, se não quiser continuar a ler mude de canal que eu compreendo, ficamos amigos à mesma, só que eu tenho mesmo de escrever sobre estas coisas para as tirar dos ombros. Se soubesse o que nós passamos nesta terra cada vez que muda a estação compreenderia todo este barafustar.

Ontem à tardinha ameaçou, vi que o asfalto estava esbranquiçado e que as rachas do pavimento tinham sido preenchidas por uma pasta branca que dava a sensação de frio. Não fiquei muito contente com o panorama porque tinha jogo de futebol à noite e imaginei um arranque a diesel, uma carga de trabalho até alcançar o nível e agilidade para jogar como deve ser. Pensei também na quantidade de café que tinha em casa, se era altura de reabastecer o armário porque com a temperatura a descer há um série de molezas que tomam conta do corpo, tiram a vontade e esta só consegue ser reposta com a colaboração de abastadas chávenas de café com leite, sem açúcar para o estímulo ser ainda maior. Entretanto a noite caiu e saí de casa para o meu jogo, o termómetro do carro registava -0,5º C e eu pensava se ia jogar de luvas ou não. Acabei por deixar as luvas no saco, ignorei o briol, cerrei os dentes e saltei para a arena, corri que nem um cavalo para não sentir frio e a estratégia deu resultado - não dei pelo frio e ganhámos 3-0 com dois golos meus, um de pé esquerdo e outro de calcanhar (peço desculpa pela cagança mas tinha de dizer isto!). Voltei para casa e inchado e arcado e dormi o sono dos justos.

Hoje já não houve ameaças veladas nem pré-avisos, a neve cascou e ainda casca severamente na Cidade Capital. As pessoas esperam pelos autocarros enfaixadas em cachecóis e gorros atafulhadas em grossos blusões ou volumosos sobretudos, sai-lhes um ar duro da boca e dos narizes rosados que lhes dá um aspeto ainda mais triste e enfermo. Sinto a neve misturar-se com o gel e começo a teorizar sobre os gorros e couros cabeludos dos polacos, se eles usam o gorro porque têm o cabelo ralo e isso faz-lhes frio na gorra ou se cortam o cabelo rente para poderem usar gorro e não terem frio na gorra, se eles não usam gel porque já sabem que o cabelo fica empastado quando neva ou se não usam nada porque o cabelo deles é tão fraquinho que qualquer leva de espuma da Garnier arranca-lhes madeixas inteiras.


No meio desses pensamentos passei o primeiro compromisso do dia e sentei-me para o pequeno-almoço, li as frescas e fiquei sabendo que Alvalade mete água mesmo sem o Sporting jogar. Aliás,  o ECAS - Equipa Conhecida Anteriormente por Sporting. É esta a designação que escolhi para aquele bando de moços que jogam à bola com camisolas verdes e brancas às riscas porque aquilo não tem nada a ver com Sporting, não fazem esforço, não se dedicam, a devoção é inteiramente da massa adepta e de Glória só me lembro da mulherzinha que vendia abacates ao pé da casa da minha avó. O emblema também não tem relação nenhuma com a realidade, não merecem ter um leão rampante ao peito mas antes uma onça velha e magra, caquética, que erra pelos relvados portugueses e europeus numa vexatória demonstração de decadência.

Arrumei o computador e peguei no copo do café, sentam-se duas adolescentes na minha mesa, sacam dos telemóveis e comentam fotografias do facebook, comentam os penteados das colegas, comentam os comentários. Eu assopro o café para o arrefecer e olho à minha volta, centenas de pessoas a caminho dos seus trabalhos. Passa um rapaz com um cachecol da Legia, joga hoje à noite em Wrocław na casa do campeão polaco para defender uma vantagem de sete pontos sobre o segundo, começo a pensar se não farei melhor em ver o jogo da Legia do que o do ECAS mas logo penso que não, que isso seria como trocar a esposa que está doente e bichada por uma amante mais jovem e vibrante. "Mas trata-se disso mesmo, qualquer homem faria o mesmo!", penso eu procurando desculpas para a facada no matrimónio, para justificar a preferência por uma mulher mais nova de pele mais clara e luzidia, cheia de vida e jovialidade, fogosa na cama e louca na pista de dança. Para quê seguir com este saco de ossos a que alguém chama de equipa, este feixe de misérias nas palavras de Guerra Junqueiro, um esfregão futebolístico que me envergonha quando saímos de braço dado? As raparigas riem alto, guincham como dobradiças de portas velhas, não respeitam a minha angústia, não percebem a minha dor, não vêem o meu calvário.

