sábado, 16 de junho de 2012

Crónicas de Lviv – 2

Cracóvia - Praça do Mercado Para falar a verdade, o plano não era mais que um jantar e um copo, coisa tranquila e sem muita variação porque o dia seguinte ia ser exigente e foi nessa base que o pessoal se preparou. Ao princípio a fome determinou que chegássemos à pousada, arreássemos as coisas e arrancássemos para o restaurante do costume devorar os bifes com dois dedos de altura que eles normalmente servem, mas tivemos de esperar pelo Fava que fez a viagem por outra rota. Também a morosa viagem pedia um duche que renovasse a pele e o espírito e por isso reivindiquei banho ainda que eles protestassem. Borrifei-me para a opinião deles, enrolei toalhinha à cintura, champô e chinelos, barbeei-me e voltei fresco como uma alface quando, qual não era o meu espanto, vejo os companheiros de quarto, Fava, Giga e Rui, a puxarem das bolsinhas dos cosméticos e a prepararem-se também para lavarem as partes, os manhosos viram que era boa ideia e foram refrescar-se. Eu avancei com o Dani para o restaurante e servi-me duma cervejinha.

Cracóvia é uma cidade encantadora, sempre foi e sempre há-de ser. As charretes que passeiam casais de apaixonados na praça do Mercado, a Basílica de Sta. Maria continua a providenciar o toque da hora certa mais popular do país. O ar é diferente, mais leve do que em Varsóvia, as pessoas têm expressões mais ligeiras, gestos mais demorados, a velocidade das coisas é outra, mais pausada e por isso mais saudável. Sentar numa esplanada de Cracóvia é um prazer para os cinco sentidos, é admirar uma cidade-princesa que o rio Vístula banha com prazer, as suas margens são bonitas e frondosas, foram concebidas para virar a cidade para o rio e não como em Varsóvia em que o Vístula serpenteia em bancos de areia agreste, fauna selvagem e degraus de pedra cheios de limos como se a cidade considerasse o rio mal-vindo. Os munines foram chegando a conta-gotas, primeiro um e depois outro, já duas mesas de portugueses tentavam meter conversa conosco, a conversa parva do tuga turista – o pior turista do mundo – que imediatamente fez menção aoCracóvia - Castelo de Wawel facto de “nós alugámos um charter!” como se o forro da carteira medisse o entusiasmo e fosse barómetro de apoio às cores nacionais. Começaram então, estes tristes, a entoar umas estrofes do hino nacional para exibir algum pseudo-patriotismo e mostrar que os portugueses são assim mas eu não embarco em festivais de cultura pimba e recusei alinhar pelo motivo de não cantar o hino numa esplanada de restaurante sem uma razão plausível. Admiraram-se, um mais entrado na idade travou-se de argumentos comigo, que era uma questão de entusiasmo e eu tive de responder que não precisava de embarcar em foleirices para demonstrar entusiasmo e que não era preciso ser-se piroso para apoiar a Seleção. A coisa morreu ali, eles bateram a asa meio azedos conosco, o Pimpão admirava-se com o tamanho da imperial, muitos gregos, espanhóis, italianos e polacos proocavam-nos amigavelmente e depois do jantar apontámos a agulha para as discotecas.

Não foi longa a borga. O Dani, graças aos conhecimentos adquiridos durante o período que trabalhou em Cracóvia, conseguiu infiltrar-nos num dos bares mais elegantes masiada desproporção homens/mulheres, uma festa do bombeiro por serem tantas as “mangueiras” na boîte. Juntou-se o desgosto de não se poderem ver aquelas polaquinhas carinha de porcelana, cabelos de mel e pernas de mármore de que rezam os manuais com o cansaço duma noite mal dormida e de uma viagem cheia de trancos e solavancos para que a impertinência começasse a tomar conta do pessoal e que todos os irlandeses, espanhóis e tropa do género incomodassem mais do que deviam. Ainda virei um par de vodcas-Red Bull para estimular o organismo e motivar o miolo mas o cadáver estava a precisar de cama, às 3:00 atirei a toalha ao tapete saturado daquele mar de homens e bazei para a pousada. Queria descansar, queria dormir para estar preparado para a invasão à Ucrânia, os Lusitanos em terra de Cossacos, ia ser uma deslocação enorme, exigente e cansativa e precisava de estar em forma.

