sábado, 12 de janeiro de 2008

Sapateiros e rabecões

A recente entrevista de José Bettencourt sobre o delicado momento do Sporting é uma demonstração de verdadeiro sportinguismo e um exemplo de como se deve manusear com lucidez a crise que o clube leonino atravessa: Através da mobilização e solidariedade em vez de atiçar a multidão sedenta de sangue. Bettencourt fala de futebol utilizando a linguagem do futebol.

Tenho pena dos meus amigos que sofrem com o seu maldito clube. Penso que toda a devoção demonstrada ao longo dos anos não merece os sucessivos dissabores que temos sofrido de forma constante. Somos reconhecidamente a massa associativa mais fiel e dedicada do país, passámos os 18 anos - desde 82 a 2000 - de seca ao lado do nosso clube, nunca rasgámos cartões de sócio, apoiámos a equipa à chuva e ao frio (os 3-6, por exemplo), porque somos tão maltratados pelos resultados desportivos? A resposta é difícil de ser dada mas, na minha óptica, penso que está na própria genética do Sporting. Ser um clube da elite.

Esta característica faz com que gravitem em torno do clube uma série de figuras de grande capacidade retórica mas de pouca familiaridade com a bola e é exactamente isso que está a acontecer hoje em dia no Sporting. Há demasiados doutores da palavra e poucas ratazanas de balneário. Há muita polidez no discurso e pouca lama nas chuteiras. Há demasiada elevação nas discussões e poucas caralhadas nas horas das derrotas. Há muito patuá vazio mas pouco trabalho na sombra.

Não negando o seu evidente sportinguismo, é óbvio que os últimos presidentes (Dias da Cunha e Soares Franco) são tudo menos homens do futebol e a sua escassa sensibilidade para a bola tem tido reflexos no plano desportivo. Gestores de mérito? Sim, claro. Craques da finança? Admito. Credíveis e sérios? Absolutamente. Acredito que tenham feito o melhor que sabiam em prol do clube no sentido de dotá-lo de melhores estruturas e fazê-lo mais ganhador mas convenhamos. Eu se fosse agora para o Sporting comeria a relva e morreria em campo pela equipa... mas seria um jogador muito ruinzinho.

O Sporting combateu com armas desiguais a guerra dos novos estádios para o Euro2004. Fez tudo "by the book", endividou-se, cumpriu, negociou, acatou, foi mais uma vez exemplar nos seus procedimentos. O novo José Alvalade encheu os leões de orgulho a tempo e horas, sem grandes ondas e alaridos mas teve o seu custo. Numa visita da UEFA aquando das obras dos novos estádios, Luis Filipe Vieira franzia o sobrolho e avisava os responsáveis da organização que "se calhar não haveria novo Estádio da Luz pronto para o Euro". Aqui d'El Rei, que o Euro sem a Luz não é nada, toca de desbloquear as burocracias, rapinar uns metros quadrados daqui e pô-los ali para ver se isto anda para a frente. Resultado: Um estádio maior, mais caro mas que custou menos dinheiro aos encarnados que o nosso custou ao Sporting.

O Sporting sempre partiu em desvantagem orçamental na corrida pelo campeonato com os seus 2 habituais rivais. A Academia tem os seus custos e ainda hoje temos de vender um Nani qualquer por ano para equilibrar as finanças enquanto Porto investe forte com os dividendos que são conhecidos, ganhando 6 em 7 anos. O Benfica ganhou o "campeonato do peixe frito"* graças à astúcia da Raposa Velha que conseguiu ganhar com uma equipa horrível (Karadas, Zahovic...) e também graças a um homem do futebol, José Veiga.