Lá fora a neve segue impiedosa, pune Varsóvia pelo verão radioso que viveu este ano. Tal como eu vou ser punido mais logo à noite pela má-sorte de ter nascido lagarto.



ps - Acredite, caro leitor, que eu queria escrever sobre o inverno polaco quando me sentei ao computador, mas entretanto outros pensamentos me assaltaram e deu nisto que se lê. Desculpe lá...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Kuba

Plac Konstytucji

O Kuba tem 30 anos e diretor de vendas duma firma de construção civil. Típico pai de família, duas filhas, mora numa casa nos subúrbios, é adepto da Legia (meteu-se comigo, ele estava com um grupo de malta, no restaurante onde eu jantava com os munines depois do Legia-Sporting) e às vezes manda mensagens a cancelar o nosso encontro matinal das sextas porque se atascou em vodca na noite anterior. É um porreiraço.

Já nos conhecemos há dois anos, ele ajudou-nos no processo de compra de casa ao estabelecer (estabelecer e não negociar) os termos e condições do negócio, conseguiu-me a garagem por metade do preço, dilatou prazos, reduziu preços, fez trinta por uma linha a nosso favor sem esperar nada em troca. Receberia mais tarde uma garrafa de Antiqua, uma aguardente velhíssima do acervo do meu tio, como paga pelos favores. Ficou satisfeito e eu contente por ter compensado que mereceu, assim se fazem amizades e se consolida o respeito.

A este meu amigo faz confusão a questão do "português na Polónia", como é que um ser mediterrânico, principalmente do Algarve, se dá tão bem com os ares severos da Europa Central a pontos de não pensar num regresso breve para Portugal. Concluiu ele em amistosa provocação que se tal acontece é porque eu estou a ficar mais polaco que português, já são cinco anos a dizer "cześć", noiva polaca e etc., todo o processo de integração a decorrer em velocidade de cruzeiro e por isso as particularidades da civilização polaca já não me afetavam tanto, era mais fácil para mim e que por isso podia servir como consultor de portugueses interessados em emigrar para a Polónia. Recusei a teoria dele, não me estou a tornar polaco apesar de já ter assimilado muito da cultura e da mentalidade deste povo, sou e serei sempre português com os prós e contras que isso traz, a falta de pontualidade, a postura relaxada e tranquila ante os problemas e obstáculos que a vida cria, o "thinking out of the box" tipicamente tuga que nos permite ter uma palavra no dicionário que não tem tradução em mais nenhuma língua do mundo (desenrascar), o sangue quente que nos faz debater um tema de forma inflamada sem que estejamos a discutir embora pareça.Depois surpreendi-o quando lhe disse que provavelmente não aconselhava ninguém a vir para a Polónia. Ele abriu os olhos, encostou-se atrás na cadeira e depois fez um sorriso patife: "Já percebi, queres as raparigas todas para ti". Eu vi onde ele quis chegar, não era essa a minha intenção e passei a explicar.

O barbacã da Cidade Velha

Se bem que Portugal em 2011 tenha registado o sétimo pior nível de crescimento económico mundial segundo o World Bank, a Polónia também não patenteia a mesma pujança do início de década, o emprego (em Varsóvia) é cada vez mais difícil de encontrar, o investimento tem-se reduzido porque as empresas têm de salvar as suas operações dos países de origem - a título de exemplo, durante anos foi o Millennium polaco que financiou a casa-mãe portuguesa e por isso fala-se na que o banco português está a ponderar a retirada do mercado polaco - além de que o polaco da geração mais recente é mão-de-obra altissimamente habilitada (conheço pessoas, jovens adultos, com duplos e até triplos mestrados, qual é o português com estas qualificações?) que trabalha 10 ou 11 horas por dia sem grandes reclamações e que procura constantemente valorizar-se através de formações profissionais, pós-graduações ao fim de semana, cursos de línguas estrangeiras (sei de alunos meus que estudam coreano, alguns árabe, outros aprendem japonês para não falar de idiomas europeus). O português que se quiser radicar neste país tem de ser bem melhor do que estes jovens lobos que buscam trabalho no seu país, que querem trabalhar na sua terra e que procuram desenvolver a sua nação através do seu conhecimento. Vai ter se superar uma concorrência tremenda que consiste em pessoas que sabem por dentro e por fora o funcionamento do sistema e das instituições, percebem a mentalidade e sabem como reagir mediante determinadas situações ou estímulos que sucedem pela primeira vez ao português comum, situações essas que podem ser extremamente desgastantes quando sucessivas, contínuas e permanentes.

