A saga dum filho de Faro na Polónia (em Bielany, no norte de Varsóvia) - desde 2007
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Tá bem, pronto.
- Porque é que estás aqui a aprender português?
- Porque sei que nesta escola há portugueses de verdade e a mim encantam-me os portugueses.
A mim encanta-me o meu trabalho q:D
terça-feira, 14 de outubro de 2008
O que é que a gente tá aqui fazendo? - 2
Soletraram-me esta palavra pelo telefone e pediram-me para pronunciá-la:
Źdźbło
Opa, isto também já é gozar com um gajo! E depois não querem que se pergunte...
domingo, 12 de outubro de 2008
A propósito de pastéis de nata
Neste fim-de-semana reuniu-se a comunidade de portugueses de Varsóvia em torno da mesa do restaurante português cá do burgo. Um menu bem nacional onde não faltaram pastéis de bacalhau de entrada, croquetes, camarão, sardinhitas e mais umas iguarias para sentirmo-nos mais em casa durante a noite de sábado. Foi uma janta tipicamente tuga a começar pela algazarra que se fez à mesa, matei saudades das petiscadas de praia ou na casa do Baranito, onde se começa a fazer o jantar às 21:00, sentamo-nos à mesa às 23:00, rimos à gargalhada já perdidos à meia-noite e a ramona põe fim à festa às 2:00. Ali não houve polícia para controlar o ruído mas às 1:30 ainda se enchiam balões de whisky para acompanhar a troca de impressões natural entre portugueses com diferentes experiências de vida nesta cidade.
Confirmei uma idéia que já trazia desde a última jantarada que presenciei, no final do ano passado; a de que há principalmente três tipos de portugueses em Varsóvia (não sei se o padrão estende-se pelo resto do país), a saber:
- Os estudantes de Erasmus - Vêm para a Polónia para passar uns meses, se calhar um anito. Provavelmente aprenderão alguma coisa mas dedicam-se fundamentalmente a coleccionar louras (cervejas e miúdas) e a curtir o mais possível até apanharem o avião de volta para o Atlântico porque aqui faz um frio do caraças no Inverno. Não têm problemas de ambientação pois a sua permanência é temporária e a incompreensão do idioma polaco não os aflige. Na dúvida no supermercado, qualquer pizza congelada faz o jeito e a Coca-Cola é universal;
- Os quadros superiores do Millennium e Biedronka - Vêm para a Polónia com interessantes incentivos salariais (leia-se bagalhuço) para que a deslocação valha a pena, o que lhes reduz imenso o choque que a transição Portugal-Polónia origina. Pouco se sabe desta comunidade pois são muito fechados em si próprios, quase não convivem com os restantes portugueses e, segundo relatos de tugas cá emigrados há anos, nem demonstram interesse em tal;
- Os "outros" - Vêm para a Polónia por causa da namorada, duma oferta de trabalho, dum desafio novo, duma prova às suas capacidades ou pela louca atracção pelo desconhecido. Uns partem cedo, vencidos pela pressão criada por tanta diferença, outros acabam por ficar, atraídos pela mesma diferença. Fazem pela vida, pagam impostos, telefonam-se, encontram-se, vêm a bola juntos, socializam, contam os zlotys para o infantário dos filhos... que são portugueses.
Aqui é que tá o busílis. Os portugueses de Varsóvia que têm filhos portugueses dizem-se abandonados pelas entidades oficiais no que toca à educação das suas crianças. Não há notícias nem programas preparados pela Embaixada Portuguesa (ou pelo Instituto Camões, ou... whoever) para o ensino da língua portuguesa aos descendentes de portugueses na Polónia. Um patrício nesta cidade que tenha um filho em idade escolar obriga-se a inscrevê-lo numa escola internacional, pagando o esperado balúrdio, para que a passagem da realidade portuguesa para a polaca não seja tão drástica. Não há ensino de português para as crianças portuguesas em Varsóvia (haverá noutras cidades da Polónia?) e não se consegue arranjar um "Magalhães" por nenhum canal. Como é que as crianças portuguesas de Varsóvia aprenderão português? Quem lhes ensinará a gloriosa História de Portugal? Quem lhes transmitirá os valores da nossa Pátria? Como entenderão o sentir Português?