Deitei-me e rolei na cama vezes sem conta. O Red Bull não me deixava adormecer, fazia envolvimentos Coentrão-Ronaldo, marcava cantos para a cabeça do Bruno Alves, constituições de equipas, Postiga ou Almeida. Rebolava-me desperto e desesperado, o Fava roncava, o Giga parecia uma múmia, o Rui não se mexia, todos a recuperar dos quilómetros e das cervejas do dia e eu naquela rabugice sem me dar dormido com mais quase 400km para fazer no dia seguinte.

O sol já entrava no quarto e clareava as paredes, mais um obstáculo ao sono. O trompetista tocava aos quatro pontos cardeais pontualmente a cada 60 minutos, agarrava-me à lucidez e não me permitia cochilos. O dia cada vez mais claro, eu cada vez mais irritado. Toca o relógio, eram nove da manhã. Os moços acordam cozidos em sono e álcool e eu ainda não tinha pregado olho. Não importava, tínhamos de nos despachar porque a Ucrânia, essa terra longínqua e misteriosa onde jogava Portugal, não era fácil de penetrar.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Crónicas de Lviv - 1

Este é um ciclo de artigos consagrados à viagem que eu e alguns companheiros (Giga, Rui, Dani, Pimpão, Fava, Xavier) fizemos de carro a Lviv na Ucrânia para assistir ao vivo ao Portugal – Alemanha. Como se tivéssemos ido na Nau Catrineta, há muito para contar

Cu de JudasA principal desconfiança tinha a ver com a estrada porque a lendária reputação das péssimas estradas polacas já chegou a Faro e estes rapazes vinham avisados do martírio que é fazer qualquer viagem rodoviária neste país. Porém não se assustaram com o primeiro troço, Varsóvia – Radom, 100km feitos em via rápida e a ouvir relatos de futebol em polaco, com uma paragem a meio para umas frescas de ocasião e para acompanhar a última vintena de minutos do jogo inaugural do certame, o Polónia – Grécia. Preços de amigo por estarmos já fora da Cidade Capital, combustível mais barato, tanto o do carro como o do fígado, bom para quem ganha em zlotis e melhor para quem traz euros. Cerveja bebida, intervalo no jogo, os carros cheios de novo em direção a Kielce.

Começa o festival das estradas polacas só de uma via para cada lado, faixas estreitas e congestionadas por camiões e condutores mais lentos. Os polacos dizem que são bons condutores porque têm más estradas, nunca compreendi essa teoria mas comecei a perceber do que falam Nacional 7 quando vi a fazer ultrapassagens em traço contínuo, travagens depois do último instante, colocarem-se entre o carro da sua mão e o camião que vinha em sentido contrário num constante desafio, chamando o acidente, testando a paciência da morte. Eu vi-me na contingência de pisar duas ou três vezes o traço, confesso, mas se não fosse assim tinha demorado o dobro do tempo na viagem e quando estamos em Roma temos de fazer como os romanos. Não aconteceu nada de especial, nenhum susto, o risco foi calculado e assim por entre vilas e aldeias, chegámos ao último terço da viagem, o troço Kielce – Cracóvia.