A Polónia não é apenas cerveja baratucha, gajas boas e festas do outro mundo. Uma coisa é vir para cá de Erasmus e furar tantas miúdas quanto possível sabendo de antemão que se regressa para o retângulo atlântico ao fim de seis meses, outra é ter a noção que amanhã vamos ter de caminhar em 10 cm de neve no passeio até chegar ao autocarro abafado e apertado, sair de casa no escuro e voltar para casa no escuro, repetir a mesma música pelo menos cinco meses por ano - tanto quanto dura o inverno - e passar mais de metade do ano com temperaturas abaixo de zero. Também não nenhuma pêra doce negociar com pessoas desconfiadas à partida e com um enorme sentido de dúvida em relação ao produto e à pessoa que vem de fora, enfrentar repartições públicas com funcionários que não fazem o mínimo esforço para facilitar a tarefa do imigrante que ainda não domina o idioma na perfeição, negociar contratos de água, luz, televisão e telemóvel, requerer um fundo de pensões, ir à oficina com o carro, todo este leque de pequeninas coisas que multiplicadas pelos sete dias da semana ou trinta do mês podem levar alguém ao desespero.

Então, é verdade que a Polónia apresenta um crescimento interessante na casa dos 4% (comparados com os -1.6% de Portugal) mas não se tome o índice de crescimento económico como um aferidor do nível de vida que se pode ter num país. A Polónia não é nenhum El Dorado, talvez tenha sido há 5 ou 10 anos mas agora já é difícil penetrar nos mercados porque a concorrência é cada vez maior, o emprego nas grandes cidades começa a escassear e só o grande capital é que tem facilidade em se estabelecer. Para quem quiser vir para este país e triunfar aconselho uma carteira bem agasalhada, paciência de e muito jogo de cintura porque se vamos basear as nossas decisões em números é preferível irmos todos para a Mongólia que lá estão a crescer a 17%.

No final, o Kuba cruzou os braços e disse: "Nunca tinha pensado nisso, pelo menos não como tu dizes..." Bebeu mais um golo de café e recomeçou:

"O Ljuboja está a jogar muito, não está?"

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Retalhos da vida de um Algarvio - Parte 19


21:00 Acabei o dia de trabalho.

Varsóvia I

O alarme tocou às 6:10, podia ter tocado às 6:00 mas eu regulo-o para que tenha mais 10 minutos de sono do que o esperado, é uma pequena subversão ao sistema, os gajos pensam que eu acordo às seis da matina mas eu é que sei, fico mais dez minutos na cama. Uma palermice, mas é a minha palermice e são mais dez minutinhos de cama e dez minutos mais na cama, para mim e para o lado materno da minha família, é um tesouro. Fosse como fosse, às 7:30 já estava a alargar as virilhas para apanhar o entalado 109, o primeiro autocarro do dia, gente a deitar por fora, hálitos grossos de café e névoas amarelas de alfazemas diferentes a decorar o interior. Há quem feche os olhos e ainda tente voltar atrás na dormência, passar pelas brasas em pé, um exagero de sono, eu já me preparo para a escala, mudança de autocarro para o E-2 e vou mentalmente revendo o plano da aula. Troco de transporte, mais avagado de espaço e de lugares, já dá para sentar e puxar da leitura que o Duarte emprestou, aqui e ali interrompido por um incomodativo estridor mais agudo proveniente dos fones de um jovem que ouve Guns n'Roses logo de manhãzinha, poluição auditiva para arrancar o dia. Blargh!