E diz o leitor: "Ganhaste com o José Roquette, ele percebia alguma coisa de futebol?" Claro que não. Nunca afirmou que sabia de futebol nem quis sequer perceber ou aprender. O papel do Dr. Roquette foi encarrilar as contas do clube e criar as bases para "ganhar 3 títulos em 5 anos". Ganhou 2 com a ajuda de verdadeiros sabedores da matéria. Recordo os dois últimos títulos e as pessoas que estiveram-lhes associadas: Luís Duque, Ribeiro Telles, José Bettencourt, José Manuel Torcato, Manolo Vidal. Homens do futebol.
Homens do futebol, porra! Não eram doutores de pacotilha nem subservientes das alianças ou "manifestos" vergonhosos com os nossos eternos rivais. O Sporting tem de valer-se por si próprio, afirmar-se como grande e ganhador na prática e não apenas nas estatísticas. Isso só acontecerá quando entregarem o futebol do clube a quem perceba efectivamente de bola. Prefiro, sem dúvida nenhuma, um Sousa Cintra do "Mark Knopfler? O Plantel tá fechado!" a um tonto da Cunha que envergonhava os sportinguistas com as suas decisões. Quanto mais não vale um velho Vidal que qualquer Janela, Meireles ou Freitas? Pinto da Costa, no tempo em que tinha moral para falar em público, gracejou com o sotaque galego do antigo homem-forte do futebol leonino. Manolo Vidal respondeu como eu gostaria que os responsáveis sportinguistas respondessem: "Tenho muito orgulho no meu sotaque galego, orgulho que esse senhor não terá do seu sotaque siciliano". Curto e grosso mas com classe.

É isto a crise do Sporting. Falta de pessoas que falem "futebolês", que dêm murros na mesa para que os dossiês sejam aprovados na Câmara, que mandem calar os adversários em vez de verberarem os adeptos descontentes e com mais que razão para manifestarem a sua agonia. Falta um Oceano que grite aos ouvidos do Yannick e o Romagnoli quando eles não justificam os seus salários com empenho dentro de campo. Falta competência para que se contrate o Farnerud que é bom (Alexander) em vez do Farnerud que é mau (Pontus). Falta uma cabine blindada para que os Vladans e Meireles não sejam sequer ouvidos quando cacarejam. Falta um Rui Jorge que pense pela sua própria cabeça e que não afine pelo diapasão do discurso redondo do "vamos levantar a cabeça e trabalhar". Falta coragem para gastar bem no mercado de Inverno. Falta um Sá Pinto que beije o Leão em plena vitória na Luz (o que eu chorei ao ver isso na TV). Falta uma política de verdadeiro investimento na equipa de futebol que á a mola real de todo o universo sportinguista. Se a equipa de futebol não ganhar os adeptos não vão ao estádio, não há receitas, não há dinheiro, não há êxito, não há SAD, não há clube, não há nada. Quem é que vai gastar dinheiro para ver Pereirinhas e Hads?

Ainda hoje vi que a SAD procura um avançado a custo zero para Janeiro. Mas será que ainda não compreenderam que Motas, Kokes, Nalitzis e quejandos são sempre maus investimentos? Serão assim tão burros que não aprendem com os erros? Não seria melhor resgatar o Saleiro ou o Varela? No único ano em que contratámos jogadores com qualidade insuspeita no Inverno foi em 2000 com André Cruz, Mpenza e César Prates. Gastámos dinheiro mas fomos campeões, não compensará? É que pode chegar o dia em que eu me canse de ser encavado.
* O "campeonato do peixe frito" é a minha designação para o fio de jogo que o Benfica apresentou durante esse ano. Trapattoni percebeu que não poderia oferecer manjares aos adeptos e pôs no menu da Luz peixe frito com arroz de tomate, jogo sim jogo sim. Os benfiquistas nunca passaram fome enquanto em Alvalade Peseiro servia filé-mignon num jogo e pão com banha no jogo seguinte.
EDIT - Vi agora que o Benfica empatou na Luz com o Leixões. Entretanto, o Porto deu 4 batatas ao Braga e mandou passar o campo. Como não levantei o embargo aos jogos do Sporting não assistirei ao jogo de amanhã. Declarem já o FC Porto campeão e comecem outro campeonato, perder tempo para quê?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Lembrando a H2O

Já se passaram imensos anos desde as minhas romarias à H2O onde fartava a minha sede de som com as inundações de belas batidas seleccionadas pelo grande DJ João Paulo. Numa dessas noites, umas das em que invariavelmente eu e os Nojentos fechávamos a discoteca, o João Paulo acabou com a nossa raça metendo um set que ainda lembro de cor. Recordo que o Basic desmaiou num sofá de tanto dançar, o Ranho perdeu a conta às garrafas de água que bebeu e eu também vi a vida a andar para trás. Não sei se o Bandeira estaria presente, ele também era moço para estas vidaças.

