A Polónia interessa-se pelo Algarve. Porque será?
Tradução: algarve. uma dose de energia
A saga dum filho de Faro na Polónia (em Bielany, no norte de Varsóvia) - desde 2007
Tivesse a máquina mais qualidade e a imagem do pôr-do-sol em Varsóvia visto dum 16º andar teria mais encanto. Mas, como diz o Ti Bolas, "é o que há!"
coubéssemos todos e compus a t-shirt para que os novos vizinhos não estranhássem a minha falta de cuidado na escolha de roupa. Sentei-me como deve ser e os velhotes sacaram dum transistor do tempo do Brejnev e dum saquinho com miolos de pão. A senhora lançou ao chão algumas bolas de pão e dezenas de pombos e pardais vindos do nada acamparam à nossa frente.Fechem os olhos e imaginem.
Imaginem um lugar onde a temperatura é quente ao ponto do suor colar a roupa ao corpo. Sentem-se numa esplanada soalheira e peçam uma cerveja geladinha, ignorem a inexistência de tremoços. Desabotoem os 3 primeiros botões da camisa mais os dos punhos, arregacem as mangas, puxem a fralda para fora das calças, ajeitem os óculos escuros e aceitem os raios solares que encharcam a cidade. Contemplem a incomparável fauna que passeia-se de trajes menores a curta distância e gozem o espectáculo das coreografias femininas que cortejam constantemente os machos expectantes e preguiçosos, numa manobra eterna de sedução / recusa que imita o jogo do gato-e-rato. Sacudam a gola da camisa num ar desinteressado e olhem noutra direcção enquanto saboreiam mais um golo de cerveja, já a pensar na próxima imperial ou no próximo bar a visitar. Espreguicem-se como agradecimento pela generosidade do sol e bocejem de desdém ao burburinho urbano que vos cerca. Vejam as horas e sorriam de sacanice ao ver que ainda falta meia-hora para o regresso ao trabalho.
Ouçam um trovão ao longe. Olhem para o céu por cima das lentes e estranhem a rapidez com que o céu se fez negro. Ouçam um trovão mais perto. Pensem rapidamente em abrigarem-se antes que... Tarde demais, cai-vos um dilúvio em cima.
Fujam a sete pés das poças armadilhadas que se formam na berma das ruas e por onde rodam pneus maldosos despejando água suja por cima dos peões. Desviem-se dos sinuosos pilares dos passeios e procurem não se espalhar nas curvas, praguejando e maldizendo a vossa sorte enquanto ficam ensopados. Cheguem ao trabalho num pingo e sejam motivo de risota de toda a gente.
Olhem pela janela e vejam o sol a rir-se da vossa figura. Ranjam os dentes de raiva enquanto ele seca as ruas e devolve as pessoas às esplanadas. Amaldiçoem o lindo céu azul que rapidamente substituiu a tempestade. Trabalhem molhados pela chuva e pelo suor que reaparece devido ao tal calor húmido que cola a roupa ao corpo. Acabem o dia bafientos, fedendo a mofo, num metropolitano peganhento.
Fortaleza? Punta Caña? Bali? Sharm el-Cheik? Não, apenas Varsóvia num qualquer dia de Verão.
ps - Desforrei-me. Comprei um casal de postas de bacalhau, cozi-as com batatinha e ovo, juntei-lhe umas verduras para dar saúde e fazer crescer, alaguei o prato em azeite enquanto a Iza temperava as batatas com manteiga (!) e consolei-me com a peixada. Agora, com a vossa licença, vou arrotar para o sofá q;)
Domingo à noite é tempo de ficar entocado, tratar das coisinhas para a semana de trabalho que se segue e assistir aborrecido aos inúmeros programas de variedades que os canais polacos têm para oferecer aos telespectadores neste horário. Meio entediado e mastigando em seco, puxo um travesseiro aproveitando que a Iza está papagueando com amigas (diz ela...) no Gadu-Gadu (o Messenger polaco) e lá acabo por deitar um olho curioso ao televisor tentando perceber do que esta gente está a falar.
Este foi um fim-de-semana em grande em termos de entretenimento dado que dois dos maiores festivais de música do país realizaram-se no norte, entre Sopot e Gdynia. Não terá sido uma idéia feliz ter agendado tão grandes certames para o mesmo fim-de-semana separados por tão curta distância física pois estas cidades distam uma da outra o que Lisboa dista da Amadora. Esse factor causou grande aglomeração de gente, congestionamentos enormes de trânsito (desnecessário recordar o primário estado das estradas polacas) e entupimento dos meios de transportes como o comboio ou autocarro devido à enorme afluência de espectadores de todas as partes da Polónia, especialmente de Varsóvia. Eu tinha o Open'Er Festival de Gdynia em vista porque queria testemunhar outra actuação ao vivo de Chemical Brothers (aquele show no Sudoeste de 2002 ficou nos anais da História!) mas acabei por ficar em casa a vê-los na tv. Agora o festival está nos cascos e entram as actuações finais dominadas pelo inevitável kabareton porque é Domingo à noite.