Mapa da Nacional 7 Aqui tivemos um rebuçado antes do limão, uma razoável fatia do que se pretende que venha a ser a autoestrada Varsóvia – Cracóvia já está disponível para os automobilistas e foi uma alegria carregar no pedal até ver o ponteiro roçar os 160km/h, um escape, um alívio daquele trânsito lento e pastoso das aldeias polacas. O irmão do Giga até exclamou de contente “Epá! Afinal as estradas não são assim tão más” Cedo piaste, logo os sinais das obras, estreitamentos de vias, baias e pinos, rotundas provisórias e o velocímetro a baixar para os 60km/h. Um desespero, acentuado pelos radares de controlo de velocidade que existem a cada 5km e que te fazem travar quando vais lançado para compensar a seca anterior. Uma sensação de coito interrompido, uma trampa. A ligação a Kielce está em pantanas, é um estaleiro, as máquinas de desbaste e terraplanagem descansam enquanto os operários vêem a bola, Kielce vê-se ao longe, enevoada e cinzenta, quer que nós passemos por lá, que falemos com ela porque ela não recebe tantos visitantes assim mas nós não temos interesse nenhum no desvio, ela também não tem nada para nos dar que nos faça falta e nós continuamos naquela procissão de gado sobre rodas, cumprindo obedientemente aquele ritual de fazer perder a paciência aPiso de estrada polaca um santo. Mas tem de ser e o que tem de ser tem muita  força, passámos Kielce e entrámos na pior parte que são os últimos 20/30km até Cracóvia, uma sucessão de buracos, curvas apertadas e caminhos de cabras, piso abatido pelo peso dos TIR e pela má qualidade do asfalto da Estrada Nacional 7 que rasga a Polónia de norte a sul, de Gdańsk a Chyżne na fronteira com a Eslováquia, incríveis os acessos à capital cultural da Polónia, inacreditável o contraste entre a beleza da cidade e a misérias que são os caminhos que dão a Cracóvia pelo norte. Depois de muitas paragens para o inevitável xixi, cigarros anti-stress e pausas para espreguiçar a moleza, cansados e maçados atingimos o nosso acampamento em plena praça do mercado principal. E a cidade do Wawel continua linda, o cansaço passou, era tempo de tomar banho, mudar a farpela e apalpar o pulso à noite de Cracóvia.

Cracóvia

terça-feira, 5 de junho de 2012

Tem a palavra…

… o vosso humilde escriba que assim se referiu ao alegado problema do racismo dos adeptos polacos.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

1 semana para o Europeu

mascotes Muitos perguntam como está a Polónia a viver o Euro2012, se se sente a mesma euforia que se sentia em Portugal quando fomos nós a organizar o torneio há oito anos, se os polacos estão mobilizados para o certame. A resposta é não, não estão mobilizados e a pouco mais de uma semana do início do campeonato poucos são os sinais de que um dos eventos mais mediáticos do mundo vai ter lugar nesta terra. Mas tal não é completamente inesperado.

A Polónia não é um país de bola, não gosta tanto de futebol como os portugueses (difícil achar igual gente na Europa, para falar a verdade) e prova disso são os trabalhos que passo para arranjar uma malta para jogar futebol. Ao fim de anos a porfiar encontrei três tugas e dois turcos gostam (e sabem) jogar, juntamos dois patrícios mais abnegados, um brasileiro, mais um par de turcos rijos e chatos como a potassa emapa polacos voluntariosos mas com duas pernas esquerdas para fazer número q.b. e tá a pelada armada aos domingos, sete para sete em relva sintética exemplarmente penteada, uma estrutura fantástica para tuga ver. Porquê? Porque a Polónia não é um país de bola. Dêem-lhes lutas, boxe, wrestling, jiu-jitsu, vale-tudo, porrada de rua e juntam-se aos montes em frente à tv de lata na mão soltando "oooohs" e "aaaahs" de entusiasmo, repetindo os golpes e esquivas dos seus heróis. Ver um jogo de bola? Nah, não vale a pena, não mete vício.

