A saga dum filho de Faro na Polónia (em Bielany, no norte de Varsóvia) - desde 2007
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Também tá bem...
http://embomportugues.blogs.sapo.pt/
Não sei se a autora incomodar-se-á com a publicidade gratuita mas, como diria o Augusto Inácio depois da contratação do César Prates, o Saber não ocupa lugar.
Este huomem é um senhuore, carago!

para o trabalho e começo a procurar variantes ao percurso. Uma rua adiante, um cruzamento antes, na rua de trás o estacionamento é grátis e ali a polícia não chateia... Estáo a perceber?

terça-feira, 23 de outubro de 2007
Retalhos da vida dum Algarvio - Parte 2
Um dia de trabalho na Polónia será assim:
6:30 - Despertar
6:45 - Pequeno-almoço. Esta refeição não pode ser negligenciada pois será a única nas próximas 6/8 horas. Normalmente fartas fatias de saboroso pão barradas com manteiga irlandesa e generosamente encimadas por delicioso fiambre polaco. Aqui a Polónia leva a palma! Enchidos, fumados, carnes diversas, patés é com os polacos. Era capaz de gastar um salário inteiro numa charcutaria. E o pão é da morte pois é pejado de sementes e grãos de cereais tornando-o bastante suculento.
7:00 - Carro na rua para conduzir até ao emprego. Consulta aos termómetros existentes na estrada que nunca vi acusar temperaturas acima de 10ºC. Ultimamente oscilam entre os 1º e 4º, estando o piso geralmente mais quente dois graus. A experiência de conduzir espremido entre o cinto de segurança e 2 casacões é indescritível. A lembrança da minha scooter assalta-me e imagino-me em cima dela a vir da praia de tronco nu às oito da noite já com dez imperiais no bucho.
8:00 - Começar a trabalhar. É indispensável entrar com um capuccino, caffe al latte ou um americano na mão para arribar os sentidos e despertar os neurónios. Durante a manhã é comum verem-se chávenas a dançar nos escritórios ao serem constantemente reabastecidas.
12:00 / 13:00 - Pausa para o almoço, habitualmente de 15/20 min. Os polacos não têm "hora do almoço". Têm quando muito "pausa para comer qualquer coisa" sendo esta "coisa" uma sopinha ou uma sandocha feita em casa. Antes desta pausa já foram bebidos mais 2 ou 3 cafés e após esta pausa bebe-se mais um para embalar a tarde.
16:00 - Final do dia de trabalho. As pessoas vão para casa almoçar a sério ou aproveitam para ir às compras. Muitas preferem ocupar-se com outros empregos para ganharem alguns złotych mais, outros fazem capoeira, nadam, ou vão para o ginásio e ainda outras pessoas optam por tirar cursos complementares, como estudar português com este vosso escriba.
18:00 / 20:00 - Período de tempo passado em casa com a família ou na rua. Se estiverem em casa os polacos provavelmente estarão na hora do "jantar". Jantar entre aspas porque esta refeição consiste em pãozinho cortado às fatias e comido com tomate, cebola e os abomináveis pepinos envinagrados que de acres que são criam faíscas nos dentes. Como alternativa, em vez de legumes, podem-se utilizar enchidos polacos que são de magnífica qualidade, não me canso de frisar. O chá escaldante acompanha a refeição. Se andarem na rua, os polacos certamente estarão no supermercado ou a fazer uma pausazinha para o café porque o dia está "fresco".
21:00 - Dois dedos de conversa entre família após o chá, discutindo os dias de trabalho de cada qual. Progressivamente os elementos vão desaparecendo até o último dizer "Bom, vou dormir."
22:00 - Cama!
É de facto um ritmo diferente mas que tem as suas vantagens como dispor de grande parte da tarde disponível para outras actividades, sejam de lazer ou um part-time para tratarem do pé-de-meia. O dia começa mais cedo mas também estão despachados mais cedo.
