sexta-feira, 12 de junho de 2009

Wielkopolskie - A Grande Polónia

wielkopolskie Comprar um carro faz parte dos meus planos num futuro a médio prazo, não porque seja fundamental para a minha vida profissional mas pela autonomia que tal permite. Ir onde quiser, com quem quiser e voltar quando quiser é mesmo muito bom! Às vezes, como ontem, estou na disco já um pouco cansado e com vontade e voltar para casa mas tenho de esperar até às 5 da manhã para apanhar o primeiro metro. As alternativas são o autocarro da noite, que demora quase uma hora a chegar a Natolin e que é frequentado sobretudo por bêbados arruaceiros, ou o táxi que me cobra os olhos da cara por uma corrida de 12 km. Estou a pensar fazer como o outro, perder o amor a um par de milhares de zlotys e enfeirar um Maluch por judiaria e também para estar mais á vontade em termos de deslocações. É precisamente uma deslocação a Poznań que serve de pano de fundo a este escrito, vou a caminho da capital da Wielkopolskie (Grande Polónia) e de comboio como manda a sapatilha.

"Navegar é preciso", disse Pompeu. Concordo incondicionalmente com esse pensamento e meti-me num comboio com a ilusão de conhecer mais uma cidade polaca, esta muito importante, e também de observar mais paisagens deste país. Viajar de comboio dá-nos uma perspectiva muito diferente das coisas, assistimos ao País real, passamos por localidades de nomes esquisitos como Żychlin, Sochaczew e Łowicz onde vemos os  locais arando uma pequena parcela de terra que serve de horta pessoal. Apanhamos também pequenos ribeiros onde casais de namorados estendem cobertores no chão para fazerem piqueniques e senhores de idade tentam pescar uma carpa para o almoço do dia seguinte, recordamos o mapa_polska_wielkopolskieTrainspotting por vermos grupos de adolescentes bebendo latas de cerveja apoiados nos muros grafitados com as cores da Legia, o lema Duma stolicy pintado a verde, vermelho e branco, cores garridas que não inspiraram a equipa a fazer melhor que um 2º lugar (Tiago, para o ano limpamos o caneco!!). Chalés degradados e isolados no meio das agora verdejantes pradarias dão-me arrepios porque vendo-os tento imaginar como serão durante os meses frios e escuros de inverno, há apenas 2 ou 3 casas num raio de 700m e fevereiro deve ser medonho nestas terras. Aparecem os ogrodki, jardinzinhos privados que algumas pessoas têm nos fundos de casa e onde se sentam a apanhar o tímido sol de junho que não se decide a ficar de vez na Polónia. Alguns têm parabólica e pombais entre montes de feno, o contraste do luxo na modéstia. Os graffitis mudam de tema e rezam um indelicado Legia Kurwa que eu não apreciei, devem ter sido os parvos do Lech ou os cretinos do Widzew que escreveram essa barbaridade! Decididamente já não estamos na Mazóvia e a próxima estação confirma-o: Kutno.

Quando viajamos de comboio na Polónia não vemos montras, não vemos ruas bonitas ou prédios arranjados, não vemos escolas ou fontes. O comboio leva-nos às traseiras da Polónia, aos armazéns de distribuição do Tesco e da Biedronka, às antigas fábricas de qualquer coisa que hoje não passam de ruínas, aos prédios decrépitos onde os jovens encostam as bicicletas enquanto engolem latas de Żywiec, aos vazadouros de entulho que acumulam anos de desilusões e esperanças goradas, aos celeiros e estábulos de telha de zinco e tábuas soltas. O comboio leva-nos à Polónia funda que representa os caboucos do crescimento económico interessante, dos arranha-céus da Rondo ONZ, das raparigas excelentemente produzidas, do mercado emergente de que a Europa vai começando a ouvir.