O kabareton é um estilo de comédia muito apreciado pelos polacos. Dois actores interpretam uma rábula de sátira política ou social, finda a rábula entra mais uma equipa de actores que conta nova estória. As piadas sucedem-se e os visados são ridicularizados de forma suave, arrancando gargalhadas ao público que diverte-se bastante. É um registro que também existe em Portugal, se bem que não tenha muita aceitação, mas cuja versão tem uma enorme diferença: O desfecho da anedota.
Versão Portuguesa: Era uma vez um Português, um Inglês e um Francês. O Inglês enterra-se, o Francês enterra-se mais ainda, o Português fica por cima de todos.
Versão Polaca: Era uma vez um Polaco, um Russo e um Alemão. O Russo enterra-se, o Alemão tenta remediar a situação e o Polaco dá cabo do resto.
Assim se passa uma agradável noite de Domingo, janela aberta para arejar a casa, coçando o queixo intrigado com o estranho sentido de humor deste povo que, decididamente, tem de reaprender a rir.
Não há melhor estação do ano que o Verão, apesar de alguns polacos preferirem o Inverno. Eles dizem que no Verão não podem esquiar, faz muito calor e ficam desconfortáveis na cidade. Percebo-os porque não havendo uma praia por perto torna-se difícil aguentar os 30º que Varsóvia tem proporcionado aos seus habitantes. Eu sou um tipo habituado ao tempo quente mas não me sinto muito à vontade com este calor seco, acrescido de falta da fugas possíveis pois os parques de sombras frescas e os muitos laguinhos que a cidade tem não são comparáveis às tardes de praia passadas a cervejar à do Fava, com o mar logo ali para molhar os artelhos sempre que a temperatura o justifique. Mas, como os tempos são outros, tenho procurado limpar essa nostalgia da idéia e tentar gozar o Verão à polaca.
Um passeio pela reconvertida Cidade Velha levou-me a uma Varsóvia desconhecida e muito bonita.
Uma das ruas que sai do Largo do Castelo, a Krakowskie Przedmieście, foi condicionada ao trânsito ao fim de meses em obras transformando-se numa montra de história polaca. O Palácio Presidencial, os monumentos a Adam Mickiewicz - o Camões polaco - e Copérnico, a Universidade de Varsóvia, O Bristol - hotel mais luxuoso da Capital -, a Igreja da Santa Cruz* e muitos outros edifícios cheios de simbolismo estão agora de cara lavada e sorriem aos transeuntes com orgulho na sua renovada rua. Exposições fotográficas ensinam a Polónia rural dos anos 20, violinistas tocam por prazer (um músico recusou esmola alegando estar a tocar por pura alegria), namorados consultam mapas e apontam para o seu futuro com o Wisła como testemunha.
Devoro esta História com a fome própria de quem está cá há 8 meses sem saber quase nada da cidade devido à hibernação típica dum algarvio no Inverno. A cidade está colorida, quentinha, convidativa e assim já tenho vontade de por a cabeça fora da caverna para ir espreitando os encantos da "Paris do Leste".
A delícia que foi ver um atarefado v
endedor de apetitosas frutas a tentar dar vazão à sua freguesia (a inclemência da ASAE não chega aqui, felizmente) fez-me pensar que, se calhar, esta cidade é substituída no Inverno por outra que não tem nada de parecido.
Fica mais tempo, sol! Não tenhas pressa de sair daqui...
* Chopin pediu no seu testamente que, após a sua morte, o seu coração fosse levado para a sua Polónia natal. Rezam as crónicas que o mesmo está emparedado num dos pilares desta igreja.
s políticas aldeãs. O novo primeiro-ministro Donald Tusk é manifestamente um europeista e percebe bem que a Polónia não pode voltar atrás na sua palavra dada em Lisboa sob pena de perder credibilidade e vários milhões de euros em quadros de apoio e pacotes de subsídios. Sarkozy já mostrou um cartão amarelo ao presidente polaco lembrando que os "compromissos são para serem cumpridos", Angela Merkl quase que levantou a voz há uns meses atrás aquando das hesitações polacas em assinar o tratado em tempo de eleições. O Sejm (parlamento da Polónia) quase pede de joelhos ao seu Presidente da República para que deixe de "deteriorar a imagem da Polónia" e assine um documento que "ele próprio negociou". Os ministros revelam-se "surpreendidos" e acusam o Presidente de "brincar com o fogo".