sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O que foi não volta a ser

Também eu fui jogador, mas tudo tem o seu tempo. Tal como o meu, o tempo dele já lá foi.

Esta é decididamente uma boa notícia... a concretizar-se. Espero que não se fiquem por aqui.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Soviéticos? Não, obrigado.

Como referi no post anterior,nunca pensei que a minha alcunha old-school pudésse trazer-me tantos amargos de boca mas efectivamente "Soviético" não é um apodo muito bem visto nestas paragens e já chamaram-me a atenção para tal facto.

Não é que eu apresente-me às pessoas com tal nome, nem por sombras. Estou inscrito em foruns de estrangeiros a viver em Varsóvia por achar ser uma boa maneira de fazer possíveis novas amizades e partilhar experiências com outras pessoas aqui emigradas, conhecer as suas opiniões e prosseguir cada vez melhor com o processo de adaptação ao novo país. Ora, a minha caixa de correio preferencial é demasiado explícita para os costumes da região tendo sido já motivo de advertência por parte de tugas cá emigrados e de "locals" que mostraram-se indignados com tal afronta. A História passada e recente não abona em nada o que venha da Rússia ou da extinta URSS e ainda não encontrei quem se recordásse dos tempos comunistas com saudade, bem pelo contrário.

Por muito que tentásse explicar que o cu não tinha nada a ver com as calças fui mesmo convidado a mudar o meu perfil do hi5, redefinir a caixa do correio e esquecer todas as minhas afinidades com a antiga União Soviética sob pena de ninguém passar-me cartão ou de ser carimbado como "persona non grata". Assim, se alguém quiser visitar-me neste interessante país, agradeço que esqueçam a minha alcunha farense e chamem-me exclusivamente pelo nome próprio ou pelo do ursinho fofinho que todos conhecem. Ainda a Embaixada tem de pagar a transladação do corpo.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Cai neve em Nova Iorque, faz sol no meu país...


Há poucas mas substanciais diferenças entre os silesianos e as pessoas de Varsóvia e isso é mais visível no seu comportamento na rua.

Já não arrisco levar o carro para a Baixa da cidade e perder 2 horas para percorrer 5 ou 6 km. o metropolitano é o meio mais práctico de chegar ao centro, sem filas nem arruaças para estacionar. Mas não passo sem levar uma sova até poder respirar nas carruagens pois assim que se ouve o ruído do comboio aproximando-se da estação começa a luta por um lugar na frente do pelotão que apresta-se a invadir o dito comboio. Os passageiros que saem mal conseguem fazê-lo tão forte é a vaga de gente que os empurra de volta para dentro da carruagem e para sair-se a tempo na estação desejada é conveniente ganhar posição logo na paragem anterior.

Na Silésia isso não acontece porque não têm metropolitano, em primeiro lugar, mas também não acontece nos autocarros que apanhei porque as pessoas são mais simpáticas e prestáveis. Percebo agora porque disseram-me em Katowice que "ninguém gosta de Varsóvia, nem mesmo os varsovianos". Porém não é a cidade que faz as pessoas, bem pelo contrário, e Varsóvia é uma cidade demasiado bonita para ser classificada negativamente só porque os seus habitantes não têm nenhuma educação cívica.

Hoje tive de andar em monte, penso que calcorrei mais de 10 km para chegar a diversos pontos do centro de Varsóvia. O meu conceito de "longe e perto" começa a modificar-se desde que vim morar para cá, as distâncias medem-se em horas e minutos em vez de metros e quilómetros. As ruas de Varsóvia são como as avenidas algarvias, as avenidas de Varsóvia são como a EN125. Tudo é relativamente perto mas nada é perto o suficiente para poder-se andar até lá, cada vez mais agradeço por ter o Metro a 2 minutos de casa.

Não ficaria muito chateado se tivésse apenas de ter andado dum lado para o outro porque descobri muitas curiosidades interessantes na cidade, como um instituto polaco-nipónico de estudos sobre computação e informática patrocinado quase inteiramente pelo Governo de Tóquio. Ou duas Câmaras de Comércio e Cultura da Hungria e da Eslováquia que procurarei analisar com mais tempo proximamente.

O que me marafou foi ter de levar com neve no focinho o tempo todo! É preferível neve a chuva porque a neve sacode-se enquanto a chuva ensopa uma pessoa, mas levar com neve pela fronha é terrível. O vento trazia-a de tal forma que batia-me na vista impedindo-me de olhar em frente e fez-me abortar os planos que tinha para a tarde.