Uma casinha mais tratada e a relva cortada rente denota o brio que alguém tem nas suas coisinhas, um pingo de harmonia entre tanta inospidade, um gesto que representa talvez a fé e crença em dias melhores que este povo manifesta e que me faz acreditar que um dia a Polónia se erguerá de vez e voltará a ser grandiosa como foi no passado. Oxalá eu esteja presente para viver o momento por dentro.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Portugal!

Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Dia de celebrar a portugalidade e o Sentir Português. Dia de reflectir e pensar o País. Segue-se um mote:

terça-feira, 9 de junho de 2009

Eu sou eu e estou no que é meu!

Wiecha 1 São quatro da tarde, tenho uma hora para matar até à próxima aula e sento-me nas traseiras da Galeria Centrum para lanchar. Terça-feira é um dia terrível para mim porque começa às 7:00 e termina depois das 20:30 sem pausa para almoçar porque as deslocações são longas e demoram muito tempo. Passei por um Carrefour, comprei folhados de salsicha e uma minipizza, um pacote de litro de leite do dia, vi uma polaquinha bonita num banco e sentei-me ao lado dela a reparar no mundo.

Reparo nas meninas adolescentes com meias de pele de leopardo que fumam ruidosamente e nos skaters que estão com elas, exibem as suas manobras como um ritual de corte que me faz lembrar o arrulho dos pombos. Por entre eles passam outros adolescentes montados em BMX rebaixadas, bonés e calças rasgados e All-Stars fluorescentes. As meninas abrem passagem, sentam-se nos bancos, apontam, comentam e desmancham-se nas gargalhadas que os seus piercings amplificam enquanto sacodem as suas madeixas roxas ou cor de laranja.

Começo a ouvir o som dum rebanho a aproximar-se de mim, chocalhos que soam compassadamente por trás das coluna de pessoas que aparece de dentro do centro comercial. Uma rapariga de cabelos cor de gema passa-me uma razia na sua bicicleta, quase que babo o leite e cuspo o folhado. Ao meu lado senta-se um homem de meia-idade desdentado e de braços tatuados, abre a sua velha mochila e retira um panado qualquer que começa a trincar entre meia dúzia de palavrões grunhidos numa voz enegrecida pela nicotina. Os chocalhos estão mais próximos e passam três espécies de skinheads polacos de botas da tropa e calças militares. São magros como um etíope, falam alto mas são uns tísicos! Rio-me deles ao imaginá-los à tacada com os skins tugas no Largo Camões no 10 de Junho e pensei "moss, a Juve Leo varria-vos enquanto o diabo esfrega um olho!" Eles olham para mim, eu desvio para as BMX e dou mais uma golada no leite para evitar comentários e eles afastam-se provavelmente pensando que eu sou um boiola copo-de-leite qualquer. Melhor assim.

O rebanho aparece cantando e rindo, são membros do Hare Krishna e  passam pelos skaters e pelas pitas acenando-lhes, batendo nos seus tambores e chocalhando as suas campainhas entre uma ladainha simpática mas incompreensível. Eu ataco o segundo folhado de salsicha com medo de que eles venham fazer a sua roda ritual perto de mim, hoje não tenho pachorra para movimentos pacifistas e para gente alegre by default. Tive sorte, a comitiva dos budistas cresceu porque as pitas e os putos dos skates aderiram à festa a cantar e pular sarcasticamente mas Wiecha 2plantaram-se ao lado do polaco tatuado e sem dentes que espalha "kurwas" na atmosfera à medida que massaja o seu panado com as gengivas e encara aquele grupo de pessoas estranhamente contentes. 3 punks de muito mau aspeto cravam tabaco à miúda que está sentada ao pé de mim, sinto-me entre uma panela e uma frigideira, dum lado chove e do outro faz vento. A qualquer momento os loucos dos chocalhos viram-se para mim, ou o polaco desdentado, ou os punks do tabaco, os putos das BMX vêm fazer cavalinhos para cima de mim, as pitas hão-de grasnar-me aos ouvidos, todos me vão notar menos a miúda gira. É uma questão de tempo até repararem em mim, moicano latino, olho castanho, um pacote de leite, ténis Le Coq, saco do portátil a tiracolo, anel no indicador direito, calça rasgada no joelho, um alvo fácil. Agora é tarde demais e não posso bater em retirada senão caem-me em cima que nem cães a um osso, por isso vou comendo mansamente a minipizza procurando ruminar o mais silencioso possível e não mexendo no leite.