A Polónia não tem um Scolari que mobilize o país em torno da Seleção. Digam o que disserem, foi com Felipão que os portugueses voltaram a olhar para a equipa das quinas e a gostar da Seleção, foi com ele que se uniu o país de norte a sul em prol duma entidade, foi com o discurso dele que Portugal passou a acreditar que era capaz de fazer qualquer coisa de grande e histórico. Bandeiras nas casas, defendendo o "minino", chorando nos penaltis, sentindo a Pátria que é a nossa, Scolari foi um elemento aglutinador de vontades e fés, um condutor de talentos que levantou as traças dum Portugal bolorento e lhe devolveu a esperança. A Polónia discutia até há pouco tempo o caso de Peszko, internacional estádios polaco que joga na Bundesliga e que foi intercetado na Alemanha com álcool a mais no sangue e por isso preterido das escolhas do selecionador Smuda. Debateu também a opção Sandomierski como substituto do guarda-redes Fabiański que se lesionou nas primeiras sessões de treino em vez de Boruc, titular da Fiorentina e herói do Euro08 na Áustria e na Suíça. Tudo temas polémicos, controversos, mas não se fala de sistemas táticos, não se desenha o xadrez da equipa, não se arrisca um XI inicial. O pessoal prefere falar das obras em Varsóvia e do caos que causa no dia-a-dia da Cidade Capital, da chuva que se lembrou de aparecer ou dos "amigos" russos que se preparam para deixar uma marca indelével em Varsóvia - a seleção vai ficar alojada no hotel Bristol, o mais caro da cidade, paredes meias com o Palácio Presidencial, em plena zona histórica, atitude que vai dar muito tema para os fanáticos de conspirações. Além disso, Roman Abramovich (esse mesmo) comprou por €5.000.000 todos os lugares VIP do Polónia - Rússia e a Associação de Adeptos Russos alugou um pavilhão desportivo durante o Euro para lá instalar a sua fan zone. Como curiosidade, aponte-se o facto deste pavilhão se situar mesmo em frente a um espaço que receberá imensos adeptos polacos durante os jogos da sua seleção, o bar do estádio da... Legia.

É disso que se fala, das coisas que podem correr mal em vez de se falar de coisas da bola, discute-se o acessório e não o fundamental apesar de nenhum polaco ser da opinião que a Polónia não passa a primeira fase. O apito inicial está aí prestes a se ouvir, mas cânticos ainda não se ouvem nenhuns .

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Postais da Polónia - 17

Zegrzynski 1 Há a sensivelmente 30km para norte de Varsóvia um lugar que me faz lembrar um ponto do Algarve. O Lago Zegrzyński, local de romaria  dos varsovianos nos fins de semana de céu morno e limpo, sugere-me uma Quinta do Lago em versão lacustre pelo tremendo potencial turístico que encerra. Estamos a falar de um lago enorme a 45mins da Cidade Capital que tem três importantes povoações nas suas margens (Nieporęt foi a que visitei num domingo) e parece ser um núcleo de desportos aquáticos a concluir pelo número de stands de barcos no caminho para lá.

O lado de Nieporęt pareceu sossegado com três ou quatro restaurantes a servir a clientela, pessoas que passeavam vagarosamente nas margens do lago, sem pressas, como se a maioria delas não conhecesse outro ritmo - hipótese altamente improvável pelas matrículas de Varsóvia que invadiram a localidade. Apesar de que a água estivesse ainda congelada, pelo menos na superfície, algumas dezenas de corajosos decidiram passear mais longe no lago, tiravam fotos, namorados observavam a paisagem desde um seguro cais, o algarvio filmava enquanto construía num canto imaginário um bar de praia com puffs e rede de vólei, festas de mojitos e caipiras até de manhã num tremendo sunset ou fogareiros de peixe e febras, carteado até de manhãzinha. Sonhar não custa, dizia eu.