Como se não bastásse o facto de ter conduzido desde Tychy a Varsóvia (320km) a 90 km/h sempre a nevar, agora não posso sair à rua sem ficar carregado dessa caspa molhada! Um gajo põe o gel maravilha de manhã para destacar o traço latino e ao princípio da tarde tem a gorra feita em merraça, tudo pastoso nem assunto nenhum, com o cabelo cheio de nhanha. Cá está que os polacos têm o cabelo cortado a pente 1, sempre têm razão.

Outra coisa que reparei é que a minha alcunha old-school não é muito apreciada por aqui. Os soviéticos não têm grande cartel por cá, como não têm os russos. Os ucranianos ainda são tolerados por serem mais humildes e trabalhadores mas este vosso escriba será conhecido unicamente como Misha ou Nuno, não quero aparecer a boiar no Wisła um dia destes. Dasse!

E Faro com 22ºC. Fai camano...

domingo, 11 de novembro de 2007

Na Polónia sê polaco - 1

Batatas fritas de sabor frango assado, queijo com ervas e cebola verde.

E perguntam vocês:
- Misha, velho e sábio Misha! O que é cebola verde?
E respondo eu:
- É o grelo da cebola que eles cortam aos pedacinhos e usam para temperar a comida.

Eles lá sabem...

sábado, 10 de novembro de 2007

Ponto e vírgula

Quero, antes de mais, agradecer ao pessoalzinho que deixou mensagens de apoio no texto anterior. Pior que a tristeza infligida por uma notícia chocante é a angústia da impotência, a distância que obrigou-me a falhar momento tão importante. Os toques que me deram serviram de consolo. Valeu, maltinha!

Consolo foi também regressar hoje a Tychy nem que fosse para deliciar-me com a comida caseira da mãe da Iza e ser recebido com um engraçado "olá, varsoviano!". Vim também buscar o resto da roupa, acartar o PC e respectiva tralha eletrónica porque provavelmente 2ª de manhã irá um técnico a casa instalar internet (finalmente!), tv por cabo e telefone porque faz parte do pacote mesmo que não faça tenção de utilizá-lo muitas vezes. Se o técnico for um bacano pode ser que o convença tratar logo da minha parabólica para poder receber os canais portugueses em casa e começar a acompanhar mais a actualidade do nosso País (diz que descobrimos petróleo no Brasil, é verdade?!) e a liga portuguesa. Por curiosidade, na liga polaca o Wisła Kraków vai à frente com 8 pontos de avanço sobre o 2º classificado, o Korona de Kielce, e mais 9 pontos que o clube mais representativo de Varsóvia, o Légia, quando faltam 2 jornadas para cumprir-se a 1ª volta do campeonato. O título parece entregue e qualquer semelhança entre esta realidade e a Superliga portuguesa parece ser mera coincidência.

A vida em Varsóvia tem sido de descoberta contínua, aparte a extraordinária seca que tem sido viver sem net nem sinal de televisão. Tivémos a sorte de encontrar um apartamento pertíssimo do metro, autocarro e elétrico, permitindo que o carro fique o dia todo na garagem. E digo sorte porque uma vez experimentei buscar a Iza ao emprego, na Baixa da cidade, e levei hora e meia para percorrer os 6 km de regresso a casa.

As primeiras impressões ficam para depois. Agora vou preparar o resto da bagagem para levar de novo para Varsóvia (Tychy fica a 300 km SW da capital) e ver se durmo uma grande beca porque tive de acordar às 6:00 e aproveitar o máximo de luminosidade para conduzir. Sabem o que é guiar com neve no piso e a cair em cima da marmita? Não é vida fácil, se pisamos um pouco fora da linha o bote bandeia-se todo e é um castigo para dominá-lo.

Ainda por cima os polacos a conduzir são kamikazes autênticos, mas isso fica para o próximo episódio.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Tu é que jogavas a montes!