O calor avaga e sopra a brisa avisadora, vem lá chuva. O céu em Włochy não augura nada de bom e não dou mais que 5 minutos para que pingue. Arroto, o estômago já está cheio mas ainda há meia minipizza para dar cabo e o polaco fita-me candidatando-se aos restos como se me lesse os pensamentos. Começa a chover e o Hare Krishna debanda abanando os seus guizos rua abaixo indiferentes à precipitação. As pitas acabam com o cacarejar estridente e fogem para os Pizza Hut e KFC vizinhos, os punks sentam-se noutros bancos mais distantes fumando e bebendo de empreitada, o velho tatuado lambe os dedos e o plástico onde o panado estava envolvido e prepara a sua trouxa para abalar, a mocinha ao meu lado levanta-se e vai a caminho do namorado que entretanto chegou.

Eu? Eu aceito a chuva com um sorriso despreocupado e desfruto do meu querido leite. Lembro-me do Fábio, do Artur e do Zé Gato. O mundo mudou muito, meus velhos, mas eu ainda sou eu e estou no que já vai sendo meu.

domingo, 7 de junho de 2009

É proibido kagańcu na relva!

Não é preciso ser um douto em polaco para entender o alcance deste aviso:

caganço

"Psy" significa cães, o resto dá para perceber e bem :)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Incorrigíveis

Eu não sou racista... mas esta gente não tem remédio. Matem-se todos uns aos outros com o raio que os parta!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Na Polónia sê Polaco - 7

bandejaQuem faz as suas compras na Polónia já passou por esta situação. Quando estamos na caixa e vamos pagar a depesa depositamos o dinheiro ou o cartão na mão da operadora de caixa e deixamos o braço estendido à espera do troco ou dos talões do pagamento automático. Não raras vezes ficamos de pata esticada enquanto a senhora, normalmente de idade, joga a demasia para um pires situado junto ao leitor de códigos de barras e agradece-nos meio contrariada.

É uma das tais diferenças culturais que se encontram neste país, enquanto em Portugal é de bom tom pousar o dinheiro na mão das pessoas, aqui quanto menos toque físico houver melhor. Não se toca em nada nem em ninguém, o contacto visual é pouco ou nenhum e só as mais simpáticas olham para nós para perguntar se temos a karta rodzinka, o cartão que dá descontos em determinados produtos.

Já me habituei a entornar as notas e esperar que o sobejo aterre no mesmo pratinho mas passei muitas vergonhas de mão aberta à espera do cacau enquanto a velhota da caixa batia com as moedas no tabuleiro e olhava para mim à espera que eu batesse a asa. É interessante verificar como um gesto que demonstra delicadeza e cortesia no meu país é tomado como um comportamento bizarro nesta terra. Tá bem, pronto.

terça-feira, 2 de junho de 2009

De como a Lei Marcial e o Boniek têm a ver com as polacas jeitosas que vejo todos os dias

Não há dia sem que eu seja fustigado pela minha pandilha para que escreva mais sobre as miúdas polacas, como se o que escrevo não é suficiente. Creio que está na altura de dissertar um pouco sobre a temática d' "A Polaca", quero dizer, as polacas extraordinariamente atraentes que pululam nas ruas de Varsóvia e não só.