O que faz-me confusão é o horário das refeições. Comer 8 horas após o pequeno-almoço é ainda complicado para mim e ter apenas uma sandes à minha espera às 21:30 (tem dias que só chego a essa hora) quando venho da Escola é criminoso. Felizmente já constataram que o meu apetite ainda não está feito aos hábitos de Leste e tenho contado com uma segunda refeição quente e de faca e garfo quando chego a casa. Ontem foi um linguadinho maravilha, soube a pato!
sábado, 20 de outubro de 2007
Não falo mais de política neste blogue
Tenho algumas formas de passar este período de reflexão. Posso muito bem tirar o dia para finalmente montar a parabólica e poder assistir à formidável programação que a TV Cabo oferece-me para poder matar saudades do país. Programas como CSI, South Park, JAG, Prison Break, as reposições do Seinfeld e o 60 Minutes trazem-me aquele cheiro de Portugal que tão distante se encontra. Sim, porque na RTPi que apanho através do Astra cá de casa só tenho hipótese de ver o Zé Orelhas dos Santos a teatralizar notícias, o Fernando Dentes a rebolar-se enquanto apresenta o Peso Incerto, o João Gayão num programa qualquer de variedades e 743 novelas que despertam-me menos interesse do que um documentário de 2 horas preenchido integralmente com o processo de decomposição de uma carcaça de hiena no deserto do Kalamari.
Posso também enveredar por uma aposta nas emoções fortes e praticar desportos radicais. Em Cracóvia é dia de derby, jogam FC Cracóvia - Wisła Kraków e (diz quem sabe) este é o jogo mais venenoso da Polónia. Uma intensidade tipo Panathinaikos - Olympiakos, River - Boca ou Galatasaray - Fenerbahçe numa escala de perigosidade em que o Sporting - Benfica não está sequer classificado. Depois iria beber uma vodka finlandesa à boîte do costume para matar saudades. Já fui apresentado ao advogado da família para que, no caso de não regressar a casa, ele possa iniciar a divisão do meu espólio.
Também poderia optar por um passeio pela cidade de Tychy, onde moro. Não tenho tido muito tempo pois o trabalho, a procura de casa e as formalidades fiscais e de residência consomem-me a maior parte das horas e pouco sobra para o turismo. Talvez vá visitar o museu da cerveja mais popular da Polónia que é fabricada a 500m daqui e perguntar-lhes se dá para montarem um pipeline directo para casa para podermos ter fornecimento de cerveja pela torneira.
Melhor ainda, já sei o que devo fazer! Prometi aos meus amigos, antes de vir para este país, que iria implentar alguns hábitos portugueses... digo, algarvios... aliás, de Faro. Um desses costumes é particularmente do gosto duma franja de malta que costuma abancar na Praia de Faro, no belo spot em frente ao Zé Maria. A Peitada.
É isso mesmo! Vou implementar a Peitada na Polónia e daqui lanço desde logo um apelo aos meus camaradas de lides sudoesteanas e da prainha para prepararem a agenda e reservarem já passagens aéreas para em Maio darmos início às sessões de demonstração e explicarmos aos Polacos (e ao Leste Europeu, porque não?) como se joga uma bela Peitada. Vou lançar os alicerces para instalar a primeira Federação Polaca de Peitada. Campo já arranjei.

PS - Tenho sido abordado por alguns amigos chocados pelo facto de ainda não ter-me referido áquilo que eles designam por "gajas". As perguntas são repetitivas, aborrecidas, chatas e sempre no mesmo tom: "Atão e as gajas? Aí na Polónia é só gajas boas, né? Fdx, tu falas de nabos e não metes aí gajas para a gente ver?! Põe lá uma polacas boas no teu site, pá! Deixa-te de merd..."
Quero deixar de forma bem clara que não vou conspurcar este imaculado blogue com fotografias de gajas boas que eventualmente possa encontrar por cá. Irei, por certo, publicar algumas fotos das raparigas PODRES DE BOAS, TESUDAS, ESTRONDOSAS, GROSSAS, FAI CAMANO!, ESPERMACULARES, INOLVIDÁVEIS, TIPO DAVA-TE TRÊS SEM TIRÁ-LO, I´M THE KING OF THE WOOOOOOOORLD!!!! que eu considere decorativas de forma digna. Mas de gajas boas neste blogue não falo. Nem de política.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Para reflectir
Portugal
Crescimento económico (%) 1.8 / 1.8
Inflação (%) 2.5 / 2.4
Espanha
Crescimento económico (%) 3.7 / 2.7
Inflação (%) 2.5 / 2.8
Polónia
Crescimento económico (%) 6.6 / 5.3
Inflação (%) 2.2 / 2.7
Dados extraídos de http://www.imf.org/external/index.htm
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
E daí?