Um ano e dois meses depois voltei ao mesmo lago mas a outra margem e com outro clima. Aproveitando os quentes feriados de maio (mercúrios na casa dos 28 graus) carreguei o automóvel com acendalhas, carvão e carne e fiz-me ao caminho com a Ewa, o John, a Tynia e a Kasia para uma visita estival ao mesmo lugar, desta vez no lado de Białobrzegi, com medo de levar com uma seita de polacos mal comportados em cima mas curioso para saber o quão seria diferente aquele lugar em dias deZegrzynski 2 sol. E foi uma maravilha! Companhia do melhor, carnagem assada na grelha até ter avonde, sol do bastante como se estivéssemos à beira-ria, praia de areia clara para bater uma sorna de hora e meia depois do almoço e até um temerário banho de rio para fazer juz ao lema do meu tio João - Saber como é para contar como foi. Nada que se compare a uma tarde de mar e peitada na Praia de Faro mas bem bom dadas as circunstâncias porque um homem tem de saber adaptar-se ao meio em que vive, ser tolerante e aceitar as diferenças em vez de se tornar bicho do mato e meter defeitos em tudo sob pena de nunca estar bem em lado nenhum.

É uma questão de atitude perante a vida, uma postura que sempre fiz questão de adotar, respeitar o que o meu país adotivo tem para me dar com todas as suas potencialidades e limitações. É claro que uma tarde no lago não tem nada a ver com uma tarde de Algarve mas para quem está a 3200km de Faro serve para matar as saudades. É como se abrisse uma lata de sardinhas pensando em peixe assado, não é a mesma coisa mas é o que há e haver alguma coisa para enganar a maldita já é muito bom.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ah, primavera…

Primavera I Não é nada de novo mas também não é de não se assinalar - a primavera instalou-se na Polónia. Chegou para ficar (aparentemente) e trouxe toda aquela alegria e cor que sempre a acompanha, trouxe vida e energia, todo o país fica diferente com a chegada da princesa das estações do ano. Nunca é demais salientar este facto porque a cidade fica realmente diferente com as tonalidades da nova estação, só estando cá é que se consegue dar valor à mudança que se verifica, à amplitude térmica, desde -20ºC a 20ºC, quarenta graus de diferença. Um estrilho.

A primavera traz sol e calor para apaziguar os mais rabugentos, aqueles que passaram o verão debaixo de mantas e samarras a rosnar de frio. Ele foi depressões, irritações, más-disposições e outras coisas que tais, seis meses abaixo de zero na escuridão do inverno mesmo que este tivesse sido o mais temperado a minha estada na Polónia, casacos, gorros e cachecóis postos no profundo das gavetas, meias turcas e lençóis de flanela afastados de circulação por pelo menos cem dias, tempo de recuperar bermudas de emergirem chinelos, de passar as t-shirts a ferro.

A primavera polaca traz situações que não preocupam os portugueses (que moram em Portugal) como trocar os pneus de invernos pelos dePrimavera II verão, filas de espera mesmo com hora marcada, cobrir mais as janelas do quarto para não acordarmos com os primeiros raios de sol do dia (a alvorada já bate à porta antes das 6:00), comprar quilos de carvão, centenas de tomates e cebolas, milhares de costeletas e infinitas salsichas para dar conta da temporada de churrascos para os quais somos convidados em abril/maio, a Majówka, período que compreende os feriados de maio (1, dia do trabalho e 3, dia da constituição) no qual os varsovianos abalam da Cidade Capital para visitarem a família e antigos amigos. Aí a cidade fica vazia de pressas, pode-se passear e descobrir recantos verdadeiramente encantadores, coisas que Varsóvia tem sempre na montra mas nem notamos durante a rapidez dos dias de trabalho.