O visitante masculino menos avisado que se apanha em qualquer cidade polaca ver-se-á em palpos de aranha para dominar as hormonas que automaticamente reagem à impressionante quantidade de miúdas bonitas que se encontram por cá. É um desfile de moda constante e apetece sentar num banco e fazer figura de velhinho observando o vai-e-vem das pernas esbeltas, dos cabelos dourados, dos olhos felinos, dos lábios que fazem as maiores barbaridades neste idioma calamitoso parecerem poesia. Eu até já tinha reparado que há uma abundância de chavalinhas entre os 25 / 27 anos comparado com trintonas ou quarentonas que parecem não serem tantas. Pus-me a pensar e a estudar no motivo que podia levar a que tal acontecesse e cheguei às conclusões que passo a publicar.

Há 27 anos atrás estávamos em 1982, tempo em que o regime socialista imperava na Polónia. Eram os tempos das filas de senha em riste parasenhas de racionalização comprar pão ou papel higiénico, da Lei Marcial que o sinistro Jaruzełski decretara numa fria manhã de Dezembro do ano transato, das detenções arbitrárias dos membros do entretanto ilegalizado Solidarność, do massacre dos mineiros em Katowice. A Lei Marcial encerrou as fronteiras da Polónia, fechou os seus aeroportos e condicionou o acesso às suas cidades mais importantes. As linhas telefónicas foram desligadas, o correio sujeito a censura, as organizações independentes ilegalizadas e as aulas em escolas e universidades suspensas. Milhares de soldados patrulhavam as ruas montados em tanques e jipes militares. Uma semana de trabalho de seis dias foi imposta, os media, as fábricas, os portos, as unidades de saúde, minas, estações de comboio e centrais elétricas foram postas sob administração do exército e os seus funcionários obrigados a cumprir as indicações dos militares sob pena de enfrentarem um Tribunal Militar que era tudo menos imparcial. Foi imposto um recolher obrigatório às 22:00 que obrigava as pessoas a apagar as luzes de suas casas pouco depois.

 

É fácil perceber que quase tudo estava vedado ao povo e que pouco havia para fazer num sombrio inverno polaco. As famílias tinham que ficar em casa na penumbra, sem contactar umas com as outras, sós e receosas. Do mal o menos, a polícia respeitava a privacidade das pessoas, não entrava dentro de suas casas e não invadia a sua intimidade. Sobravam eles, marido e mulher, o Jan e a Anna, sem culpa de terem nascido longe da paz. Tinham-se um ao outro, amavam-se e a isso se entregavam naquelas noites frias e escuras de 82. Então e se eu vos disser que a culpa do baby-boom de 83/84 também tem a ver com o futebol?

ZbigniewBoniek Verão de 82 - O Mundial do Naranjito. Boniek, Młynarczyk, Buncol, Żmuda e Lato rings a bell? Imaginem-se polacos oprimidos e tristonhos que tinham naqueles 90 minutos a oportunidade única numa semana inteira de poder sorrir e dar uns tragos de vodca que não fossem para esquecer as agruras e embebedar a angústia. Imaginem-se agarrados às poucas TVs a preto e branco e extravasar sentimentos enquanto os vossos patrícios estão no Ocidente a encantar e dar-vos ilusão e esperança. Recordem a fantástica campanha protagonizada pela Reprezentacja e que só foi travada pela cínica Itália de Paolo Rossi. Agora pensem nas horas seguintes ao final dos jogos, de novo a neve, de novo o escuro, de novo o recolher.

A Polónia ganhou, o Jan e a Anna estão contentes. 25 anos depois o resultado é o que se vê, eu também estou contente (e agradecido) por eles.

13 de Dezembro de 1981. O gereral Jaruzełski decreta a Lei Marcial em direto na TV

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Este estado de ansiedade

Praia de Faro - conquilhas, peitada, minis, fios dentais, peixe assado, suor, Zé Maria, o reflexo das luzes do aeroporto na Ria.


Ilha do Farol - entremeadas, maresia, espreguiçar na rede, sangria, rir, sol, a Ria.


Faro - a doca, o Columbus, o liceu, o Largo de S. Pedro, palmeiras, o sangue, a malta, a Rua de Sto. António, a Ria.

Às vezes tenho saudades de mim.

FaroHoje9

Comecei a contagem decrescente. D –40.