(este infeliz texto foi publicado a partir dum cibercafé da Estação Central de Varsóvia. Ainda não tenho net em casa, talvez só para a semana que vem)

Era eu puto na casa dos 8/9 anos e ficava todo danado quando ele roubava-me a bicicleta para impressionar as miúdas do parque de campismo com cavalinhos e outras acrobacias. Deixava-me o guarda-lamas todo raspado e eu ia aos arames por não encontrar a bicla como tinha deixado. Nem me pedia desculpa, no dia seguinte fazia o mesmo e eu ficava sem o meu brinquedo favorito até que ele chegásse à roulotte bem depois da meia-noite. Durante o dia tinha de ouvir perguntar por ele tantas vezes quantas as adolescentes que cruzássem o meu caminho e falavam do raio dos olhos azuis e do cabelinho louro... como se eu não fosse também louro! Era terrível e devo ter tido por esses dias a minha primeira crise de ciúmes.

A vida levou a que, no final desse Verão, nos separássemos por alguns anos - ele em Lisboa e eu em Faro - mas sempre com contactos esporádicos para manter a linha activa. Estava eu no Liceu e assistia ao crescimento do seu currículo como elemento preponderante de casas de referência na noite da cidade alfacinha, tais como o Trifásica e o Kremlin. Ao mesmo tempo a sua inteligência permitia que se mantivésse afastado dos esquemas perigosos e criásse alianças de estratégia empresarial com nomes grandes da sociedade lisboeta. Talvez devido à sua costela sportinguista (até nisso!) um dos seus sócios foi o filho do único algarvio presidente dum grande clube português.

Essa mesma costela permitiu que assistíssemos juntos ao primeiro jogo oficial no novo Estádio José Alvalade, quando ganhámos 4-2 ao Belenenses. Escolhi-o para partilhar esse momento histórico e ele fez a fineza de honrar-me com a sua presença, aproveitando a sua presença ocasional em Lisboa. Recebeu-me no seu belo apartamento na zona da Expo onde jantei também com a avó dele e conheci a sua encantadora namorada de muitos anos.

Ultimamente os laços eram mais estreitos, as visitas menos espaçadas e telefonemas mais amiúde. Invejava o seu estilo de vida e concepção da mesma, sempre um passo além dos demais e com uma estrutura de tal forma sólida que possibilitava-lhe experimentar coisas que, para mim, só havia nos livros ou na internet. Um dia em Praga, no seguinte em Amesterdão, no meu aniversário uma mensagem da “monarquia inglesa”. Recebia-me em Lisboa de Mercedes, visitava-me em Faro de Porsche em trânsito para Sevilha de férias. Era um cromo que admirava com espanto, como se de um futebolista famoso ou duma estrela de Hollywood se tratásse. Uma ocasião fui autorizado a convidá-lo para uma das festas de Agosto do Club Camané onde apareceu vestido de mouro de turbante e cimitarra à cintura. Ao fim de um bocado encontro-o a conversar com uma “tia” e um pouco depois nem “tia” nem mouro na costa. O que se passou nunca saberei pois o tema era sempre cortado com mais uma imperial.

O meu irmão César não é muito conhecido em Faro, penso que só a minha ex-namorada conheceu-o pessoalmente. Contaram-me por telefone às 1:15 (hora de Varsóvia) da madrugada de segunda-feira dia 5 que ele deixou-nos sem dar cavaco às tropas, à papo-seco, sem dizer avonde, de estalo. Aborreceu-se da vida terrena e foi em busca de outros horizontes, sempre ambicioso e insatisfeito, se calhar seguindo algum capricho mais exigente que terá sentido ou porque pura e simplesmente andava enfastiado com o que fazia. Esta manhã entrei para uma entrevista de emprego em Varsóvia enquanto a minha família despedia-se dele em Benfica (o que foi que te fizeram, mano?!). O abraço que ele me deu recebi-o na forma da resposta positiva por parte da empresa que irá contratar-me. À tarde vi nevar pela primeira vez na minha vida, terá sido algum sinal?

Mano César, fiquei muito triste com a tua partida, ainda agora choro incrédulo. E deixas-me muito preocupado com uma dúvida que assaltou-me e tem-me perseguido: Se as pessoas boas, como tu, insistem em morrer o que será do Mundo quando só sobrarem os filhos da puta?

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Este blogue regressa outra vez dentro de momentos

Os acontecimentos e oportunidades recebidas precipitaram a decisão de mudarmos de cidade. Amanhã de manhã partimos de armas e bagagens para Varsóvia e por lá ficaremos até surgir algo que nos faça repensar a estratégia que temos para a nossa vida neste país. Pode ser um mês, um ano ou uma vida.