Ontem emocionei-me no elétrico. Dia cinzento, frio e afastado da luz e do calor de Faro. O Carlos Paião incomoda-me com a perfeição da sua "Cegonha", deixa-me melancólico e de olhos húmidos. Agora que estou em contagem decrescente para uns dias na terrinha, o tempo parece passar mais devagar e mais difíceis são os momentos que faltam até ao Algarve. Esta banda sonora dá-me cabo do canastro.

Mas o acaso faz bem as coisas. As guitarras de Paião calam o seu choro e enquanto fungo a tristeza a minha máquina escolhe Plastic Dreams do Jaydee como tema seguinte. Para mim este tema é imortal, está para a música de dança como a Carmen está para a ópera ou o Another Brick On The Wall para o rock. Arrepio-me e recordo os Nojentos aos pulos na H2O. O Basic volta a desmaiar, o Gravata volta a aparecer no meio da espuma entre as bifas, o Paka volta a aguçãr o olho do falcão, o Ranheta volta a encharcar a camisa, o Merlim volta a gromitar-se, o João Paulo volta a scratchar na H2O, eu danço no elétrico e volto a ter 20 anos.


Plastic Dreams - provavelmente o melhor tema do mundo!



PS - Comprei um pomelo. Não faço idéia de que bagagem é esta, quando abrir logo vos conto.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Pedras Salgadas



Estes pedregulhos no meio da estrada não foram lá parar por acaso, são parte do programa polaco de diminuição de acidentes na estrada.

Os polacos a conduzir são autênticos kamikazes e não vou enumerar os casos de ultrapassagens pela direita e desrespeitos aos peões em passadeiras. Ao que parece, trata-se dum problema cultural pois se eu der prioridade aos peões nas passadeiras eles olham para mim muito desconfiados e barafustam para que eu avance. Assim, puseram calhaus na estrada para ver se os sacanas reduzem a velocidade. Escusado será dizer que volta e meia há com cada pazada nestas pedras que até ferve.

Outras curiosas regras rodoviárias polacas:

- Luzes permanentemente acesas, noite ou dia;

- Absoluta proibição dos peões atravessarem a estrada fora das passadeiras ou com o sinal vermelho sob pena de multa;

- Os autocarros têm sempre prioridade ao sair das paragens, não tendo que aguardar que lhe seja dada passagem mesmo que haja trânsito;

- Os trams (elétricos) têm primazia sobre qualquer outro transporte;

Sinceramente, quem aprender a conduzir em Varsóvia conseguirá conduzir em qualquer lado em quaisquer condições. Até comandar uma nave espacial!

domingo, 6 de janeiro de 2008

Retalhos da vida dum Algarvio - Parte 4

A História da Polónia é fértil em conflitos armados muito por causa da sua posição geográfica. Estar situado entre duas potências como a Alemanha e a Rússia /URSS sempre foi problemático para este país e colocou-o ciclicamente em guerra. Daí haver uma História de Guerra muito rica na Polónia devidamente documentada em muitas séries televisivas diárias ou nas produções cinematográficas que versam episódios de batalhas épicas na vida da Nação. O Polaco é patriota e orgulhoso do seu passado de resistência

Esta familiaridade com a Guerra faz dos generais polacos figuras de grande importância, pessoas veneradas e a que se presta culto quase constante. Desde a Insurreição de Novembro de 1830 até aos últimos dias do Socialismo, passando pelas Grandes Guerras e a Revolta de Janeiro de 1863, os generais da Polónia desempenharam papel valoroso na consolidação da nacionalidade e cultura polacas. Foram inúmeras as tentativas alemãs e soviéticas de diminuir ou eradicar a inteligência polaca, quer pela deportação de estudantes, intlectuais e nobres ou pelo simples extermínio da população. Sempre resistiram, os polacos, e a Polónia existe hoje como terra de grande interesse para investimento e motivo de curiosidade para milhares de turistas ávidos de conhecer o seu passado.