O Paulo disse-me que "a malta anda aqui a patinar e eles tão convencidos que por sermos emigrantes tamos cheios de papel". Acabo por concordar com ele, estou cá há um ano e recebi apenas um sinal de vida da Embaixada: um convite para as celebrações do 10 de Junho. O Presidente da República esteve cá e eu só soube pela comunicação social. Há um certo descontentamento na forma como os organismos oficiais do Estado português acompanham estes emigrantes, isso nota-se na forma como eles, emigrantes, desprezam os actuais corpos diplomáticos (os anteriores tinham boa imagem, dialogantes e preocupados segundo me contaram). A distância não pode ser desculpa pois se aparecem milhões de escudos em investimento no solo polaco também deverá haver um gesto de reconhecimento para quem trabalha na sombra em prol da reputação portuguesa na Polónia. Os "outros" levantam o cu da cama às 6:00 da manhã e levam com neve no focinho para que o nosso país seja dignificado através do seu trabalho, das suas aptidões, das suas qualificações e talento. Cada um desses anónimos portugueses é a imagem da sua Nação e reflecte todo um povo a cada momento, é uma grande responsabilidade ser-se português neste país e isso não tem sido devidamente realçado e protegido por quem de direito.
Portugal na Polónia não é só pastéis de nata.
ps - Tenho recebido ecos de insatisfação sobre a inexistência dos referidos pastéis nas Biedronka além-Varsóvia. Meus amigos, lamento imenso mas não sei o que vos dizer. Não sei se Varsóvia foi o tubo de ensaio para que se decidisse sobre a comercialização do produto à escala nacional. Sei que aqui os sacanas dos pastéis foram varridos do mapa e que quem eventualmente encontra uma loja com os ditos cujos guarda segredo e não se chiba. Fui ver o Suécia - Portugal a casa da Sónia, ela tinha alguns 30 de sobremesa mas não contou onde os comprou. O pastel tá má caro có pitrol, dieb! Butes fazer um lóbi?
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Cosa Deles - 2
Foi criada uma Comissão Independente para gerir os destinos da PZPN até às eleições agendadas para 30 de Outubro. Salvam-se assim uma data de faces:
- A da Polónia, que demonstra seriedade e intransigência, varrendo a sua "porcaria" da Federação sem ter de geri-la directamente, o que faria soar alarmes em Nyon e Zurique;
- A da FIFA, que deixará cair a ameaça de atribuir derrota por 0-3 nos próximos compromissos da selecção polaca (Rep. Checa e Eslováquia);
- A do Comité Organizador do Euro 2012, que tenta passar a imagem de capacidade e confiança de que todos os prazos e objectivos serão respeitados.
A decisão agradou a Sepp Blatter. O líder da FIFA acolheu com "satisfação contida" as notícias sobre o consenso alcançado em Varsóvia e aguarda que tudo volte à normalidade no seio da Federação Polaca de Futebol. Porém, um porta-voz da UEFA - William Gaillard - reagiu afirmando que "perdeu-se muito tempo com esta questão em vez de se atalhar caminho na organização do torneio". O mesmo responsável adianta que "fizémos tudo o possível para dar à Polónia e Ucrânia os meios necessários para cumprirem o assinado em Abril de 2007 mas estamos desiludidos com os progressos apresentados"
Na minha opinião, a Polónia levou com um pau de dois bicos: Por um lado tinha de investir tempo e fundo para sanear os dirigentes fajutos que lhe minavam a PZPN. Por outro, corria riscos de relacionamento com FIFA e UEFA ao ter de interferir no funcionamento da Federação. Foi uma situação de escolher entre dois males, as consequências negativas eram aguardadas e inevitáveis.