PS - "E rá, e o Makukula não é português, e já com o Obikwelu foi a mesma cena, e qualquer dia não temos portugueses na selecção, e o Pepe e o Deco, e xis, e tal e coiso." Realmente, temos cá uma moral para de falar de pureza da raça. Logo nós que inventámos o mulato!
terça-feira, 16 de outubro de 2007
E eis que ela surge!
Faz hoje 25 anos que morreu Adriano Correia de Oliveira. Este nome diz-vos alguma coisa? Provavelmente não, a mim até hoje nada me disse. Mas vi hoje no Telejornal as imagens que acompanharam a notícia do seu falecimento e as respectivas alusões ao Fado de Coimbra do qual ele era, pelos vistos, eminente intérprete.
É curioso que por vezes só notamos o quão rica é a nossa cultura quando ela nos falta ou quando estamos longe da nossa terra. A distância faz-nos sentir coisas tão absurdas como vontade de ouvir música pimba, comer um pastel de nata ou discutirmos com um arrumador de carros nos estacionamentos (coisa que por cá ainda não vi). Sentimos falta até das coisas mais irritantes como a buzina da carrinha do Family Frost, por exemplo, ou da vizinha da porta ao lado sempre a resmungar por causa do barulho que fazemos na nossa casa.
Somos um país tão interessante, um povo tão admirado por essa Europa afora que julgo nem sabermos o que somos. Todas as reacções que tenho obtidas ao dizer que sou português são de espanto, naturalmente, porém também de gabo à nossa História e - pasmem! - preponderância nas ocorrências do mundo.
Existe a estória de dois tugas que fizeram um engate na Polónia sem falarem nada de polaco e elas sem falarem nada sem ser polaco. Combinaram um almoço e no momento em que encontraram-se uma das meninas saca de um dicionário polaco/inglês e a outra diz: "Vocês são portugueses e Portugal é o primeiro produtor e exportador mundial de cortiça!" Não sei se os nossos compatriotas sabiam deste facto mas a realidade é esta. Portugal tem uma reputação muito considerada nestas paragens sendo visto como um país de oportunidades e de gente empreendedora.
Em vez de desencantar estes simpáticos polacos, em vez de contar-lhes que o meu país sobrevive de expedientes e chico-espertices, em vez de contar que andámos quase 50 anos a matar a fome com "Fado, Futebol e Fátima", em vez de contar que há pedófilos no Parlamento e a Maçonaria manda mais que a Justiça, em vez de contar que entre árbitros compadres e marfim contrabandeado há por onde escolher, em vez de contar que organizámos uma Expo 98 cujas derrapagens darão para alimentar famílias até à 5ª geração... em vez de contar-lhes isto tudo vou dizendo que somos um povo pequeno mas bom por natureza, que somos tão sortudos que até temos sol o ano inteiro, que a nossa gastronomia dá 10-0 a qualquer outra (3-2 à italiana, pronto...), que sempre que sofremos invasões de castelhanos e franceses eles eram 100 vezes mais que nós e foram consecutivamente corridos à pazada (Dona Brites, alé!), que o nosso espírito aventureiro deu novos mundos ao mundo e fez trabalhadores bem sucedidos em paragens tão remotas sem saber uma única palavra do idioma local, que mesmo com as mais disparatadas estratégias políticas conseguimos entrar na primeira carruagem do comboio europeu e que Portugal é tão simpático ou tão pouco que ninguém se mete conosco.
O Portugal em que eu me reconheço é um país de garra e coragem. Um país de competências respeitáveis e em evolução permanente. Um exemplo de persistência e tenacidade, a Nação Valente e Imortal que Henrique Lopes de Mendonça versou e de que a estranja ouviu falar.
O Portugal de que sinto falta é o da sua força e vida. Do pulsar latino das suas gentes, do seu ânimo e resistência. Da sua voz que conta triste as suas mágoas ou apregoa eufórico as suas façanhas e de que a estranja já ouviu falar.
O meu Portugal é feito de chouriço assado ou arroz de marisco. De vinho tinto ou minis na praia. De Vilar de Mouros ou Alvalade ao rubro. De tunas ou fado. Fado do Bairro Alto ou de Coimbra que a estranja já ouviu falar.
Faz hoje 25 anos que morreu Adriano Correia de Oliveira. Ouvi-o cantando Fado de Coimbra e ela surgiu!
Ela quem?
A saudade.