SNC00449 As obras da segunda linha do metro transformaram o centro da capital polaca num teatro de obras, um terreiro de entulho e maquinas de construção. Há terra, buracos, andaimes, pedras, operários, cercas e taipais por toda a parte, o acesso ao centro está condicionado e cortado ao trânsito de superfície, felizmente o metropolitano ainda rola por Świętokrzyska, mas mesmo assim, mesmo com toda a fealdade que as obras implicam, a primavera chegou a Varsóvia e quando ela chega há um mundo novo que acorda e sorri.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O País que temos e o Povo que somos

A minha condição de emigrante permite-me ter um olhar mais frio sobre as coisas de Portugal, vejo diariamente as mesmas notícias que se vêem em Portugal, assisto aos mesmos filmes e séries que passam em Portugal e estou perfeitamente atualizado com a realidade portuguesa, para o bem e para o mal. No entanto, estar fora de Portugal poupa-me em parte aos estragos que a vida portuguesa tem causado à pessoas, não sinto na pele (e na psique) o peso da dita austeridade, não me cortaram regalias nem bónus nem direitos constitucionalmente adquiridos há décadas, não me baixaram o salário. Não quer isto dizer que passe incólume ao sacrifício que os meus compatriotas estão a passar porque tenho interesses e património em Faro e este ano já levei uma martelada do IMI, não posso usar a Via do Infante gratuitamente como é meu direito sem pagar uma ilegal taxa e andar de automóvel com a gasolina a quase 400$00 o litro é como se fosse uma exibição de riqueza, ainda por cima perco sempre dinheiro em comissões sempre que troco os meus suados zlotys por euros, outra dentada no orçamento.

Portugal passa por uma crise económica, financeira mas também de identidade e de valores. Os portugueses deixaram de confiar nos outros, neles próprios, já não confiam em ninguém e procuram orientar-se como podem entrando numa dinâmica perigosa de planear as coisas a curto prazo, até ao fim do mês no máximo porque a coisa está preta e ninguém sabe quando (nem se) vai melhorar. A ambição dos portugueses, que devido à herança salazarista sempre foi modesta, está ainda mais limitada, os horizontes cada vez mais curtos e a capacidade de reivindicar embotada. O português está a ficar conformado, resigna-se ao estado que chegaram, não bufa nem chia, parece que voltámos aos anos 70 tão bem retratados na série "Conta-me Como Foi". Estamos a viver um Portugal pequeno espiritualmente, de pouca produção crítica, limitado intelectualmente, mediano, medíocre.

Parece ser essa a nova ordem em Portugal, ser medíocre. O nível, a bitola pela qual as instituições se regem é a mediocridade. Não devemos ser excelentes, não podemos sobressair na nossa atividade profissional, não nos é permitido ter talento acima da média, ter qualidade no que fazemos ou ter razão no que dizemos. Damos mais valor ao gajo que deu uma banhada na empresa e fugiu com a guita para o Brasil do que ao funcionário que graças às suas competências fez a companhia progredir. O português que é bom é sempre visto com escárnio ou ciúme nem que seja um português que diga a verdade ou que eleve o nome da Pátria, são pretensiosos e altivos, não gostamos deles. Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados tem opiniões desassombradas sobre a (in)justiça portuguesa, fala do que sabe e assinala as coisas que têm de ser corrigidas, aponta erros, traça rumos para a melhoria do estado de coisas e qual é a opinião dos portugueses (que pelo menos sabem quem é Marinho Pinto) sobre ele? Ah, é um fala-barato, faz muito arrozoado. Henrique Medina Carreira e José Cravinho põem o dedo na ferida em cada intervenção pública, chamam os bois políticos pelos nomes e falam claro, preto no branco, sem concessões nem favores a pagar. São desacreditados pelos seus pares, estão velhos e ultrapassados, não têm credibilidade, ninguém os ouve nem presta atenção. Cristiano Ronaldo e José Mourinho transformam em conquistas as ligas futebolísticas que disputam sejam portuguesa, inglesa, espanhola ou europeia – até italiana no caso de Mou - , são ícones da excelência portuguesa que têm orgulho em se afirmarem portugueses. O que dizem os seus compatriotas? O Mourinho é um convencido, O Ronaldo é piroso, o Mourinho é antipático, o Messi é melhor que o Ronaldo. Como é possível?! Como se pode branquear o valor de Mourinho só porque ele não se ri nem diz ámen a tudo? Como se pode minimizar as conquistas do melhor treinador do mundo só porque ele afirma publicamente o óbvio, que é excelente, que é o melhor e que não tem pontos fracos? Sempre ouvi dizer que “quem diz a verdade não merece castigo” então porque castigam os portugueses Mourinho e Cristiano Ronaldo? Porque Ronaldo comeu a Paris Hilton e nenhum outro português lá foi? Porque Ronaldo visitou países que nenhum outro português visitou? Porque Ronaldo ganha o que nenhum outro português ganha? Exemplo dessa mentalidade pequena é um familiar meu que passa o tempo a ganir e a gemer que não é rico, não sei se por inveja ou por feitio, mas tenho a certeza que passou muito mais tempo a olhar para a riqueza dos outros em vez de olhar para dentro e fazer a pergunta que se impõe: Não sou rico porquê? A que se deve o facto de eu não ser rico?