Agora Varsóvia já conta com o apoio das instituições que superintendem o futebol europeu e mundial nesta matéria, talvez seja (sinceramente espero que sim) este o empurrão que precisava para afastar de vez as nuvens negras da desconfiança geral e montar um espectáculo que surpreenda o mundo. Eu incluído.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Venha mais um!
A minha vida é como se me batessem com ela - Fernando Pessoa
O Outono traz sempre cores diferentes. O verde vivo do Verão é substituído pelo dourado das folhas caducas e o azul do céu torna-se cinzento para que a chuva miudinha possa cair sem surpresa. A temperatura desce consideravelmente e passam-se estes primeiros dias sempre com sono. É altura de tirar a roupa mais quente da arrecadação e guardar t-shirts e calções.
O Outono marca o final da minha estação preferida, o Verão de todas as loucuras e festas, de todas as extravasões de energia, das hormonas em flor, das baterias carregadas de dia para estourar de noite. Este foi o meu primeiro Verão sem mar, sem prai
a, sem peitada, sem moços à do Vitinha / Fava nem no Columbus, um Verão muito diferente mas igualmente intenso que recordarei com muita satisfação. O Verão de Varsóvia tem encantos inimagináveis que escondem-se na sombra dum piquenique no Saski e exibem-se quando me estendo na relva do Łazienki ao ouvir um soberbo Chopin tocado ao vivo. Torci o nariz ao ouvir que a época estival na capital polaca poderia ser interessante, julguei inconcebível a idéia dum Verão sem areia nem água salgada, sem minis nem bikinis. Planeei mil itinerários para fugir à secura de Varsóvia e regressar a banhos de sol algarvios mas, por ordens do destino, fiquei por cá. E em boa hora.
Agora relembro as noites de cerveja no Frascati a ver Portugal no Euro2008, as maratonas do Klubo que terminavam num amanhecer em Ursus, Filtry ou Nowolipki, os violentos pés-de-água que ensopavam o povo que não tinha por onde fugir depois de serem apanhados pela costumeira tempestade das 18:00, os gelados lambidos com demasiada sofreguidão por estarem demasiado perto das
minissaias demasiado curtas das polacas demasiado perfeitas, os passeios de bicicleta por Praga e Wilanów, as festas em Powiśle à beira-rio, o mar louro na noite de Varsóvia.
Foi um Verão altamente numa cidade altamente. Se puxar a cassette mais atrás recordo que perto das 0:00 do dia 7 de Outubro de 2007 eu cruzava a fronteira germano-polaca em Görlitz / Zgorzelec, chegava por fim ao país que me adoptaria (pelo menos) um ano.
É Outono. Recordo o Verão e o último ano. Foi altamente e espero que assim continue.
domingo, 5 de outubro de 2008
5 de Outubro
Hoje é dia da República. Dia de lembrar Portugal, de recordar o País e as coisas portuguesas. Dia de lembrar os dias habituais na terrinha, tal como os acontecimentos habituais.
Como habitualmente, perdemos. Vou cancelar a TV Cabo.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Na Polónia sê Polaco - 4
Tenho procurado seguir os hábitos polacos em relação à alimentação. É claro que não posso esperar encontrar facilmente uma cataplana ou um cozido à portuguesa em Varsóvia mas ontem os olhos quase que me saltaram das órbitas ao ver isto:
Pastéis de nata, produzidos segundo a secular tradição portuguesa, carinhosamente preparados e embalados em solo pátrio e prontos para serem cozinhados no forno de casa. Seis unidades pelo irrisório preço de 2.99 pln (menos de 1 Euro) estão à sua espera no Pingo Doce... digo, na Biedronka.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Cosa Deles
Uma notícia que causaria um terramoto em Portugal passou quase despercebida à população da Polónia: A Federação Polaca de Futebol (PZPN) foi suspensa por supeita de irregularidades graves no seu funcionamento, leia-se corrupção.