Não sei quanto tempo demorará até eu estar online de novo pois temos de instalarmo-nos, pesquisar o mercado de servidores até escolhermos o que iremos ter em casa. Vai levar o seu tempo mas as coisas boas regra geral demoram até serem conseguidas.

Por isso o blogue vai sofrer uma pausa que desejo que seja curta. Em breve regressarei em força com as primeiras análises sobre a capital polaca e experiências de vida que certamente serão tão ou mais interessantes que as vividas até agora na Silésia. Acredito que com um pouco de sorte no final da semana que vem já estarei de novo no ciberespaço, portanto ficamos assim combinados. Até já.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Tamos aí, vó!

O dia de Todos-os-Santos é celebrado na Polónia duma forma muito intensa, com autênticas romarias aos cemitérios onde toda a gente recorda os seus entes duma forma muito própria. De manhã cedinho começa o périplo pelas cidades onde hajam parentes sepultados e em cada uma das campas deixa-se uma vela, um vaso de flores e reza-se em sua memória.

À porta de cada cemitério há dezenas de vendedores de flores, velas, doces. A polícia controla o trânsito e o estacionamento, autocarros despejam viajantes constantemente, pessoas caminham quilómetros para lá chegar. Dentro dos cemitérios famílias inteiras sentam-se em frente às sepulturas conversando ou em silêncio. Centenas - diria milhares - de pessoas espalham-se pelos talhões enfeitando-os de flores e velas luminosas. Esta tarefa repete-se em cada parente ou amigo, ocupa a manhã inteira e só por volta das 15:00 a família regressa a casa para almoçar e talvez descansar um pouco. Sensivelmente às 17:00, já de noite, nova visita aos cemitérios para passear literalmente entre as sepulturas dos familiares mais próximos e homenageá-los com alguns momentos de silêncio e reflexão diante das suas lápides. Este passeio não se revela nada lúgubre porquanto todas as campas estão iluminadas com várias velas causando um supreendente efeito colorido no cemitério. De notar que, ao contrário que em Portugal, os cemitérios polacos não têm os chamados gavetões pelo que prolongam-se por áreas significativas chegando por isso a atingir hectares de extensão. A intimidade do momento impediu-me que registásse em fotografia a imagem de milhares de velas iluminando um espaço escuro por natureza. Impressionantemente bonito.

Depois da folga dormida é tempo de visitar parentes. Manda a tradição neste dia que a família junte-se na casa dum tio ou primo e que se coma e beba entre as conversas familiares. Alguns dos parentes vêem-se uma vez por ano, por esta altura, e é naturalmente grande o entusiasmo com que se saúdam. Foi a oportunidade aproveitada para fazer-se a minha apresentação pública à família, o tal português que já se tinha ouvido falar finalmente revela-se. Foram momentos de grande curiosidade, cheios de perguntas e dúvidas, naturais de quem está perante uma pessoa que viajou meio continente em 4 dias até chegar à terra deles. As diferenças, os choques culturais, aspectos positivos e negativos, comparações, bisbilhotices sobre a nossa vida privada vieram à baila entre copos de cerveja, cheesecake, batatas fritas e saborosos pratos de bigosz. A atmosfera é a de um aniversário tardio. A lareira acesa, as crianças correndo, os homens rindo, as mulheres vendo fotografias de casamentos, os doces surgindo, o vinho escorrendo, risos e gargalhadas, brindes e memórias.

Primos e parentes trocam números de telefone conosco, fazendo votos para que nos visitemos brevemente. A tia da Iza diz-me que nunca gostou tanto dum rapaz de barba por fazer até hoje. Eu agradeço em polaco para aprovação geral. Toda a gente abraça-se agradecendo o fantástico catering proporcionado e eu abandono esta casa com vontade de ficar mais uns minutos a desfrutar de tão agradável ambiente e companhia. Os Krupa são efectivamente uma família porreira.

Nos cemitérios polacos existe uma cruz gigante para que aqueles que perderam familiares na guerra ou para os que estão deslocados e longe dos seus poderem prestar-lhes os devidos respeitos. No de Tychy coloquei uma vela pela minha avó porque tem olhado por mim como pedi-lhe imediatamente antes de fazer-me à estrada no caminho para a Polónia.

Espero que continue fazendo-o e eu espero não defraudá-la como prometi-lhe.