Genarais como Franciszek Krajowski (1ª Guerra Mundial), Jarosław Dąbrowski (Comuna de Paris) ou Władysław Anders (2ª Guerra Mundial) têm os seus monumentos em Varsóvia e provavelmente noutras cidades polacas. As principais artérias das grandes cidades na Polónia foram baptizadas com os seus nomes. Escolas têm-nos como protagonistas dos seus currículos e programas lectivos. Até o sinistro e pró-soviético Wojciech Jaruzelski tem a sua franja de simpatizantes. Mas há um General que se destaca dos demais por ter sido aquele que há mais tempo tem feito sentir a sua influência no quotidiano deste país. Antes de existir Polónia e nos dias de hoje.

Este General não tem nome de rua, não tem bustos nem monumentos, não se lhe reconhecem êxitos militares ou diplomáticos, não comandou homens e no entanto todos sabem quem é. É um General que faz suas todas as ruas, bustos e monumentos. Impiedoso e cruel, ele regula as operações militares e diplomáticas condicionando o dia-a-dia na Polónia e regula o sentimento de todos neste país.

Falo-vos do General Inverno que regressou em força durante este fim-de-semana, trazendo-nos o vento siberiano e as belas das temperaturas na ordem dos -10ºC e deixando o PKiN encoberto pelo nevoeiro:

Mas não é tão difícil de suportar como pode parecer. O Geraldo que está em Poznań dá-nos uma perfeita descrição das diferenças entre o inverno Português e o Polaco. Subscrevo e assino por baixo porque eu também já comprei ceroulas.

Tão a rir do quê? Tentem andar na rua com quase mil graus negativos e vejam se o ás de paus não fica do tamanho dum dedal. E as meninas ficam com aquele pitão de alumínio espectáculo que quase fura os olhos da malta.
Ah pois é, bebé...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

PM Misha - O Homem Atrás Do Mito

Chamem-lhe um trailer ou o que quiserem. É apenas um esboço do que estou a planificar.

Me aguardem...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Arranjem-me o dvd (deste também)

Primeiro, a Floripes.

Agora um projecto bem catita.

É impressão minha ou foi preciso eu bazar de Portugal para começarem a fazer produções realmente interessantes?



PS - Mano Grande: "Escolha uma cadeira, coma um pudim flan..." q:D

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Começou bem q:D

Cheguei agora mesmo a Varsóvia e vou começar a preparar as coisinhas pois o trabalho recomeça amanhã logo pelas 7:00.

A passagem de ano em Cracóvia foi memorável. Apenas o casal-maravilha entregue a si próprio, na praça do Mercado, bebendo e curtindo êxitos dos anos 90 (mais IVA) enquanto a neve caía. Foi o rir do bastante ouvir o "Mambo nº 5" seguido do "Rasputine", fez-me sentir de novo na flor da adolescência q:)
Depois do baile ainda fomos ter com a Klara e as amigas ao Pausa, onde a pouca resistência que ainda oferecia ao etanol desmoronou-se por completo. Cheio de cerveja a 7% ainda tive de trazer o bote de volta para Tychy e fazer mais 320 km de regresso a Varsóvia. Felizmente a polícia resolveu abrir alas porque com a tolerância zero que eles têm (zero mesmo!) se me pedissem pra assoprar o pífaro iria de charola deportado prá Sibéria antes que pudésse dizer "calma..."

Resultado: Tô todo cozido. Mas foi santa carraspana! Estou consultando e seleccionando as fotos da noite e não me lembro de metade delas. Marafada cerveja polaca, dá fim da moleirinha dum gajo!
Mas foi passagenzinha de ano altamente, para contrastar daquelas passadas na praia.
Qual será o dia em que vou a Cracóvia e não me divirto?