Tentarei desmontar esta novela por ter constatado que o tema até tem sido acompanhado com algum interesse em Portugal.
Oficialmente o motivo para a exoneração da cúpula directiva do futebol polaco é a "insatisfação com os resultados obtidos pelas medidas anti-corrupção aplicadas pela Federação" Não vem de ontem esta suspeição que paira sobre os dirigentes do futebol polaco - recordo o escândalo que atirou vários clubes da Ekstraklasa para as divisões inferiores, incluíndo o campeão em título Zaglębie Lubin. A intervenção das instâncias superiores no futebol serviu para mostrar à saciedade que o Estado estava atento e que puniria os prevaricadores sem diferentes pesos ou medidas. O povo ficou de pé atrás e pagou para ver, agora sabe-se o resultado.
Estas tricas não despertam muita atenção entre a opinão pública polaca, o futebol não lhes prende a atenção e o desinteresse pelo Euro2012 é geral. Os media não fazem grande eco dos preparativos. Todos duvidam da capacidade dos seus dirigentes e governantes e consideram que a atribuição do certame, mais que uma oportunidade de mostrar ao planeta a capacidade organizativa da Polónia, foi um presente envenenado que apenas servirá para expôr ao mundo as fragilidades e carências do país. Platini já demonstrou desagrado pelos atrasos que as obras assinalam mas continua a acreditar no espírito empreendedor dos polacos. Eu duvido disso e começo a ter algumas reservas acerca do defnitivo pais que acolherá o Euro2012, apesar dos apelos à serenidade por parte do administrador interino da Federação Polaca e das garantias de que os planos estão a ser seguidos com naturalidade.
O problema tem de ser visto à luz da realidade política e social da Polónia, um povo que nada tinha e que apanha-se com dinheiro dum momento para o outro. O esbanjamento e a ostentação em contraste marcado e contínuo com a miséria e indigência é postal de visita diário na cidade de Varsóvia, é só decalcar esta realidade para o cenário das grandes provas desportivas mundiais como é o caso do campeonato europeu de futebol. A Polónia não tem dinheiro, não tem infra-estruturas, não tem hábito de realizar eventos "ocidentais" nem a cultura do empreendorismo público. Esta coisa do "Euro Polónia-Ucrânia "é muito mais individualizada, focada maioritariamente no lucro e riqueza pessoal e aperfeiçoada pelos apetitosos subsídios que certamente a UEFA estará a injectar no erário do evento para que não tenha de corar ao emendar a mão e dar a org
anização do campeonato a outro país. A tentação é fácil, o controle pouco, a consequência óbvia. Eu, pessoalmente, estou há dez meses a tentar descobrir o organismo que supervisiona o processo de organização do Europeu (só para enviar um CVzinho) e não consigo driblar as paredes altas das cunhas que envolvem o sistema. Perfilam-se candidatos às eleições de 30 de Outubro e todos fazem da luta anti-corrupção a sua bandeira: Boniek e Lato, colegas na grande campanha polaca em 82 no Mundial da Espanha, são adversários nesta corrida. Eles representam os "homens do futebol" em oposição aos outros dois candidatos, Kręcina e Jagodziński, apontados como próximos do aparelho político.
Naturalmente que a FIFA e UEFA - cegas, surdas mas infelizmente não mudas - apoiam a sua filiada e rejeitam qualquer intervenção do Governo polaco nesta matéria, reconhecendo a direção demitida como válida e vigente. Varsóvia não desarma e acusa a PZPN de usar a organização do Euro2012 como escudo para manterem-se em funções e continuarem com a pouca-vergonha. Os resultados deste braço-de-ferro são imprevisíveis mas adianto um cenário altamente provável:
Cansados das convulsões na Ucrânia e da lentidão de processos da Polónia, a UEFA surpreende e manda o Europeu para outro lado.
Já vi isso mais longe.
Não perca os próximos capítulos!