Estes portugueses que acima mencionei são alguns dos que têm autoridade no seu ofício mas que são ostracizados pelos seus compatriotas precisamente por serem bons naquilo que fazem e que dizem, por não serem medíocres. Portugal está de tal maneira formatado pela mediocridade que perdeu a palavra e a coerência. No princípio do ano o país levantou-se pela raiz a protestar contra a deslocalização de uma parte da operação da Jerónimo Martins para a Holanda para beneficiar de uma melhor lei fiscal, um princípio igual ao de qualquer português que aceita o pedido de transferência do seu crédito à habitação para um banco que lhe oferece melhores condições, nem que o banco seja espanhol ou inglês. Coisa corriqueira e que não oferece contestação na minha insignificante opinião. Uai mãe! Aqui d’El-Rei que o Pingo Doce é uma cambada de Miguéis de Vasconcelos, boicote ao Pingo Doce, incendiemos os supermercados dessa corja de ingratos, nem mais um tostão que se gasta nas lojas deles para aprenderem como é! 120 dias depois o Pingo Doce abana um rebuçadinho em frente aos portugueses e eis que eles mandam às malvas todo o puritanismo que evidenciaram e entopem as lojas, varrem prateleiras, lutam, soqueiam-se, mordem-se e esgatanham-se por (literalmente) um punhado de lentilhas. As imagens da campanha chegaram-me a casa, em Varsóvia, e eu tive de olhar bem para a televisão para ver se não estava a assistir a alguma peça sobre uma ação de entrega de alimentos num campo de refugiados da Síria ou do Darfur. Encheram os carrinhos, carregaram a chata sem se lembrarem das loas e pragas que tinham rogado à Jerónimo Martins, borrifaram-se para a sua própria palavra. Uma vergonha!

Os portugueses elasteceram a espinha, tornaram-se cataventos, vão grogues atrás do flautista, perderam identidade e credibilidade, valores. Portugal está tornado numa terra onde os medíocres é que governam, os incompetentes ocupam as cadeiras de poder e os incapazes tomam decisões. Temos o país que temos graças ao povo que somos, não merecemos melhor nem pior pois esta é a colheita lógica do que semeámos por sermos um povo inerte e incapaz de pensar pela sua própria cabeça. Esta é por definição uma circunstância perigosa para se augurar algo de positivo no meu país. Como se diz onde eu nasci, Portugal está mal deitado e não estou a ver jeitos de melhoras.

domingo, 6 de maio de 2012

O “tema” da seleção polaca para o Euro 2012

A Seleção Polaca de futebol teve a sua música oficial escolhida, o tema “Koko Euro Spoko”, algo que pode ser traduzido como “O Euro Cacarejante e Tranquilo” foi escolhido através votação por sms. Por respeito e devido ao enorme afeto que tenho pela Polónia e pelos polacos – até porque foram eles que elegeram a canção - abstenho-me de comentar o tema e o video, façam os leitores por mim.