O Centro recebe-me com "bons dias" soalheiros, céu limpo de outono mas sem aquela sensação de inverno iminente, as pessoas vestem roupa de meia-estação e a neblina fofa não chega para arrefecer o ânimo, estudantes precipitam-se para os portões da Universidade mergulhados em capuzes, iPods e tabaco, um taxista menos paciente faz gincanas para ganhar uns décimos de segundo, um rapaz de calças de bombazina (o que eu detestava quando a minha mãe mas comprava, até tive umas cor de vinho tinto que eram mais feias do que um filho bater no pai) distribui panfletos de casas de fotocópias, parece-me tudo mecânico, como em piloto automático. Mas do portão da UW para dentro é uma paz sepulcral, os cochichos das árvores sossegam a pressa e reduzem as pulsações, pontos louros destacam-se do verde deslocando-se para a esquerda e para a direita, um colírio.

Senta-se a turma, tudo arredado na última fila. Eu também fui aluno de última fila e conheço as manhas, por isso ordeno um passo em frente, que não há problema porque tenho as vacinas em dia. A turma obedece, respeitam o mestre talvez porque este os respeite e se saiba dar ao respeito, coisa que custa a muitos. Que abram o livro na página tal...

Batem à porta, é a D. Anna, provavelmente a funcionária mais simpática da faculdade. Traz más notícias, o corpo dum colaborador que havia desaparecido há dias foi encontrado nas margens do Vístula, terá saltado para a morte sem que ninguém se apercebesse dos tormentos que o desassossegavam, ninguém deve julgar aquele que se mata porque terminar a vida requer muita coragem. Cai um manto lúgubre na aula que prossegue como pode, o espetáculo não pode parar.

O almoço, costume que me esforço para manter regular, é constituído por plantas porque faço um dia vegetariano por semana, uma desculpa moral para os banhos de colesterol que tomo, para limpar a tubagem, para expiar a carne, para me enganar ao cabo e ao resto. Meio quilo de forragem e um sumo de cenoura garganta abaixo e recomecemos o baile que isto não dá para grandes recreios.

Varsóvia 2

A tardinha surge apressada e já vestida de noite, traz aragens escuras à cintura e uma cuia de chuvinha miúda que era escusada e que faz arrepiar a espinha. Dura pouco esse tempo e logo se despe de claridade para abraçar a Cidade Capital num fresco lençol de breu, mais chuva e um elétrico antigo para o transporte para casa. No caminho passo por parques cor de musgo e por um cemitério onde piscam as velas multicores de parentes dos falecidos, uma calma parda que me dá medo, o elétrico segue ruidoso e sacolejante, mais um cruzamento, mais um passageiro que sai, uma loura adolescente que me mira com ar interrogativo, eu olho distraído pela janela, mais uma paragem e a minha é a penúltima. Dois McDonald's em 800m, casos do capitalismo desregrado e sem critério, mais valia que fosse um Burger King no lugar dum deles e o meu ponto que chega.

Salto do elétrico e ponho-me ao fogão, não há horas para jantar porque o jantar vem sempre a horas. Depois da sopa aquecida ainda me sento ao PC para dar um toque nas fotocópias do dia seguinte que como a maioria dos meus dias de trabalho vai das 8:00 às 20:00. Lá fora a chuva pára, pelo menos regou-me o jardim e é menos isso que tenho de fazer no sábado.

21:00 Acabei o dia de trabalho. Amanhã há mais... do mesmo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Para o meu grande amor


Querido Sporting,

Espero que esta carta te encontre bem e digo isto sem ironias porque há muito tempo que não te vejo, desde que me zanguei contigo e deixei de te prestar atenção. Tens sido mau para mim, tão injustamente mau que me desiludi, desenganei-me e de tão zangado que estava abandonei-te. Por isso te escrevo, para te pedir desculpas.

Não sei o que hei-de fazer contigo, sinceramente não sei, se ponho uma pedra definitiva sobre a nossa relação e às vezes é o que me dá vontade depois das partes que me tens andado a fazer, ou se te dou mais uma oportunidade como aqueles pais de filhos toxicodependentes que lhe desculpam todas as avarias "porque ele não é má pessoa". Tal como esse filho drogado, eu sei que tu também não és má pessoa, bem pelo contrário, és uma pessoa excelsa e magistral, nobre e distinta, tens princípios e valores que partilho inteiramente, possuis um carisma tal que te torna irresistível logo quando te conhecemos, és garboso e excelente, tens tudo o que se procura em alguém como tu. Mas tornaste-te numa coisa que não entendo, numa vulgaridade, tornaste-te normal, comum, incógnito. Parece que largaste tudo sem avisar para fazeres uma road-trip de mochila às costas, terás lido o Patagonia Express? Não me disseste para onde ias nem quando voltavas, eu esperei por ti, fiel como um cão, todos os jogos eu compareci - na medida das minhas possibilidades, percebes? - na esperança que aparecesses, olhei sempre no horizonte para ouvir aquele teu tropel assustador que fazes quando és senhor de ti e que amedronta os teus oponentes... mas nunca vieste e tantas vezes não vieste que me fui embora. Por isso te escrevo, para te pedir desculpas.

Conhecemo-nos há quase quarenta anos e desde sempre estive contigo, dezoito anos de provações mas estoicos prosseguimos a caminhada, uma que só tu sabias quando ia acabar mas eu nunca reduzi a minha fé em ti. Explodimos de gozo em lágrimas e gargalhadas em maio de 2000, lembras-te?, que fomos os dois (e mais uns milhares) para a Baixa de Faro e eu andava aos saltos na capota do meu carro, histérico, com a camisola do Schmeichel? E dois anos depois, quando os teus dirigentes tiveram uma das poucas boas ideias do teu passado recente e foram buscar o Jardel para metralhar a golos outro título? Porra, Sporting! O que é que te aconteceu entretanto? Como foste capaz de perder essa embalagem, esse alento? Como foste capaz de te tornares num balão esvaziado, frouxo e mole? Como é que tu queres que eu continue a gostar de ti se tu só dás vexames e fazes-me passar vergonhas? Até o filho do Litos, esse então veio mesmo do teu ventre, diz que quer mudar de clube, já viste ao ponto que chegaste? Mas enfim, por isso te escrevo, para te pedir desculpas.

Gostava de ter a força e a coragem para te deixar e ser feliz com outro mas não tenho. Tu és o meu combustível, a minha heroína, o meu oxigénio. Se tu jogas à noite eu de manhã já penso em ti, fico tenso e tremo, não me concentro em mais nada porque é o dia em que jogas, nada mais interessa, nada mais importa, nada mais existe. Tenho uma dor tão grande de te ver como estás que nem fazes ideia, cada jogo teu é uma navalhada no coração, é um dó ver aquelas onze almas passarinharem o teu emblema, a raiva que me dá ver a falta de respeito que eles têm por ti. Culpa tua, deixa-me que te diga, porque também não tens sabido dar-te ao respeito e é aqui que eu quero chegar. Respeita-te, Sporting! Levanta-te, Leão!

Peço-te desculpa porque eu não devia de me portar como me portei. Que se lixe, não aguento a tua ausência! Voltei. Volta tu também, regressa depressa. Escrevo-te de lágrimas nos olhos e peço-te, imploro que me perdoes porque mesmo que me trates da maneira como me tratas eu vou continuar a amar-te, mesmo que me humilhes e ignores eu vou continuar a amar-te, mesmo que outros com razão partam e te deixem eu vou continuar a amar-te ainda mais fiel, ainda mais leal, ainda mais teu. Dar-te-ei tudo o que me pedires, entregar-me-ei plenamente porque é este o amor que te tenho: absoluto e incondicional, unilateral se assim quiseres que seja. Não consigo, tentei mas não consigo existir sem ti. Quando sofreres sofrerei contigo, quando te ferires limparei as tuas feridas, quando te atingirem saltarei para a arena para te defender, caminharei de mão dada contigo por onde te levarem, ouvirei os dichotes e os gozos daqueles que estão agora melhor na vida, são parvos porque não sabem nem sonham o quão belo e ilustre é ser sportinguista. Se este é o preço a pagar por tal devoção e tal amor estou disposto a pagá-lo até ao fim da vida e mesmo então, no fim da linha e quando eu fechar os olhos, eles sem vida hão-de te ver.

És o meu perpétuo, primeiro e único grande amor. Sporting, tu és a minha vida e eu sem ti não sei viver.